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quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Revisitando o Capitalismo

Em Janeiro de 2013 tive acesso ao livro “As Seis Lições” do austríaco Ludwig von Mises. Esse grande homem, uma espécie de Marx da direita, foi convidado pela Universidade de Buenos Aires para dar um curso de economia em 1958, após a queda de Perón. A finalidade era insuflar na juventude argentina ideias novas após o período de sombras por que passou a nação vizinha. Sua esposa compilou esse curso nas seis lições que vieram a compor o livro.

Nessa época fiz alguns Posts sobre as tais lições. A lição 1 era sobre o Capitalismo, a lição 2 sobre o Socialismo, e assim por diante. Seria interessante a leitura deste Post da época:
https://ceticocampinas.blogspot.com/2013/01/licao-numero-um-o-capitalismo.html
Nele você vai ficar sabendo que:    

- O termo CAPITALISMO, pasmem, foi cunhado por ninguém menos que Karl Marx. Ele não existia antes do seu maior inimigo criá-lo, e nenhum simpatizante teria dado uma designação mais apropriada: Capitalismo é a acumulação de capital feita por pessoas que não consomem tudo o que produzem, o que resulta no motor que aciona uma máquina poderosa que torna possível a existência de uma sociedade altamente desenvolvida e saudável.

- Antes do advento do capitalismo, o destino do homem praticamente não se alterava desde o seu nascimento até a sua morte. Se nascido pobre, pobre permaneceria até morrer; se rico, rico seria para sempre. Não havia brecha nesse estado de coisas. A Inglaterra, por exemplo, tinha 6 milhões de habitantes, dos quais 2 milhões não passavam de indigentes. A literatura está aí para comprovar essa verdade. 

- A população mundial é hoje dez vezes maior que nos períodos precedentes ao Capitalismo. Se ele não tivesse sido criado, a população de hoje permaneceria a mesma, já que o proletariado não teria sobrevivido. Como você tem a probabilidade de 90% de ser um descendente de proletários, você hoje não existiria. Logo, sua existência é a maior prova do sucesso do Capitalismo".

e assim por diante. Acho que vale a pena ler o Post de 2013. Mas a finalidade deste Post é discutir a situação em que se encontra hoje o Capitalismo.

Minha posição é que tudo nesse planeta está fortemente influenciado pelo enorme crescimento do poder das corporações, naqueles países que adotam a democracia como forma de governo. Nesses países os cidadãos foram paulatinamente perdendo sua influência junto aos Poderes instituídos. Já para os que não rezam pela cartilha democrática foi dada a oportunidade de se aproveitar da fraqueza das democracias para, através de uma governança rígida mas altamente eficaz no combate à desigualdade, crescer a ponto de ameaçar o ideal democrático.

A Netflix está explorando com competência essa situação. Recentemente assisti a dois documentários que dão uma boa visão do que está acontecendo:
  • O primeiro é "Saving Capitalism" ou "Salvando o Capitalismo", do economista Robert Reich, ex secretário do trabalho de Bill Clinton. Nele Reich "expõe suas ideias sobre o capitalismo e a desigualdade de renda". Esse filme de 2017 foi indicado ao Emmy de melhor documentário na categoria Negócios e Economia. Se você for assinante Netflix recomento fortemente que assista a esse belo filme, onde Reich defende que o poder das corporação nas últimas décadas prevaleceu em quase todas as decisões de governo.
  • O segundo é "The China Hustle", que descreve as manobras financeiras fraudulentas nas quais banqueiros usam empresas da China para enganar investidores americanos. Uma falha na regulamentação do mercado financeiro patrocinada pelas grandes corporações contra o interesse do pequeno investidor. 

Na verdade o Capitalismo sempre teve uma melhora na seu desempenho toda vez que foi colocado à prova. Nesse ponto ele deve agradecer a Marx e Lenin por ter criado um contraponto que proporcionou uma profunda revisão dos seus procedimentos, revisão essa que pegou de surpresa aqueles que embarcaram na utopia do Comunismo.

Só que agora as coisas mudaram. Não é mais a extrema esquerda o principal agressor do Capitalismo, mas sim a extrema direita, e é isso que é difícil de entender. Arautos desse problema têm aparecido por aí, sendo o mais badalado o francês Thomas Piketty, que em seu livro "O Capital do século XXI" mostra que, nos países desenvolvidos, a taxa de acumulação de renda é maior que a taxa de crescimento econômico. Traduzindo: a desigualdade cresce.

Não li o livro mas pelo que vi nas resenhas Piketty defende que o Capitalismo tem a tendência inerente à concentração de renda, e a solução para esse problema é a taxação mais severa das pessoas mais ricas. Em palestra na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP ele reclamou da falta de transparência do governo brasileiro quanto ao acesso às declarações do Imposto de Renda. Ele também recusou a condecoração máxima do Governo Francês, a Legião de Honra, dizendo que ao invés de conceder prêmios o governo devia estar mais preocupado com o crescimento econômico da França. 

Resumindo: Trata-se de um economista que acredita que a solução para a desigualdade atual se encontra na doutrina que defende a sua proibição pura e simples, a exemplo de várias lideranças tão conhecidas na nossa pobre América Católica. Ele acaba de declarar isso em um novo livro. 

Uma professora de Economia da Inovação do University College de Londres tem se sobressaído nos últimos anos com ideias novas a respeito de uma reforma na doutrina capitalista, e os holofotes se voltaram para ela nesse mundo pós pandemia no qual estamos prestes a ingressar. Mariana Mazzucato é um ítalo americana que entre outras coisas conta com a admiração de lideranças de vão de Bill Gates ao Papa Francisco. Em resumo, o que ela prega é que a economia sirva às pessoas em vez de promover a sua servidão.

Seu grande objetivo é deixar de tratar o Estado como uma entidade burocrática que promove a lentidão. Para ela o Estado deve se tornar o grande investidor nos processos de inovação. A pós pandemia não pode ser simplesmente a volta à normalidade. 

Foi a normalidade que nos levou não apenas a esse caos provocado pela pandemia, como também a uma crise financeira e uma crise climática. Como é possível que uma nação de 212 milhões de habitantes só agora perceba o volume enorme de desassistidos que nasceram "do nada" com a pandemia, os chamados 30 milhões de "invisíveis"? Onde estão as ferramentas do Estado para mostrar isso?

Para Mazzucato a crise só veio mostrar que o papel desempenhado pelo Estado nos últimos 50 anos foi completamente inadequado. "Os governos foram instruídos a se sentarem no banco de trás e deixar com as empresas a administração da economia e a criação de riqueza". Os governos então, por não estarem com as rédeas na mão, estavam totalmente despreparados para enfrentar a(s) crise(s). Palavras de Mazzucato:

Há uma "tripla crise do capitalismo" acontecendo. 

Uma crise de saúde,

Uma crise econômica,

A terceira crise é climática.

Essas crises e a recuperação de que precisamos nos dão a oportunidade de entender e explorar como fazer o capitalismo de maneira diferente. Isso justifica repensar para que servem os governos: em vez de simplesmente corrigir as falhas de mercado quando elas surgirem, eles devem avançar ativamente para moldar e criar mercados para enfrentar os desafios mais prementes da sociedade.

Eles também devem garantir que as parcerias estabelecidas com empresas, envolvendo fundos governamentais, sejam motivadas pelo interesse público, e não pelo lucro. Quando empresas privadas pedem resgates para os governos, devemos pensar no mundo que queremos construir para o futuro e na direção da inovação que precisamos alcançá-lo e, com base nisso, adicionar condições que beneficiem o interesse público, não apenas o privado. Isso garantirá a direção da viagem que queremos: verde, sustentável e equitativa.

Quando as condicionalidades são bem-sucedidas, elas alinham o comportamento corporativo às necessidades da sociedade. No curto prazo, isso se concentra na preservação das relações de trabalho durante a crise e na manutenção da capacidade produtiva da economia, evitando a extração de fundos para os mercados financeiros e a remuneração de executivos. A longo prazo, trata-se de garantir que os modelos de negócios levem a um crescimento mais inclusivo e sustentável".

De uma entrevista à BBC News Mundo

Então fica assim: Uns defendem que a desigualdade leva necessariamente á pobreza, outros defendem que o governo deve sair do bando de trás para definir políticas públicas que propiciem oportunidades de interesse público, dando oportunidade a todos. 

São essas duas palavras grifadas sempre que aparecem neste Post, desigualdade e oportunidade, que têm causado o cisma que corrói as nações ocidentais. Promover a oportunidade, entre outras coisas, é prestar atenção às políticas públicas que dão aos desassistidos as ferramentas que os façam progredir. A forma como vão conseguir isso então vai depender de uma terceira palavra: o mérito de cada um. Essas ferramentas se traduzem em uma escola pública e uma saúde de qualidade, um sistema de transporte eficiente, uma segurança que dê tranquilidade e uma justiça que funcione para todos.

Uma nação que não dá aos seus cidadãos a oportunidade de sonhar em ser um capitalista, que no fundo é um mero acumulador de capital, não tem a licença de defender os ideais do capitalismo. Vejamos um exemplo claro do que estou tentando mostrar: 


Quem se deu ao trabalho de ver o vídeo acima vai perceber que ele trata de um caso real do exagero que é a defesa das opiniões nas câmaras altas de todos os países ditos democráticos. No fundo o que os nossos representantes estão discutindo é pouco mais do que a defesa de suas visões a respeito de desigualdade, oportunidade e mérito. Só que  essas brigas sempre tem resultado em soluções "meia boca" que tentam conciliar o que o protagonista do vídeo chama de "diferença de opinião", que para ele é a essência da política.

