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domingo, 12 de janeiro de 2020

Sobre Incêndios


Em junho de 1982 eu e minha família viajamos para a Califórnia, mais precisamente para o sul da Baía de São Francisco. Eu iria passar um ano fazendo treinamento em uma empresa que não existe mais, a AMI (American Microsystems Incorporated) em Projeto de Circuitos Integrados. 


Precisava encontrar uma casa que me oferecesse duas facilidades: tinha que ser mobiliada e ter um piano (condição absolutamente necessária, já que minha esposa não pode ficar longe de um). Para minha surpresa, ao abrir o jornal de domingo da região me deparei com o anúncio: "small cottage furnished, with piano (pequeno chalé mobiliado, com piano). Ficava em Los Gatos, um pouco longe do local onde iria trabalhar, em Santa Clara, mas caía como uma luva para nós, um casal com duas filhas.


Segundo o Google a casa permanece igual ao que era em 1982, e a foto abaixo serve para explicar onde eu quero chegar. A casa era minúscula, com dois quartos, um banheiro, uma sala com lareira, uma sala de jantar junto com a cozinha, e uma garagem que nunca usei, como bom americano (garagem por lá é o que os gaúchos chamam de quarto de socança). O quintal era grande e você pode vislumbrar que ele tinha ao fundo um pinheiro, ao pé do qual havia uma churrasqueira.




No primeiro fim de semana na casa decidi fazer um churrasco. Comprei um carvão fedorento e um acendedor que não era mais que óleo combustível. Para ajudar o fogo a pegar adicionei uns galhos secos do pinheiro. Para minha surpresa, ao pegarem fogo os galhos começaram a voar e eu fiquei preocupado com isso. Era verão e o pinheiro estava seco. Se uma fagulha atingisse qualquer galho eu iria provocar um incêndio que provavelmente iria varrer boa parte de Los Gatos do mapa. 

Comentei o fato com o Jorge, um português que morava perto e com quem fiz amizade, e ele me alertou que eu tinha escapado de responder por expor a comunidade ao perigo de incêndio. Assim é a Califórnia, seca e louca pra pegar fogo.

Pois bem, continuei visitando a região após o meu retorno ao Brasil em 1983, em função dos compromissos que assumi com a minha nova função. Em julho de 1.985, estando eu lá, os jornais da área publicaram a manchete: "4.000 abandonam as casas em fogo perto de Los Gatos". O incêndio tinha sido causado por um relâmpago nas montanhas de Santa Cruz, perto de Los Gatos. Fiquei pensando por algum tempo do que tinha escapado. 
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Mudando a página, em 2.008 viajamos mais uma vez, minha mulher e eu, para Melbourne, na Austrália, para visitar minha filha mais velha que mora la desde 2.001 com meus dois netos e marido. Renata organizou um tour que incluía uma estada em Philip Island, onde acontece o GP da Austrália de MotoGP, com uma pesca em mar aberto que acabou não ocorrendo por causa do mau tempo, e uma visita a Marysville, uma cidadezinha que é um cartão postal a 100 quilômetros de Melbourne, onde eu iria visitar um pesqueiro australiano para compará-lo com os daqui. 

A estrada que conduz a Marysville por si só já é de uma beleza ímpar e diz muito do que nos esperava:

Marysville no inverno é uma estação de esqui e possui um jardim maravilhoso, o Bruno's Art & Sculpture Garden, que por si só vale a visita:


Pois bem, meses depois da nossa visita a Marysville, em 7 de fevereiro de 2.009, a cidade praticamente desapareceu do mapa em função de um incêndio que devastou toda a região:


A foto acima mostra à esquerda como ficou a cidade, e à direita como ela está agora. O chalé que alugamos, junto com 97% da pequena cidade, pegou fogo. Dos mais de 400 prédios de Marysville restaram não mais que 14 intactos. Morreram 34 pessoas na área. 
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Já em novembro passado fomos, eu e minha mulher, visitar Alter do Chão. Já tinha visitado essa pequena vila a 30 km de Santarém em 2.000, quando fui a Santarém a trabalho. O Pará possui dezenas de cidades de nome de cidades portuguesas: Óbidos, Porto de Móz, Alenquer, Almeirim, Viseu, Mosqueiro, Soure, a própria Santarém, Alter do Chão, e por aí vai. Isso me obrigou a levar meu Pai para visitar Portugal e conhecer algumas dessas cidades lá, já que entre outras coisas ele foi médico de bordo de um navio que fazia a rota do Rio Amazonas.

Alter do Chão está no roteiro dos locais imperdíveis para serem visitados no Brasil. Somos um país que quase nunca vê o sol se pôr no mar. Em Alter do Chão o sol se põe no Rio Tapajós, que tem mais de 20 km em sua foz, o que impede que vejamos o outro lado:


Estávamos lá, comendo sopa de peixe com saúva taia (tanajura), dançando carimbó, quando surgiu a notícia de que tinha acontecido um incêndio provocado supostamente por quatro brigadistas, com a intenção de obter donativos em dinheiro de ONGs, em particular de WWF-Brasil. 

A versão que correu na cidade foi outra. Segundo o prefeito de Santarém, Nélio Aguiar, a queimada que destruiu parte da Área de Proteção Ambiental (APA) Alter do Chão foi provocada por grileiros e policiais. Isso no entanto não impediu os nossos governantes de envolver até o ator Leonardo DiCaprio nesse assunto. 

