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O Populismo Americano

Quando estou sem assunto, em geral aguardo a coluna da Lúcia Guimarães, que sai no Caderno 2 do Estadão, nas segundas feiras. Com sua enorme erudição, ela sempre me desafia a procurar maiores informações naquilo sobre o que ela discorre. Essa semana ela me levou para o estado da Louisiana.

Estamos em 1.935. A Louisiana tinha sido governada de 1.928 a 1.932 por um líder populista, Huey Long, que em seguida se tornou senador. Long era Democrata, e se tornou conhecido a nível nacional pelo seu programa Share Our Wealth (Compartilhar Nossa Riqueza), com o lema Todo Homem é um Rei, no qual ele propunha novas medidas de redistribuição de renda na forma de um imposto sobre ativos líquidos de corporações e indivíduos, para reduzir a pobreza endêmica em todo o país, decorrente da Grande Depressão. Ele também advogava investimentos federais nos serviços públicos, escolas e universidades, pensões para os idosos, e era um crítico feroz das políticas do Federal Reserve, o Banco Central Americano. 


Huey Long

Nada que diferisse muito das ideias de Franklin D. Roosevelt, a quem ele apoiou na eleição de 1.932. Mas Long tinha maiores ambições que ser um aliado de Roosevelt: ele queria ser o próximo Presidente. Só que em setembro de 1.935 ele foi assassinado, e sua influência política a nível nacional desapareceu, ficando restrita ao seu estado, onde foi substituído por sua mulher Rose Long e seu filho Russel Long. 

Mas por quê esse meu interesse em Huey Long? Porque, na minha opinião, Long foi o político americano que mais se aproxima da figura de Lula. Até o seu apelido, Kingfish, aproxima os dois personagens, e um livro lançado em 2.006, Kingfish, o Reinado de Huey Long, de Richard White Jr., descreve Huey Long como o mais notório tirano da história americana, com seu estilo extravagante e mentiras descaradas. Uma espécie de Donald Trump das esquerdas (liberal no vocabulário político de lá).

Ironias à parte, os americanos possuem uma fórmula infalível para ser livrar de populistas de esquerda: eles os matam. Ao assumir a cadeira no Senado, Long continuou mandando na política de seu estado, mas estendeu sua influência por todo o país. Em 1935 ele tinha 7,5 milhões de membros inscritos em seus Clubes Share Our Wealth, e seu programa de rádio tinha 25 milhões de ouvintes. Ele recebia 60 mil cartas por semana (mais que o Presidente). Seu plano era concorrer com Roosevelt, o Presidente em exercício, pela indicação Democrata. Mesmo sabendo que iria perder a indicação, o que ele queria era ganhar visibilidade para concorrer novamente (parece com um personagem nosso?). Em uma carta ao embaixador em Berlim, Rossevelt acusou Long de planejar ser um candidato ao estilo de Hitler, perdendo a indicação mas criando um partido independente. 

Um mês após ter anunciado sua candidatura às primárias Democratas, ele foi assassinado pelo médico Carl Weiss, genro de um desafeto seu, no Capitólio do seu Estado. A versão que ele na verdade foi atingido por seus guarda costas, que mataram o assassino, não é aceita pelos historiadores. 

Antes que surja a pergunta, devo esclarecer que esse tipo de solução por lá é muito mais comum quando aplicada aos políticos vanguardistas. Lincoln foi morto por um defensor da escravidão; James Garfield por atacar a corrupção política e fortalecer a autoridade federal; William McKinley por querer aumentar impostos; Kennedy por propor uma nova legislação de direitos civis. Isso tudo sem citar os ativistas negros, a começar por Martin Luther King. 

Mas por que essa preocupação com um populista da Louisiana? Aí que surge o artigo da Lúcia Guimarães. Segundo ela, o teólogo e filósofo favorito de Barak Obama, Reinold Niebuhr, em seu livro Instrumentos do Fascismo, Nossa Classe Media Baixa, publicado em 1.937, descreveu as condições que levariam à criação de uma força semelhante ao fascismo nos Estados Unidos. A seu ver essa força foi criada a partir das políticas socialistas de Franklin Roosevelt, mas também pelo tiro que matou o populista Huey Long. Segundo o teólogo, "a violência dos tímidos não é um paradoxo como possa parecer, já que a crueldade é uma tentação natural dos fracos". 

