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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Sobre os Perigos que não Vemos

Antes algumas definições:

Micro-organismos ou micróbios: são organismos que só podem ser vistos ao microscópio. Incluem os vírus, as bactérias, os protozoários, as algas unicelulares, fungos, ácaros, etc.(Wikipedia).

Bactérias: São seres vivos microscópicos, portanto micróbios, constituídos por uma única célula. Elas medem em torno de 1 mícron (1 milésimo de milímetro) e geralmente apresentam a forma de uma bola ou bastão.

Vírus: do latim "veneno", é um agente infeccioso reduzido ao mínimo, uma capsula proteica, cerca de 20 vezes menor que a bactéria. Ele invade as células hospedeiras e interfere em suas funções de replicação. 

Antibióticos: medicamentos usados combater infecções causadas por micro-organismos que infectam outro organismo. Eles não destroem os vírus, mas atingem as bactérias matando-as (bactericidas) ou interrompendo sua reprodução (bacteriostáticos).

Antivirais: medicamentos usados para tratar infecções virais. Os mais conhecidos hoje são aqueles que lidam com o HIV, o vírus da Herpes, da Hepatite B e C, e da Influenza A e B.

Agora um papo informal:

Aquelas pessoas que conhecemos, que se preocupam muito com esses seres que não conseguimos ver, em geral assumem um comportamento extremamente antissocial. Diz-se por exemplo que o grande Louis Pasteur tinha a mania de levar consigo uma lente de aumento para examinar os pratos que lhe eram servidos. Li esta semana no Estadão que Howard Hughes tinha em seus carros um purificador do ar condicionado que ocupava todo o parta malas.

Esse tipo se preocupação na verdade não faz muito sentido. É como se dizer que só devemos nos preocupar com aquilo que podemos resolver. As células humanas constituem não mais que 43% da contagem total de células do nosso corpo. O restante são micro organismos, o chamado microbioma que levamos conosco.

Até pouco tempo atrás se pensava que havia 10 células não humanas para cada humana no nosso corpo, Recentemente esse número foi corrigido para uma relação perto de 1:1. No entanto, geneticamente, essa desvantagem é bem maior. 

O genoma humano é composto de 20 mil instruções que chamamos genes, mas o nosso microbioma pode chegar a 20 milhões de instruções de genes microbianos. Então podemos dizer que o que nos torna humanos é algo muito maior que o nosso DNA, é a combinação dele com o DNA dos nossos micróbios intestinais. São as bactérias do nosso intestino que tornam possível a nossa digestão, regulam o nosso sistema imunológico nos protegendo contra doenças e produzem as vitaminas sem as quais não sobreviveríamos.

A ciência está considerando uma nova abordagem no tratamento dos micróbios que nos habitam, que tem sido até agora a de inimigos em uma guerra. As armas criadas até agora foram os antibióticos e as vacinas, e as conquistas nessa luta têm sido enormes a salvaram muitas vidas. No entanto hoje em dia existe uma certa preocupação, porque este ataque constante aos vilões causadores de doenças também trazem danos muito grandes às nossas bactérias do bem. 

Nos últimos 50 anos tivemos um enorme sucesso na eliminação de doenças infecciosas, mas temos visto um crescimento assustador das doenças autoimunes e das alergias. O ataque que o nosso microbioma sofreu nessa guerra resultou no crescimento significativo do mal de Parkinson, da doença inflamatória intestinal, do autismo, da obesidade. Credita-se a obesidade ao histórico familiar e ao estilo de vida, sem se levar em conta o que pode ter ocorrido com o micobioma intestinal.

Uma experiência conduzida com ratos mostrou que o transplante de fezes de humanos magros e obesos em camundongos pode torná-los mais magros ou mais gordos, com uma mesma dieta. Isso pode provar que o microbioma do obeso está tendo papel de protagonista na sua obesidade. Quando se está doente isso pode ser sinal de que existem micróbios a menos em nosso organismo, e a nova abordagem é introduzi-los. Resumindo, em vez de atacar o inimigo com uma munição pesada que acaba se tornando um "fogo amigo" a ideia é aumentar o nosso microbioma, o nosso exército. 

Outro papo informal

Nossa relação com as bactérias é antiga, e culminou com a descoberta da penicilina, mas é bom não nos iludirmos. Elas são MUITO mais antigas que nós nesse planeta, este é o SEU planeta, não nosso. Seu trabalho nos nossos intestinos é fundamental para a nossa sobrevivência, além de atuarem como soldados contra os micróbios que engolimos. Mas então surge a pergunta: que interesse teriam as bactérias em nos prejudicar, nós que somos o seu planeta? Bem, podemos garantir que a grande maioria delas é neutra ou benéfica em relação a nós. Estima-se que apenas uma em mil é capaz de produzir efeitos danosos em nosso organismo. 

Para essas bactérias e vírus danosos existe uma estratégia. Os sintomas ajudam a espalhar a doença que eles causam. São eles o vômito, o espirro, a diarreia, que os posicionam no sentido de procurar outro hospedeiro. Outra arma utilizada é contar com a ajuda de um colaborador, que os especialistas chamam de vetor, e para isso os mosquitos são fundamentais. O seu ferrão os injeta diretamente no nosso sangue, onde eles podem trabalhar sem que nossos mecanismos de defesa tenham sido alertados para a invasão. 

A malária, a febre amarela, a dengue, a zica, a chikungunya, enfim, centenas de doenças, começam em nosso organismo pela picada de um mosquito. Mas aí surge a pergunta: se a AIDS ficou conhecida pelo contágio através de agulhas, por que o mosquito não é um vetor dela? A resposta que consegui foi que, por enquanto, por se tratar de um vírus novo para o seu organismo, o HIV que ele absorve é eliminado em seu metabolismo. Mas pode acontecer de o vírus conseguir, a exemplo dos outros mais antigos, contornar essa limitação, e aí podemos dizer que a civilização estará realmente em apuros.

Por outro lado o seu corpo possui uma multidão de glóbulos brancos que constituem seu exército defensivo. São perto de 10 milhões de diferentes tipos de soldados prontos para destruir os invasores. Ao sermos invadidos as sentinelas identificam o atacante e convocam os reforços certos para combater o invasor identificado. Enquanto as tropas certas estão sendo preparadas você passa mal e só vai começar a se recuperar quando elas entrarem em ação.

A luta é implacável e os atacantes recorrem a duas estratégias para se defender. Eles passam para um novo hospedeiro, ou se disfarçam para que os glóbulos brancos não consigam detetá-los. Ano passado por exemplo eu sofri um ataque do vírus de uma catapora que me atacou quando criança no interior do Pará. O vírus ficou escondido e 60 e tantos anos depois resolveu transformar meu lado direito do meu abdome numa ferida enorme, a tal Herpes Zoster. Passado algum tempo recorri a uma vacina caríssima para tentar não passar novamente por isso. Acho que todo idoso que acredita em vacinas deveria seguir esse exemplo. A Herpes Zoster adora idosos. 

Mais um papo informal, o último

Assistindo à Globo News vi um epidemiologista cujo nome não guardei dizer mais ou menos o seguinte:

Vamos tentar deixar em paz os vírus porque nós não podemos com eles. Vejam o caso atual: os chineses invadiram o habitat natural dos morcegos. e seus vírus então migraram para os invasores e se espalharam pelo mundo inteiro. A Amazônia possui vírus que sequer conhecemos e a devastação que estamos fazendo, além de resultar em forte impacto ambiental, tem potencial para criar uma pandemia equivalente à de uma Ebola a nível mundial. Existe um vírus chamado Sabiá no Brasil de letalidade equivalente.

Resolvi fazer uma breve investigação no tal Sabiá e encontrei,entre outros:


Resumido: Em 11 de janeiro passado faleceu por febre hemorrágica brasileira em Sorocaba um homem que passou férias no Vale do Ribeira. Entre o início dos sintomas em 30 de dezembro e o óbito ele passou por 3 hospitais, sendo o último o HC da USP. "O vírus identificado tem 88% de similaridade com o vírus Sabiá, mas não é exatamente igual. É um vírus novo", declarou o Dr. João Rebelo da USP.

Trabalhos com esse tipo de vírus só são realizados em laboratórios com nível máximo de segurança e não há nenhum no Brasil, e os pesquisadores que identificaram o vírus não foram mais autorizados a trabalhar com as amostras. Ele está na mesma classe de vírus do africano Ebola que tem a classificação máxima de número 4, que são os causadores de febres hemorrágicas, e o coronavírus SARS. Amostras foram encaminhadas para o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Undos.