Os brigadistas teriam vendido fotos de um incêndio para a WWF por R$ 47 mil, tendo também se apossado de dinheiro da organização que tinha como principal patrocinador Leonardo DiCaprio, que teria doado US$ 500 mil para a WWF em função das fotos vendidas. A WWF negou essas acusações: não havia comprado as fotos nem recebido os tais US$ 500 mil. 

Com os brigadistas já soltos em função das irregularidades do inquérito, já que o Ministério Público Federal afirmou não haver nenhuma evidência dos delitos alegados, ficou clara a intenção de procurar num caso simples de incêndio numa área pequena transformá-lo em uma investida feroz contra uma ONG: 

"Parabéns (à Polícia Civil). Bom trabalho, realmente, (eu) bem disse, né, com provas"
"Quando falei que... não acusei o Leonardo DiCaprio. A imprensa falou que acusei Leonardo DiCaprio. DiCaprio doou dinheiro para ONG que comprou fotografia que...", disse, sem completar a frase. "Pessoal aqui apoiando DiCaprio, deve ser porque ele é mais bonito do que eu".
"Quando eu falei, lá atrás, que deveria, poderia ter dinheiro de ONG (envolvido nas queimadas), esculhambaram aqui. A imprensa para esculhambar o Brasil é (nota) 'dez'" 

Adivinhem quem falou essas barbaridades. Um caso de polícia muito simples, que segundo o dono da pousada onde me hospedei é corriqueiro, acontece todos os anos por sermos brasileiros, sem cultura de aversão a incêndios, acabou se transformando num caso internacional, onde sobrou até para Greta Thumberg, que foi chamada de Pirralha. 

Por sinal, DiCaprio acaba de doar US$ 3 milhões para o combate aos incêndios na Austrália. Espero que os políticos de lá não venham a duvidar das intenções atrás dessa doação. 
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Por ignorância ou má fé fomos inundados no WhatsApp por acusações de hipocrisia, omissão e outros que tais pelo tratamento diferente que a mídia deu aos incêndios na Austrália em relação aos nossos. Já dizia Harari em sue blockbuster Sapiens na página 74 que:

"a jornada dos primeiros humanos à Austrália é um dos acontecimentos mais importantes da história... O momento em que o primeiro caçador-coletor pôs os pés no litoral australiano foi o momento em que o Homo Sapiens subiu na cadeia alimentar e se tornou a espécie mais mortífera da história de quatro bilhões de anos da vida do planeta Terra...Em alguns milhares de anos, virtualmente todos os gigantes desapareceram, Das 24 espécies animais australianas pesando 50 quilos ou mais, 23 foram extintas."

A arma usada pelos primeiros humanos para caçar era a queimada. O paraíso que era a grande ilha foi aos poucos se tornando um imenso cerrado, e temos a Austrália de hoje carente de água e com uma vegetação exposta a incêndios. 

Mas não vamos nos iludir. Segundo a Veja de 15/03, aquela revista que só dá notícias ruins (lembrem-se que a imprensa para esculhambar o Brasil é nota dez), de janeiro a novembro de 2.019 a área atingida por incêndios no Brasil é três vezes maior que a da Austrália desde setembro. Só que lá a estrutura da vegetação e o clima seco propiciam um perigo maior para as cidades e todas as espécies de animais. 
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Na verdade a minha preocupação com os incêndios nasceu quando eu comprei a minha primeira casa ao me mudar para Campinas. Ela tinha um terreno baldio do seu lado esquerdo e o vizinho depois do terreno insistia em tocar fogo no mato que esse terreno criava todos os anos. Ou seja, tocar fogo no mato, lavar a calçada com a água potável já bem escassa, são vícios que os australianos e os californianos não têm. Entendo que este é mais um degrau que temos que subir na nossa escalada para nos tornarmos uma sociedade mais evoluída. 

Em tempo: comprei o terreno ao lado.

3 comentários:

  1. O fogo é símbolo de transformações nem sempre boas, desastres que renovam as paisagens, mas, como teu belo artigo coloca, elegantemente, lado a lado com a farsa possível e a real, emergindo neste triste contexto de nossa política atual.

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  2. Comentário do meu amigo Vasco, feito no WhatsApp:
    Demorei para ler seu artigo porque tenho uma verdadeira fobia a incêndios ou queimadas, como chamamos no Brasil rural. Tive 30% do meu café queimado ha dois anos por incêndio criminoso iniciado em um vizinho, área que pertence à Acelor Mital para produção de carvão. Se perderam centenas de hectares de eucalipto. A árvore de origem Australiana é muito sujeita ao fogo pela quantidade de folhas secas e madeira seca, galhos.
    As perdas financeira e ecológica são imensas. Estimam um bilhão de animais mortos no fogo da Austrália. É inimaginável como funciona a cabeça de uma pessoa que pratica um crime desses. Enfim como você muito bem comentou somos seres devastadores, com poder de destruição avassalador.
    Infelizmente estamos encurralados, não temos mais para onde fugir, as ameaças estão em todos lugares de nosso lindo mas pequeno planeta, até as pequenas ilhas paradisíacas estão sendo inundadas, por consequência do aquecimento global.
    Mas seu artigo tem passagens muito bonitas, até românticas. Obrigado e um grande abraço.

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  3. Comentário do meu amigo Ricardo:
    Demorei mais que seu amigo Vasco.....
    Mas ler seu texto, como sói acontecer, foi saboroso! Ao mesmo tempo aflitivo e romântico.
    Espero q possamos nos encontrar no dia 15/02, nos quarenta anos do meu Bruno! Abraço

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