Enquanto o Ocidente afunda nessa divisão que muitos chamam de ideológica, que divide as nações em metades irreconciliáveis, uma nova versão de governança está tomando corpo. Wilma Gryzinski, em sua excelente coluna na Veja de 14/10, compara essa nova proposta de governo, que ela chama de "estabilidade de partido único", com o modelo atual que ela chama de "democracia imperfeita". A conclusão a que ela chega é que "é melhor fritar hambúrgeres na América do que desfrutar da estabilidade pseudoconfuciana".

É verdade. As sociedades ocidentais preferem viver em um ambiente onde as ferramentas que recebem do poder público são inadequadas, mas em compensação dispõem das oportunidades de progredir em que pesem as desigualdades que enfrentam. A cena do vídeo acima está na cabeça de todos nós os ocidentais, e vamos defender esse direito de ter opiniões diferentes do vizinho. 

Mas isso não acontece mais. Os Estados Unidos estão divididos, o Brasil está dividido, e não existe em lugar algum um Estadista capaz de mudar esse estado de coisas. É muito provável que os milhões de invisíveis do Paulo Guedes venham a pensar diferente da conclusão de Wilma. O que ela chama de "estabilidade de partido único" os chineses chamam de "democracia consultiva socialista".

Se você acha o teatro inglês é exagerado demais para expressar a energia que é perdida nas infindáveis defesas de posições, assista ao vídeo abaixo para ver onde podemos chegar sem as linhas divisórias que segregam os congressistas ingleses. 


Detalhe: um dos congressistas envolvidos nessa cena foi citado no Post anterior ao defender projeto que libera a posse de armas para parlamentares. 

Existem indícios fortes de que o chamado Capitalismo de Estado pode muito bem acabar prevalecendo. "O Futuro é Asiático" é o título de um livro que defende essa tese, citando entre outras coisas que:
  • Ele já é demograficamente; mais de 50% da população mundial é asiática,
  • A Ásia responde por cerca de 40% da economia mundial.
e segundo Wilma Gryzinski a China é o principal agente das transformações pelas quais estamos passando e quer oferecer aos interessados um modelo de desenvolvimento e de sistema político diferente daquele imposto pelo Ocidente.

Os resultados que a China tem a apresentar da implantação desse sistema nela própria são impressionantes. Em 70 anos mais de 850 milhões de chineses saíram da linha de pobreza, e isso acelerou o processo de redução da pobreza no mundo. Além disso ela oferece ajuda sem pré-condições politicas na Ásia, na África e na América Latina, enviando mais de 600 mil pessoas a mais de 170 países e organizações internacionais, desenvolvendo mais de 5.000 projetos e formando mais de 12 milhões de profissionais. 

Tudo isso foi possível através do trabalho duro que as nações ocidentais declinaram de fazer e o delegaram às nações em desenvolvimento, em particular à China, o que resultou na acumulação de um superávit que a colocou como a nova protagonista da economia mundial.

Como diz meu colega Francisco, é hora de aprender mandarim. Em meu próximo Post vamos tentar uma investigação do arcabouço político chinês, com vistas a concluir se é possível considerar democrática uma sociedade de partido único (ou menos desigual).

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Um Teste da Nossa Posição Liberal / Conservadora

É lugar comum pensarmos que a a sociedade global, mais em função da leniência com que a Democracia tem tratado seus detratores, como também pela forma como seus inimigos se aproveitam dela em eleições livres para diminuí-la, precisa passar com urgência por uma transformação que a torne mais conservadora, nos costumes e também no modo como ela nos monitora. 

Mas dizer que ao controlar os costumes e nos monitorar a faz manter sua característica democrática é uma ilusão, e o que pretendemos neste Post é convidar o leitor a uma avaliação da sua posição no que tange a sua ideologia. Para tanto vamos lançar mão de um artigo do Huffpost de abril de 2.015 assinado por Grasielle Castro: "10 Motivos para temer a Bancada BBB, 'Bíblia, Boi e Bala', do Congresso Nacional".

Observem a data do artigo: 2.015. Isso quer dizer que o movimento conservador não nasceu com Jair Bolsonaro, que viria a ser o quarto B instalado no executivo para acionar as propostas da bancada BBB. Esse grupo heterogêneo e coeso recebeu este apelido da deputada Erika Kokay (PT-DF), "em referência à quantidade de religiosos, delegados e ruralistas" que adentraram na Política, aumentando em muito o seu perfil conservador. 

A escolha do partido pelo qual os BBBs entram na Política é livre, mas uma vez lá dentro passam a valer os preceitos religiosos, as ideias radicais quanto à segurança e o negativismo ambiental. Como as facções não são grandes o suficiente para fazer valer suas propostas, a solução foi um acordo tácito de que uma proposta de um B é apoiada pelos outros dois Bs, e assim fica fácil a aprovação que projetos que seriam rejeitados se suportados por um único B. O então presidente da casa Eduardo Cunha foi importante na criação dessa entidade estranha á democracia, por diluir propostas em frações de vários partidos, ao defender do alto de seu cargo propostas que vinham ao encontro da plataforma que o elegeu, que eram caras à bancada BBB.

A ideia do artigo citado, replicada aqui, é listar 10 projetos apoiados pela bancada BBB, e convidar o leitor a fazer uma auto avaliação com base em quais das 10 contam com o seu apoio. Convém observar que todas são propostas datadas de 2.015, mas que permanecem atuais e inclusive reforçadas em função de acontecimentos recentes. Vejamos então:

1 - Redução da Maioridade Penal

A PEC 171/1993 de autoria de Benedito Domingos (PP/DF) alterava o artigo 228 da Constituição que trata da imputabilidade penal do maior de 16 anos. A redução da maioridade penal foi defendida pelo presidente Bolsonaro e foi incluída em seu plano de governo. 

Vamos da forma mais isenta possível destacar aqui os argumentos a favor e contra a Proposta. Os favoráveis são:

  • Adolescentes de 16 e 17 anos já têm discernimento suficiente para responder por seus atos. Junte-se a isso o fato de já poderem votar.
  • A maior parte da população é favorável. Segundo o Datafolha 87% da sociedade afirmam ser a favor da Proposta.
  • Sabendo que não pode ser preso o adolescente sente mais liberdade para cometer crimes.
  • Muitos países desenvolvidos adotam maioridade penal abaixo de 16 anos. O recordista são os Estados Unidos com 12 anos.
  • Menores infratores chegam com 18 anos com ficha limpa, o que é considerado como uma falha do sistema
  • A redução da maioridade penal vai diminuir o aliciamento de menores para o tráfico de drogas
Agora os argumentos contra
  • É mais eficiente educar que punir, ou seja, a criminalidade entre menores só será resolvida quando for superado o problema com a educação.
  • O sistema prisional brasileiro não contribui para a reinserção dos jovens na sociedade.
  • Prender menores agravaria ainda mais a crise do sistema prisional.
  • Crianças e adolescentes estão em um patamar de desenvolvimento psicológico diferente dos adultos.
  • A redução da maioridade penal afetaria principalmente jovens em condições sociais vulneráveis.
  • A tendência mundial é a de maioridade penal aos 18 anos.
  • A Constituição preferiu proteger os menores de 18 anos da prisão, e isso deveria ser uma cláusula pétrea.
Qualquer posição nesse assunto é fortemente embasada no nosso status social, e me parece evidente que a enorme desigualdade social polariza esse assunto ao extremo. O resultado disso tudo é que fica estabelecido que esse assunto em geral é resolvido na base da informalidade. Existem 17 mil menores detidos no país, ou 1 menor em cada 2.000.

Meu voto é neutro

2 - Alteração do Estatuto do Desarmamento

Em janeiro de 2.019, logo após assumir o cargo de Presidente, Jair Bolsonaro assinou o novo Decreto de Posse de Arma. Políticos, especialistas e entidades comentaram o decreto na ocasião. Vejamos as opiniões a favor:

  • O decreto levou em conta critério objetivo que identifica locais com alta violência.
  • Bolsonaro foi eleito e já defendia em seu programa o direito de comprar uma arma.
  • Desvincula a posse de armas da subjetividade do delegado da Polícia Federal, que era quem autorizava a compra da arma quando a pessoa a solicitava com a alegação de necessidade pessoal.
  • Com a ampliação do prazo de validade do registro de posse será mais fácil manter os armamentos legalizados.
  • Criminosos terão medo de invadir uma casa para cometer assalto.
  • A arma de fogo como proteção pessoal é como a faca, que também pode matar.
  • Países como os Estados Unidos permitem que o cidadão tenha uma arma em casa, como garantia da democracia.
Argumentos contra:
  • A circulação de armas vai aumentar, e mais armas significam mais mortes.
  • Segundo pesquisa da Datafolha a maioria da população é contra a posse de armas.
  • Levantamentos mostram que a maior parte das armas de fogo utilizadas em ocorrências criminosas foram vendidas de forma legítima a cidadãos autorizados, que depois tiveram a arma desviada ou subtraída.
  • O decreto extrapola a competência prevista para o Poder Executivo, e não houve discussão sobre o assunto no Congresso e na sociedade.
  • É um chamariz para a população mas não trará melhorias para a segurança pública.
  • O poder público se omite e entrega o cidadão à própria sorte.
  • Mais armas em casa trazem riscos de acidentes com criança, suicídio, briga de casais e discussões banais.
Aqui eu tenho uma certa experiência própria. Ao me mudar para Campinas em 1978, vindo de um local que era uma zona militar, onde apesar de ser seguro tive um carro roubado, achei por bem comprar uma arma de fogo, a qual me foi levada pelo primeiro ladrão que invadiu a minha casa. 