Os arenavirus são transmitidos pelas fezes de roedores silvestres que vivem nas matas e áreas rurais e periurbanas. Apesar da ocorrência de casos ser pequena a doença é de uma fatalidade enorme, no mesmo nível do Ebola e do Marburg (cidade alemã, os vírus são democráticos).

Ao ler esse artigo me veio a lembrança que ano passado faleceram no meu bairro duas pessoas com quem tinha grande afinidade. Moro na periferia de Campinas em uma casa agradável para se passar uma quarentena, com 15 palmeiras enormes que despejam no mínimo 15 folha por més, que precisam ser picadas e ensacadas caso contrário o lixeiro não leva. Mas vale a pena.

Os sintomas apresentados foram os mesmos para os dois. Como há uma certa incidência de febre maculosa na região, o que faz os moradores encararem com desconfiança a quantidade de capivaras que moram por aqui, a ponto de condomínios fechados terem declarado guerra a elas, essas mortes que ocorrem acabam sindo creditadas à febre maculosa, que é causada pela picada do carrapato estrela. Nos estados Unidos ela recebe o nome de Rocky Montaim Disease. 

Minha mania passar as tarde pescando nos pesqueiros da região está sub judice em função desses episódios. Não bastassem a dengue, a chikungunya e a zica agora tenho que me preocupar com a febre maculosa e uma eventual Febre Hemorrágica Brasileira. Isso pra não falar da COVID19.

Conclusão

A conclusão a que chegamos é que a orientação que demos ao desenvolvimento do progresso científico está totalmente equivocada. Abro os jornais e revistas e o que vejo são enormes investimentos para enviar voos tripulados a Marte, reviver espécies extintas. Mas no que diz respeito àquilo que nos interessa, a garantia da nossa integridade física, até essa pandemia o que se via não passava de novos remédios de uso contínuo. 

Segundo li não existia grandes novidades no combate aos vírus e bactérias, que nos agridem de forma eventual. Esses remédios não dão lucro de forma contínua. Bastou no entanto uma situação como a atual para mais de 100 empresas se lançarem numa verdadeira olimpíada para conseguir os lucros de uma vacina eficaz. Chegamos ao ponto de governos comprarem  com antecedência todo o estoque de uma vacina futura em detrimento da humanidade como um todo. Albert Sabin se recusou a patentear sua vacina, e deve estar se revirando no túmulo com tanta indignidade. 

Mostrei esses argumentos a uma pessoa muito próxima e ela respondeu que em compensação os progressos tecnológicos levaram a medicina a uma enorme eficiência, principalmente nas intervenções cirúrgicas. Não deixa de ser verdade e eu mesmo sou prova disso: Já fiz mais de uma dezena de cirurgias e com toda certeza, sem a presença de algumas não estaria vivo. O maior exemplo foi um câncer de próstata que foi curado no Sírio Libanês de São Paulo pela mão do Dr. Miguel Srougi em 1998. Tinha me dado 5 anos de vida e já ganhei 22. Houve também uma cirurgia de catarata recente que me facilitou enormemente a visão, E os sete parafusos que tenho na perna direita sem os quais não conseguiria andar. Enfim, desde a minha cirurgia de amídalas aos sete anos que eu convilo com o bisturi. 

Só que vou fazer uma observação: esse progresso todo em uma comparação seria investir fortemente no ensino superior desprezando o ensino básico. Outro amigo ao discutir esse assunto alegou que a medicina no Brasil é de primeira linha dada a excelência de seus cirurgiões em várias especialidades. Sinceramente eu preferiria uma medicina onde a paciente não tivesse que passar o que passa por exemplo pra fazer uma mamografia em um hospital público.

Só que nesse caso provavelmente eu não estaria vivo pra pensar assim...

Pra finalizar um vídeo amigo da minha filha Claudia:




quinta-feira, 23 de julho de 2020

Orçamento Doméstico x Contas do Governo

Neste Post vamos cumprir a promessa de tratar desse importante assunto, que se torna ainda mais importante em função da situação que estamos vivendo, a pandemia da Covid 19. Para tanto vou me basear num artigo muito interessante publicado no site da UOL por Laís Alegretti, uma jornalista que acompanho sempre que posso. 

Laís traça com competência um paralelo entre uma pessoa cheia de dívidas e um governo que não é eficaz na administração das suas contas. Essa comparação faz parte de repertório dos políticos de forma geral, e Michel Temer chegou a envolver Margareth Thatcher nessa armadilha. Segundo ele a Dama de Ferro teria dito:

"O Estado é como uma casa, sua casa, a casa da sua família, você não pode gastar mais do que arrecada."

Procurei no Google as suas famosas frases e o mais perto disso que encontrei foi:



O nosso arremedo de Margereth Thatcher, a pseudo economista Dilma, na sua linguagem confusa, se alongou um bocado pra tentar dizer que:

"Nós precisamos também fazer ajustes. Eu faço ajuste no meu governo como uma mãe, uma dona de casa, fazem na casa delas. Nós precisamos agora dar condições de a gente retomar um novo ciclo de desenvolvimento econômico para gerar mais emprego, para assegurar mais renda e para fazer que o Brasil continue a crescer de forma acelerada." 

Pra que não me rotulem ideologicamente vamos ver o que diz uma eminência do outro lado do espectro político:

Onyx Lorenzoni: "É que nem o pai, que tem um salário e sabe que tem que comprar o vestido de 15 anos da filha lá em outubro, mas ele está em maio. Aí, ele vai vendo o que vai entrando, o que vai gastando, e diz: 'ih, pode ser quem não dê, então não vou sair para comprar churrasco, não vai ter cervejinha no final de semana, eu não vou comprar o tênis do João." 

Os economistas de forma geral concordam em que esse é o tipo de argumento que cabe muito bem numa campanha política, não na prática. Senão vejamos:
  • Você não tem a liberdade de imprimir dinheiro para pagar suas eventuais dívidas,
  • Também não tem o poder de determinar que seus vizinhos sejam obrigados a dar uma contribuição mensal para o pagamento das suas dívidas,
  • Muito menos pode sair imprimindo notas promissórias para vender aos conhecidos por R$ 1.000 com a promessa de daqui a cinco anos comprá-las por R$ 1.300 por exemplo. 
Ou seja, os gerentes das contas públicas possuem ferramentas que não estão ao alcance dos gerentes das economias domésticas. As vendas de Letras do Tesouro por exemplo são atividades permanentes que elevam a dívida pública federal ao bel prazer dos governantes. Leio hoje no Site do Senado que se o déficit de 9% nas contas públicas em 2.020 se concretizar, a dívida pública pode chegar a 90% do Produto Interno Bruto, o chamado PIB. Traduzindo, o Governo Federal pode chegar ao fim do ano com uma dívida que seria equivalente para uma família a 90% da soma dos salários anuais de seus membros. 

Hoje em dia está na moda governos recorrerem à pura e simples impressão de dinheiro para saldar seus compromissos. Leio também que o Banco Central vai imprimir mais dinheiro para pagar o Auxílio Emergencial decorrente da pandemia da Covid. Se você por acaso apelar para esse expediente vai acabar na cadeia.

Outro expediente comum por parte do poder público é criar o chamado "spread" nas contas dos bons pagadores para compensar o que os maus pagadores não pagam. Se ele não está praticando isso normalmente, ele dá aos agentes financeiros a permissão para que o façam com a conta corrente que você tem com eles. É comum também, principalmente nas contas das concessionárias dos serviços públicos, aparecerem os tais fatores de risco sob a forma de taxas. 

Como considero importante esse assunto vamos passar à análise rápida das diferenças entre um orçamento doméstico e um orçamento de governo.

1 - Definição da Renda

Um trabalhador pode procurar um aumento de salário, ou um resultado maior no seu negócio, mas não tem o poder de definir quais as chances dessa procura vir a dar resultado. Ou seja, as famílias não definem suas rendas, elas são definidas pelo mercado e cabe às famílias se adaptar aos seus humores. 

O governo possui ferramentas que as famílias não têm, embora seu uso em geral não seja recomendado. Ele pode simplesmente criar novos tributos ou aumentar a alíquota dos existentes. Seria algo como eu chegar ao meu patrão e impor a ele um aumento de salário que ele seria obrigado a dar. 

