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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O Brasileiro é Imediatista

A Folha de São Paulo de 11/12/17 trouxe uma reportagem interessante a respeito do comportamento dos Brasileiros em referência à poupança, à "preparação para a velhice". A conclusão a que ela chegou é do conhecimento de todos nós: o Brasileiro é 'imediatista". 

Ele é o que os economistas chamam de um indivíduo "present biased". O peso que ele dá ao presente, à sua vida imediata, é excessivo. Aqueles que têm carimbada em sua mente a ideologia da perseguição das elites vão argumentar que quem tem um salário tão diminuto não tem como poupar. Isso tem um fundo de verdade, mas sabemos que se trata de uma verdade parcial. Cada um de nós conhece, tem muito perto de si, pessoas que, por mais que ganhem, sempre dão um jeito de terminar o mês devendo, gastando mais que ganharam.

Tenho uma opinião a respeito dessa nossa característica: isso se deve ao nosso clima ameno, tropical. E a Europa, pequena mas com um grande número de países, é um exemplo claro de que o clima é importante na criação nas sociedades da necessidade de se planejar. Os países nórdicos europeus são muito mais avançados que os mediterrâneos nesse quesito. 

Aqui no Brasil a preparação para o inverno só se faz, ou só se fazia, dadas as mudanças climáticas, no Sul e nas comunidades das montanhas. Já peguei 5 graus negativos em Gonçalves, MG, anos atrás, mas duvido que isso volte a acontecer. Mas voltemos à reportagem. 

Ela mostra que 65% dos brasileiros não poupam para o futuro, e que mesmo entre os mais ricos metade deles não fazem reservas. Isso a meu ver é resultado do regime paternalista que foi criado na ilusão de que a "viúva", o poder público, iria tomar conta desse problema, mas que pouco a pouco se concluiu que essa conta não fechava. 

E haja reclamação. E haja resistência contra se mudar esse estado de coisas. O Congresso, sob a batuta de Rodrigo Maia, acaba de dar a Jair Bolsonaro um presente para o qual seu esforço em receber foi pífio, dada a forte resistência popular a ele: a Reforma da Previdência. 

Não que eu seja totalmente de acordo com ela, por achar que as medidas definidas pesaram mais sobre o contribuinte que sobre a elite empresarial, que permaneceu firme com as suas isenções fiscais. Mas isso é outra história que já discutimos aqui. É evidente que a Reforma vai reduzir benefícios e adiar a sua obtenção, e isso vai aumentar a importância de uma poupança adicional e voluntária. E o brasileiro está despreparado para essa mudança de rumo, não mais tanto por ignorância, já que o Congresso cumpriu muito bem o seu papel, mas sim pela sua tradição imediatista.

Existe um teste que é capaz de medir o imediatismo de uma sociedade, e ele foi aplicado por aqui. Vejamos como a coisa funciona:

O Datafolha fez duas perguntas aos seus entrevistados na pesquisa sobre o imediatismo nacional:
1 - Se você pudesse escolher entre receber R$ 100 agora ou uma quantia de dinheiro daqui a um ano, qual valor gostaria de receber?
2 - E se você pudesse escolher entre R$ 100 agora ou uma quantia daqui a dez anos, qual valor gostaria de receber?

Com base nas respostas e o retorno que uma aplicação financeira normal daria aos R$ 100 em cada caso é possível calcular um valor que os especialistas chamam de "beta" que pode variar de 0 a 1, e no caso brasileiro ele foi de 0,26, o que indica um imediatismo agudo. 

O argumento de que o brasileiro não tem conhecimento financeiro suficiente para uma resposta adequada foi levado em conta, e as respostas que não faziam sentido do ponto de vista financeiro (70% dos quase 6.000 entrevistados) foram descartadas. Mesmo assim se chegou a um número incrivelmente baixo para o "beta". 

A nível de comparação, o valor 0,26 obtido para o Brasil é menos da metade da média latino americana. O resultado disso é que, entre 143 países, só 11 poupam menos que o Brasil para a velhice. 




Mudar do regime de partição vigente, que é aquele que faz com que os brasileiros ativos sustentam a aposentadoria dos inativos, para o de capitalização, que é o que torna cada brasileiro responsável pela sua própria velhice, segundo especialistas, é algo que vai contra a natureza do ser humano. Os homens das cavernas passaram milênios consumindo imediatamente tudo o que caçavam. 

O aumento da expectativa de vida trouxe à luz a necessidade de se pensar em como tratar com os idosos que deixavam de ser produtivos antes de morrer. Nos locais de clima rigoroso essa mudança se deu de forma mais eficaz, já que era necessária uma preparação para o inverno. Naqueles locais em que não havia preocupação sequer com a roupa que vestir esse processo foi considerado de baixa prioridade. 

Por isso em vários países nórdicos a previdência privada é obrigatória, e nos Estados Unidos a adesão a um fundo de pensão da empresa é automática, estratégia que os economistas chamam de "cutucões" ou "empurrões" (nudges), que estimulam a ação sem tornar necessária a tomada de decisão.

Em outros países onde esse assunto não mereceu a prioridade necessária foi criado o que os economistas chamam de "paternalismo libertário", em que os governos se atribuem a tarefa de decidir pelas pessoas. O resultado disso por aqui foi que:

1 - Só 14% dos empregados registrados ou funcionários públicos disseram ter previdência privada.
2 - No setor informal e entre os que trabalham por conta própria essa percentagem cai para 8%.
3 - A maioria dos brasileiros não tem reserva para emergência (aqui o recomentado é um fundo de reserva de no mínimo 6 meses).
4 - As mulheres poupam menos que os homens (mera curiosidade, dados do Banco Mundial, não meus).

Para finalizar, dois depoimentos: 

1 - Paulo Costa, doutor em economia por Harvard e autor do livro "Aprendendo a Lidar com o Dinheiro", comparando o Brasil com outros países:
  • Há universidades públicas gratuitas. O sistema de aposentadoria é um dos mais generosos dos mundo. E o sistema de saúde, embora falho, existe e atende parcela da população.
2 -Guilherme Linchand, professor da Universidade de Zurique:
  • Mesmo executivos e universitários têm dificuldade em tomar essas decisões como deveriam, já que o custo de poupar cai no presente, e os benefícios só aparecem no futuro"




quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Um País que devíamos levar em conta

- PREVIDÊNCIA

O nome é Superannuation. Procurei no Linguee uma tradução para esta palavra e encontrei "Caixa de Pensões". Os australianos também chamam de "Super Fund". Todos os australianos possuem uma conta Superannuation, a qual lhes dá direito a uma aposentadoria sob o modelo de capitalização. 

A coisa funciona da seguinte maneira:

Suponhamos que eu assino com uma empresa um contrato de trabalho por um prazo determinado. Esse contrato em geral define as compensações a serem pagas caso o contrato seja interrompido. Digamos que o tal contrato estipula um salário anual de AU$ 100 mil, cem mil dólares australianos. Desse valor, entre 9,5% ou mais, a serem definidos no contrato, vão diretamente para a conta Superannuation mencionada no contratado. Ou seja, sobra para o contratado o valor máximo de 90,5% bruto, sobre o qual vai incidir o Imposto de Renda se for o caso.

Minha filha por exemplo emigrou para a Austrália com o marido, 2 filhos, e já em idade avançada para iniciar sua conta Superanniation. A solução que ela encontrou foi assinar contratos que dedicassem a essa conta valores maiores que 9,5%. Observem que essa aposentadoria funciona de forma independente do Governo, e é alimentada pelos contratos de trabalho que o empregado realizou. 