A resultante disso tudo é que após o decreto de janeiro de 2019 o Governo Federal publicou outros sete, sendo que cada um revoga o anterior. Um exemplo da confusão que decorreu disso: o site da Polícia Federal sobre aquisição de armas para guardas municipais se referencia ao decreto 9.785 de maio de 2019 que já foi revogado. 

Em janeiro de 2019 a Câmara aprovou projeto que é uma versão desidratada do decreto original.

Meu voto é contra

3 - Arma de Fogo para Parlamentar

O presidente da bancada da bala Alberto Fraga (DEM-DF) resolveu legislar em causa própria e apresentou projeto de posse de armas para parlamentares. Com a palavra do autor:

"Tem gente que fica com medo do que as pessoas vão achar, mas que e não tem coragem de falar isso publicamente. Quem se sentir incomodado que não use". 

Segundo Fraga a motivação da iniciativa se deu em função da agressão sofrida pelo deputado Lincoln Portella (PR-MG) durante manifestação da CUT contra a terceirização.

Acho desnecessário apresentar os prós e contras desse assunto. Resolvi mantê-lo aqui mais em função dele nos dar uma ideia do quão longe podemos chegar nesses assuntos de Bala, Boi e Bíblia. 

Meu voto é contra

4 - Estatuto da Família

O Projeto de Lei (PL) 6583 de 2013 que cria o Estatuto da Família se seguiu a uma enquete que perguntava o que seria uma família. Foi criada uma comissão especial presidida por um teólogo, Sóstenes Cavalcante (PSD-RJ), tendo como relator Diego Garcia (PHS-PR), ambos da Bancada da Bíblia. 

Em junho de 2018 o Estatuto da Família foi promulgado. Ele define a família como o "núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável" ou "por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.


O vídeo acima está com 597 mil visualizações, e mostra uma forma simples de definirmos um grupo familiar. É fácil e de aplicação imediata, mas não é bem assim. Aqueles que elegemos para transformar em lei aquilo que tem o poder de nos defender entendem que também podem definir que aquilo que não é o que eles pensam também pode ser considerado ilegal.

Diego Garcia, o relator, entende que família só será considerada como tal se for composta a partir de um casal, sendo esse casal composto por um homem e uma mulher. Já Daniel Coelho (PSDB-PE), entende que esse estatuto é um retrocesso e que o Estado não deve interferir na individualidade dos cidadãos. 

Poderíamos nos alongar um pouco mais, ou muito mais, nessa proposta, mas eu entendo que a nossa posição em assuntos que são mais próximos daquilo que elegemos como fé, os tais dogmas, tornam inútil qualquer discussão. Somente a nossa disposição, partindo de dentro de nós, de reavaliar esses conceitos nos fará mudar de opinião. 

Meu voto é contra

5 - PEC 215, Contra os interesses dos Índios

A princípio o leitor vai concluir que essa PEC nada tem de conservadora. Ela transfere do Governo Federal (e da Funai) para o Congresso a responsabilidade de fazer a demarcação das terras indígenas. O que os índios temem é que os deputados ruralistas, como apoio da bancada BBB, passem a legislar em causa própria. 

Aqui eu vou fazer uma pausa para contar um "causo". Na década de 70 eu e minha esposa íamos pescar no Araguaia, nos hospedando num Botel do pai de um grande amigo meu. Eu e ele saíamos cedinho pra pescar em dois barcos diferentes, que ficavam no meio do rio a uns 100/200 metros de distância um do outro. Isso não impedia que ficássemos conversando como se estivéssemos em uma sala, dados o silêncio e a facilidade com que o som se propaga num rio de águas calmas. 

Pois bem, de repente começo a ouvir uma música, "She is my Girl", sucesso da época. Era um índio em uma bicicleta com um som na garupa, na margem a centenas de metros. 


Conclusão: índios gostam de música pop, gostam da civilização que os dominou, e eu pessoalmente entendo que haveria muito menos problemas se a politica em relação a eles levasse isso em conta. Só que eu, que descendo de índios do lado materno, sei de histórias de brancos que davam de presente nas aldeias roupas de pessoas contagiadas pelo sarampo na região do Tocantins. Ou seja, entendo que eles precisam de um mínimo de proteção do poder público; acho até que isso não devia ser letra da Constituição, mas não confio na isenção de um Congresso BBB pra resolver esse assunto.

Meu voto é neutro.

6 - Estatuto do Nascituro

A Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família, com mais de 200 parlamentares, apresentou o PL 478/2007, o Estatuto do Nascituro, o qual dá direitos ao Feto e inviabiliza qualquer oportunidade de se discutir a descriminalização do aborto. A medida proíbe inclusive o aborto em caso de estupro. 

Aqui se dá o embate entre entre os que defendem o direito do bebê e os que entendem que na verdade essa proposta legitima o estupro e é cruel com as mulheres. Recentemente tivemos o caso de uma criança de 11 anos que engravidou de um tio em São Mateus - ES, e que ganhou repercussão nacional. Os abusos começaram quando ela tinha 6 anos e se mantinham com ameaças de fazer algum mal aos parentes da criança.

A lei é clara, diria aquele juiz de futebol: “Existem três casos pontuais em que o legislador autoriza o aborto. A primeira hipótese é quando não há outro meio para salvar a vida da gestante. A segunda situação que o código penal autoriza o aborto é quando a gravidez resulta de estupro. E o terceiro caso é nos diagnósticos de anencefalia, reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal”. 

Pra encurtar a história, a reação contra a decisão judicial de cumprir a lei, até porque se tratava de um estupro com risco de vida para a criança, foi tamanha que o aborto teve que ser realizado em Recife. A alta da criança do hospital teve que ser feita com a adoção de medidas de segurança para preservar a integridade dela. O nome do médico que cumpriu a decisão judicial foi divulgado por uma maluca extremista. 



7 - Aborto como Crime Hediondo

O Projeto 7443/2006 de autoria de Eduardo Cunha está na mesma linha do citado acima. O argumento de Cunha é que "incluir o aborto como crime contra a vida implica em atribuir a esse tipo penal tratamento diferenciado e severo, que o equipara ao crime de homicídio". 

A mim parece claro que quem é contra ou a favor desse projeto é contra ou a favor do anterior, o que na prática dá peso 2 a esse assunto. Porém ele é de uma importância muito grande para a nossa sociedade, a ponto de se tornar um dos maiores fatores de polarização. 

8 - Punição maior para Médico que Pratica o Aborto

Cunha também entrou com o PL 1545/2011, o qual tipifica o crime de aborto praticado pelo médico quando não for dos tipos admitidos pela lei brasileira, Sua sugestão é punir o médico com reclusão de 6 a 20 anos, além de proibir o exercício da profissão.

O artigo 126 do Código Penal prevê reclusão de 1 a 4 anos. Minha posição pessoal sobre esses três projetos é:

  • Contra o sexto
  • Contra o sétimo
  • Neutro quanto ao oitavo
O aborto clandestino é uma praga que separa os que podem dos que não podem nesse país. Em 2016 foram estimados 503 mil, e essas chamadas "fábricas de anjos" são um raio X da nossa estratificação social. As maiores vítimas do aborto são negras, menores de 14 anos e moradoras da periferia.

"O que mata não é o aborto, é a clandestinidade"

9 - Criminalização da Heterofobia

Num desafio aberto aos que defendem avanços na legislação, Cunha também desarquivou projeto que penaliza a discriminação contra os heterossexuais. A matéria tinha passado pela Comissão de Direitos humanos, onde a relatora Erika Kokay rejeitou a proposta com o argumento de que não existe tal discriminação. O texto foi arquivado e desarquivado por Cunha dez dias depois. 

Meu voto é contra

10 - Dia do Orgulho Hétero

Agora vamos entrar no campo da chacota. O mesmo Cunha (vejam a sua importância para o sucesso da bancada BBB) apresentou projeto de lei para criar o Dia do Orgulho Hétero. O PL 1972/2011 estabelece que a data seria comemorada no terceiro domingo de dezembro. Ainda bem, senão corríamos o risco de ter mais um feriado.

Segundo ele "no momento em que se discute preconceito contra homossexuais, acabam criando outro tipo de discriminação - contra o heterossexuais - e além disso o estímulo à ideologia gay supera todo e qualquer combate ao preconceito (?)".

Meu voto é contra

Conclusão:

Deu pra perceber que se eu fosse um parlamentar votaria contra 7 dos projetos acima e teria posição neutra contra três. Como sou contra o voto em branco eu iria resolver na hora;

Vamos imaginar que na avaliação do índice de conservadorismo teríamos o seguinte:

  • Voto contra vale 0
  • Voto neutro vale 0,5
  • Voto a favor vale 1
Assim sendo o meu índice teria a medida de 1,5 /10. Aqui então vai o convite a os que leram esse Post para avaliar o seu "índice" com base nos argumentos apresentados. 