Estamos passando por isso nesse momento em que finalmente nossos governantes revolveram investir na tentativa de resolver a balbúrdia que é a nossa arrecadação tributária. Fala-se de tudo, simplificação, justiça tributária, menos de garantir que o resultado das várias propostas seja uma diminuição da carga. Uma família resolve esses assuntos exatamente atacando o outro lado do problema: o gasto. 

A dificuldade maior de um administrador do Tesouro Nacional a meu ver é perceber a fragilidade do equilíbrio fiscal. É o que os engenheiros (sempre recorrendo á formação que tive) chamam de "realimentação positiva". Diz o bom ditado que o imposto bom é aquele aumenta a arrecadação e diminui a sonegação, ou seja, você vai pagar de bom grado o imposto até a hora em que vai entender que o retorno que tem da contribuição que faz não compensa. Também não faz sentido ordenhar da vaca mais que o leite que ela tem.

2 - Imprimir Dinheiro

A possibilidade de imprimir dinheiro, exclusiva do dono da moeda, em uma intensidade maior pode gerar muito desequilíbrio. Na medida em que a moeda se torna mais abundante no mercado, aumenta a procura por bens e a inflação bate à porta. É a velha lei da oferta e procura.

A globalização dos mercados mundiais "bagunçou" bastante esse conceito e ele está sendo aplicado em profusão pelos maiores devedores mundiais, em especial os Estados Unidos, sob o argumento que sendo ele o devedor e dono da moeda, basta imprimi-la e pagar a dívida. Com isso ele roda a economia. 

Vejamos como faz o "gringo": 
  • Ele precisa de dinheiro. Quando falo em dinheiro nesse caso estou falando de alguns trilhões de US$.
  • Então ele imprime esse dinheiro e com ele compra de volta as Letras do Tesouro que tinha vendido ao mercado.
  • Propositadamente ele deu um jeito de desestimular que o mercado voltasse a comprar as tais Letras porque a remuneração atual delas está muito baixa, logo o mercado vai ter que aplicar esse dinheiro em outro lugar.
  • Por exemplo em atividades produtivas (isso explica no nosso caso o atual crescimento da bolsa em plena pandemia)
  • Ou vai procurar fora de seu território melhores aplicações. Essa oportunidade nós estamos perdendo por não oferecer condições que garantam o cumprimento dos contratos, e agora temos essa história dos investidores imporem as condições ambientais que estamos dilapidando.
  • Quando o taxa de retorno das nossas Letras do Tesouro davam remunerações imensas, já que o risco que elas ofereciam só motivavam o investidor se a remuneração fosse grande, esse dinheiro vinha pra cá na forma meramente especulativa. O resultado era uma derrama de dólares que forçava a sua queda em relação do Real e fazia a alegria da nossa classe média que ia comprar enxovais de todo tipo em Miami e Nova York.
  • Além disso há o fato de o Dólar se tornar competitivo em relação às outras moedas, para irritação dos seus credores. 
Os Estados Unidos não são os detentores da primazia desse tipo de manobra. O nosso governo passado fazia a mesma coisa de forma interna, o que levava o Presidente do Banco Central a se irritar com o Ministério da Fazenda:
  • O esforço de controlar a moeda era grande, para evitar que a inflação crescesse com a disponibilidade da mesma.
  • O governo insistia em prestigiar os tais "Campeões Nacionais" financiando artificialmente os Joesleys e os Eikes da vida, inundando o mercado com moeda, através do seu Banco de Desenvolvimento.
  • Isso gerava inflação
3 - Taxas e Prazos das Dívidas

Eu mesmo tenho letras do Tesouro Direto para pagamento em 2.030, as chamadas Tesouro IPCA+ 2.030. Pra minha sorte existem pessoas interessadas em comprá-las de mim caso eu precise do dinheiro, mas o Tesouro só vai remunerá-las ao seu proprietário em 2.030. Os juros que ele vai pagar também já estão definidos na Letra; por exemplo a taxa Selic, ou a inflação. Na medida em que for se aproximando o vencimento dessas letras ele sempre tem o expediente de assumir novos compromissos para remunerar as existentes.

Isso quando eu sou credor e o governo me deve. Já quando eu tomo emprestado dinheiro no banco, coisa que raramente faço, se quiser rolar a dívida vou ter que negociar em uma condição muito pior que o governo. Daí que ele tem uma enorme capacidade de sustentar uma condição de déficit grande. Ele tem muitos amigos e sabe como tratar com eles.

4 - Relação entre Receita e Despesa

Não serei ingênuo em defender que o brasileiro tem uma exata noção de como tratar essa relação. Mas vejamos. 

Vamos supor que eu tenho um salário fixo e deixo de fazer uma despesa contínua, por exemplo deixar de fumar. Essa decisão não vai afetar a minha receita mas vai alterar a relação receita / despesa. 

Já o Estado ao gerar uma despesa tem sempre que levar em conta de onde ele vai tirar a receita para cobri-la. Ou seja, o salário que o Estado recebe tem que ser elástico e o seu caixa tem que estar preparado para as eventualidades de forma muito mais séria, já que a sua "família" é muito maior.

Li hoje que a Alemanha provavelmente será a nação que vai sair em vantagem na pós pandemia. Isso vai se dever ao fato que ela é mais disciplinada no trato dessa relação. Sua dívida está controlada, sua reputação quanto à excelência de seus produtos é conhecida, sua capacidade tecnológica é evidente. Mas o que mais contribui para fazer a diferença na crise é como esta está preparada para enfrentá-la. 

O seu sistema governamental centenário que cuida das relações de trabalho paga às empresas para que elas mantenham os trabalhadores em jornadas mais curtas durante as crises temporárias. A Austrália também tem um programa semelhante, que eles chamam de "job keeper (guardião do trabalho)". 

Trazido para o ambiente doméstico a palavra mais adequada que eu encontro é "colchão". Você tem que se disciplinar para enfrentar a eventualidade, e nisso nós como sociedade somos muito incompetentes, e não temos como nos queixar da igual incompetência dos nossos governantes. Eles são nós, e nós somos eles.

5 - Títulos da Dívida como Poupança

Esse argumento é muito usado pelos governantes para justificar o uso das ferramentas que possui. Eles o chamam de "papel macroeconômico importante". Para eles o governo deve ter uma dívida porque é com a compra dos títulos dessa dívida que nós programamos a nossa poupança. Ou seja, se o governo não se endivida o cidadão não tem uma educação econômica que lhe permita investir em poupanças mais sofisticadas que a famosa Caderneta ou nos Fundos de Renda Fixa, esses sim seguros (embora estejam remunerando quase nada hoje em dia).

Aí então surgem as diferentes correntes da economia, que acabam por se converter em correntes ideológicas pelos políticos: o que o governo deve fazer com o dinheiro que recolhe se endividando, dinheiro esse que é nosso, a poupança para garantir o nosso futuro ou para melhorar nosso presente. 

Uma corrente, chamada keynesiana, defende que o governo, em tempos de crise, deve aumentar sua dívida para evitar o colapso econômico.

A outra corrente, a liberal, defende o corte dos gastos nessas situações. 

Daí a chamar uma corrente de esquerda e a outra de direita é um pulo, que os políticos usam em suas tribunas. 

Nesse momento que estamos vivendo essas duas correntes se digladiaram pra valer: a equipe econômica resmungou mas, diante do tsunami que nos atingiu, acabou por concordar com o tal auxílio emergencial, que no fim das contas deu um alento à nossa combalida economia. Ponto para Keynes. 

Aí é que vemos a grande diferença entre o orçamento doméstico e o público. Enquanto o cidadão perdia emprego, cortava a escola privada dos filhos e o iFood, dava graças a Deus por trabalhar em casa, em resumo assumia a corrente liberal de cortar as despesas, o poder público tomava atitude contrária, em que pese o negacionismo dos liberais da linha de Chicago. 

Nessa hora a "manada" quer do governo exatamente aquilo que acabou, dentro das nossas obvias limitações, acontecendo, um afrouxamento em todos os dogmas liberais que têm dominado a nossa política nos últimos anos. 

A doméstica tendeu à liberalização, a pública tendeu à socialização....

sábado, 4 de julho de 2020

A Importância da (Re)Leitura e a Pandemia

O volume de pessoas que sucumbem ao estresse em ocasiões pelas quais estamos passando impressiona. Vejo esse fenômeno como um sintoma do nosso despreparo para enfrentar situações inusitadas, e também ao fato da tecnologia nos ter afastado de uma ferramenta fundamental para propiciar o nosso encontro com nós mesmos.

