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A Democracia no Fundo do Poço

A Revista Veja de 08/08 traz duas reportagens aparentemente desconectadas entre si, mas que a minha formação de engenheiro insistiram em aproximá-las, acho eu que com algum sucesso. 

A primeira é sobre o matemático francês Cédric Villani, ganhador do prêmio Fields, o Nobel da área. Villani recebeu sua medalha em 2011 e, pelo seu temperamento expansivo, a ponto de ser apelidado de "Lady Gaga da Matemática", se tornou uma celebridade na França, a ponto de ser eleito para a Assembléia Nacional francesa no partido de Emmanuel Macron. 

Durante a entrevista, ao ser perguntado sobre qual matemático merecia sua especial admiração, citou o alemão Johann Gauss, e chamou a atenção para a famosa Curva de Gauss, como sendo a fórmula matemática que melhor descreve o mundo à nossa volta.


A figura acima, a chamada Curva de Gauss ou do Sino, é a demonstração de que um número imenso de fenômenos naturais tem a sua distribuição aproximada por uma média e uma variação em torno dessa média. No caso temos a distribuição da altura de homens adultos de uma comunidade, onde a média de 1,75 m possui o maior número de ocorrências e a quase totalidade das ocorrências se situa entre 1,45m e 2,05m. Meus colegas engenheiros vão achar essa apresentação pouco precisa, mas como disse Villani na entrevista, o problema com o ensino da Matemática é que, da forma como ela é ministrada, o aluno tem que dominar técnicas para depois aplicá-las, o que é um erro. 

A segunda reportagem trata da "Fadiga da Democracia", e traz uma entrevista com um cientista político americano Steven Levitsky, co-autor do livro "Como as Democracias Morrem". Levitsky esteve no Brasil e deu palestra no Insper e na Fundação FHC em São Paulo, as quais causaram grande repercussão entre a elite pensante do país. Ele foi entrevistado pela Veja e chamou a atenção dos jornalistas Lourival Santanna e Helio Gurovitz no Estadão de domingo 12/08. 

Segundo Levitsky as Democracias não morrem mais por meio de golpe militar, como acontecia até os anos 1990, mas sim pelas mãos de demagogos autoritários eleitos com a promessa de destruir a classe política. É bom salientar que essa promessa é feita antes da eleição, e para ela vingar é necessária a ajuda da elite de um dos lados da curva ideológica que compõe o tecido social, a qual se assemelha à curva mostrada acima, onde teríamos a os esquerdistas à esquerda da média, os direitistas à direita da média, e os centristas compondo o centro da curva. 

Ainda segundo Levitsky, um dos lados decide apoiar o demagogo por entender que essa é a única forma de derrotar o outro lado, vencer a eleição, e que após a posse será fácil manipular o aliado que pouco entende dos meandros da política. Foi essa a receita adotada nos Estados Unidos pelos Republicanos ao apoiarem Trump, convencidos que estavam de que só ele seria capaz de impedir um terceiro mandato Democrata. O resultado foi que Trump capturou o partido e os eleitores, a ponto de vários dirigentes Republicanos estarem deixando a política, inclusive o Presidente da Câmara Paul Ryan.

Para preencher os requisitos necessários a se lançar nessa empreitada o demagogo deve atender a quatro requisitos:
  1. violar as regras democráticas,
  2. incentivar a violência,
  3. não reconhecer a legitimidade do oponente e
  4. restringir liberdades civis.
Essas ações são feitas sempre mediante a interpretação da lei de uma forma contrária ao seu espírito, o que dá uma aparência legal às sua ações, que violam aquelas regras não escritas da convivência entre pessoas educadas. Os oponentes do demagogo se veem na situação de terem que recorrer às mesmas ferramentas, sob risco de entrar na arena com armamento inferior, e o resultado disso tudo é que a disputa eleitoral de transforma num vale-tudo. 

Vamos então inverter a Curva de Gauss mostrada acima e tentar demonstrar que o ambiente que Levitsky descreve não é natural, não pertence à categoria dos fenômenos naturais:


Essa curva de cabeça pra baixo descreve com precisão o ambiente político na grande maioria das Democracias, a começar pela Americana, passando pela nossa. Os oponentes à Esquerda e à Direita cresceram desmedidamente e reduziram o Centro a uma insignificância que permite que as duas facções se enxerguem e se digladiem à vontade, sem a intervenção do Centro mediador. Os exemplos de demagogos autoritários podem ser encontrados em ambos os lados dessa curva, e Levitsky cita Hitler, Mussolini, Franco, Perón. Chavez, Putin e Erdogan. Todos eles fizeram uso da democracia para destruí-la. 