Para fazer jus ao benefício o trabalhador deve ser maior de 18 anos e receber mais de AU$ 450 por mês, com qualquer tipo de trabalho: tempo integral, meio período, eventual, etc. Se o trabalhador for autônomo, ou seja, trabalhar como pessoa jurídica, ele não é obrigado a recolher o Superannuation, e entendo que ele deve como autônomo se preocupar com a sua aposentadoria a nível pessoal. 

Segundo o Valor Econômico de 29/10/15, a Previdência Social australiana é a melhor entre um ranking de 50 países feito pela Allianz Seguros, no qual o Brasil é o 49º (dados de 2.015). A idade mínima para a aposentadoria é de 65 anos mas deve passar para 67 anos em 2.023.

Segundo me informei as profissões públicas possuem um regime de previdência especial. Policiais, paramédicos, bombeiros, militares, profissões que envolvem perigo, se aposentam aos 55 anos de idade com 60% do seu salário. Ou seja, faz todo o sentido privilegiar essas profissões. Políticos, ministros, também têm essa distinção, pelo motivo simples que eles estão dedicando uma parte significativa de sua vida ativa à causa pública. Isso também faz sentido em uma sociedade onde a carreira política é valorizada, se bem que tem havido reclamações a respeito de políticos que se aposentam e imediatamente conseguem emprego em empresas de porte. 

- BENEFÍCIO

Vamos imaginar o caso de um estrangeiro que está na Austrália  há 10 anos ou mais, que não recebe pensão em outro país e já completou 65 anos. Ele faz jus a uma pensão do governo que pode chegar a AU$ 826,20 por quinzena para solteiros ou AU$ 1.245,60 para casados. Esse valor vai depender da condição financeira do aposentado, do valor que ele recebe do Superannuation. Por exemplo, se o aposentado recebe uma renda externa quinzenal de AU$ 1.987,20 para solteiros ou AU$ 3.040,40 para casados ele não irá receber nada do governo. 

É claro que esse critério é universal e se aplica a todo idoso em território australiano. É o equivalente ao nosso Benefício de Prestação Continuada (BPC) que a Reforma Previdenciária tentou diminuir mas o Congresso não deixou. Aqui o que vemos é um cuidado com o idoso que não possui um Superannuation, que permita que ele tenha uma renda digna. O regime de Previdência é de capitalização mas existe uma preocupação com aqueles que não se capitalizaram o suficiente, e aí entra o regime de partição que se confunde com o BPC.

- JOVENS

Meu neto mais novo tem 21 anos. Não tem salário e cursa uma Faculdade de Engenharia Elétrica em Melbourne, onde mora. Ele assume junto à "Receita Federal" de lá uma dívida que terá que pagar corrigida com a inflação oficial quando declarar renda bruta superior a um certo valor, atualmente AU$ 40.000. 

Como ele é maior de 18 e não tem salário, ou seja, é solteiro e recebe AU$ 0,00, na planilha do governo ele faz jus a AU$ 300,00 por quinzena. Vejam aqui a preocupação do governo em tornar a educação dos jovens um problema deles, não dos pais. Ele tem a opção de pagar a faculdade semestralmente num valor que ele define, o qual é uma percentagem da fatura que ele recebe, Esse valor pode ser zero, e o que ele não paga vai cair na "Receita" como uma dívida assumida por ELE. Além disso, como ele é um maior de idade e não tem salário o governo o ajuda na sua formação com uma ajuda de custo de AU$ 150 por semana (algo como R$ 400). Já meu neto mais velho, já formado, trabalhava como "cadete" em uma grande empresa e por esse motivo não recebia ajuda de custo. 

Já o tal sistema de cotas que implantamos aqui, essa injustiça cheia de demagogia, foi resolvido da forma mais simples possível:

Cada High School possui um rating que irá servir de coeficiente para o exame universal, que vai definir os que irão ser convidados a participar da Faculdade que escolheram, numa lista de prioridades. Digamos que uma Escola A tem um rating 75 e outra B tem um rating 50 (não sei ao certo a numerologia, mas acredito que seja assim). É claro aqui que o aluno de A tem uma vantagem sobre o aluno de B, de 75/50, ou 50%. Ou seja, o aluno de A que tirar 75 se equipara ao aluno de B que tira 50. Simples e justo. 

Meu neto mais novo em especial passou por uma situação de exceção. Em uma viagem à Guatemala, de ajuda humanitária, ele sofreu um acidente e ficou um tempo sem poder assistir às aulas. Isso foi considerado na avaliação do seu rating como um caso especial, que ele fez questão de declinar. Ele tinha direito a um acréscimo no rating da sua escola, mas achou melhor não aceitar essa vantagem.

- EDUCAÇÃO

O regime escolar australiano é um dos seus principais cartões de visita. Existem faculdades que têm 40% dos seus alunos em regime de graduação e pós graduação vindos de fora do país. Com uma população de 26 milhões de habitantes, a Austrália possui 43 universidades, sendo 40 públicas e 3 privadas (proporção bem diferente da nossa). O seu sistema de ensino, em função da forte afluência de estrangeiros, em vez de ser uma carga fiscal, é um importante contribuinte para o PIB do país. 

Até porque o ensino é pago mesmo pelos alunos locais, os quais assumem eles mesmos a responsabilidade junto ao fisco de pagar pelo seu diploma assim que alcançarem uma renda mínima. Não há como fugir desse compromisso a não ser não tendo renda no território australiano. Ou seja, o jovem australiano não tem que esperar por parte de seus pais, qualquer apoio financeiro para a sua formação. O ensino fundamental é gratuito e de grande qualidade, e o ensino superior é um encargo que ele pode assumir. 

É claro que a mentalidade brasileira pode prevalecer por lá: basta que o papai ou a mamãe paguem integralmente a fatura semestral que a faculdade envia pelo correio.

Não foi o que a minha filha fez. 


sábado, 6 de julho de 2019

O Perigo Fascista e Outros Papos

O Fascismo é uma palavra que tem sido mal interpretada na virada do século XX para o XXI, e esse fenômeno tem dado a oportunidade dessa ideologia florescer em alta densidade por toda a Terra. O nosso pobre País não escapou dessa tendência, e nossas instituições estão sofrendo um forte ataque no sentido de desacreditá-las perante a Sociedade. 

É claro que motivos não faltam para que floresça uma enorme censura contra a nossa Classe Política, mas daí chegarmos à conclusão que nesse caso cabe um regime com características fascistas vai uma distância enorme. A minha pretensão nesse Post é tentar dimensionar essa distância e mostrar que o caminho que estamos seguindo como Povo não é o indicado. 

Segundo Harari a palavra Fascismo vem do latim Fascisque significa feixe de varas. Seu significado ao ser levado a denominar uma ideologia vem do fato que uma vara isolada é fraca, mas quando muitas varas são juntadas num fascis fica quase impossível quebrá-las. O latino fascis deu origem ao italiano fascioque significa aliança ou federação. 

Na Itália o regime fascista foi criado após a Primeira Guerra Mundial por Benito Mussolini, e na mesma época os ideias fascistas foram a base para o surgimento do nazismo alemão. Ele se caracterizava como sendo um regime de extrema direita ditatorial e militarizado, com ênfase no nacionalismo, no uso da religião como forma de manipulação, no desprezo pela classe intelectual e no controle da mídia. 

É claro que no início do século XX a ideologia Liberal, muito embora tivesse sido gestada no século XVII a partir dos escritos do filósofo inglês John Locke, e defendida por Adam Smith no século XVIII, ainda não estava estabelecida tal como se encontra no século XXI. No entanto as ferramentas disponíveis atualmente, se manipuladas com competência, municiam o populista a com facilidade criar uma estrutura que gera um ambiente onde o nacionalismo tende facilmente para o fascismo. 