Aqueles que ainda estão contaminados pelo dia a dia dos estudos e do trabalho sofrem o baque de ter que adaptar sua rotina a um lugar que em geral eles encaram como algo só um pouco além de um dormitório: a sua casa. o seu lar.

Os profissionais sentem falta do famoso cafezinho, do almoço no restaurante perto do ou no próprio local de trabalho, socializar com os colegas, ouso dizer até do sacrifício de ter que se deslocar para trabalhar, sair de casa. Os alunos reclamam da falta de experiência dos professores, e deles mesmos, em aulas "on line". A quantidade de laptops é insuficiente para atender os pais e os filhos, o espaço é exíguo para receber tanta atividade...

Já para aqueles como eu que há 14 anos se livraram dessas obrigações a coisa, que deveria ser menos traumática, pelo que estou vendo ao meu redor, estranhamente não é, piora. Os motivos alegados são muitos:
  • As reprises dos programas esportivos são muito chatas; não há nada mais constrangedor que ver a seleção de 1970 repetidas vezes, ou a de 1958, nos dizendo que nunca mais teremos um futebol como aquele.
  • Os filmes da Netflix que interessam já foram todos vistos; essa semana cheguei a essa conclusão, e também concluí que não há nada mais estressante que seguir uma série de 8/9 temporadas. 
  • Aquele telefonema para os parentes e amigos, que nos aliviaria da falta de papo, está fora de moda. O certo hoje em dia é apertar o microfone do WhatsApp, falar alguma coisa, e esperar que o destinatário responda, o que pode durar dias.
  • Comer fora.... a feijoada de sexta é entregue por uma moto em uma quentinha de isopor que traz o torresmo já encharcado pelo feijão.
e por aí vai. Só que dia desses me deparei com minha mulher lendo um livro que eu tinha certeza que ela já tinha lido. Imediatamente temi pelo fato de, como estamos naquela idade em que temos a obrigação de levar em conta aquele famoso alemão, algo estivesse acontecendo:

- Acho que nós já lemos esse livro.
- É, mas eu gosto de reler coisas que eu li e gostei..

Aí eu me lembrei que tem um livro do Bertrand Russel que está sempre presente em algum lugar da casa, e vejam que este mês estamos fazendo 50 anos de casados

O tal livro onipresente

Mas o livro de que estou falando é outro; trata-se de um tijolo de 541 páginas que me foi presenteado por um grande amigo. Reler um livro desse tamanho quando a Amazon oferece 1 milhão de títulos me pareceu à primeira vista um despropósito, mas eu pensei melhor, esperei ela terminar a leitura (o que ela faz com voracidade), peguei o livro, levei pra minha mesa de cabeceira, e iniciei sua releitura.

O livro que motivou esse Post

São 30 capítulos que, como bem diz o título, tratam de quase tudo, desde a idade da Terra, do seu peso, do que é composto o átomo, até aqueles ácaros que habitam os nossos travesseiros aos milhões. Me lembro que quando o li pela primeira vez o fazia em regime de partilhamento com outro livro, o que agora vejo que foi um erro. Também me lembro que a velocidade com que li agora foi muito maior: não há futebol ao vivo, nem o bar de sábado, nem o churrasco com os amigos na quarta...

E há o prazer da releitura que minha mulher me induziu a gostar. Pensando bem, se expandirmos esse argumento poderíamos alegar que, já que o número de músicas e o de gêneros musicai são enormes, não faz muito sentido eu pôr pra tocar de vez em quando o segundo movimento da sétima de Beethoven, ou o adágio do concerto de Marcello para oboé:


Eu já ouvi essas músicas tantas vezes, pra que ouvi-las de novo em vez de me aventurar em outros sons?

Então ficou acertado que, já que a vida é finita e não haverá tempo para ler o milhão de títulos da Amazon, parte da minha atividade de leitura vai ser na verdade releitura. Inclusive já reservei um espaço no escritório para guardar os candidatos. São eles:

Ficção:
  • O Silêncio do Delator, de José Nêumane (Já dei esse livro para vários amigos)
  • Os Buddenbrook, de Thomas Mann
  • Os Filhos da Rua Arbat, de Anatoli Ribakov
  • O Cemitério de Praga, de Humberto Eco
Não ficção:
  • O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, de Machael Baigent e outros
  • A Bíblia Sagrada (fico em dúvida se seria ficção)
  • Aprender a Viver, de Luc Ferry
  • Pós Guerra, uma História da Europa desde 1945, de Tony Judd
  • Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas, de Robert Pirsig
  • João de Ferro, um Livro sobre Homens, de Robert Bly

Os do Harari deixei de fora porque são de leitura recente, precisam dar cura. Os livros acima eu classifico entre aqueles que tiveram o mérito de mudar a orientação do meu vetor inteligência. Estranho chamar a inteligência de vetor, mas esse é um conceito que me foi dado por um professor de Física que tive, que definitivamente mexeu com a minha. 

Ele estava falando sobre grandezas, e deu como exemplo a burrice e a inteligência: Para ele a burrice era uma grandeza escalar; um burro é um burro, dois burros multiplicam por dois a burrice do ambiente onde se encontram. Já a inteligência é vetorial; um inteligente possui uma massa, que pode ser medida pelo tal Quociente de Inteligência (QI) e um vetor, que orienta a inteligência (para a virtude, para o crime, para a esquerda, para a direita, etc.)

Dito isso concluímos que, enquanto dois burros duplicam a burrice escalar, sem orientação, dois inteligentes não duplicam a inteligência, e podem até anulá-la, o que está ocorrendo agora em nossa sociedade polarizada. 

Estão eu concluo que a leitura, e agora a releitura, se não têm o mérito de aumentar a massa inteligente, o QI, têm o de levar o vetor inteligência a portos amigos, que vão nos propiciar a oportunidade de nos tornarmos melhores cidadãos, menos inúteis mesmo nas situações como a que estamos enfrentando. 

Agora vamos dar umas canjas com base no livro Breve História Sobre Quase Tudo:

Canja número 1:

Dia 23/06 ocorreu um terremoto no México, com epicentro no Estado de Oaxaca, com magnitude 7,5 (um terremoto 7,5 é 10 vezes mais forte que um 6,5, ou 100 vezes que um 5,5). Sem danos apesar da intensidade por ter ocorrido longe de lugares habitados. Imediatamente passei a ouvir queixas tipo "não bastasse a Covid os coitados ainda têm que aguentar terremoto, por que a Natureza (ou quem sabe Deus) é tão ruim com a gente?"

Muito bem. Segundo sabemos a Terra possui a característica de ter um núcleo quente, o que não é comum a todos os planetas. O terremoto não e mais que uma manifestação desse núcleo que rompe a crosta da superfície em alguma emenda dela. 

Suponhamos que esse núcleo quente não existisse. Como a Terra tem uma idade estimada em 3 bilhões de anos, ela já deu até hoje 4 x 360 (dias) bilhões de voltas em torno de si mesma, o que leva a estimar que ela teria um formato liso como uma bola de sinuca. Só que nesse caso a quantidade de água que ela possui a levaria a ter toda a sua superfície coberta por mais ou menos 4 quilômetros de água. Melhor seria chamá~la de planeta Água. 

O que faz a Terra possuir uma pequena parte da sua superfície livre da água é exatamente o resultado da ação dos terremotos, que forçaram a formação das montanhas e das áreas acima do nível do mar. Não fosse isso não existiria terra firme, e o nosso antepassado não teria tido a péssima ideia de deixar de ser um habitante das águas milhões de anos atrás. Seríamos hoje quem sabe primos mais próximos dos mamíferos que por lá ficaram. 

Canja número 2:

Em 1982 fui morar no Vale do Silício por um ano, fazer um treinamento em projeto de circuitos integrados. Chegando lá comprei uma Ford LTD Station Wagon 1976 por US$ 1.500 e um Totyota Corolla 1975 por US$ US$ 1.800. Um grande negócio. Da primeira vez que estacionei a perua pra abastecer percebi que era eu mesmo quem tinha que fazê-lo. Descobri que havia dois tipos de gasolina: regular e unleaded (sem chumbo). Me dirigi à pessoa que iria receber o pagamento e perguntei qual deveria usar. Ele olhou meu carro velho e disse: use regular.

Mais tarde vim a saber que estava havendo um movimento forte no sentido de deixar de se utilizar o chumbo nas atividades industriais: alimentos fechados em latas com solda de chumbo, água armazenada em tanques de chumbo, pastas de dente acondicionadas em tubos de chumbo, arseniato de chumbo usado como pesticida; mas principalmente o uso do chumbo tetraetila na gasolina para reduzir a vibração conhecida como batida de pino (pré ignição).