Mostrando conhecimento da situação política da América Latina, Levitsky cita Jair Bolsonaro como merecedor do diploma de demagogo que atende aos quatro requisitos acima:
  1. Elogio à ditadura.
  2. Incentivo à violência, dizendo que a solução do Brasil passa por uma guerra civil que mataria 30 mil pessoas, inclusive FHC.
  3. Deslegitimização dos oponentes.
  4. Desprezo pelos direitos humanos. 
O resultado disso tudo é que a Direita Democrática, a exemplo da Americana, decidiu apoiar Bolsonaro, por entender que só assim poderia evitar uma vitória da Esquerda. Na minha visão é evidente que a curva de Gauss invertida não pode ser em hipótese alguma a descrição de algo natural. Da mesma forma que não se pode imaginar a distribuição dos homens de Terra com alturas concentradas nas extremidades e quase ninguém com média de 1,75 metros, é difícil conceber uma situação como a que estamos enfrentando na nossa politica, em que o poder mediador do centro está reduzido a migalhas, e a elite econômica teve que se mover para um lado dessa curva invertida, a da direita. Levitsky diz ter ficado "chocado" ao saber que Bolsonaro foi aplaudido na Confederação Nacional da Indústria.

Para ele esse erro é fatal para a nossa Democracia, que nos últimos 30 anos passou por uma evolução notável, e cuja perda decorrente dessa radicalização levará décadas para ser reparada.

Isso é verdade, mas também é verdade que a nossa Esquerda, quatro mandatos atrás, polarizou a Sociedade com um discurso idêntico ao atual apropriado pela Direita. Para ser eleito Lula teve que recorrer à chamada Carta ao Povo Brasileiro, na qual Lula assumiu compromissos com a Democracia e a Economia, que eram a negação de tudo o que ele pregou na sua longa campanha rumo ao Planalto. Bolsonaro acaba de fazer o mesmo, ou seja, podemos dizer que esses compromissos têm o mesmo valor que contratos celebrados entre clubes e técnicos de futebol. Podemos esquecê-los, não devemos usá-los como argumento de que o demagogo mudou de opinião. 

A triste conclusão a que podemos chegar é que a sociedade, ao que tudo indica e a nível global, com o forte auxílio da tecnologia, que deu voz a praticamente todos, está desistindo da Democracia. Ninguém pode apoiar Trump, Putin, Erdogan, Maduro e o talvez novo membro do grupo Bolsonaro e ao mesmo tempo se declarar Democrata. Já chegamos a uma estado de coisas em que não acreditamos mais que os políticos por nós nomeados são capazes de mudar a política, e delegamos aos demagogos essa tarefa.

E eles estão dos dois lados: Ciro ou Lula de um lado, Bolsonaro do outro, todos munidos de forte apoio popular, o que deixa os Alckmins, Dias ou Amoedos comendo poeira. Isso não é natural. O sino está invertido, ele não vai tocar porque o badalo está encostado na sua carcaça e vai apenas girar.

Existe outra solução para esse estado de coisas a que chegamos? O Roberto Pompeu de Toledo, com sua enorme erudição, propõe um sistema baseado na Democracia dos antigos gregos, que sorteava os seus representantes em vez de elegê-los. As várias sugestôes que aparecem são bem típicas dos sonháticos que habitam esse caldeirão que é a nossa política: as Marinas, os Suplicis, os Buarques, que até chegam a empolgar alguns sonhadores como eles mas ainda bem que não passam disso.

Devo dizer que estou pessimista. A ponto de ter deixado de defender posições. Quem viver verá. 




Comentários

  1. A análise está corretíssima mas é necessário manter a esperança. A alternativa é tão cinzenta que não podemos permitir que seja o destino dos nossos filhos e netos.
    R Gadelha

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  2. Matéria muito interessante, que aumenta nossa capacidade de entender o que está a acontecer.

    ResponderExcluir
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    1. Caro Raul
      É bom saber que alguém na T67 lê e comenta os meus rascunhos. Grato.

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