Eu tenho a firme convicção, após ter lido e tentado entender Gore Vidal, que o monoteísmo é "o grande mal no centro da nossa cultura". Segundo Vidal, a partir de um texto da Idade do Bronze, o Antigo Testamento, foram criadas três religiões de um deus do céu, patriarcal, único. Esse conceito foi levado à política e aos governantes, de onde surgiu a figura do rei e a estratégia de se fazer a sociedade procurar uma única identidade. 

Tá difícil, mas vou tentar explicar qual a ligação entre o monoteísmo e o fascismo. Se você é politeísta você pode adorar vários deuses e fazer várias tentativas. Se um deus lhe falhar você pode fazer oferendas ou sacrifícios para outro deus. Ou seja, mesmo no campo espiritual você pode possuir múltiplas identidades. 

No geral é muito difícil você possuir uma única identidade. Você não é apenas um evangélico, a não ser que sua religião o torne um fanático; ou apenas um brasileiro, a não ser que seu nacionalismo o torne um fanático; ou apenas um socialista, a não ser que sua ideologia o torne um fanático, etc. O monoteísmo, ao tornar exclusiva a figura do ser superior único, conduziu as sociedade ocidentais a serem intolerantes com a diversidade em todos os campos. 

Isso explica por exemplo o desprezo pelas mulheres por milênios, na convicção de que um deus único masculino teria que ser representado na Terra pelos homens. Vem também, do Antigo Testamento, mais precisamente do Levítico, a intolerância para com aqueles que contrariam a regra que proíbe relacionamentos amorosos entre pessoas do mesmo sexo. O deus único não permite. 

O fanatismo nasce de credos que pregam que as pessoas devem acreditar apenas numa única narrativa, e na política o mais fanático dos credos é sem dúvida o fascismo. Para o fascista as pessoas não devem acreditar em nenhuma narrativa que não a nacionalista, e não devem possuir nenhuma identidade que não a nacional. O discurso fascista é o que a vida se torna mais simples se você negar todas as suas identidades em favor de uma única identidade, a nacional. Eu como nacionalista aceito minha nação como única e a ela devo obrigações, mas isso não me impede de reconhecer que possuo outras identidades, como por exemplo o respeito pela verdade. Já o fascismo me diz que minha nação é suprema, e que devo a ela obrigações exclusivas, obrigações essas ditadas pelo líder que conseguiu a proeza de juntar suas varas em um único feixe. Se para dar à minha nação qualquer vantagem, por menor que seja, eu devo trair a verdade, que assim seja.

E o que ensinar nas escolas? Que tipo de diversão eu devo procurar? A resposta é: ensine e participe de tudo aquilo que atende aos interesses da nação. Essa postura, para o cidadão comum, é muito atraente por ser de uma enorme simplicidade, e o leva a concluir que ele pertence a um grupo que se chama nação, que é a coisa mais importante do mundo. Ele nunca tinha sido tratado assim pelos seus representantes. O líder populista sempre vai abordar você com o discurso feito no qual o que ele entende que é a vontade do povo, que não chega aos ouvidos das instituições encarregadas de zelar por essa vontade. 

Segundo Yascha Mounk em seu livro “O Povo Contra a Democracia”, a crise atual que estamos vivendo decorre do fato de que os líderes populistas atuais inventaram uma nova democracia, a chamada Democracia Iliberal, que é democrática no sentido de atender à vontade de uma maioria, mas não é liberal, porque ela deixa de lado os conceitos fundamentais do liberalismo, que são a liberdade de expressão, de religião, de imprensa e de associação para todos os seus cidadãos, incluindo as minorias étnicas e religiosas.

Esse divórcio atual entre democracia e liberalismo acaba por nos levar a dois tipos se situações:

·         As democracias podem vir a se tornar iliberais, e isso ocorre quando a maioria entende que é válido que se subordinem as instituições aos caprichos do poder executivo, ou que se restrinjam os direitos da minorias que desagradam as maiorias.
·         Os regimes liberais podem vir a se tornar antidemocráticos, mesmo contando com eleições regulares e com mudanças de poder, em particular em situações em que o sistema político favorece uma elite a ponto de as eleições não traduzirem a opinião da maioria dos eleitores.

Um quarto de século atrás, os cidadãos se orgulhavam de viver em uma democracia liberal, e a alternativa autoritária não tinha lugar nas grandes democracias. Os adversários políticos tinham em comum o respeito pelas normas democráticas e aceitavam a alternância de poder com a tranquilidade de que o revezamento era uma característica do regime, Hoje os candidatos violam essas normas fundamentais da democracia liberal e ganham grande poder agindo assim.

Exemplo 1: Vamos esquecer Trump, o Brexit, e tratar de casos mais parecidos com o nosso. O primeiro é a Hungria. Os cientistas políticos sempre acreditaram que a Hungria seria o caso mais provável de sucesso para a transição democrática entre os países do Leste Europeu. Até porque ela fazia fronteira com várias democracias estáveis e já tinha tido experiências democráticas.

Isso de fato veio a ocorrer. Houve mudança de governo, a economia cresceu, a mídia era independente. A Hungria estava no caminho da consolidação democrática.

Aí chegaram os problemas que poderiam ser resolvidos mantendo-se as instituições, mas não foi o que ocorreu. Descontentes pela ideia plantada de estarem recebendo uma parcela pequena do crescimento, de terem sua identidade ameaçada pela imigração, os húngaros resolveram premiar Viktor Orbám com uma vitória avassaladora.

Uma vez no governo Orbán tratou de dominar a máquina do governo. As medidas que tomou, se vistas individualmente, não caracterizaram uma agressão à democracia. Foi algo parecido com o que fez Chavez na Venezuela e que a nossa esquerda insiste em dizer que não houve prejuízo às instituições democráticas. O próprio Orbán se encarregou de definir o regime que ele criou: “a democracia deve deixar de ser liberal para se tornar hierárquica, a Hungria passará a ser um Estado Iliberal baseado em fundações nacionais”

Não há como denunciar o regime de Orbám como antidemocrático se ele tem o apoio maciço da sociedade. Ou seja, ele não está contrariando a vontade da maioria quando assume para si decidir o que é bom para ela. O regime de Orbám não é antidemocrático, mas é iliberal.

Exemplo 2: Vamos agora, segundo Mounk, dar um exemplo de liberalismo sem democracia. Na verdade o homem comum não está, em lugar nenhum do mundo, muito afeito às instituições liberais. Isso no nosso país é evidente, e é uma das ferramentas usadas pela nossa esquerda para combater o liberalismo, que para elas não é mais que uma bandeiras das elites.

Já nos países onde prevalece a direita conservadora o liberalismo assume outro papel, mais à esquerda. Para os eleitores de Trump por exemplo as elites liberais conspiram no sentido de tirar do povo as armas de que dispõe.

Vejamos então um caso interessante: em meados de 2015 a Grécia chegou numa situação em que sua dívida foi considerada impagável, e a conclusão foi a de que uma politica de austeridade seria inútil e acarretaria em estragos ainda maiores à sua economia. No entanto os investidores europeus temiam que um perdão da dívida grega pela União Europeia desencadearia uma corrida de outros países maiores no mesmo sentido, e resolveram endurecer.