O autor considera o uso do chumbo na gasolina a pior invenção de todos os tempos. Seu inventor, Thomas Midgley Jr., quase se superou ao inventar também o chamado clorofluorcarbono (CFC) que entrou em produção como gás de refrigeração e quase destruiu a nossa camada de ozônio da estratosfera. Mas voltemos ao chumbo,

Ele é uma neurotoxina. Danifica de forma irreparável o cérebro e o sistema nervoso central. Mas a General Motors, a Du Pont e a Standard Oil formaram uma sociedade chamada Ethyl Corporation que colocou no mundo uma quantidade enorme de chumbo. 

O que se descobriu foi que antes de 1923 quase não havia chumbo na atmosfera, a partir da análise do gelo da Groenlândia, e quem está vivo hoje possui 625 vezes mais chumbo que uma pessoa que viveu um século atrás. O resultados disso ficam a cargo da imaginação de quem vier a ler esses rascunhos.

Canja número 3:

Essa é rápida e é também um afago no ego dos criacionistas:

A chance de uma molécula se autoproduzir espontaneamente.é nula. É algo que nunca deve acontecer. Por exemplo uma molécula de colágeno é formada por uma sequência de 1.055 aminoácidos . Essa probabilidade dela vir a acontecer seria equivalente a termos um máquina caça niqueis de cerca de 27 metros capaz de acomodar 1.055 rodas verticais paralelas, em vez das 3 ou 4 usuais, com 20 símbolos em cada roda (uma para cada aminoácido), e obter a sequência certa.

Coisa pra Deus resolver?

Pois bem, então fica assim:
  • O atleta treina centenas de vezes a largada de uma corrida rápida, o controle da energia em uma corrida longa ou numa partida de futebol
  • Não me lembro de uma unica vez em que minha banda CachaSamba tocou em um bar sem que tenha sido pedida aquela música do Gonzaguinha que fala da luta e do amor.
  • Ou que a minha banda Va Idosos tocou num asilo sem que fosse pedida a Bandeira Branca.
  • Ou que todo ano não batesse a vontade de passar um fim de semana em Gonçalves.
Então vamos nos preparar para a releitura. É uma grande arma para enfrentar a quarentena, por não ser desafiadora e nos fazer reencontrar com momentos passados agradáveis. 

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Sobre a Cloroquina

Vamos começar pela Fosfoetalonamina, e espero que se lembrem dela. Se não vamos refrescar a memória. Estamos falando da "pílula do câncer" que foi distribuída gratuitamente por 20 anos pelo Professor Gilberto Orivaldo Chierice, na época chefe do Instituto de Química de São Carlos (USP). 

O Instituto proibiu em 2014 a produção e distribuição da droga, seguindo uma regulamentação da Anvisa. O caso foi parar no STF, que julgou em favor de uma pessoa que solicitou judicialmente o consumo da droga. O TJ-SP teve então que liberar a droga para cerca de 800 pacientes, e a USP passou a receber 50 pedidos com liminares por dia.

Em 2016 o então Deputado Jair Bolsonaro apresentou, junto com vários colegas, projeto a favor da liberação do remédio. O Deputado Médico Luiz Henrique Mandetta fez oposição ao projeto, afirmando que "a ciência não é dever dos que não são da área", e que a droga "não serve nem como placebo". A Fosfoetanolamina foi aprovada no Congresso e sancionada por Dilma Rousseff, mas teve sua distribuição suspensa pelo STF a pedido da Associação Médica Brasileira. 

Aí finalmente entrou a ANVISA informando que "a substância jamais passou por qualquer estudo clínico que comprovasse sua eficácia e segurança". As leis costumam receber apelidos que as tornam mais fáceis de ser identificadas. Temos por exemplo a Lei Maria da Penha, a Lei Carolina Diekmann; essa é a chamada Lei Bolsonaro:



Agora vamos falar da Cloroquina e da sua variante Hidroxicloroquina. Mas primeiro vamos tentar entender o que a sociedade entende como evidência de valor no tratamento com essas drogas. Vejamos o vídeo abaixo:


Resumo do vídeo: Uma senhora na faixa de 65 anos recebeu tratamento com a Cloroquina, orou muito, e foi curada. Conclusão: a Cloroquina é eficaz no tratamento da Covid19.

Não é assim que a ciência trata desse assunto. e vamos aqui tentar da forma mais didática possível convencer você da falha existente nesse raciocínio. É sabido que essa pandemia circula entre nós de forma muito ardilosa, já que uma boa parte das pessoas contagiadas não apresentam os sintomas da doença, e mesmo aquelas que os apresentam em geral sequer precisam de internação, sendo tratadas em domicílio. Entre as que assumem uma forma mais grave da doença há aquelas que passam a correr risco de vida, e no fim das contas existem as que vêm a falecer. 

Aí entra a tal estatística, filha da matemática, tão pouco compreendida. Mas o fato é que, entre os casos efetivamente diagnosticados com a doença, aqueles que resultam em óbito quase nunca chegam a 10% em uma sociedade com os recursos mínimos de tratamento e boa estratégia. Com isso podemos entender que:
  • Entre cada 100 pessoas diagnosticadas com a Covid19, menos de 10 deverão falecer
  • Entre cada 1.000 pessoas diagnosticadas com a Covid19, menos de 100 deverão  falecer
e assim por diante. É claro que esse número de óbitos, esse percentual, depende da infraestrutura de saúde disponível, das condições de higiene e habitação, enfim, de vários fatores. Vamos dar exemplos. No dia 22 de maio temos o seguinte quadro para o Brasil:



Aqui dá pra ver que o Estado do Rio de Janeiro é o que apresenta o maior número de óbitos em relação ao número de casos diagnosticados: 


3.657/33.589 = 0,109, ou 10,9%

Assim sendo, para cada 1.000 casos diagnosticados, 109 vão a óbito, e evidentemente 891 se recuperam. Isso no Estado do Rio, que apresenta o pior quadro.

Desses 1.000 casos considerados haverá aqueles que foram tratados com cloroquina e aqueles que foram tratados sem cloroquina, e o que a ciência precisa fazer é ver qual o resultado disso na maior amostragem possível de pessoas, cobrindo a maior quantidade possível de regiões em todo o mundo. 

Na medita do possível isso foi feito e publicado semana passada numa revista considerada uma mas mais respeitadas, The Lancet. 


Vejamos o que diz o artigo. Foram avaliados:
  • 96.032 pacientes internados
  • Com idade média de 53,8 anos, sendo 46,3% mulheres
  • Pacientes de 671 hospitais em 6 continentes.
  • 14.888 pacientes receberam 4 tipos de tratamentos com a cloroquina e a hidroxicloroquina. 
  • As hospitalizações ocorreram entre 20/12/19 e 14/04/20

1 - Das 1.868 pessoas que receberam apenas cloroquina, morreram 307, ou seja , a taxa de óbitos foi de 307/1.868 = 16,4%.

2 - Das 3.016 pessoas que receberam apenas hidroxicloroquina, morreram 543, com taxa de óbitos de 18,0%.

3 - Das 3.783 pessoas que receberam cloroquina junto com um antibiótico de largo espectro, morreram 839, com taxa de óbitos de 22,2%.

4 - Das 6.221 pessoas que receberam hidroxicloroquina junto com um antibiótico de largo espectro, morreram 1.479, com taxa de óbitos de 23,8%.

5 - Das 81.144 pessoas que não receberam cloroquina nem hidroxicloroquina, morreram 7.530, com taxa de óbitos de apenas 9,3%.

Vamos dar um tempo na nossa argumentação para fazer duas constatações. O Estado do Rio não é o que está em pior situação devido ao número de óbitos. São Paulo tem bem mais. Só que a taxa de mortalidade de São Paulo é de 5.773 óbitos / 76871 casos, ou 7,5%, enquanto o Rio tem 10,9%. Outra forma de se chegar ao grau de gravidade de uma cidade ou estado ou país é ver o número de casos ou óbitos por população. Por exemplo, minha cidade Campinas tinha em 01/05 a menor taxa de mortalidade do Estado entre as cidades com mais de 1 milhão de habitantes, com 16,6 óbitos por milhão.

Outra constatação nós vamos tirar dos dados da The Lancet. Entre os 96.032 casos analisados somente 14.888 eram tratados com cloroquina. Isso representa 15,5% dos casos, ou seja, a cloroquina só é assunto de discussão profunda aqui e nos Estados Unidos, certamente por pressão dos Presidentes de plantão. Esse número só chega a 15,5% porque estamos falando do grande foco atual e do foco futuro da pandemia. 

