Ando lendo um pouco a respeito desse assunto, e encontrei uma fonte interessante na revista digital LIBERTA.
Segundo ela a palavra CORRUPÇÂO foi criada por Santo Agostinho, uma grande figura do Cristianismo, no ano 416, em carta enviada a São Jerônimo, onde dizia que o ser humano vive em estado de corrupção. Segundo Santo Agostinho, ter corrupção seria ter o coração (cor) rompido (ruptus). Ainda segundo a fonte o filósofo Kant voltou a esse tema ao declarar que "somos um lenho torto, do qual não se podem tirar tábuas retas".
Trocando em miúdos, existe no animal homem uma incitação normal ao desvio, à corrupção, e tudo o que se tenta fazer, a partir do período em que passamos a viver em grandes agrupamentos sociais, em cidades, é criar freios a essa tendência natural que possuímos. Se não conseguimos controlar este instinto natural temos uma sociedade corrupta.
As ferramentas de que dispomos para alcançar uma sociedade onde impera o senso comum são a História, a Política e a Cultura.
Historicamente a nossa América Latina certamente não foi abençoada. Os invasores católicos que para cá vieram tinham uma estratégia bem pior que a dos protestantes que invadiram a região Norte da América. Ambos eram colonizadores, mas em particular os portugueses conseguiram levar a escravidão no nosso país a um nível inalcançável pelo restante do continente, importando da África um volume imenso de escravos. Num regime colonial escravocrata as pessoas, para sobreviver, são obrigadas a se corromper. Isso deu origem ao chamado Jeitinho Brasileiro, o que nos leva a nos mover nessa sociedade desigual de forma ardilosa, tentando levar algum tipo de vantagem.
Esse ambiente propiciou que, mesmo após a Lei Áurea ter libertado os escravos, grande parte da nossa população continuou à margem do poder decisório. A formação da elite rural brasileira após a proclamação da Lei Áurea foi uma compensação pela "perda" da mão de obra escrava, o que propiciou uma acumulação da riqueza que agora nos coloca entre as sociedades mais desiguais do mundo.
Com isso o Brasil criou regras e leis que só existem naqueles países que permitem que o Estado seja controlado apenas por uma minoria, os chamados privilégios (do Latim privilegium, lei que só se aplica a uma parcela da sociedade). O maior exemplo disso é a lei que permite que pessoas com formação superior tenham vantagens no regime prisional, o que torna as nossas cadeias totalmente inabitáveis.
Politicamente a corrupção tem sua base na nossa democracia sempre se reiniciando após passar por diversos golpes. Isso nos a leva estarmos sempre no aprendizado inicial do processo democrático, a uma dificuldade em distinguir o público do privado, o que deságua num capitalismo selvagem, que não consegue trazer para si o lado social com o qual ele já consegue conviver nas democracias mais desenvolvidas.
Quem entendeu bem esse problema foi Nelson Rockefeller Jr quando em 1939, com 31 anos, esteve na subsidiária da empresa da sua família, a Standard Oil (S.O. = Ess Ou = ESSO) na Venezuela. Nas instalações da Creole Petroleum em Maracaibo ele pôde ver a forma cruel como eram tratados os venezuelanos contratados pela sua empresa, enquanto em condomínios fechados guardados por homens armados os executivos americanos sequer falavam espanhol. De volta aos Estados Unidos Rockefeller chamou a atenção para o risco desse procedimento, falou da responsabilidade social do capitalismo em terras alheias e foi chamado de comunista por um dos seus diretores.
Culturalmente o que vemos é que uma democracia incipiente não consegue gerir um capitalismo com um olho no lado social. A relação capital trabalho sempre pende para o lado do dinheiro, onde a riqueza é criada pela exploração do trabalhador. O Paraguai por exemplo, com um PIB per capita de R$ 35.000 tem um salário mínimo de R$ 2.330, enquanto nós com um PIB per capita de R$ 53.800 temos um salário mínimo de R$ 1.621. A Faria Lima, a nossa Wall Street, jura que aumentar o salário mínimo a um valor digno quebraria o país. Para nos equipararmos ao Paraguai na relação PIB per capita / salário mínimo o nosso teria que ser de R$ 3.580, 120% maior que o atual.