Se você receber um resultado maior que 5 você pode se considerar um conservador no que diz respeito aos costumes, com intensidade maior o menor dependendo do número que você recebeu. Caso contrário, se seu resultado for menor sua tendência é ser um liberal. 

Mas isso não é necessariamente motivo de preocupação, nem para um lado nem para outro. O importante aqui é sempre levarmos em conta que:
  1. Pensar diferente de você não torna essa pessoa um adversário, muito menos um inimigo.
  2. Trazer essa diferença para o campo político-eleitoral é um erro.
O fato de você ter votado contra a situação em que o governo anterior jogou o nosso país, com a instituição do roubo generalizado, não o obriga a defender as iniciativas conservadoras do governo atual. 

Essa é a nossa mensagem. Eu nunca votei nos candidatos da esquerda brasileira, mas isso não me obriga a defender as posições conservadoras do regime atual. Uma coisa tem muito pouco a ver com a outra. 


sábado, 29 de agosto de 2020

Mudança no Comando Global - Um Novo Império Está Chegando

Em 2.012, numa reunião no Departamento de Defesa Americano, o Ocidente finalmente deu a sua declaração de reconhecimento de uma situação que há tempos se delineava: a de que a mudança que estava em curso levava em conta uma alteração no comando global, se não no protagonista, pelo menos na geografia dos participantes. Nessa reunião Barak Obama declarou:

"Nossa nação está num momento de transição. O mundo está se transformando diante dos nossos olhos, e isso é algo que demanda nossa liderança para que os Estados Unidos possam permanecer como a maior força para a liberdade e a segurança que o mundo jamais conheceu. Iremos, em função da necessidade, promover um reequilíbrio em direção à região Ásia-Pacifico."

Traduzindo: o olhar dos Estados Unidos, que por cem anos focaram nas relações especiais com a Europa Ocidental, agora tinha que mirar uma região diferente. O Ocidente até que tem se esforçado para reconhecer essas mudanças que estão ocorrendo, e a criação da União Européia (UE) é prova disso, mas o Brexit veio mostrar em péssima hora que ainda não está consolidada nas nossas lideranças uma percepção real do tamanho da encrenca.

Vamos dar um exemplo: todos estamos de certa forma informados da existência da UE e da sua composição de 27 países membros, mas se falarmos da OCX certamente muito poucos saberão do que se trata. A Organização para Cooperação de Xangai, fundada em 2.001 pelos líderes da China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão e Usbequistão, é uma sociedade de socorro mútuo cuja finalidade principal é a cooperação para a segurança, a economia e a cultura. 

  • OCX - Fundação: 26/04/1996 - Sede: Pequim, China
  • Países membros: Cazaquistão, China, Índia, Paquistão, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão, Usbequistão                                                                                          
  • Observadores: Afeganistão, Bielorússia, Irã, Mongólia 
  • Parceiros: Arménia, Azerbaijão, Camboja, Nepal, Sri Lanka, Turquia 
  • Convidados: Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático, composta de 10 países), CIS (Comunidade dos Estados Independentes, 11 repúblicas que pertenciam à antiga União Soviética), Turcomenistão.
  • Línguas oficiais: Chinês e Russo
  • Site Oficial: http://www.sectsco.org/

Seus seis países membros são responsáveis por 60% da superfície da Eurásia e sua população, se incluirmos es Estados observadores, corresponde a metade da população mundial.

Imediatamente surgiram reações tímidas por parte dos donos atuais do poder, que taxaram o grupo como promotor da violação dos direitos humanos, mas a verdade é que, como mostra a composição atual do grupo, vários países aderiram a essa nova congregação, a ponto de o Primeiro Ministro turco declarar que a OCX é melhor e mais poderosa que a UE, além de ter mais valores em comum com seu país. É claro que, depois de anos batendo à porta da UE sem ser atendido, Erdogan vislumbrou uma alternativa mais interessante à decadente Europa que o esnoba, mas o certo é que na medida em que os pensamentos se voltam para uma nova ordem mundial, Washington não podia ficar parada vendo os cordões desse teatro de marionetes fugirem dos seus dedos. 

O grande maestro dessa nova ordem se chama Xi Jinping, Em junho de 2.005 em Astana, no Cazaquistão, o presidente anfitrião Nursultan Nazarbayev proferiu palavras que nunca tinham sido usadas em reuniões semelhantes: "os líderes dos estados sentados nessa mesa de negociação são representantes de metade da humanidade". 

Em 2.007 a OCX iniciou mais de 20 projetos de grande escala relacionados ao transporte, energia e telecomunicações. A partir daí tem realizado reuniões constantes sobre segurança, defesa, negócios estrangeiros, economia, cultura, serviços bancários, com os funcionários de seus estados membros. A OCX é hoje um observador na Assembléia Geral das Nações Unidas.

O leitor pode até estranhar a profusão de países cujos nomes terminam em "istão" na lista acima. São 5 entre os 8 atuais países membros. Pois é, ele vai ficar sabendo que existe algo mais acontecendo na região que sempre foi prioritária no relacionamento entre a Europa bárbara e a Ásia culta. Os romanos sabiamente investiram muito mais no lado oeste do seu império, a ponto de mudar sua capital para Constantinopla, para ficar mais perto do centro do mundo. 

Por aqui ficamos sabendo das trapalhadas nas quais o Ocidente se mete no Iraque, no Afeganistão, na Ucrânia, no Irã, e não percebemos que a antiga Rota da Seda está ressurgindo com uma força imensa, mais em função dos recursos naturais enormes nos países compreendidos entre o leste do Mediterrâneo e o Himalaia. Enquanto o Império atual se desgasta impondo sanções aos países que ainda domina e dos quais depende, causando grandes privações às suas populações, o novo pretendente à hegemonia caminha no sentido contrário, criando uma infraestrutura de transporte e de comunicações que irá promover uma enorme vantagem competitiva ao Grupo recém criado. 

Como resultado da criação da OCX novas conexões estão surgindo por toda a Ásia, ligando essa região, basicamente repetindo o que vem sendo feito há milênios. O planejamento é perfeito, com as artérias seguindo as necessidades de distribuição da China. A Rede de Distribuição Norte é composta de uma série de corredores de trânsito através da Rússia, Usbequistão, Cazaquistão, Quinsguistão  e Tajiquistão. Já foram abertas rotas ao longo dos 11 mil quilômetros de uma ferrovia que vai da China até Duisburgo na Alemanha, com trens de 800 metros numa jornada de 16 dias, bem mais rápida que a rota marítima a partir dos portos chineses.

Em função disso as empresas estão transferindo suas fábricas para o interior da China. A Hewlett Packard mudou sua produção de Xangai para Chongping, no sudoeste, de onde vão sair os milhões de laptops e impressoras para o mercado ocidental. A Ford seguiu o mesmo caminho e a Foxcom, fornecedora chave de quase todas as fabricantes ocidentais a começar pela Apple, reforçou sua presença em Chegdu, fechando suas instalações em Shenzen

Estima-se que o número que contêineres transportados por trem passará de 7.500 em 2.012 para 7,5 milhões em 2.020, com linhas passando:

  • pelo Irã, Turquia, os Balcãs e a Sibéria até Moscou, Berlim e Paris (vide figura acima),
  • novas linhas ligando Pequim ao Paquistão, Cazaquistão e Índia,
  • fala-se de um túnel de 320 quilômetros sob o estreito de Bering, com trens passando pelo Alasca e Canadá até os Estados Unidos.
As mentes ocidentais consideram a região dos países "istão" atrasada, despótica e violenta. No entanto é bom lembrar que essas terras sempre tiveram grande importância na história mundial; elas eram a rota de ligação entre o Oriente e o Ocidente, e o que vemos hoje é a Rota da Seda ressurgiu, e pouca atenção estamos dando a ela. 

Em vez de dedicar atenção ao "coração do mundo" os economistas criam factoides tais como o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e o MIST (Malásia, Indonésia, Coréia do Sul e Turquia). Na verdade eles deveriam estar olhando para o que eles chamam de "Oriente Selvagem" que está reemergindo diante dos nossos olhos. Os chineses estão com essa estratégia, entre muitas outras.

Não passa pela nossa cabeça sair de férias e visitar Ashgabat no Turcomenistão, que possui um palácio presidencial magnífico:

 Ou a região turística de Avasa no mar Cáspio:

Ou Baku, que me surpreendeu ao receber a sua primeira corrida de Fórmula 1, mostrando ser uma cidade belíssima.

Enfim, novos centros urbanos estão sendo recriados, e até mesmo uma nova capital, Astana, no Cazaquistão, foi erguida em menos de 20 anos:

Pois bem, enquanto isso o Ocidente prefere ridicularizar essa região com personagens tais como Borat:


Outra revolução que está ocorrendo na região é tocada pelas duas grandes empresas de telecomunicações chinesas: Huawei e ZTE. A infraestrutura de cabos de fibra óptica para telefonia e dados com as maiores taxas da atualidade é financiada pelo Banco do Desenvolvimento da China no Tadjiquistão, Quinguistão, Uzbequistão e Turcomenistão, países esse nos quias a China tem interesse em desenvolver projetos de longo prazo com vistas à estabilidade regional, tendo como moeda de troca a riqueza mineral da região. 