A semente criada por Roosevelt em defesa dos desvalidos permanece viva na mente daqueles americanos que acreditam que, com trabalho duro de sua parte, não há porque defender um governo que cria políticas para proteger aqueles que não foram bem sucedidos. Eles nunca tinham se preocupado com essas politicas antes de Roosevelt, e o próprio Roosevelt as criou para tirar seu país de uma depressão nunca vista antes. Tudo era novo, e a reação ao chamado New Deal (Novo Acordo) de Roosevelt permaneceu viva, e foi ressuscitada recentemente com a crise de 2.008, que se juntou à eleição de um Presidente Democrata, que além de ser acusado de liberal era negro. 

Parece que o Fascismo voltou pra valer, e isso é demonstrado pelas demonstrações dos seguidores de Trump: as suásticas, os símbolos da Ku Klux Klan, as exortações ao assassinato de Hillary Clinton, já estavam nas previsões de Reinold Niebuhr. Para ele "o ressentimento social e a confusão política" da classe média baixa são as ferramentas dos demagogos fascistas. Talvez ele não tivesse ideia de que os meios modernos de comunicação viessem a ser uma ferramenta adicional de grande valia para os fascistas chegarem mais facilmente ao poder. 

Lúcia Guimarães faz uma comparação maravilhosa entre o ensaio de Nieburhr e o discurso de Trump:

Niebuhr: "como os judeus são proeminentes em finanças e na organização sindical, ainda que sua proeminência não seja desproporcional como alegam, eles se tornam alvo para esse tipo de histeria".

Trump: "Hillary Clinton se reúne em segredo com banqueiros internacionais para tramar a destruição da soberania dos EUA e assim enriquecer esses poderes financeiros, seus amigos de grupos de interesse e seus financiadores".

Para Niebuhr, os EUA tinham, por seu passado democrático que espantou os governos europeus quando da sua criação, uma imunidade maior que a alemã ou a italiana a esse tipo de chamamento, só que Donald Trump foi infame o suficiente pare erodir essa imunidade. Ganhe ou perca, e ele vai perder, a vencedora vai ter nas mãos um país bem mais dividido que aquele herdado por Michel Temer que, coitado, nem sequer passou pelo crivo de uma eleição.

Esse é outro assunto, mas que merece ser comentado aqui. Entendo que Temer tem como ideia fixa fazer da PEC do Teto a sua marca na história, como fez Itamar Franco com o Plano Real. As condições para isso, muito embora parecidas, a meu ver eram mais fáceis para Itamar:
  • Ambos assumiram a Presidência por meio de um Impeachment,
  • Ambos souberam com sabedoria colocar como locomotiva do seu comboio a Economia, um com FHC na Fazenda e Pedro Malan no Banco Central (no dia 01/07/94 o presidente do BC era Malan), outro com Henrique Meirelles na Fazenda e Ilan Goldfajn no BC.
  • O PT foi e é contra ambas as iniciativas
Só que Itamar não teve pela frente uma oposição tão raivosa como a de hoje, muito menos um Congresso tão depauperado pelos escândalos de corrupção. A figura de Itamar também ajudava; ela era desprovida de mesóclises e seus rompantes causavam uma certa condescendência, a mesma que temos por um amigo aloprado. É bom lembrar que Itamar apoiou a candidatura de Lula só porque José Serra era apoiado por FHC, o homem que o fez o herói do Plano Real. Dizia-se que Itamar guardava a vingança na geladeira. 

Acho que Hillary vai se deparar com um ambiente parecido por lá, com um populismo às avessas, vindo do lado direito (melhor dizer fanatismo de direita). Vamos rezar, os crentes, pela integridade de Hillary, e que ela tenha a sabedoria necessária para tourear esse estado de coisas. Diz a lenda que ela tem um pouco de Itamar. Tomara. 



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