Numa decisão liberal de respeito aos contratos a Grécia antidemocraticamente fez o que exigiu Bruxelas, e mesmo um dirigente eleito para dar fim a essa sangria, Alexis Tsipras, teve que passar pela humilhação de contrariar um plebiscito que ele próprio convocou para decidir sobre o calote da dívida. Ou seja, a nação grega não teve voz sobre um assunto que a fazia sofrer ao extremo. Esse é um exemplo claro de liberalismo antidemocrático na zona do Euro, mas que também ocorre em todo o mundo, onde os eleitores começam a perceber o quanto é pequena a sua influência nas política públicas.
                              
Mas no que esses exemplos se aplicam aqui? Esse é o nosso problema. A meu ver estamos rapidamente tendendo para uma Democracia Iliberal com características de Liberalismo Antidemocrático.

No primeiro caso temos um feixe de varas que cresce sem parar de forma uniforme, com ênfase enorme em características da nossa sociedade que repelem de forma violenta tudo o que não está no feixe. Nele estão os cristãos mais monoteístas, aqueles que dispensam o politeísmo católico disfarçado na crença da existência de santos, o qual inclusive já foi brindado com uma santa brasileira.

De forma a promover o uso dessa crença como ferramenta do nacionalismo extremo foram feitas promessas de campanha, e essas promessas se estendem até hoje. Mudança da capital de um país que é destino de peregrinação dessa crença, compromisso de nomear para o Supremo Tribunal um membro dela, com o argumento que “o País é laico mas nós somos terrivelmente cristãos”. Nomeação de ministra que insiste em vestir os homens de azul e as mulheres de rosa, num claro ataque antiliberal à liberdade de gênero. Uma colocação internacional claramente em linha com o populista mor, a ponto de cometer o mau exemplo de indicar seu filho, “que já fritou muito hamburger lá”, para embaixador, num péssimo exemplo para os seus seguidores.

No segundo caso vou dar como exemplo a Reforma Previdenciária. É evidente que essa reforma não passaria se submetida a um plebiscito. Logo, ela não pode ser considerada como democrática, e as decisões não democráticas são difíceis de ser tomadas por um líder que não tem no sangue a convicção de sua necessidade. Logo, ela não pertence ao líder e sim ao seu “Posto Ipiranga”, e felizmente também a um nosso representante que assumiu com coragem uma postura só comparável à do grande Ulisses Guimarâes.

Tudo bem, ela é necessária e tem que ser feita. Mas aí surge a pergunta: o que mais já foi feito para mitigar a penúria pela qual passa o brasileiro pessoa física além de brigar pela aprovação da reforma? Tem mais: não resta dúvida de que a tal pirâmide etária virou um cilindro, em que cada vez menos trabalhadores proporcionalmente sustentam aposentados, o que implica em termos que aumentar o tempo para a aposentadoria, mas é também uma verdade que o trabalho está desaparecendo e pouca coisa foi considerada nesse sentido.

Pelo contrário, as tentativas foram no sentido de desconsiderar por exemplo a importância do Benefício de Prestação Continuada (BPC) para a pessoa idosa ou deficiente, previsto na Lei Orgãnica da Assistência Social, baixando a sua remuneração de 1 salário mínimo para R$ 400. Graças à postura do Congresso isso não ocorreu.

O governo prevê uma renúncia tributária de R$ 306,4 bi apenas para 2019, e não vimos por parte da nossa equipe econômica nenhum movimento de se considerar esse valor ao chegar ao número mágico, tirado não sei de onde, de uma economia necessária de R$ 1 tri em 10 anos. Os contrários à reforma não deixam de ter razão ao argumentar que os investidores e empresários no caso compõem a tal elite liberal que prevalece antidemocraticamente sobre os anseios da sociedade. Situação equivalente à grega.

Na minha opinião, em pleno 2019, qualquer ação no sentido de reformar a previdência teria necessariamente que priorizar o social, e o que foi feito foi 100% no sentido de se fazer um ajuste fiscal, com o ônus desse ajuste todo ele jogado nas costas do cidadão. As empresas passaram ao largo disso tudo e continuam beneficiárias da renúncia fiscal, sob o argumento que sem ela elas quebram. Quero ver o que vai acontecer se esse acordo com a União Europeia vingar. Nada foi discutido a respeito do Salário Universal do qual não vamos escapar, a não ser que a elite decida que, com a nossa substituição pelos robôs, o Estado do Bem Estar Social se tornou um estorvo.

Estou trabalhando, na minha quixotesca atividade de aposentado, num modelo até certo ponto simples de instituição de um Salário Universal. É sabido que a folha de pagamento raramente ultrapassa 20% da receita das empresas. No comércio ela oscila entre 10 e 15%, com tendência a cair. Na indústria a queda deve ser mais acentuada. O que se tem feito é aproveitar essa queda para diminuir os preços de venda e ganhar competitividade. A ideia aqui é a criação de um fator que leve em conta o contingente de mão de obra para se definir um imposto no qual o empresário que tivesse maior número de funcionários seria menos taxado. Esse imposto serviria para financiar o Salário Básico.

Esse assunto importante vai ter que ser discutido em breve para não chegarmos a uma situação se convulsão social. A reforma devia ter trazido no seu bojo uma orientação nesse sentido.

Boa sorte para todos nós.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Populismo e Democracia

Em Maio apresentamos os três desafios com os quais o nosso Planeta está tendo que lidar: o Nuclear, o Ecológico e o Tecnológico. Hoje vamos tentar mostrar a ferramenta que está sendo usada para inviabilizar o sucesso nessas três empreitadas: o Populismo. 

Existe enraizada na mentalidade das pessoas a ilusão de que a democracia é uma conquista que já está concretizada. Isso não é verdade. O que acontece é que as armas usadas pelos inimigos da democracia mudaram, e ela se viu despreparada para lidar com a nova estratégia inimiga. 

Nosso continente Latino Americano é um exemplo claro dessa nova realidade. Até recentemente o que se via eram desafios que nos levavam a lutar contra inimigos explícitos, que deixavam claro o seu objetivo de destruir a democracia, atacando-a tanto pela direita como pela esquerda. Hoje tudo mudou, e o que se vê é a democracia sendo usada para, através dos seus próprios critérios, deixar que floresçam líderes que se dizem os representantes legítimos do povo, e o levam a se voltar contra o sistema político vigente. 

Ser populista nos dias de hoje é saber usar a frustrações do cidadão comum com uma linguagem que leva em conta o fato de seu entendimento das coisas ser limitado. Tudo começa com o convencimento de que ele, o populista, não pertence ao sistema político vigente, isso mesmo que ele esteja imerso nesse sistema por décadas. Os políticos tradicionais permitiram o surgimento desse personagem no instante em que não deram a devida atenção ao imenso potencial que a nova mídia colocou à sua disposição, e eles não a souberam usar. 

É aí que o populista se coloca, com um custo irrisório, como uma alternativa rápida de derrubar o status quo e destruir aquilo que ele chama de velha política. Nesse mundo globalizado surge todo tipo de estudiosos desse assunto, e me chamou a atenção um alemão filho de mãe judia polonesa de nome Yasha Mounk, que foi entrevistado nas Páginas Amarelas da Veja de 17 de abril. Mounk é professor da Universidade Johns Hokpins e é autor do livro "O Povo contra a Democracia" (Companhia das Letras). Sua tese é a de que a estreita relação entre democracia e liberalismo deixou de existir, o que está resultando em risco à estabilidade e ao progresso do mundo ocidental. 



O acordo entre  liberalismo e a democracia resultou na garantia de que todo indivíduo tem a liberdade de decidir o que quer falar, de escolher sua religião, e de fazer de sua vida privada o que bem entender. Esses conceitos foram gerados da Revolução Inglesa e adotados pelos fundadores da nação americana, e nos defendem contra os abusos de eventuais tiranos, inclusive os eleitos, além de proteger as minorias. 