Enquanto isso o Ocidente se prepara para considerar a Huawei e a ZTE empresas não confiáveis, banindo-as da expansão 5G da telefonia celular, muito embora a Agência Nacional de Segurança americana (NSA) tenha montado um programa clandestino chamado Operação Shotgiant para se infiltrar nos servidores da Huawei.


Conclusão:

Ao visitar em Portugal as ruínas da cidade romana de Conímbriga, vizinha a Coimbra, ou qualquer outro sítio de ruínas romanas por toda a Europa e Ásia Menor, nos vem a certeza de que os impérios duram mais na medida em que se preocupam em implantar, juntamente com o domínio territorial, uma coisa mais duradoura, que hoje recebe o nome de "soft power". No caso romano foi um enorme legado cultural e linguístico. No tempo em que a arquitetura era a forma mais evidente de demonstrar uma posição mais elevada junto aos dominados foram erguidas centenas de cidades, e a língua latina foi a raiz de inúmeros idiomas. 

Hoje o poder suave se traduz em investimentos que tornem menos evidente a diferença entre o dominador e o dominado, e para isso é preciso que o protagonista esteja em condição de financiar a operação. Não é o caso de nenhuma nação ocidental. O Império atual se tornou improdutivo e dependente de mão de obra externa para sobreviver. 

A China é hoje o país em condição de realizar essa empreitada, quer gostemos ou não do que achamos que vem atrás das suas intenções. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Sobre os Perigos que não Vemos

Antes algumas definições:

Micro-organismos ou micróbios: são organismos que só podem ser vistos ao microscópio. Incluem os vírus, as bactérias, os protozoários, as algas unicelulares, fungos, ácaros, etc.(Wikipedia).

Bactérias: São seres vivos microscópicos, portanto micróbios, constituídos por uma única célula. Elas medem em torno de 1 mícron (1 milésimo de milímetro) e geralmente apresentam a forma de uma bola ou bastão.

Vírus: do latim "veneno", é um agente infeccioso reduzido ao mínimo, uma capsula proteica, cerca de 20 vezes menor que a bactéria. Ele invade as células hospedeiras e interfere em suas funções de replicação. 

Antibióticos: medicamentos usados combater infecções causadas por micro-organismos que infectam outro organismo. Eles não destroem os vírus, mas atingem as bactérias matando-as (bactericidas) ou interrompendo sua reprodução (bacteriostáticos).

Antivirais: medicamentos usados para tratar infecções virais. Os mais conhecidos hoje são aqueles que lidam com o HIV, o vírus da Herpes, da Hepatite B e C, e da Influenza A e B.

Agora um papo informal:

Aquelas pessoas que conhecemos, que se preocupam muito com esses seres que não conseguimos ver, em geral assumem um comportamento extremamente antissocial. Diz-se por exemplo que o grande Louis Pasteur tinha a mania de levar consigo uma lente de aumento para examinar os pratos que lhe eram servidos. Li esta semana no Estadão que Howard Hughes tinha em seus carros um purificador do ar condicionado que ocupava todo o parta malas.

Esse tipo se preocupação na verdade não faz muito sentido. É como se dizer que só devemos nos preocupar com aquilo que podemos resolver. As células humanas constituem não mais que 43% da contagem total de células do nosso corpo. O restante são micro organismos, o chamado microbioma que levamos conosco.

Até pouco tempo atrás se pensava que havia 10 células não humanas para cada humana no nosso corpo, Recentemente esse número foi corrigido para uma relação perto de 1:1. No entanto, geneticamente, essa desvantagem é bem maior. 

O genoma humano é composto de 20 mil instruções que chamamos genes, mas o nosso microbioma pode chegar a 20 milhões de instruções de genes microbianos. Então podemos dizer que o que nos torna humanos é algo muito maior que o nosso DNA, é a combinação dele com o DNA dos nossos micróbios intestinais. São as bactérias do nosso intestino que tornam possível a nossa digestão, regulam o nosso sistema imunológico nos protegendo contra doenças e produzem as vitaminas sem as quais não sobreviveríamos.

A ciência está considerando uma nova abordagem no tratamento dos micróbios que nos habitam, que tem sido até agora a de inimigos em uma guerra. As armas criadas até agora foram os antibióticos e as vacinas, e as conquistas nessa luta têm sido enormes a salvaram muitas vidas. No entanto hoje em dia existe uma certa preocupação, porque este ataque constante aos vilões causadores de doenças também trazem danos muito grandes às nossas bactérias do bem. 

Nos últimos 50 anos tivemos um enorme sucesso na eliminação de doenças infecciosas, mas temos visto um crescimento assustador das doenças autoimunes e das alergias. O ataque que o nosso microbioma sofreu nessa guerra resultou no crescimento significativo do mal de Parkinson, da doença inflamatória intestinal, do autismo, da obesidade. Credita-se a obesidade ao histórico familiar e ao estilo de vida, sem se levar em conta o que pode ter ocorrido com o micobioma intestinal.

Uma experiência conduzida com ratos mostrou que o transplante de fezes de humanos magros e obesos em camundongos pode torná-los mais magros ou mais gordos, com uma mesma dieta. Isso pode provar que o microbioma do obeso está tendo papel de protagonista na sua obesidade. Quando se está doente isso pode ser sinal de que existem micróbios a menos em nosso organismo, e a nova abordagem é introduzi-los. Resumindo, em vez de atacar o inimigo com uma munição pesada que acaba se tornando um "fogo amigo" a ideia é aumentar o nosso microbioma, o nosso exército. 

Outro papo informal

Nossa relação com as bactérias é antiga, e culminou com a descoberta da penicilina, mas é bom não nos iludirmos. Elas são MUITO mais antigas que nós nesse planeta, este é o SEU planeta, não nosso. Seu trabalho nos nossos intestinos é fundamental para a nossa sobrevivência, além de atuarem como soldados contra os micróbios que engolimos. Mas então surge a pergunta: que interesse teriam as bactérias em nos prejudicar, nós que somos o seu planeta? Bem, podemos garantir que a grande maioria delas é neutra ou benéfica em relação a nós. Estima-se que apenas uma em mil é capaz de produzir efeitos danosos em nosso organismo. 

Para essas bactérias e vírus danosos existe uma estratégia. Os sintomas ajudam a espalhar a doença que eles causam. São eles o vômito, o espirro, a diarreia, que os posicionam no sentido de procurar outro hospedeiro. Outra arma utilizada é contar com a ajuda de um colaborador, que os especialistas chamam de vetor, e para isso os mosquitos são fundamentais. O seu ferrão os injeta diretamente no nosso sangue, onde eles podem trabalhar sem que nossos mecanismos de defesa tenham sido alertados para a invasão. 

A malária, a febre amarela, a dengue, a zica, a chikungunya, enfim, centenas de doenças, começam em nosso organismo pela picada de um mosquito. Mas aí surge a pergunta: se a AIDS ficou conhecida pelo contágio através de agulhas, por que o mosquito não é um vetor dela? A resposta que consegui foi que, por enquanto, por se tratar de um vírus novo para o seu organismo, o HIV que ele absorve é eliminado em seu metabolismo. Mas pode acontecer de o vírus conseguir, a exemplo dos outros mais antigos, contornar essa limitação, e aí podemos dizer que a civilização estará realmente em apuros.

Por outro lado o seu corpo possui uma multidão de glóbulos brancos que constituem seu exército defensivo. São perto de 10 milhões de diferentes tipos de soldados prontos para destruir os invasores. Ao sermos invadidos as sentinelas identificam o atacante e convocam os reforços certos para combater o invasor identificado. Enquanto as tropas certas estão sendo preparadas você passa mal e só vai começar a se recuperar quando elas entrarem em ação.

A luta é implacável e os atacantes recorrem a duas estratégias para se defender. Eles passam para um novo hospedeiro, ou se disfarçam para que os glóbulos brancos não consigam detetá-los. Ano passado por exemplo eu sofri um ataque do vírus de uma catapora que me atacou quando criança no interior do Pará. O vírus ficou escondido e 60 e tantos anos depois resolveu transformar meu lado direito do meu abdome numa ferida enorme, a tal Herpes Zoster. Passado algum tempo recorri a uma vacina caríssima para tentar não passar novamente por isso. Acho que todo idoso que acredita em vacinas deveria seguir esse exemplo. A Herpes Zoster adora idosos. 

Mais um papo informal, o último

Assistindo à Globo News vi um epidemiologista cujo nome não guardei dizer mais ou menos o seguinte:

Vamos tentar deixar em paz os vírus porque nós não podemos com eles. Vejam o caso atual: os chineses invadiram o habitat natural dos morcegos. e seus vírus então migraram para os invasores e se espalharam pelo mundo inteiro. A Amazônia possui vírus que sequer conhecemos e a devastação que estamos fazendo, além de resultar em forte impacto ambiental, tem potencial para criar uma pandemia equivalente à de uma Ebola a nível mundial. Existe um vírus chamado Sabiá no Brasil de letalidade equivalente.

Resolvi fazer uma breve investigação no tal Sabiá e encontrei,entre outros:


Resumido: Em 11 de janeiro passado faleceu por febre hemorrágica brasileira em Sorocaba um homem que passou férias no Vale do Ribeira. Entre o início dos sintomas em 30 de dezembro e o óbito ele passou por 3 hospitais, sendo o último o HC da USP. "O vírus identificado tem 88% de similaridade com o vírus Sabiá, mas não é exatamente igual. É um vírus novo", declarou o Dr. João Rebelo da USP.