Isso se estende ao tratamento da natureza que é devastada, e a responsabilidade pelo resultado disso cai nas mãos do Estado. Uma sociedade com essas características dá oportunidade a um capitalismo que só tende à desigualdade, ou seja, a nossa democracia não consegue ser representativa de todos os seus eleitores, e qualquer tentativa de remediar esse estado de coisas tende a vir com uma certa dose de populismo, que só aumenta a polarização com a qual estamos vivendo.
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Com essas premissas não vai ser fácil mudar a orientação da nossa sociedade para um Estado de Bem Estar Social, a exemplo das sociedades da Europa Setentrional, ou de sociedades até mais novas que a nossa, como a Austrália e a Nova Zelândia.
É comum sempre nos referirmos à ecologia, "a ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si e com o meio ambiente", entendendo apenas o seu lado ambiental. O Papa Francisco foi mais longe e entendeu que existem várias formas de se agredir a ecologia além da ambiental; existe a forma política, a social, a econômica e a espiritual.
Então uma sociedade corrupta seria aquela que agride a ecologia, e com a mesma intensidade ela agride o ambiente, a economia, a política, o social e até mesmo o espiritual. Para mim é fácil aceitar que a sociedade que pratica o racismo, a homofobia, o faz com a mesma intensidade com que pratica o patrimonialismo e agride o meio ambiente. Os crimes contra a ecologia social neste país têm seu foco principal nas instituições do governo, nas empresas estatais e privadas, mas muito especialmente na classe política, que agora está passando por um processo de infiltração do crime organizado.
Para termos uma ideia de onde nos situamos relativamente à corrupção existe o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) produzido pela ONG Transparência Internacional. O IPC varia de 0 (altamente corrupto) a 100 (muito limpo), e reflete o "grau em que a corrupção é percebida" entre os funcionários públicos e políticos.
https://transparenciainternacional.org.br/ipc/
Numa lista de 180 países no relatório de 2024 acima. o Brasil se classifica em 107° lugar com 34 pontos, na companhia dos seguintes países:
- Um Presidente que foi condenado na Operação Lava Jato a 8 anos, 10 meses em 20 dias na terceira instância no caso do triplex de Guarujá (OAS) e a 17 anos e um mês em segunda instância no caso do Sítio de Atibaia (OAS/Odebrecht). Cumpriu 580 dias da sentença e teve os dois casos anulados pelo STF em função de graves irregularidades nos dois processos, o que o deixou elegível novamente e lhe garantiu um terceiro mandato.
- Um juiz federal que foi acusado de parcialidade na condução do julgamento acima, o que foi comprovado e veio a anular as sentenças acima mas não significou tornar o réu inocente. Os processos foram para Brasília e São Paulo, mas devido à idade do réu e ao tempo decorrido, as punibilidades prescreveram. Um bom exemplo das frestas que a nossa legislação propicia em casos como estes.
- Um ex Presidente que negociava no exterior presentes de grande valor que recebia como Chefe de Estado. Alguns foram recuperados mas vários itens permanecem desaparecidos. Ao ser derrotado pelo presidente atual preparou e colocou em prática uma ação golpista que não chegou a se concretizar.
- Uma operação forte de questionamento da liquidação de um banco fraudulento por parte de políticos importantes do Congresso, através de um Ministro do Tribunal de Contas da União indicado por eles. Como se não bastasse entra em cena um juiz do Supremo Tribunal Federal interferindo na investigação da Polícia Federal sobre o caso.
- A atuação suspeita de um Governador na tentativa de envolver um Banco estatal numa operação de compra do tal banco fraudulento, o que levou o Banco Central a proibir a compra.
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