O controle desse processo se dá através do voto, que em princípio irá impedir que ditadores tomem decisões por nós. No entanto esse equilíbrio se rompe na medida em que os eleitores começam a dar atenção a populistas; quando esses trazem a mensagem que, para resolver nossos problemas, se torna necessário ignorar as salvaguardas mostradas acima. A sociedade se vê dona da opção de liberar os seus instintos destrutivos através do voto, já que se libertou dos chamados contrapesos institucionais, e passa a impor o modo de pensar da maioria cooptada.

O nacionalismo é um dos instrumentos que o populista usa com grande eficiência. Ele deve ser tratado como uma entidade que pode retornar ao seu estado selvagem se não for devidamente cultivado. No caso brasileiro a direção certa de lidarmos com o nacionalismo é claramente descrita na sua Constituição, que nos propõe uma democracia multiétnica com igualdade total de raça, crença, e mais recentemente de gênero no seu sentido mais amplo (Segundo decisão do STF deste mês de junho, que considerou a homofobia uma forma de racismo, na ausência de pronunciamento do Legislativo a respeito). 

Seguindo nessa linha o anti globalismo é um dos motores do populismo. O ressentimento contra a ideia de que estão drenando recursos de nosso país é muito fácil de ser aceso, e a globalização é facilmente levada à condição de grande culpada pela superioridade social daquelas nações que souberam fazer o dever de casa que nós não fizemos. Por outro lado aqueles que, como eu na minha insignificância, acreditam que o globalismo é a solução, devem sempre ter em mente que o fim dos Estados é uma utopia. É necessário um ponto de equilíbrio nessa relação globalismo - nacionalismo, e é aí que surgem figuras como Trump e vários outros, que conduzem as suas políticas no sentido de desqualificar as ações necessárias a manter a integridade do planeta. 

A pergunta que surge é: uma vez no poder, o que faz o populista tomar decisões nitidamente contrárias à vontade popular? Aí entram as redes sociais com seu poder avassalador de tornar "maioria" as promessas do populista. Vejamos três exemplos:
  • "Grande parte dos evangélicos são favoráveis à mudança da capital. Então, nós estamos atendendo um anseio de grande parte da população, não é da minha cabeça, não é algo pessoal meu" (Jair Bolsonaro)
    Grande parte no caso não é mais que uma pressão de Silas Malafaia, seu importante cabo eleitoral e amigo pessoal, e que promove excursões aos lugares sagrados do cristianismo. O brasileiro mediano sequer sabe que a capital de Israel não é Jerusalém; para ele essa questão tem uma prioridade insignificante, e a comunidade israelense, que certamente é a favor da mudança, deve ser bem informada a ponto de reconhecer que existem implicações econômicas importantes nessa decisão.
    Existe ainda o fato de que essa pressão pela mudança nos Estados Unidos também foi liderada pelos evangélicos, o que de certa forma incentiva o nosso Trump a tomar medida semelhante, sem antes ver que consequência essa promessa de campanha traria para a nossa economia.
  • Segundo o Ibope, 73% dos brasileiros são contra a flexibilização do porte de armas e 26% são a favor.
    37% são favoráveis às novas regras para possuir armas de fogo em casa; 61% são contrários.
    Em cinco meses de governo, Bolsonaro cumpriu a promessa de campanha e editou três decretos sobre posse de armas. Isso sem levar em conta que 51% da população discorda da afirmação de que o aumento de pessoas armadas torna a sociedade mais segura.
    A CCJ do Congresso, seguindo a vontade popular, derrubou o decreto que flexibiliza o porte de armas por 15 votos a 9, ou 63%, o que mostra que pelo menos nesse caso a sociedade foi bem representada.
    "A CCJ do Senado decidiu revogar nossos decretos sobre CACs e posse de armas de fogo. Na terça (18), o PL será votado no plenário. Caso aprovado, perdem os CACs e os bons cidadãos, que dificilmente terão direito de comprar legalmente suas armas. Cobrem os senadores do seu Estado." (Jair Bolsonaro)
    Isso levou o Presidente do Senado a prometer providências contra o que ele chamou de "Intimidação".
    Pois bem, enquanto escrevo esta Post fico sabendo que o Senado aprovou, por 47 votos a 28, o parecer da CCJ. Ou seja, 63% dos nossos representantes agiram do acordo com a vontade dos seus representados.
Esse fato me leva a interromper o meu arrazoado para tentar convencer o meu leitor de algo muito importante: Nossos representantes são legítimos, no sentido que eles são um raio X daquilo que pensamos e queremos. É claro que individualmente você  pode dizer que eu estou redondamente enganado, que VOCÊ não é representado em Brasília de forma alguma. 

É verdade, VOCÊ não é, mas a SOCIEDADE BRASILEIRA pensa e age exatamente como agem seus representantes. Só há uma maneira de melhorarmos esse estado de coisas, e eu entendo que esta mudança já começou a acontecer: precisamos colocar em Brasília mais Kataguiris, mais van Hattens, mais Tábatas. O fato desses jovens estarem aterrissando em Brasília não é mais que o resultado de nós como SOCIEDADE estarmos mudando o que até hoje entendemos como responsabilidade  política. Estamos deixando de ser cordiais para nos tornarmos sociais.
  • O assunto agora é cadeirinha, limite de pontos, etc.
    O uso de assento para crianças ajudou a reduzir em 74% as mortes para essa faixa etária no trânsito em Santa Catarina, de acordo com a mídia local. Imaginamos que, como esse estado tem um alto grau de desenvolvimento humano (IDH), esse coeficiente não é nacional, mas é importante, e diz muito da necessidade da obrigatoriedade desse equipamento.
    Já o caso do limite de pontos existe uma posição majoritária dos especialistas em que algo pode ser feito para que se melhore o procedimento. Como dois terços das multas são de 5 a 7 pontos, 20 pontos são uma numeração baixa. Na minha opinião deveria ser feita uma diferenciação entre o motorista que usa o veículo para locomoção pessoal e o que usa como instrumento de trabalho. Só isso. Aqui o que acontece é que a sociedade também é contrária a esse projeto de lei da forma como ele foi apresentado. Não é segredo para ninguém que as nossas estatísticas em termos de trânsito são uma vergonha, e os especialistas dizem que um aumento do limite de pontos desse porte vai gerar mais mortes. Ou seja, para atender a classe dos caminhoneiros foi apresentado um projeto de lei que pelo visto não contou com a consulta aos órgãos responsáveis por fiscalizar o trânsito.
Então o que nós, vis mortais, podemos fazer para tornar mais civilizada a convivência com as pessoas que não pensam exatamente como nós? Contar a até dez antes de postar qualquer opinião agressiva não deixa de ser uma sugestão interessante. Ver se a sua opinião conta com o apoio da maioria da sociedade ou é algo jogado pelo Populista para criar um grupo que ele pode manipular com facilidade. 

Baseado no que você se sente autorizado a chamar de traidor um senador ou uma senadora que votaram contra o decreto das armas? Pense que na pior das hipóteses eles estariam representando uma imensa maioria de pessoas que acham o decreto uma aberração num país violento como o nosso. Na melhor das hipóteses ele votou com convicção. O tema é polemico e não é porque o Populista gosta de atirar que você deve concordar com ele. 

Boa sorte para todos nós. Os desafios são imensos e esse pobre País precisa de harmonia a tranquilidade. 


quarta-feira, 29 de maio de 2019

A Teoria do Espelho e o Envelhecimento

"Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar de meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu

João Nogueira é um grande poeta da Música Popular Brasileira. Entre as várias obras primas que ele compôs estão duas que me chamam a atenção pela importância de suas mensagens: "Espelho" e "Além do Espelho". Na primeira ele fala da sua infância sem a presença do Pai. Na segunda, transcrita aos pedaços em negrito nesse Post, ele transporta para o seu filho os sentimentos externados na primeira. 

Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor de meu pai não se perdeu
Só de olhar seu olhar sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora no cortejo
E eu no espelho chorei porque doeu
Só que vendo meu filho agora eu vejo
Ele é o espelho do espelho que sou eu

O uso do espelho como ferramenta de transporte de características genéticas foi para mim uma revelação que me fez decorar as duas músicas e as incluir no meu repertório restrito das grandes obras da MPB. João era Filho de músico e Pai do também cantor e compositor Diogo Nogueira, que por sinal, para provar a Teoria do Espelho, tem uma voz que lembra muito a do Pai, assim como a voz de Maria Rita lembra a da Mãe Elis Regina

Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão de meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se meu pai foi o espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu


Espelho - João Nogueira - 1992

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Além do Espelho - João Nogueira - 1992


Já dizia o grande Candeia que "o sambista não precisa ser membro da Academia, ao ser natural em sua poesia, o povo lhe faz imortal". 

Então segundo João Nogueira o espelho é uma boa ferramenta para explicar o legado genético que passamos aos nossos descendentes. Mas isso é tudo?

Pois bem. Há 47 anos acompanho minha esposa no seu ofício de professora de piano. No presente momento ela tem 15 alunos, o que nos dá um retorno equivalente à pensão que recebo do INSS, além da enorme satisfação de vermos um pedaço da sua eternidade se espalhando pela vizinhança dos lugares por onde passamos. Como bem disse o poeta João, "o rio vai pro mar, se transforma em chuva, depois vai pro mar...". Hoje ela tem ex alunos morando em Dublin, Melbourne, pessoas que seguiram a vida artística e se tornado elas mesmas professoras de música, cantoras. Isso sem falar das 5 coreaninhas que lhe dão o prazer de estudar com ela atualmente e lhe mostram a imensa disciplina que possui a sua raça.

Eu mesmo nos meus 12 anos de magistério, e quase 30 de trabalho em várias empresas, devo de alguma forma ter espalhado por aí o meu lado bom e também o ruim entre os mais de 1.000 alunos que tive, os quase 300 funcionários que trabalharam comigo, e as milhares de pessoas com quem interagi. Me impressiona a forma como nós buscamos a eternidade como algo que só ocorre após a morte, e não percebemos que ela é um fenômeno idêntico ao ciclo das águas que tão bem explicou João Nogueira. Está diante de nós e não a vemos. 

Essa história do espelho já me persegue há tempos, e tenho feito algumas considerações a respeito dela. A ponto de criar o que resolvi chamar de Teoria do Espelho, que eleva essa relação com o espelho ao relacionamento pessoal com o qual todos nós convivemos. 

Vejamos o que diz essa Teoria, que ainda se encontra em período de gestação, do qual provavelmente não sairá em função da minha incompetência em torná-la mais clara:
  1. Os humanos têm a capacidade de, em um relacionamento de qualquer espécie, assumir idades anteriores à que possuem,
  2. No entanto eles têm grande dificuldade em assumir idades que ainda não tiveram.
  3. Os homens têm maior facilidade em praticar essa mutação etária, embora esse problema, a meu ver cultural, esteja em processo de extinção.
  4. As pessoas mais jovens têm dificuldade em entender esse fenômeno. 
Vamos tentar explicar como a coisa funciona:

Aquilo que a sociedade chama de assanhamento quando presencia um homem maduro tentando entabular um papo animado com uma mulher bem mais jovem não é mais que uma regressão involuntária decorrente dessa Teoria. Para ele é difícil perceber se a moça está ou não gostando da iniciativa. Ele naquele momento já assumiu a idade da interlocutora, mas ela, por nunca ter tido a idade dele, não possui a capacidade de evoluir na direção da idade dele, para que ambos se encontrem no meio do caminho. 

Tempos atrás, eu acho, essa atitude era mais bem aceita. Havia uma palavra para ela: galanteio. Hoje em dia é lugar comum chamá-la de cantada, que pode até chegar ao ponto de dar algum resultado, para surpresa do envolvido. 

Por outro lado a dificuldade desse relacionamento vingar no sentido contrário, entre um jovem e uma mulher madura, decorre do fato que a figura feminina é excessivamente exposta apenas pelo seu lado, vamos dizer, mercadológico, em que a beleza está automaticamente ligada à juventude. É mais fácil uma mulher jovem se relacionar com um homem maduro que um homem jovem de relacionar com uma mulher madura, pelo simples fato de que o homem jovem está com o seu ideal feminino fixado na Verão, aquela garota da cerveja. Ele não teve a oportunidade de ver no telão uma Anouk Aimée, uma Melina Mercouri.

Me lembrei dessas duas atrizes porque elas aparecem em uma crônica de Affonso Romano de Santana que li anos atrás, quando a minha chama começou a dar sinais de que estava perdendo intensidade. Eu estava envelhecendo e para o minha surpresa minha companheira estava envelhecendo comigo. Aquele espelho que eu idealizei estava seguindo uma trajetória igual à minha, e eu queria que ela ficasse parada no tempo para me ajudar a permanecer jovem ao olhar para ela. 

Minha Teoria inacabada para por aqui. Precisa de mais trabalho e competência para se tornar algo crível, que melhore o relacionamento entre as pessoas a partir do seu entendimento. Espero com certa ansiedade que apareçam comentários que me ajudem a aprimorar essa linha de raciocínio. 

No mais, quero dizer que uma das leituras que mais influenciaram a minha vida foi a crônica do Affonso Romano de Santana. Ela me foi revelada por uma amiga, a Mônica, em um e-mail que chegou no momento exato em que eu estava precisando lê-la. Foi ela que me ensinou que envelhecer é uma dádiva só vai ser entendida como tal se seu companheiro ou sua companheira partilhar com você desse caminho em direção ao inevitável com grande alegria, olhando sempre para trás para não se esquecer da vida maravilhosa que tiveram, e para frente sem medo. O tempo na realidade não existe, muito embora sejamos finitos. 

Deixo então um link para os interessados a acessarem. Sua leitura é recomendada:

  • Para os homens jovens entenderem o que estão perdendo.
  • Para as mulheres jovens perderem o medo de amadurecer.
  • Para os casais maduros melhorarem sua autoestima.
E não se esqueçam de dizer ao(à) seu(sua) parceiro(a) que a ama ao terminar a leitura.




quinta-feira, 9 de maio de 2019

Sobre a Globalização

Temos 193 Estados Membros da Organização das Nações Unidas - ONU. 

Mas o planeta é um só, e se chama Terra. E está ameaçado de novamente explodir em um conflito nuclear. E está doente, com sua temperatura subindo como uma febre, de forma quase incontrolável. E está correndo sério risco da espécie que o controla, a nossa, cometer o desatino de criar entidades manipuladas a partir de si própria ou de seus próprios atributos, que podem acabar por substituí-la.

Os três desafios que teremos que enfrentar têm nome, e se chamam, segundo Yuval Harari em seu terceiro livro, "21 Lições para o Século 21":
  1. O Desafio Nuclear
  2. O Desafio Ecológico
  3. O Desafio Tecnológico
e o grande obstáculo a ser vencido para sermos bem sucedidos nesses três desafios também tem nome, e o nome é Nacionalismo.