Trabalhos com esse tipo de vírus só são realizados em laboratórios com nível máximo de segurança e não há nenhum no Brasil, e os pesquisadores que identificaram o vírus não foram mais autorizados a trabalhar com as amostras. Ele está na mesma classe de vírus do africano Ebola que tem a classificação máxima de número 4, que são os causadores de febres hemorrágicas, e o coronavírus SARS. Amostras foram encaminhadas para o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Undos.

Os arenavirus são transmitidos pelas fezes de roedores silvestres que vivem nas matas e áreas rurais e periurbanas. Apesar da ocorrência de casos ser pequena a doença é de uma fatalidade enorme, no mesmo nível do Ebola e do Marburg (cidade alemã, os vírus são democráticos).

Ao ler esse artigo me veio a lembrança que ano passado faleceram no meu bairro duas pessoas com quem tinha grande afinidade. Moro na periferia de Campinas em uma casa agradável para se passar uma quarentena, com 15 palmeiras enormes que despejam no mínimo 15 folha por més, que precisam ser picadas e ensacadas caso contrário o lixeiro não leva. Mas vale a pena.

Os sintomas apresentados foram os mesmos para os dois. Como há uma certa incidência de febre maculosa na região, o que faz os moradores encararem com desconfiança a quantidade de capivaras que moram por aqui, a ponto de condomínios fechados terem declarado guerra a elas, essas mortes que ocorrem acabam sindo creditadas à febre maculosa, que é causada pela picada do carrapato estrela. Nos estados Unidos ela recebe o nome de Rocky Montaim Disease. 

Minha mania de passar as tarde pescando nos pesqueiros da região está sub judice em função desses episódios. Não bastassem a dengue, a chikungunya e a zica agora tenho que me preocupar com a febre maculosa e uma eventual Febre Hemorrágica Brasileira. Isso pra não falar da COVID19.

Conclusão

A conclusão a que chegamos é que a orientação que demos ao desenvolvimento do progresso científico está totalmente equivocada. Abro os jornais e revistas e o que vejo são enormes investimentos para enviar voos tripulados a Marte, reviver espécies extintas. Mas no que diz respeito àquilo que nos interessa, a garantia da nossa integridade física, até essa pandemia o que se via não passava de novos remédios de uso contínuo. 

Segundo li não existia grandes novidades no combate aos vírus e bactérias, que nos agridem de forma eventual. Esses remédios não dão lucro de forma contínua. Bastou no entanto uma situação como a atual para mais de 100 empresas se lançarem numa verdadeira olimpíada para conseguir os lucros de uma vacina eficaz. Chegamos ao ponto de governos comprarem  com antecedência todo o estoque de uma vacina futura em detrimento da humanidade como um todo. Albert Sabin se recusou a patentear sua vacina, e deve estar se revirando no túmulo com tanta indignidade. 

Mostrei esses argumentos a uma pessoa muito próxima e ela respondeu que em compensação os progressos tecnológicos levaram a medicina a uma enorme eficiência, principalmente nas intervenções cirúrgicas. Não deixa de ser verdade e eu mesmo sou prova disso: Já fiz mais de uma dezena de cirurgias e com toda certeza, sem a presença de algumas não estaria vivo. O maior exemplo foi um câncer de próstata que foi curado no Sírio Libanês de São Paulo pela mão do Dr. Miguel Srougi em 1998. Tinha me dado 5 anos de vida e já ganhei 22. Houve também uma cirurgia de catarata recente que me facilitou enormemente a visão, E os sete parafusos que tenho na perna direita sem os quais não conseguiria andar. Enfim, desde a minha cirurgia de amídalas aos sete anos que eu convivo com o bisturi. 

Só que vou fazer uma observação: esse progresso todo em uma comparação seria investir fortemente no ensino superior desprezando o ensino básico. Outro amigo ao discutir esse assunto alegou que a medicina no Brasil é de primeira linha dada a excelência de seus cirurgiões em várias especialidades. Sinceramente eu preferiria uma medicina onde a paciente não tivesse que passar o que passa por exemplo pra fazer uma mamografia em um hospital público.

Só que nesse caso provavelmente eu não estaria vivo pra pensar assim...

Pra finalizar um vídeo amigo da minha filha Claudia:




quinta-feira, 23 de julho de 2020

Orçamento Doméstico x Contas do Governo

Neste Post vamos cumprir a promessa de tratar desse importante assunto, que se torna ainda mais importante em função da situação que estamos vivendo, a pandemia da Covid 19. Para tanto vou me basear num artigo muito interessante publicado no site da UOL por Laís Alegretti, uma jornalista que acompanho sempre que posso. 

Laís traça com competência um paralelo entre uma pessoa cheia de dívidas e um governo que não é eficaz na administração das suas contas. Essa comparação faz parte de repertório dos políticos de forma geral, e Michel Temer chegou a envolver Margareth Thatcher nessa armadilha. Segundo ele a Dama de Ferro teria dito:

"O Estado é como uma casa, sua casa, a casa da sua família, você não pode gastar mais do que arrecada."

Procurei no Google as suas famosas frases e o mais perto disso que encontrei foi:



O nosso arremedo de Margereth Thatcher, a pseudo economista Dilma, na sua linguagem confusa, se alongou um bocado pra tentar dizer que:

"Nós precisamos também fazer ajustes. Eu faço ajuste no meu governo como uma mãe, uma dona de casa, fazem na casa delas. Nós precisamos agora dar condições de a gente retomar um novo ciclo de desenvolvimento econômico para gerar mais emprego, para assegurar mais renda e para fazer que o Brasil continue a crescer de forma acelerada." 

Pra que não me rotulem ideologicamente vamos ver o que diz uma eminência do outro lado do espectro político:

Onyx Lorenzoni: "É que nem o pai, que tem um salário e sabe que tem que comprar o vestido de 15 anos da filha lá em outubro, mas ele está em maio. Aí, ele vai vendo o que vai entrando, o que vai gastando, e diz: 'ih, pode ser quem não dê, então não vou sair para comprar churrasco, não vai ter cervejinha no final de semana, eu não vou comprar o tênis do João." 

Os economistas de forma geral concordam em que esse é o tipo de argumento que cabe muito bem numa campanha política, não na prática. Senão vejamos:
  • Você não tem a liberdade de imprimir dinheiro para pagar suas eventuais dívidas,
  • Também não tem o poder de determinar que seus vizinhos sejam obrigados a dar uma contribuição mensal para o pagamento das suas dívidas,
  • Muito menos pode sair imprimindo notas promissórias para vender aos conhecidos por R$ 1.000 com a promessa de daqui a cinco anos comprá-las por R$ 1.300 por exemplo. 
Ou seja, os gerentes das contas públicas possuem ferramentas que não estão ao alcance dos gerentes das economias domésticas. As vendas de Letras do Tesouro por exemplo são atividades permanentes que elevam a dívida pública federal ao bel prazer dos governantes. Leio hoje no Site do Senado que se o déficit de 9% nas contas públicas em 2.020 se concretizar, a dívida pública pode chegar a 90% do Produto Interno Bruto, o chamado PIB. Traduzindo, o Governo Federal pode chegar ao fim do ano com uma dívida que seria equivalente para uma família a 90% da soma dos salários anuais de seus membros. 

Hoje em dia está na moda governos recorrerem à pura e simples impressão de dinheiro para saldar seus compromissos. Leio também que o Banco Central vai imprimir mais dinheiro para pagar o Auxílio Emergencial decorrente da pandemia da Covid. Se você por acaso apelar para esse expediente vai acabar na cadeia.

Outro expediente comum por parte do poder público é criar o chamado "spread" nas contas dos bons pagadores para compensar o que os maus pagadores não pagam. Se ele não está praticando isso normalmente, ele dá aos agentes financeiros a permissão para que o façam com a conta corrente que você tem com eles. É comum também, principalmente nas contas das concessionárias dos serviços públicos, aparecerem os tais fatores de risco sob a forma de taxas. 

Como considero importante esse assunto vamos passar à análise rápida das diferenças entre um orçamento doméstico e um orçamento de governo.

1 - Definição da Renda

Um trabalhador pode procurar um aumento de salário, ou um resultado maior no seu negócio, mas não tem o poder de definir quais as chances dessa procura vir a dar resultado. Ou seja, as famílias não definem suas rendas, elas são definidas pelo mercado e cabe às famílias se adaptar aos seus humores. 

O governo possui ferramentas que as famílias não têm, embora seu uso em geral não seja recomendado. Ele pode simplesmente criar novos tributos ou aumentar a alíquota dos existentes. Seria algo como eu chegar ao meu patrão e impor a ele um aumento de salário que ele seria obrigado a dar. 

Estamos passando por isso nesse momento em que finalmente nossos governantes revolveram investir na tentativa de resolver a balbúrdia que é a nossa arrecadação tributária. Fala-se de tudo, simplificação, justiça tributária, menos de garantir que o resultado das várias propostas seja uma diminuição da carga. Uma família resolve esses assuntos exatamente atacando o outro lado do problema: o gasto. 

A dificuldade maior de um administrador do Tesouro Nacional a meu ver é perceber a fragilidade do equilíbrio fiscal. É o que os engenheiros (sempre recorrendo á formação que tive) chamam de "realimentação positiva". Diz o bom ditado que o imposto bom é aquele aumenta a arrecadação e diminui a sonegação, ou seja, você vai pagar de bom grado o imposto até a hora em que vai entender que o retorno que tem da contribuição que faz não compensa. Também não faz sentido ordenhar da vaca mais que o leite que ela tem.

