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2.018: o Ano para sermos Pessimistas?

Uma página que eu não deixo de ler é a da Sônia Racy nas Segundas Feiras no Estadão. São entrevistas com pessoas que em geral pensam da forma que eu considero adequada. Me chamaram atenção as entrevistas de 27/12 e de 09/01, com Renato Meirelles do Instituto Locomotiva, e com o cientista político Rubens Figueiredo. A primeira com um viés que eu considerei pessimista, a segunda já era de viés mais otimista. 

Hoje vamos analisar a entrevista que eu considerei pessimista. Nós brasileiros nos dias de hoje oscilamos entre estes dois extremos com certa frequência. Eu por exemplo estou estudando se existe relação entre meus dias otimistas e pessimistas e o fato deles serem pares ou ímpares. 

O Instituto Locomotiva ( https://www.ilocomotiva.com.br/ ) atua em pesquisa de mercado com um foco especial nas mudanças que as tecnologias trouxeram para as pessoas que ascenderam economicamente. Segundo Meirelles, seu presidente, a Reforma Previdenciária é de uma necessidade premente, mas não existe qualquer empenho quanto à garantia da empregabilidade das pessoas que não poderão mais se aposentar aos 50 anos. Podemos chegar a uma situação em que só poderemos nos aposentar com 65 anos mas não teremos empregos acima dos 50. 

Segundo o Instituto, 92% dos brasileiros acham que todos os políticos são corruptos, o que leva a termos a população querendo um afastamento da política tradicional, enquanto a política tradicional luta para que isso não ocorra. Como diria Lampeduza, ela promove mudanças na condição de que nada mude. No entendimento da sociedade o "novo" não tem lugar nos estratagemas da política tradicional, e corremos o perigo de em algum momento a corrente social se partir. A desilusão chegou a um ponto de não haver mais a motivação de se ir para as ruas. 

Seria uma ilusão pensar que nas últimas eleições presidenciais tivemos o País dividido em 2. Na verdade ele estava dividido em 3: um terço votou em Dilma, um terço votou em Aécio, e um terço preferiu votar em branco, nulo, ou se absteve (segundo a Veja de 10/01, página 43, "50% da população afirma que hoje vai votar em branco, nulo ou se abster"). Corrigir essa aberração requer um sistema partidário que aceite o novo, mas o que se vê são mudanças estéticas, quando o que a sociedade quer são mudanças nas práticas de se fazer a política. 

Com isso o que temos é a sociedade numa rota que a leva a uma encruzilhada que a faz pensar de forma equivocada, independentemente de sua ideologia. Os mais à direita querem que o Estado passe a intervir mais fortemente na sociedade, o que nos levaria a uma sociedade organizada de forma horizontal, exatamente o raciocínio da esquerda. Corremos assim o risco de vir a escolher em 2.018 um populista, com a opção dele vir ser de esquerda (Lula ou um poste seu) ou de direita (Bolsonaro). 

Ainda segundo o Instituto, 84% dos brasileiros não conseguem ver um candidato que conseguiria tirar o País dessa crise de esperança e medo. Na liderança entre os 16% restantes o destaque, pasmem, é o Papa Francisco. Ao pé da letra isso vem a significar que Lula e Bolsonaro têm suas candidaturas montadas em alicerces frágeis, mas para destruí-los seria necessário um candidato de centro que transmitisse um mínimo de empolgação. 

O diagnóstico que o Instituto faz da sociedade é impressionante: em 2.008 o Brasil possuía 53 milhões de internautas e 10 milhões de universitários a menos. Com isso, metade das classes A e B atual é composta da primeira geração de pessoas que têm dinheiro na família. A conclusão a que se chega com esse quadro é que o bolso não é mais o único fator que leva  a pessoa a tomar decisões:

"Temos milhões de pessoas que ascenderam economicamente, mas que continuam pensando como se ainda pertencessem às classes econômicas mais baixas. São pessoas com bolso de classe A/B,mas com cabeça de classe C/D". 

O que se vê então é um distanciamento entre o capital econômico e o capital cultural. Dois terços das classes A e B não têm nível universitário, 80% nunca viajaram para outro país. Isso implica em uma forma de pensar que não seria imaginável para as classes altas, mas esse fenômeno não é exclusivamente nosso. É sabido que a maior potência econômica também padece desse distanciamento, a ponto de escolher um Trump para presidente. 

Voltando à primeira afirmação de que estamos correndo o risco de abandonar os maiores de 50 anos à própria sorte, o que temos hoje são 54 milhões de brasileiros nessa condição, e esse número deve chegar a 96 milhões em 2.045. Essas pessoas consomem mais que a classe C, mais que todas as mulheres brasileiras, mais que todo o Nordeste. São 1,6 trilhões de Reais de um total de 3,5 trilhões do nosso consumo total. Se eles formassem um país, estariam situados no G-20 do consumo mundial. 

Sou o primeiro a defender a necessidade de termos rapidamente resolvido o problema do déficit previdenciário, mas me preocupa a total omissão quanto ao que vai acontecer com esses brasileiros que não vão poder se aposentar mais cedo e irão ter grandes dificuldades em continuar no mercado de trabalho. Pior que isso, boa parte da sua vida "útil" para a previdência estaria prejudicada pelo simples fato deles não poderem contribuir. 

Faço parte de uma banda, a Va-Idosos, que toca nos asilos de Campinas, asilos de todas as classes, desde o "Lar dos Velhinhos" ao "Recanto dos Lírios". Aprendi muito com esse contato semanal que tenho com essas pessoas maravilhosas que nos recebem cheias de alegria para ouvir a nossa mensagem, que consta basicamente de músicas da Jovem Guarda, do Adoniran, do Miltinho, etc. Me chama a atenção a distância que existe entre o que vemos entre as propagandas da TV e a realidade. Será que as agências de publicidade sabem que os brasileiros maiores de 50 anos respondem por 46% do nosso consumo?

Bem, esse é o meu lado pessimista. estou esperando dos candidatos uma mensagem de como encaminhar esse assunto. Ainda não percebi nada no horizonte, daí o pessimismo. Mas tudo bem; no próximo Post vamos discutir a entrevista de Rubens Figueiredo e tentar adaptá-la ao meu lado otimista. 

Comentários

  1. È isto ai velho Fonte! Tudo é uma questão de enfoque. A Alemanha está preocupada com seu sistema previdenciario, não porque pode faltar dinheiro, mas porque existe o risco dos idosos perderem poder aquisitivo e entrarem em linha de empobrecimento. A Reforma da previdencia no Brasil deveria ser exatamente a solução para os problemas que apontas. Vais ver que as soluções podem ser mais humanas e mais interessantes para o sistema, priorizando o bem estar dos seniores que giram rapidamente o estoque de moeda e assim ativam geração de riqueza na sociedade em geral. Me lembro que na Inglaterra se pagava aos aposentados por semana. Por alguma razão seria.

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