As tentativas de se criar um organismo supranacional para tratar de problemas comuns às nações apresentaram até agora resultados muito aquém do esperado. Se não vejamos:

A Liga das Nações

A Liga / Sociedade das Nações, criada em 1919 e auto dissolvida em 1946, tinha exatamente o objetivo de reunir todas as nações da Terra, para manter a paz e a ordem em todo o mundo. Seu Conselho Executivo era composto das potências vitoriosas da Primeira Guerra Mundial: Grã Bretanha, França, Itália e Japão, sendo que mais tarde foram aceitas a Alemanha e a União Soviética. O Congresso norte-americano vetou a entrada dos Estados Unidos por entender que aderir à Liga das Nações não estava de acordo com a sua política externa. 

Se o objetivo da Liga era impedir uma nova Grande guerra o fracasso foi total. A Liga foi dissolvida após o término da Segunda Grande Guerra e recriada no que hoje é a Organização das Nações Unidas - ONU. O Brasil, membro fundador, se retirou da Liga ao ver recusado o seu pleito de fazer parte do Conselho Executivo.

A Organização das Nações Unidas - ONU

Em 24 de outubro de 1945, após o término da Segunda Grande Guerra, 51 Estados criaram a ONU, com a mesma intenção de impedir um novo conflito. Hoje temos 193 estados membros, com sede localizada em Nova York e escritórios em Genebra. A iniciativa de criação de uma nova organização partiu de Franklin D. Roosevelt, e o número de membros cresceu com o processo de descolonização iniciado na década de 1960. Sua função foi comprometida pelo perigo da guerra nuclear, em função da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, mas sua participação foi importante na Guerra da Coreia e na criação do Estado de Israel em 1947. 

A ONU é composta de seis órgãos principais:
  • A Assembleia Geral, deliberativa
  • O Conselho de Segurança, que decide resoluções de paz e segurança
  • O Conselho Econômico e Social, que promove a cooperação econômica e o desenvolvimento
  • O Conselho de Direitos Humanos, que fiscaliza a proteção dos direitos humanos
  • O Secretariado, que fornece os estudos informações e facilidades para o funcionamento da ONU
  • O Tribunal Internacional de Justiça, principal órgão judicial. 
A coisa não andou a contento a partir da ideia de se dar poder de veto a alguns membros do Conselho de Segurança, que é composto de 15 membros, sendo 5 permanentes com poder de veto e 10 eleitos pela Assembleia Geral com mandato de 2 anos. Os membros permanentes são Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China. 

Uma resolução do Conselho só é aprovada se tiver no mínimo o voto de 9 dos 15 membros, porém com a aprovação unânime dos 5 membros permanentes. Um voto negativo de um membro permanente resulta em veto à resolução. Isso é um convite à inação, e na verdade é uma artimanha nacionalista de se evitar ser derrotado no Conselho. A coisa não anda e a ONU se desmoraliza toda vez que um membro permanente usa seu poder de veto.

Fora isso existe uma crítica feroz contra a burocracia dos órgãos, que promovem nomeações totalmente inadequadas. Por exemplo o Conselho de Direitos Humanos, criado em 2006 com o voto contra dos Estados Unidos e Israel (mais Ilhas Marshal e Palau (?)). possui 47 cadeiras distribuídas regionalmente: 13 para a África, 13 para a Ásia, 6 para a Europa Oriental, 8 para a América Latina e Caribe e 7 para a Europa Ocidental, América do Norte, Oceania e Turquia. Que tal então eleger a China, o Sudão, Argélia, Arábia Saudita, Azerbaidjão, Barein, Bangladesa, Cuba, Nigéria, Paquistão, Rússia, Camarões, Tunísia Eritreia e Filipinas, todas nações acusadas de abusos de direitos humanos, para esse Conselho? Foi o que aconteceu e gerou revolta em várias organizações europeias, americanas e canadenses. 

Resumindo, a intenção inicial de se criar uma ONU eficaz esbarrou no expediente que 5 países lideres na época (mas não tão líderes agora) de vetar o que não lhes agradasse. Isso levou o "baixo clero" a criar entidades ineficientes e corruptas, o que transformou a ONU numa organismo desacreditado para lidar com os três desafios atuais. 

A União Europeia

A União Europeia obviamente não é global, mas é composta de 26 Estados Membros independentes, com sede em Bruxelas, Bélgica. Foi fundada em 1993 em Maastricht, na Holanda, pela Alemanha, França, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. 

Tratava-se de um proposta ousada de criar uma potência econômica e política unificada em uma região que já havia sofrido duas grandes guerras mundiais. Ela possui instituições supranacionais independentes, sendo as mais importantes a Comissão Européia, o Conselho da União Europeia, o Conselho Europeu, o Tribunal de Justiça da União Européia e o Banco Central Europeu. O Parlamento Europeu é eleito a cada cinco anos por todos os cidadãos dos Estados que a compõem. 

É provável que nenhuma região do planeta necessitasse mais de um organismo assim que a Europa. Isso tudo fora as vantagens econômicas e políticas resultantes dessa união:
  • União Europeia: 500 milhões de habitantes e 21 trilhões de dólares de PIB
  • Estados Unidos: 325 milhões de habitantes e 19 trilhões de dólares de PIB
Só que a vontade política de se criar um organismo que evite que o nacionalismo gere conflitos tende a possuir uma vida curta. Junte-se a isso o fato de que as pessoas de forma generalizada tendem a colocar os sentimentos à frente da razão. Segundo Harari, se 
as pessoas tomassem sempre decisões racionais não haveria sequer a necessidade de instituições democráticas. Plebiscitos e eleições normais intrigam pessoas racionais pelo fato delas saberem que esses processos de racional não têm nada. Foi de Dawkins o comentário de que não se deveria pedir ao público britânico que votasse o referendo do Brexit, pelo simples fato de que ele não tinha a formação necessária de economia e de ciência política para tomar a decisão correta. 

Isso me faz lembrar o processo pelo qual a nossa sociedade está passando, dividida entre ideologias que estão ultrapassadas e que apenas nos desviam daquilo que realmente deve ser debatido. Estamos numa situação em que aquilo com o que deveríamos nos preocupar perde para os nossos sentimentos. Mas isso é outra história.

Enfim, o resultado do Brexit foi uma semente de dissolução plantada no coração da União Europeia. É quase certo que muito poucos ao votar a favor do Brexit se preocuparam com um eventual conflito nuclear, com o aquecimento global ou com os desafios da inteligência artificial. Eles estavam pensando nos novos vizinhos indesejáveis, que são em grande parte resultado de suas políticas coloniais do passado. 

Por que só a Globalização é capaz de resolver esse Imbróglio

O Desafio Nuclear

A possibilidade de uma guerra nuclear nos persegue há mais de 50 anos, e mostrou suas garras pela primeira vez na crise dos mísseis de Cuba. Foi ali que o gênero humano se deparou com a possibilidade de se auto destruir, e decidiu pôr fim á Guerra Fria e dar início a uma era de paz, da qual ele estava carente em função do acontecido na primeira metade do século XX. 

O apelo nacionalista no entanto resolveu pôr fim a essa conquista, tida como um etapa vencida, e o mundo embarcou em uma nova corrida nuclear, desenvolvendo novas armas. O debate do Brexit na Inglaterra, como já dissemos, ficou restrito a uma conversa de barbearia a respeito da economia e do problema imigratório, ignorando por completo a importância da existência da União Europeia. Os ingleses não perceberam que estavam sabotando um importante mecanismo que garantia a segurança do continente Europeu.

O grande esforço dispendido para se criar um mecanismo internacional que evitou a guerra nuclear décadas atrás está encontrando dificuldade em se adaptar ao panorama atual, onde devem ser atribuídos papéis maiores a potências não ocidentais. A estratégia nacionalista que resultou em duas guerras mundiais, se hoje aplicada, pode destruir o planeta. A prioridade maior é prevenir a guerra nuclear e sair defendendo que "nosso País em primeiro lugar" não ajuda nesse sentido. 