Outra coisa, não se impressionem com as 7.530 fatalidades no grupo que não tomou cloroquina. Elas aconteceram numa amostra 5 vezes maior, Mas passemos à análise dos resultados:

  • Entre aqueles que não tomaram cloroquina mas sim outros procedimentos morreram 93 pessoas em cada 1.000 casos registrados
  • Entre os que tomaram só cloroquina morreram 164 pessoas em cada 1.000 casos
  • Entre os que tomaram cloroquina com um antibiótico esse número subiu para 222 em cada 1.000 casos
  • Entre os que tomaram só hidroxicloroquina morreram 180 pessoas em cada 1.000 casos
  • Entre os que tomaram hidroxicloroquina com um antibiótico esse número subiu para 238 em cada 1.000 casos
Ou seja, embora estejamos em um ambiente de guerra onde as decisões têm que ser rápidas, esse trabalho da The Lancet deixa evidente a inutilidade do uso tanto da cloroquina como da hidroxicloroquina. Mas tem mais:

Meu amigo Bruno, jovem Médico (reparem o M maiúsculo que define uma pessoa que preza a profissão e o juramento de Hipócrates), filho do meu grande amigo Ricardo, me enviou a seguinte mensagem em WhatsApp que eu resumi assim:

Caro Fonte (Fonte sou eu):

Há um risco considerável de arritmia cardíaca com a associação cloroquina e azitromicina. Para ser prescrito deveria ser feita antes uma avaliação cardiológica. Aliás, nas últimas semanas saíram 4 grandes estudos nas principais publicações médicas dos EUA e Inglaterra que praticamente enterram o uso da cloroquina no COVID. Posso lhe enviar se houver interesse. Eu já não acreditava muito na eficácia, agora estou convencido de que não funciona.

Só peço que não tome junto com hidroxicloroquina sem uma avaliação cardiológica antes. 


Os números estão escancarados no artigo da The Lancet. A junção da cloroquina ou da hidroxicloroquina com um antibiótico aumenta o risco de morte. 

Espero com isso ter convencido aqueles que leram esses rascunhos da inutilidade do assunto cloroquina. O link do artigo acima está à disposição daqueles que quiserem se aprofundar nele. Argumentos tais como "a cloroquina ainda é boa no início" são obviamente válvulas de escape daqueles que se atém a seguir a palavra do Messias. 

Aí surge a pergunta: por que tudo isso? 

A resposta está na forma como essa pandemia foi tratada. Em Post anterior a esse discutimos o por que de tanta polarização em meio à grave situação que estamos enfrentando. Não existe o menor diálogo no tratamento da pandemia. A incompetência grassa em todos os níveis, a ponto de até agora não termos chegado a nenhuma conclusão sobre coisa alguma. 

Era necessário que se criasse um factoide que tentasse esconder esse estado de coisas, e o seu amigo Donald Trump surgiu com a cloroquina. O Messias já tinha a experiência adquirida coma droga do câncer, e todos nós embarcamos nessa. Ate eu tenho hidroxicloroquina estocada em casa, que eu vou ter que doar para quem realmente precisa dela. Interessante que eu tomei a decisão de comprar a droga em março quando soube que um conhecido meu que vive nos Estados Unidos encomendou daqui uma quantidade razoável dela, que tinha sumido das farmácias de lá.

Em tempo: a nova droga agora se chama ivermectina. Cuidado com ela. Uma amiga de Vitória me disse que o Ivomec está sendo procurado nas lojas de produtos veterinários de lá.

Pergunta final: como e quando tudo isso acaba, se é que acaba?

Como: Existe um termo chamado imunidade de rebanho, que depende do grau de transmissão das doença. Ele se refere a que percentagem de uma população precisa ter contraído a doença, ou ser vacinado contra ela, para ser considerada imune. Como não existe ainda vacina, precisamos saber qual a percentagem de pessoas tem que ter contraído a Covid19, e esperar que ela não reincida. Otimistas estimam em 60%.a imunidade necessária, e ela pode ser alcançada por exemplo em São Paulo mas não em Campinas.

Estima-se que no Brasil o número de casos reais é 15 vezes maior que o oficial. Então vamos supor uma cidade do porte de Campinas. Para simplificar:
  • População: 1 milhão de habitantes
  • Imunidade de rebanho: 600 mil
  • Casos oficialmente reportados: 600 mil / 16 = 37.500
  • Casos não reportados:: 37.500 x 15 = 562.500
  • Óbitos estimados (sem cloroquina): 37.500 x 9,3% = ~ 3,500 pessoas
Palavra de um Cético: Deus queira que eu esteja errado. Campinas não merece perder 0,35% da sua população para se imunizar. Esperemos que uma vacina acelere a chegada à imunização de rebanho, ou que se chegue a algo sério como remédio para essa praga. 

Já o quando depende do nosso comportamento como cidadãos. 




terça-feira, 19 de maio de 2020

Polarização e Pandemia

Lourival Sant'Anna é um colunista do Estadão que nunca deixo de acompanhar. Seu site http://www.lourivalsantanna.com/ dá uma ideia da experiência que esse jornalista tem na cobertura dos grandes eventos mundiais. 

Na sua coluna de 26/04 ele tece considerações a respeito da oportunidade que estamos perdendo de aproveitar a crise pela qual estamos passando, a Pandemia do Coronavirus, para lamber nossas feridas e unir a orientação dos nossos conceitos no sentido de melhorar nossa condição como sociedade. 

A coluna citada tem o mesmo nome desse Post: Polarização e Pandemia. então eu tomei a liberdade de solicitar no seu site autorização para usar o mesmo título e também discorrer sobre o que ele defende. 

Até o dia em que postei esse Artigo ainda não tinha tido retorno, então vamos em frente. Lourival começa citando o historiador australiano Geoffrey Blainey, que conseguiu traçar um paralelo entre otimismo/guerra e pessimismo/negociação. Ou seja, um país se aventura em numa guerra apenas se o otimismo está em alta e ele tem uma visão positiva a respeito da sua capacidade de enfrentar o adversário com vantagem. Por outro lado quando um país se encontra numa situação de crise a sua propensão a negociar cresce. 

Hitler por exemplo agiu com muita habilidade quando levou a sociedade alemã a acreditar que seria capaz de tentar pela segunda vez se tornar a regente máxima da Europa, enquanto os grandes impérios europeus, Reino Unido, França, Rússia, tentaram a negociação até o seu limite máximo por entenderem que o inimigo estava mais preparado para a guerra. 

Vamos trazer esse paralelo para os dias que estamos vivendo, analisando a política interna dos países e como eles estão tratando a pandemia da COVID. Estamos falando do maior desafio já enfrentado desde a segunda guerra mundial, e é claro que existem divergências em como tratar esse problema, mas a tendência é não levar essa discussão para o campo político. Os líderes que tomaram esse caminho certamente vão ser julgados pela sociedade, mais cedo ou mais tarde, e a hora de pagar essa conta varia com a capacidade da sociedade de se desligar das mensagens geradas pela máquina que suporta o líder.

Nos Estados Unidos, um exemplo claro de polarização política, o governo tem tido certa facilidade em aprovar no Congresso, onde é minoria, todas as propostas necessárias ao enfrentamento da Covid. Na Espanha e na Itália, dois países que passam por um período de grande instabilidade política, cuja causa foi a geração de um número de partidos minoritários que dificultaram a criação de coalizões que gerassem um governo capaz de "governar", a Covid chegou e de forma surpreendente acalmou o ambiente político. Na França os coletes amarelos que infernizavam o governo de Emmanuel Macron deixaram de fazê-lo em função da pandemia. 

Na nossa vizinhança a Argentina, um modelo de polarização que acabava de eleger um peronista, o que levou o Brasil a cometer a indelicadeza de seu  Presidente não comparecer à sua posse, está totalmente concentrada no enfrentamento da doença. O Chile adiou um plebiscito que seria feito em abril sobre a reforma da Constituição e ninguém levantou questionamento junto ao Presidente Piñera. A Bolívia com um governo interino acusado de golpe suspendeu as eleições marcadas para maio e ninguém reclamou.

Mas o maior exemplo vem de Israel, que desde setembro não conseguia formar um governo. A pandemia conseguiu o inimaginável de juntar o Primeiro Ministro Binyamin Netanyahu e seu adversário Benny Gantz, que formaram um governo de união nacional. 