2 - Imprimir Dinheiro

A possibilidade de imprimir dinheiro, exclusiva do dono da moeda, em uma intensidade maior pode gerar muito desequilíbrio. Na medida em que a moeda se torna mais abundante no mercado, aumenta a procura por bens e a inflação bate à porta. É a velha lei da oferta e procura.

A globalização dos mercados mundiais "bagunçou" bastante esse conceito e ele está sendo aplicado em profusão pelos maiores devedores mundiais, em especial os Estados Unidos, sob o argumento que sendo ele o devedor e dono da moeda, basta imprimi-la e pagar a dívida. Com isso ele roda a economia. 

Vejamos como faz o "gringo": 
  • Ele precisa de dinheiro. Quando falo em dinheiro nesse caso estou falando de alguns trilhões de US$.
  • Então ele imprime esse dinheiro e com ele compra de volta as Letras do Tesouro que tinha vendido ao mercado.
  • Propositadamente ele deu um jeito de desestimular que o mercado voltasse a comprar as tais Letras porque a remuneração atual delas está muito baixa, logo o mercado vai ter que aplicar esse dinheiro em outro lugar.
  • Por exemplo em atividades produtivas (isso explica no nosso caso o atual crescimento da bolsa em plena pandemia)
  • Ou vai procurar fora de seu território melhores aplicações. Essa oportunidade nós estamos perdendo por não oferecer condições que garantam o cumprimento dos contratos, e agora temos essa história dos investidores imporem as condições ambientais que estamos dilapidando.
  • Quando o taxa de retorno das nossas Letras do Tesouro davam remunerações imensas, já que o risco que elas ofereciam só motivavam o investidor se a remuneração fosse grande, esse dinheiro vinha pra cá na forma meramente especulativa. O resultado era uma derrama de dólares que forçava a sua queda em relação do Real e fazia a alegria da nossa classe média que ia comprar enxovais de todo tipo em Miami e Nova York.
  • Além disso há o fato de o Dólar se tornar competitivo em relação às outras moedas, para irritação dos seus credores. 
Os Estados Unidos não são os detentores da primazia desse tipo de manobra. O nosso governo passado fazia a mesma coisa de forma interna, o que levava o Presidente do Banco Central a se irritar com o Ministério da Fazenda:
  • O esforço de controlar a moeda era grande, para evitar que a inflação crescesse com a disponibilidade da mesma.
  • O governo insistia em prestigiar os tais "Campeões Nacionais" financiando artificialmente os Joesleys e os Eikes da vida, inundando o mercado com moeda, através do seu Banco de Desenvolvimento.
  • Isso gerava inflação
3 - Taxas e Prazos das Dívidas

Eu mesmo tenho letras do Tesouro Direto para pagamento em 2.030, as chamadas Tesouro IPCA+ 2.030. Pra minha sorte existem pessoas interessadas em comprá-las de mim caso eu precise do dinheiro, mas o Tesouro só vai remunerá-las ao seu proprietário em 2.030. Os juros que ele vai pagar também já estão definidos na Letra; por exemplo a taxa Selic, ou a inflação. Na medida em que for se aproximando o vencimento dessas letras ele sempre tem o expediente de assumir novos compromissos para remunerar as existentes.

Isso quando eu sou credor e o governo me deve. Já quando eu tomo emprestado dinheiro no banco, coisa que raramente faço, se quiser rolar a dívida vou ter que negociar em uma condição muito pior que o governo. Daí que ele tem uma enorme capacidade de sustentar uma condição de déficit grande. Ele tem muitos amigos e sabe como tratar com eles.

4 - Relação entre Receita e Despesa

Não serei ingênuo em defender que o brasileiro tem uma exata noção de como tratar essa relação. Mas vejamos. 

Vamos supor que eu tenho um salário fixo e deixo de fazer uma despesa contínua, por exemplo deixar de fumar. Essa decisão não vai afetar a minha receita mas vai alterar a relação receita / despesa. 

Já o Estado ao gerar uma despesa tem sempre que levar em conta de onde ele vai tirar a receita para cobri-la. Ou seja, o salário que o Estado recebe tem que ser elástico e o seu caixa tem que estar preparado para as eventualidades de forma muito mais séria, já que a sua "família" é muito maior.

Li hoje que a Alemanha provavelmente será a nação que vai sair em vantagem na pós pandemia. Isso vai se dever ao fato que ela é mais disciplinada no trato dessa relação. Sua dívida está controlada, sua reputação quanto à excelência de seus produtos é conhecida, sua capacidade tecnológica é evidente. Mas o que mais contribui para fazer a diferença na crise é como esta está preparada para enfrentá-la. 

O seu sistema governamental centenário que cuida das relações de trabalho paga às empresas para que elas mantenham os trabalhadores em jornadas mais curtas durante as crises temporárias. A Austrália também tem um programa semelhante, que eles chamam de "job keeper (guardião do trabalho)". 

Trazido para o ambiente doméstico a palavra mais adequada que eu encontro é "colchão". Você tem que se disciplinar para enfrentar a eventualidade, e nisso nós como sociedade somos muito incompetentes, e não temos como nos queixar da igual incompetência dos nossos governantes. Eles são nós, e nós somos eles.

5 - Títulos da Dívida como Poupança

Esse argumento é muito usado pelos governantes para justificar o uso das ferramentas que possui. Eles o chamam de "papel macroeconômico importante". Para eles o governo deve ter uma dívida porque é com a compra dos títulos dessa dívida que nós programamos a nossa poupança. Ou seja, se o governo não se endivida o cidadão não tem uma educação econômica que lhe permita investir em poupanças mais sofisticadas que a famosa Caderneta ou nos Fundos de Renda Fixa, esses sim seguros (embora estejam remunerando quase nada hoje em dia).

Aí então surgem as diferentes correntes da economia, que acabam por se converter em correntes ideológicas pelos políticos: o que o governo deve fazer com o dinheiro que recolhe se endividando, dinheiro esse que é nosso, a poupança para garantir o nosso futuro ou para melhorar nosso presente. 

Uma corrente, chamada keynesiana, defende que o governo, em tempos de crise, deve aumentar sua dívida para evitar o colapso econômico.

A outra corrente, a liberal, defende o corte dos gastos nessas situações. 

Daí a chamar uma corrente de esquerda e a outra de direita é um pulo, que os políticos usam em suas tribunas. 

Nesse momento que estamos vivendo essas duas correntes se digladiaram pra valer: a equipe econômica resmungou mas, diante do tsunami que nos atingiu, acabou por concordar com o tal auxílio emergencial, que no fim das contas deu um alento à nossa combalida economia. Ponto para Keynes. 

Aí é que vemos a grande diferença entre o orçamento doméstico e o público. Enquanto o cidadão perdia emprego, cortava a escola privada dos filhos e o iFood, dava graças a Deus por trabalhar em casa, em resumo assumia a corrente liberal de cortar as despesas, o poder público tomava atitude contrária, em que pese o negacionismo dos liberais da linha de Chicago. 

Nessa hora a "manada" quer do governo exatamente aquilo que acabou, dentro das nossas obvias limitações, acontecendo, um afrouxamento em todos os dogmas liberais que têm dominado a nossa política nos últimos anos. 

A doméstica tendeu à liberalização, a pública tendeu à socialização....

sábado, 4 de julho de 2020

A Importância da (Re)Leitura e a Pandemia

O volume de pessoas que sucumbem ao estresse em ocasiões pelas quais estamos passando impressiona. Vejo esse fenômeno como um sintoma do nosso despreparo para enfrentar situações inusitadas, e também ao fato da tecnologia nos ter afastado de uma ferramenta fundamental para propiciar o nosso encontro com nós mesmos.

Aqueles que ainda estão contaminados pelo dia a dia dos estudos e do trabalho sofrem o baque de ter que adaptar sua rotina a um lugar que em geral eles encaram como algo só um pouco além de um dormitório: a sua casa. o seu lar.

Os profissionais sentem falta do famoso cafezinho, do almoço no restaurante perto do ou no próprio local de trabalho, socializar com os colegas, ouso dizer até do sacrifício de ter que se deslocar para trabalhar, sair de casa. Os alunos reclamam da falta de experiência dos professores, e deles mesmos, em aulas "on line". A quantidade de laptops é insuficiente para atender os pais e os filhos, o espaço é exíguo para receber tanta atividade...

Já para aqueles como eu que há 14 anos se livraram dessas obrigações a coisa, que deveria ser menos traumática, pelo que estou vendo ao meu redor, estranhamente não é, piora. Os motivos alegados são muitos:
  • As reprises dos programas esportivos são muito chatas; não há nada mais constrangedor que ver a seleção de 1970 repetidas vezes, ou a de 1958, nos dizendo que nunca mais teremos um futebol como aquele.
  • Os filmes da Netflix que interessam já foram todos vistos; essa semana cheguei a essa conclusão, e também concluí que não há nada mais estressante que seguir uma série de 8/9 temporadas. 
  • Aquele telefonema para os parentes e amigos, que nos aliviaria da falta de papo, está fora de moda. O certo hoje em dia é apertar o microfone do WhatsApp, falar alguma coisa, e esperar que o destinatário responda, o que pode durar dias.
  • Comer fora.... a feijoada de sexta é entregue por uma moto em uma quentinha de isopor que traz o torresmo já encharcado pelo feijão.
e por aí vai. Só que dia desses me deparei com minha mulher lendo um livro que eu tinha certeza que ela já tinha lido. Imediatamente temi pelo fato de, como estamos naquela idade em que temos a obrigação de levar em conta aquele famoso alemão, algo estivesse acontecendo:

- Acho que nós já lemos esse livro.
- É, mas eu gosto de reler coisas que eu li e gostei..