Na verdade os que acreditam que vale a pena defender os interesses nacionais maquiam seus objetivos com palavras tais como "democracia, liberdade, direitos humanos", mas praticam uma espécie de racismo disfarçado em "superioridade cultural". Para dar um exemplo o desafio Americano atual é aprender como lidar com um país "não caucasiano" que objetiva ser o novo líder mundial, em retribuição aos séculos em que foi dominado pelas potências "cristãs".

A ascensão da China é na verdade uma mistura que funciona de duas ideias ocidentais, que um cronista americano batizou de "leninismo de mercado", mas que está deixando os pensadores ocidentais perplexos. A realidade é que tínhamos mais a ver com a ideologia nazista que com a chinesa, pelo simples fato dos nazistas serem caucasianos. Prova disso foi a adesão de boa parte da elite europeia, a começar pela inglesa, a essa aberração. 

Se eu tivesse que apostar, e sou um mau apostador, diria que a ameaça nuclear é mais provável de acontecer com os foguetes virados para o Oriente. Afinal, os Russos são caucasianos e comungam como os Americanos da ideia de que podem usar da força unilateral em qualquer parte de sua área de influência. Invadir um país ocidental para os americanos seria o equivalente à invasão da Crimeia, invasão essa que o Ocidente não teve como combater porque seu líder maior comunga do mesmo ideário. 

É sempre bom lembrar que o Nacionalismo só funciona se for praticado. America First.

O Desafio Ecológico

Se comparado com o Desafio Nuclear estamos falando de uma novidade que não era motivo de preocupação durante a Guerra Fria. Estamos ao mesmo tempo agredindo de forma quase irrecuperável a nossa biosfera, além de esgotando os recursos do planeta. Como se isso não bastasse estamos despejando lixo e veneno que mudam completamente a composição de três dos quatro elementos da Grécia antiga: terra, água e ar. 

De todas as ameaças resultantes a que mais causa impacto é a climática. A impressão que fica ao vermos como estamos tratando desse problema é algo como um teste de resistência com 7 bilhões que humanos e uma infinidade de todos os outros seres da Terra a uma mudança que não ocorre desde quando resolvemos criar cidades e nações. 

Entendo que esse desafio é mais difícil de ser vencido porque nesse caso o perigo de extermínio da vida na Terra se faz de forma "lenta e gradual". Não há o perigo de amanhecermos com um processo de extermínio semelhante a uma Guerra Nuclear. 

O Nacionalismo é um empecilho forte ao enfrentamento desse desafio porque nenhuma nação é capaz de por si só fazer parar esse processo. As mudanças têm que ser feitas a nível global, com pleno comprometimento de todas as lideranças. É preciso que se entenda que quando o assunto for clima ninguém pode se declarar soberano nas suas decisões, muito embora seja possível que alguns países ou regiões possam vir a se beneficiar com isso. 

Por exemplo, a China está mais exposta que a Rússia, tanto em função da elevação do nível do mar quando ao fato dela correr o risco de se transformar num deserto enquanto a Sibéria se tornará o novo celeiro mundial. Fora o fato de o Oceano Ártico vir a se tornar a nova rota marítima mundial. Temos então países como China, Japão, que pressionam para uma política de redução e emissão de carbono, enquanto Rússia e Arábia Saudita fazem corpo mole. Mas o maior poluidor, embora seja suscetível em alto grau à mudança climática, está dominado por um nacionalismo míope que se aproveita da situação para tirar vantagem competitiva. Parta ele a mudança climática é uma invenção Chinesa para travar o desenvolvimento do Ocidente. 

O Desafio Tecnológico

Aqui, mais que nos anteriores, esse desafio não será vencido sem a "desnacionalização" das decisões. Por exemplo, se um Estado definir limites à engenharia genética, como ele não possui o monopólio desse conhecimento, cientistas de outro Estado se verão livres para avançar sobre o assunto. Num mundo dominado pelo nacionalismo, ninguém vai se permitir ficar para trás em um processo disruptivo como esse. 

Os dois Desafios anteriores colocam em risco a sobrevivência física dos humanos, enquanto esse ameaça a nossa própria natureza, além de colocar em cheque conceitos éticos há milênios estabelecidos. A combinação das ferramentas disponíveis pode criar seres com traços corporais  e mentais que irão isolar os agraciados por elas de uma massa de inúteis, nos levando a uma nova versão da ideologia nazista em que a eugenia contaria com a contribuição dessas ferramentas. 

Conclusão

O mundo se encontra hoje em uma encruzilhada em que temos de um lado:
  • Uma ameaça nuclear,
  • Um problema ecológico de dimensões globais,
  • Uma economia globalizada,
  • Uma ciência com diversos sítios de excelência espalhados pelo globo.
No entanto ainda temos quase duzentas nações "independentes" politicamente, povoadas por seres que não possuem o entendimento necessário para enfrentar uma alternativa ao Nacionalismo. Isso as torna incompetentes para definir uma estratégia para tratar de seus problemas. A única solução, já que não é possível "desglobalizar" a ecologia, a economia e a ciência, seria globalizar a política. 

Uma Política Global não é necessariamente um governo global, uma utopia distante e acho que inalcançável. Eu cheguei a conviver com uma experiência que deu certo, que resultou em uma solução Global para uma atividade que hoje domina o nosso dia a dia: a Telefonia Celular. 

O Brasil migrou para a Telefonia Celular Digital de uma forma absurda, em que Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro utilizavam uma tecnologia, a CDMA, e o Estados restantes optaram pela TDMA. Essas duas tecnologias disputavam o mercado americano e as operadoras nacionais estavam à mercê dos "inflluenciadores" da época. Com isso você tinha que ter um aparelho TDMA para falar em Recife e um CDMA para falar em Goiânia, por exemplo. 

Na Europa a confusão era maior. Cada país desenvolveu seu sistema analógico independentemente, o que resultou em uma incompatibilidade de serviços. Houve então um esforço para que um padrão único permitisse que toda a Europa falasse a mesma língua em se tratando de tecnologia celular. O ETSI (European Telecomunications Standards Institute) especificou então um sistema de arquitetura aberta, o GSM (Global System for Mobiles). O imenso mercado europeu garantiu o sucesso da iniciativa, e o GSM resistiu às investidas dos padrões americanos TDMA e CDMA. Mais que isso, a rede GSM Global hoje domina totalmente a telefonia celular, com uma participação no mercado superior a 90% (dados de 2014). 

Os fabricantes americanos de infraestrutura celular aderiram à tecnologia GSM, mas mantinham o foco a nível global nos seus sistemas inferiores TDMA e CDMA, tanto que houve um enorme esforço para que fossem preservadas as redes existentes no Brasil. Numa atitude sensata a Anatel decidiu adotar a tecnologia GSM para as novas bandas de telefonia digital e o mercado migrou rapidamente para o sistema GSM. 

A isso eu chamaria de uma estratégia Global de implantação de um serviço que hoje é considerado uma das maiores invenções do homem no sentido facilitar as comunicações e os serviços. A decisão da Anatel foi na direção correta da Globalização do serviço de telefonia celular. Coisa que não foi feita quando da definição do padrão de TV em cores. O padrão PAL-M, uma mistura dos sistemas americano e europeu, é adotado apenas pelo Brasil, numa tentativa absurda de promover a reserva de mercado para os aparelhos de TV em cores.

A isso eu chamo de Nacionalismo sem o menor sentido.