Gantz & Netanuahu


Tudo isso aconteceu graças ao coronavírus. A disputa pelo poder foi deixada de lado (em termos) para que a sociedade se espelhasse em suas lideranças e enfrentasse a pandemia num clima, não diria de tranquilidade, mas sim de confiança nas suas lideranças.

E como fica o nosso Brasil nessa orquestra que juntou todos os seus instrumentos de forma a tocar uma sinfonia capaz de enfrentar essa enorme crise? Mal, muito mal. Entre todas as democracias ele foi a que conseguiu manter expostas as suas diferenças politicas de forma tal que levou a sociedade a não saber até agora que direção seguir.

O Ministro da Saúde sangrou até cair e foi substituído por outro que durou um mês. O Presidente participou de manifestação que pedia o fechamento do Congresso e da Corte Suprema. A interferência na Polícia Federal resultou na saída do Ministro da Justiça, a figura mais popular e admirada do Poder. 

Fora isso o Brasil é também o país cujo governo menos leva a sério a Covid, talvez até porque ela chegou em boa hora no que tange a fixação do governo em manter acesa a ideia de que o confronto é a melhor ferramenta. 

Lourival Santana cita um caso acontecido em 1985. Os presidentes Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev se reuniram em Genebra para discutir um tratado de redução de armas nucleares. As negociações estavam travadas. Reagan então convidou Gorbachev para passear no belo lago de Genebra e lhe fez a seguinte pergunta:

- Se os Estados Unidos fossem invadidos por alienígenas, a Rússia viria nos defender?
- Com certeza, 
- Sinto a mesma coisa com relação a vocês. 

Destravou. 

Não foi preciso que uma invasão alienígena viesse a ocorrer para que as nações de todo o mundo se juntassem no combate a um inimigo comum. Existem infelizmente duas nações democráticas que podemos considerar exceções:

- O atual Império, que encara a pandemia como uma arma do seu eventual substituto.
- O nosso pobre Brasil, cujos governantes ainda não chegaram a um acordo sobre o significado dessa pandemia.

E qual seria esse significado? A resposta está nas conclusões de Goeffrey Blainey: o pessimismo é uma poderosa arma a favor da negociação. Ou se preferirem o lugar comum, crise é oportunidade de mudança. 

PS1 - Por falar em invasão alienígena, está circulando por aí a teoria que esse vírus é uma arma alienígena para destruir a humanidade (ponto para Ronald Reagan):

https://www.tecmundo.com.br/ciencia/151284-virus-alienigena-arma-biologica-teorias-conspiratorias-covid-19.htm

PS2 - Carta enviada a Louruval Santana

Caro Senhor Lourival
Sou engenheiro aposentado, 77 anos, e acompanho com muita satisfação a sua coluna de domingo do Estado de São Paulo. A do dia 26 de abril em particular me chamou a atenção pelo seu conteúdo, que traduz muito bem a situação a que chegou a nossa sociedade dividida, num momento em que ela tinha por obrigação aproveitar essa oportunidade de crise aguda para se unir. 
Tenho um Blog, o CeticoCampinas (, https://ceticocampinas.blogspot.com/) que uso para transmitir aos que se atrevem a ler meus rascunhos a minha forma de pensar, mas também aquilo que leio e com o que concordo. O Post de 23/05 será uma crítica com base na sua coluna mencionada acima, onde eu espero com sua permissão fazer chegar os seus argumentos àqueles que leem meu Blog.
Atenciosamente

Luiz Fontenelle - CeticoCampinas

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O Novo Império Chinês

O interesse moderno a respeito da China teve seu gatilho na decisão do Governo Americano de iniciar a reaproximação com aquele país, o qual acabara de passar por uma revolução que acarretou uma mudança profunda na sociedade chinesa, com um resultado bem controverso em função das vítimas que provocou. 

Segundo o Instituto Mises Brasil a revolução Chinesa, que completou 70 anos em outubro de 2019, "deu início ao mais cruel e sanguinolento regime governamental da história humana". Poucos ocidentais estão informados a respeito da realidade pela qual a China passou entre 1949 e 1976, quando a China esteve sob o regime de Mao Zédong. 

Os números são difusos, mas o que se avalia é que como resultado do Grande Salto para a Frente, programa de Mao impôs entre 1959 e 1961, o número de mortos variou entre 20 milhões e 75 milhões, sendo que no período anterior de 10 anos esse número foi de 20 milhões. A margem de erro é grande em função da pouca informação que era liberada, mas no total da era Mao as vítimas podem ter ultrapassado 100 milhões. 

Isso tudo foi resultado de uma ideologia européia gestada na Europa Oriental e imposta à terra de Lao Tsé (rima, ritmo, paz), do Taoismo (compaixão, moderação, humildade) e do Confucionismo (piedade, harmonia social, progresso individual), a qual negava a lógica, as leis econômicas, os direitos de propriedade, os limites do poder do estado, e que afirmava ser necessário criar um núcleo de pessoas iluminadas com poderes ilimitados para modificar todas as coisas. 

Essa ideologia perdurou até 1976, e a transformação ocorrida nos últimos 40 anos foi tão espetacular que, exceto pelo fato do Partido Comunista ainda estar no poder, toda essa tragédia como que caiu no esquecimento. A reviravolta na gestão da sociedade Chinesa se deu basicamente em função dos seus novos dirigentes terem dispensado aqueles princípios básicos da ideologia comunista no que tange a economia. 

O Império dominante do momento percebeu bem cedo que esse estado de coisas estava perto de atingir o seu ponto de exaustão, e viu na China uma oportunidade de ouro para fazer o que todos os impérios fizeram para decair: procurar um local onde ele pudesse produzir os seus bens a um custo muito menor que o que ele conseguia no seu território. O presidente na ocasião, Richard Nixon (1969 - 1974), a pessoa mais improvável para iniciar essa aproximação, encarregou o alemão naturalizado americano Henry Kissinger dessa tarefa. 

Em 1971 Kissinger embarcou no Air Force One, aterrizou no Paquistão, fez uma escala em Bancoc e desembarcou secretamente na China. Foi o início de um total de 50 viagens feitas em 40 anos, o que provavelmente o faz o ocidental, se não mais conhecedor da China, pelo menos mais influente junto à sua cúpula. Seu livro "On China (Sobre a China)", publicado em 2011, é referência sobre a China, sendo uma tentativa de explicar o pensamento chinês a respeito dos problemas de ordem internacional, a guerra e a paz, e os envolvimentos entre a China e os Estados Unidos ao longo da história.

Vejamos então o que pensa agora Kissinger, hoje com 87 anos: seu foco principal é o combate à ignorância do Ocidente em relação à China. Para ele tanto os Estados Unidos quanto a China têm como principal característica uma excepcional capacidade de empreender, um enorme patriotismo e, como todo império, um sentimento de superioridade em relação ao mundo como um todo. A principal diferença consiste na atitude missionária dos americanos, sua insistência em espalhar seus valores e ideais no mundo, muitas vezes até os impondo, enquanto os chineses não têm interesse nesse objetivo. Para eles o Império do Meio sempre foi e sempre será uma civilização superior, com papel central no mundo, mesmo quando invadido. O nome chinês para o seu país é Zhongguó, o Reino do Meio.



Como antídoto ao crescimento dessa nação desafiante ao atual império, Kissinger sugere a criação de uma especie de OTAN do Pacífico, reunindo as potências da região que se sentem incomodadas com o crescimento chinês.