Aí eu me lembrei que tem um livro do Bertrand Russel que está sempre presente em algum lugar da casa, e vejam que este mês estamos fazendo 50 anos de casados

O tal livro onipresente

Mas o livro de que estou falando é outro; trata-se de um tijolo de 541 páginas que me foi presenteado por um grande amigo. Reler um livro desse tamanho quando a Amazon oferece 1 milhão de títulos me pareceu à primeira vista um despropósito, mas eu pensei melhor, esperei ela terminar a leitura (o que ela faz com voracidade), peguei o livro, levei pra minha mesa de cabeceira, e iniciei sua releitura.

O livro que motivou esse Post

São 30 capítulos que, como bem diz o título, tratam de quase tudo, desde a idade da Terra, do seu peso, do que é composto o átomo, até aqueles ácaros que habitam os nossos travesseiros aos milhões. Me lembro que quando o li pela primeira vez o fazia em regime de partilhamento com outro livro, o que agora vejo que foi um erro. Também me lembro que a velocidade com que li agora foi muito maior: não há futebol ao vivo, nem o bar de sábado, nem o churrasco com os amigos na quarta...

E há o prazer da releitura que minha mulher me induziu a gostar. Pensando bem, se expandirmos esse argumento poderíamos alegar que, já que o número de músicas e o de gêneros musicai são enormes, não faz muito sentido eu pôr pra tocar de vez em quando o segundo movimento da sétima de Beethoven, ou o adágio do concerto de Marcello para oboé:


Eu já ouvi essas músicas tantas vezes, pra que ouvi-las de novo em vez de me aventurar em outros sons?

Então ficou acertado que, já que a vida é finita e não haverá tempo para ler o milhão de títulos da Amazon, parte da minha atividade de leitura vai ser na verdade releitura. Inclusive já reservei um espaço no escritório para guardar os candidatos. São eles:

Ficção:
  • O Silêncio do Delator, de José Nêumane (Já dei esse livro para vários amigos)
  • Os Buddenbrook, de Thomas Mann
  • Os Filhos da Rua Arbat, de Anatoli Ribakov
  • O Cemitério de Praga, de Humberto Eco
Não ficção:
  • O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, de Machael Baigent e outros
  • A Bíblia Sagrada (fico em dúvida se seria ficção)
  • Aprender a Viver, de Luc Ferry
  • Pós Guerra, uma História da Europa desde 1945, de Tony Judd
  • Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas, de Robert Pirsig
  • João de Ferro, um Livro sobre Homens, de Robert Bly

Os do Harari deixei de fora porque são de leitura recente, precisam dar cura. Os livros acima eu classifico entre aqueles que tiveram o mérito de mudar a orientação do meu vetor inteligência. Estranho chamar a inteligência de vetor, mas esse é um conceito que me foi dado por um professor de Física que tive, que definitivamente mexeu com a minha. 

Ele estava falando sobre grandezas, e deu como exemplo a burrice e a inteligência: Para ele a burrice era uma grandeza escalar; um burro é um burro, dois burros multiplicam por dois a burrice do ambiente onde se encontram. Já a inteligência é vetorial; um inteligente possui uma massa, que pode ser medida pelo tal Quociente de Inteligência (QI) e um vetor, que orienta a inteligência (para a virtude, para o crime, para a esquerda, para a direita, etc.)

Dito isso concluímos que, enquanto dois burros duplicam a burrice escalar, sem orientação, dois inteligentes não duplicam a inteligência, e podem até anulá-la, o que está ocorrendo agora em nossa sociedade polarizada. 

Estão eu concluo que a leitura, e agora a releitura, se não têm o mérito de aumentar a massa inteligente, o QI, têm o de levar o vetor inteligência a portos amigos, que vão nos propiciar a oportunidade de nos tornarmos melhores cidadãos, menos inúteis mesmo nas situações como a que estamos enfrentando. 

Agora vamos dar umas canjas com base no livro Breve História Sobre Quase Tudo:

Canja número 1:

Dia 23/06 ocorreu um terremoto no México, com epicentro no Estado de Oaxaca, com magnitude 7,5 (um terremoto 7,5 é 10 vezes mais forte que um 6,5, ou 100 vezes que um 5,5). Sem danos apesar da intensidade por ter ocorrido longe de lugares habitados. Imediatamente passei a ouvir queixas tipo "não bastasse a Covid os coitados ainda têm que aguentar terremoto, por que a Natureza (ou quem sabe Deus) é tão ruim com a gente?"

Muito bem. Segundo sabemos a Terra possui a característica de ter um núcleo quente, o que não é comum a todos os planetas. O terremoto não e mais que uma manifestação desse núcleo que rompe a crosta da superfície em alguma emenda dela. 

Suponhamos que esse núcleo quente não existisse. Como a Terra tem uma idade estimada em 3 bilhões de anos, ela já deu até hoje 4 x 360 (dias) bilhões de voltas em torno de si mesma, o que leva a estimar que ela teria um formato liso como uma bola de sinuca. Só que nesse caso a quantidade de água que ela possui a levaria a ter toda a sua superfície coberta por mais ou menos 4 quilômetros de água. Melhor seria chamá~la de planeta Água. 

O que faz a Terra possuir uma pequena parte da sua superfície livre da água é exatamente o resultado da ação dos terremotos, que forçaram a formação das montanhas e das áreas acima do nível do mar. Não fosse isso não existiria terra firme, e o nosso antepassado não teria tido a péssima ideia de deixar de ser um habitante das águas milhões de anos atrás. Seríamos hoje quem sabe primos mais próximos dos mamíferos que por lá ficaram. 

Canja número 2:

Em 1982 fui morar no Vale do Silício por um ano, fazer um treinamento em projeto de circuitos integrados. Chegando lá comprei uma Ford LTD Station Wagon 1976 por US$ 1.500 e um Totyota Corolla 1975 por US$ US$ 1.800. Um grande negócio. Da primeira vez que estacionei a perua pra abastecer percebi que era eu mesmo quem tinha que fazê-lo. Descobri que havia dois tipos de gasolina: regular e unleaded (sem chumbo). Me dirigi à pessoa que iria receber o pagamento e perguntei qual deveria usar. Ele olhou meu carro velho e disse: use regular.

Mais tarde vim a saber que estava havendo um movimento forte no sentido de deixar de se utilizar o chumbo nas atividades industriais: alimentos fechados em latas com solda de chumbo, água armazenada em tanques de chumbo, pastas de dente acondicionadas em tubos de chumbo, arseniato de chumbo usado como pesticida; mas principalmente o uso do chumbo tetraetila na gasolina para reduzir a vibração conhecida como batida de pino (pré ignição).

O autor considera o uso do chumbo na gasolina a pior invenção de todos os tempos. Seu inventor, Thomas Midgley Jr., quase se superou ao inventar também o chamado clorofluorcarbono (CFC) que entrou em produção como gás de refrigeração e quase destruiu a nossa camada de ozônio da estratosfera. Mas voltemos ao chumbo,

Ele é uma neurotoxina. Danifica de forma irreparável o cérebro e o sistema nervoso central. Mas a General Motors, a Du Pont e a Standard Oil formaram uma sociedade chamada Ethyl Corporation que colocou no mundo uma quantidade enorme de chumbo. 

O que se descobriu foi que antes de 1923 quase não havia chumbo na atmosfera, a partir da análise do gelo da Groenlândia, e quem está vivo hoje possui 625 vezes mais chumbo que uma pessoa que viveu um século atrás. O resultados disso ficam a cargo da imaginação de quem vier a ler esses rascunhos.

Canja número 3:

Essa é rápida e é também um afago no ego dos criacionistas:

A chance de uma molécula se autoproduzir espontaneamente.é nula. É algo que nunca deve acontecer. Por exemplo uma molécula de colágeno é formada por uma sequência de 1.055 aminoácidos . Essa probabilidade dela vir a acontecer seria equivalente a termos um máquina caça niqueis de cerca de 27 metros capaz de acomodar 1.055 rodas verticais paralelas, em vez das 3 ou 4 usuais, com 20 símbolos em cada roda (uma para cada aminoácido), e obter a sequência certa.

Coisa pra Deus resolver?

Pois bem, então fica assim:
  • O atleta treina centenas de vezes a largada de uma corrida rápida, o controle da energia em uma corrida longa ou numa partida de futebol
  • Não me lembro de uma unica vez em que minha banda CachaSamba tocou em um bar sem que tenha sido pedida aquela música do Gonzaguinha que fala da luta e do amor.
  • Ou que a minha banda Va Idosos tocou num asilo sem que fosse pedida a Bandeira Branca.
  • Ou que todo ano não batesse a vontade de passar um fim de semana em Gonçalves.
Então vamos nos preparar para a releitura. É uma grande arma para enfrentar a quarentena, por não ser desafiadora e nos fazer reencontrar com momentos passados agradáveis.