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A Busca da Velhice Feliz

Diz um ditado japonês que é imprescindível ter um velho em casa. Algo como "se você não tem um velho em casa, pegue um na rua e o traga para morar com você". Isso nós fizemos por décadas, já que meu sogro e minha sogra viveram conosco por quase 20 anos, até que vieram a falecer. 

Só que não foi necessário buscar outro velho na rua: nós já estávamos velhos, nós éramos os velhos. Isso nos deixou sem ninguém que tivesse sabedoria e experiência para nos transmitir. Éramos nós os transmissores daquilo que faz do ser humano uma corrente de cultura. Um pouco antes meu Pai tinha falecido aos 100 anos e eu me vi duplamente órfão, como que solto no ar, e com um sentimento de responsabilidade sobre o destino de ambas as famílias. 

Tenho uma teoria que ainda não pude desenvolver, que resolvi chamar de teoria do espelho. Ela é mais ou menos assim:

Você pode assumir todas as idades pelas quais já passou, mas não pode assumir idades pelas quais vai passar. 

Ao se deparar com uma pessoa mais jovem, a não ser que haja um espelho por perto, você rapidamente regride à idade dessa pessoa. Só que tem um detalhe: ela não é capaz de progredir à sua idade, já que ela ainda não passou por lá. É necessário ter sempre isso em mente nesse tipo de diálogo, já que, como diz um amigo meu, velho não dá cantada, faz galanteios, e o galanteio, infelizmente não faz parte do dia a dia de hoje, e é quase sempre mal interpretado. 

Minha mulher dá aulas de piano para alunos(as) que vão dos 6 aos 84 anos, e fico impressionado com a forma que ela conduz as aulas para as crianças. Ela é uma mestra nesse tipo de regressão, e acho que os alunos a aceitam de bom grado. 

Mas vamos ao assunto do título: Como buscar uma velhice feliz? Uma solução rápida e fácil é procurar uma convivência intensa com os netos, ou mesmo os netos de amigos, já que os meus 4 moram longe. É costume dos índios que os meninos sejam iniciados à vida adulta pelos avós, após passar a infância com as mães, o que faz a figura do avô ser muito cultivada nas comunidades primitivas ou antigas. 

Saímos então à busca das oportunidades que apareceram. Minha mulher rapidamente se refugiou nas suas aulas de música e preencheu sua vida de uma forma ao mesmo tempo agradável e lucrativa. Ela adora as aulas que dá e delas até consegue tirar um provento que chega a suplantar a minha aposentadoria do INSS. Comigo foi mais complicado, Após me aposentar caí na velha armadilha de achar que não iria conseguir ficar em casa sem fazer nada, e trabalhei por mais 8 anos. Não tenho orgulho do que fiz nesse tempo, se comparado com o que fiz na minha vida profissional realmente ativa.

Mas tudo bem. Um belo dia me deparei comigo mesmo de pijama sem ter o que fazer. Minha sorte foi que eu, desde 1982, cultivo um relacionamento com um grupo que tem 38 anos de existência, o CachaSamba, que se reúne todas as quartas para jogar futebol, cantar, comer e beber cerveja (e um pouco de cachaça hoje em dia). Nosso currículo é fantástico, a ponto de eu ter cometido a ousadia de reunir esse grupo, mais amigos de outras plagas, na cidade de Guapé, onde mora minha filha Claudia, para comemorar meus 70 anos, 3 anos atrás:

http://ceticocampinas.blogspot.com.br/2013/10/a-festa-de-guape.html

Nesse último novembro fomos pela sétima vez a Ubatuba, na praia das Toninhas fazer um sambão no quiosque Carumbé, onde somos recebidos pelo Marcelo, dono do quiosque,  com muita alegria. Dessa vez tinha umas 300 pessoas no quiosque para ver e ouvir nossa mensagem:



Esse número obviamente é segundo os organizadores do evento, não segundo a polícia, que não precisou estar presente. Mas tudo bem, esse foi um passo importante que dei na minha procura. Outra decisão importante foi dedicar um certo tempo à Fundação Lemann, na função de tradutor e mais recentemente de revisor de aulas de Artes e Humanidades e de Física. A Fundação Lemann é uma inciativa séria de dar ao ensino brasileiro uma característica moderna e de acordo com as novas técnicas de ensino:

http://www.fundacaolemann.org.br/

Tenho muito orgulho em fazer parte desse grupo de voluntários. Faltava porém um detalhe importante. Eu sentia falta do contato estreito que sempre tive com os mais velhos, embora fosse cada vez mais difícil encontrá-los no meu dia a dia. A solução veio com o convite que me fez o amigo Celso, que me levou a tomar parte, ainda como "noviço", de um conjunto, os Vai-Idosos, que tem por objetivo cantar nas casas que recebem pessoas da terceira idade, de forma temporária ou permanente. 

Foi com muito prazer que, no espaço de um mês, já visitei 4 lugares (um deles duas vezes), e lá pude ver com que alegria somos recebidos. A música é sem dúvida a forma exata de transmitir aquela sensação que consegui ver, na face dos idosos, a sensação de felicidade em se sentirem valorizados pela simples presença de pessoas quase tão velhas quanto elas, que foram até lá apenas para lhes dar uma mensagem de Natal que não custou nada para nós. 


 Os Vai-Idosos em ação (tirada por mim, faltaram o fotógrafo e o Celso,
que estava ao meu lado

 Natal na Casa Reviver, a senhora da direita tem 92 anos

Natal no Lar dos Velhinhos, um lugar fantástico

Quase ia me esquecendo de dizer que, acima de tudo isso, existe o mais importante, que é o amor que eu aprendi a dedicar à minha mulher. Sem ele não pode haver felicidade na velhice. Envelhecer juntos e sempre numa trajetória crescente de afeto, é o ingrediente principal, o sal de todo relacionamento a dois, e esse sal eu consegui mais pela sorte de ter encontrado, até com certa facilidade, a companheira da minha vida. 

Um bom Natal aos que se dão ao trabalho de ler os meus rascunhos





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