Só que:
  • Segundo o livro até o século XIX a China só mantinha relações diplomáticas com a Rússia e se referia a qualquer povo fora do império como bárbaro. O que é verdade, mas oculta o fato de que a China e a Índia tinham enorme influência sobre a Europa bárbara desde que foi criada a Rota da Seda. Para dar uma ideia dessa influência basta citar o fato que o Taj Mahal, talvez o mais importante monumento já construído desde o século XVI, foi financiado com a prata que os espanhóis tiravam das minas de Potosí na Bolívia, e trocavam por mercadorias que vendiam no mercado europeu (Potosi chegou a ser a segunda cidade mais populosa do mundo ocidental, atrás apenas de Paris - https://pt.wikipedia.org/wiki/Potos%C3%AD)
  • Quem estudar a história do mundo num espaço de tempo mais amplo sabe que o centro do mundo só migrou para o Ocidente a partir da descoberta da América no fim do século XIX. O Império Romano, o único império ocidental até esse evento, nunca se preocupou muito com a Europa, e sempre focou suas atividades no Oriente, a ponto de, ao se aproximar o seu declínio, mudar sua sede para Constantinopla. Era de lá que mantinha relações comerciais com os grandes exportadores asiáticos, a ponto de o Canal de Suez ter constado dos planos romanos para facilitar esse comércio.
  • A China há tempos já levou a sua influência para bem longe do Pacífico. Isso se deu em função do grande desinteresse do Império atual em manter sua hegemonia nos chamados países em desenvolvimento. O investimento chinês no exterior deve chegar a US$ 2,5 trilhões nos próximos dez anos, com ênfase em projetos de energia, infraestrutura e recursos naturais, bem como comércio eletrônico, cultura, educação e turismo
Vejamos o caso do Brasil. O volume atual de investimentos da China aqui chega a US$ 80 bilhões, com mais de 300 empresas, sendo que 25 delas estão entre as 500 maiores do mundo. Além disso ela tem o maior número de consumidores do mundo, o que faz com que Brasil e China tenham uma relação comercial altamente complementar; tanto que por dez anos consecutivos a China é o nosso maior parceiro comercial, com uma balança que em 2018 chegou a US$ 110 bilhões. 

O investimento maior da China atualmente se chama One Belt, One Road (Um Cinturão, Uma Rota), a chamada Nova Rota da Seda. Essa iniciativa visa estimular a interconectividade do comércio, da infraestrutura, do investimento e de pessoal, e abrange 68 países. Como líder da América Latina e grande parceiro comercial o Brasil reúne condições de se tornar um grande parceiro na extensão da chamada BRI (Belt Road Investments) na região. 

A Pandemia que se instaurou agora com a COVID19 levou os Estados Unidos, e junto com ele praticamente todo o mundo Ocidental, a rever essa política de dependência de um fornecedor único, que se tornou evidente em função da importação em massa de todos os insumos necessários ao combate da Pandemia. Mas tem mais, há muitos anos os Estados Unidos não fabricam mais televisão (à exceção das insignificantes Insignia e Westinghouse), telefones celulares (as fábricas da Apple estão em Taiwan e na China), linha branca de eletrodomésticos (a GE vendeu seu setor para o grupo chinês Haier); ou seja, os Estados Unidos abdicaram da cansativa tarefa de produzir a um custo elevadíssimo ditado pelo seu alto padrão de vida e decidiram inicialmente transferir suas fábricas para o exterior, e em seguida passaram a vendê-las . 

O meu trabalho voluntário de revisor dos cursos de Artes e Humanidades da Khan Academy para a Fundação Lemann me levou a aprender a famosa curva que seguem todos os impérios que já existiram. Dentre os mais famosos podemos relacionar:
  • O Império Macedônio durou pouco e, com a morte prematura de seu fundador, se desmembrou em reinos menores comandados por seus generais ao longo da Ásia Menor, que duraram séculos. 
  • O Império Romano iniciou sua decadência a partir do instante em que ficou mais cômodo delegar o comando das suas legiões aos generais que ele tinha subjugado, e que passaram a ter grande influência nos destinos de Roma (sempre de olho na hora de retornar às suas origens).
  • O Império Árabe, que se estendeu desde a Península Ibérica até a Índia, sofreu um processo de autofagia que dura até hoje, com disputas sobre quem é o verdadeiro herdeiro de Maomé. 
  • O Império Otomano resolveu inovar. Um sultão certo dia decidiu assassinar toda a nobreza e a burocracia e substitui-la por jovens escravos recolhidos periodicamente ao norte de Constantinopla. A chamada Colheita destinava os jovens mais fortes a servir o exercito (os chamados janízaros), e os menos dotados iam servir à burocracia do estado. Para evitar que viesse a ser criada uma nova nobreza todos eram devidamente castrados, daí a necessidade da Colheita periódica. 
  • O Impérios Ibéricos nasceram em meio a uma mudança profunda em toda a Europa, que com o advento da Reforma tornou a parte setentrional muito mais evoluída que a meridional. O resultado foi uma imensa inflação decorrente da derrama de ouro e prata provenientes da rapinagem junto às colonias americanas, e uma decadência que propiciou o crescimento dos Impérios Inglês e Holandês.
  • A Inglaterra e a Holanda, que até tiveram a oportunidade de se juntar em uma empreitada comum, preferiram seguir separadas, e a perda da colônia mais importante, os Estados Unidos, iniciou a decadência inglesa. A revolta decorreu da iniciativa de aumentar fortemente os impostos para sustentar os instintos colonialistas da sede. Sempre me impressionou como era possível que os ingleses dominassem por tanto tempo a Índia, um continente mais de 20 vezes a sua população, com um contingente cerca de 50 mil pessoas. 
Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra, investiram contra a Ásia Oriental com força. Todas estabeleceram fortificações que se estenderam do Golfo Pérsico à Coréia, com a finalidade de proteger o comércio intenso, que mudou de mãos com o tempo mas se manteve impositivo junto à China e à Índia. O fato mais grave reportado foi a introdução do ópio pelos ingleses à China como forma de enfraquecer sua população. 

Essa profusão de impérios Europeus foi devidamente enterrada por eles mesmos. A Europa decidiu reunir todos eles numa guerra. Tomaram parte os seguintes impérios: Itália, França, Austro-Hungria, Alemanha, Rússia, Turquia Otomana, Grã Bretanha, Portugal, Holanda e até a novata Bélgica, invenção inglesa que levou sua experiência na América do Sul (Equador e Uruguai como portos ingleses no Pacífico e Atlântico Sul) para a Europa Continental. Nessa primeira guerra morreram 20 milhões de pessoas, mas não contentes com isso eles partiram para uma segunda guerra onde enterraram mais 65/85 milhões. Os impérios que haviam dominado o mundo por quatro séculos não sumiram de repente, mas foi o início do fim. 

O poder mudou-se para o outro lado do Atlântico. Do ponto de vista militar ele hoje é incontestável, mas nada impede que uma guerra eventual ponha fim ao planeta como um todo. Já do ponto de vista da economia a coisa anda preta. A lista dos principais devedores mundiais é preocupante:
  1. Estados Unidos - US$ 22 trilhões
  2. Reino Unido - US$ 8,5 trilhões
  3. França - US$ 5,7 trilhões 
  4. Alemanha - US$ 5,4 trilhões
A dívida americana tem como principais credores externos:
  1. China: US$ 1,2 trilhões
  2. Japão: US$ 1,1 trilhões
  3. Irlanda: US$ 330 bilhões
  4. Brasil: US$ 270 bilhões              (dados de 2018)
Os economistas reconhecem que não há como pagar essa dívida, a ponto de terem inventado uma chamada "teoria monetária moderna". Segundo essa teoria se a divida é definida pela moeda nacional do emissor, no caso os EUA, o pais não irá enfrentar os problemas decorrentes dela: o FED (Banco Central Americano) pode imprimir tantos dólares quantos quiser para amortizá-la (?). 

Ou seja, um país como o Brasil, que guarda o seu superavit comprando título do Tesouro Americano, ao requisitar o retorno do dinheiro aplicado não dará aos gringos esforço maior que o de pôr pra rodar sua impressora de dólares. É claro que essa situação não pode perdurar e o resultado vai ser uma enorme derrama de dólares em todo o planeta, o que vai forçar necessariamente a sua desvalorização, mais cedo ou mais tarde.

Ou seja, do ponto de vista econômico a China está com a faca e o queijo nas mãos, e o que devemos torcer é para o império atual não decida partir para o confronto. Para tanto a China já se aproximou da sua vizinha Rússia e está se preparando também nesse campo.

Voltemos ao assunto maior no que nos diz respeito: China ou Estados Unidos? Blairo Maggi, ex Ministro da Agricultura e um dos maiores produtores de soja do Brasil, não tem dúvida: "Sem a a China a agricultura do país não seria o que é. O país com potencial de se tornar o maior celeiro do planeta deve muito da sua posição ao volume que a China importa de nós. Não temos nada a ver com a posição política que cada país escolhe"

Logo, quem faz uso da sua posição no governo para minar esse relacionamento está muito mais a serviço do Império que do seu país. Enquanto escrevo esse Post leio no celular que a importação de soja dos Estados Unidos pela China disparou no segundo bimestre enquanto a exportação do Brasil sofreu uma queda de 26%. Os chineses compraram seis vezes mais dos americanos que de nós nesse período.

Será que isso tem alguma coisa a ver com as declarações do ex futuro Embaixador nos EUA, do Ministro da Educação e do nosso Chanceler?