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O Nosso Planeta Esgotado

Muitos anos atrás eu li que a Terra estava chegando a um ponto em que o número de caçadores/coletores que ela ainda era capaz de abrigar não passava de 30 milhões. Ou seja, nós já tínhamos agredido a sua flora e a sua fauna de uma forma tal que, se voltássemos à nossa condição inicial pré agrícola, não seríamos mais que 30 milhões de humanos. 

É claro que esse número hoje deve ser bem menor. É claro também que se tivéssemos continuado apenas caçadores/coletores teríamos agredido o nosso planeta muito menos, e ele seria muito mais habitável. Mas o fato é que ao evoluirmos para a fase agrícola propiciamos à nossa espécie que ela dedicasse o tempo de uma porção de nós a cuidar de outros afazeres, que incluíam até mesmo nos matarmos. Hoje por exemplo a China tem 2,2 milhões de soldados ativos, a Índia e os Estados Unidos têm 1,4 milhões, a impressionante Coréia do Norte tem 1,3 milhões (5,4% de sua população). Temos também armamento suficiente para destruir a Terra dezenas de vezes. 

E continuamos crescendo em população. O último bilhão de pessoas que acrescentamos à nossa população precisou de apenas 12 anos para se concretizar, e o total de humanos que já nasceram nesse pobre planeta exausto chega a 108 bilhões, segundo o Population Reference Bureau. Isso quer dizer que 6,5% de todas as pessoas que já nasceram estão vivas.

Perto de 8.000 a.C., no início do período agrícola, a população do mundo estava em torno de 5 milhões, com a expectativa de vida limitada a 10/12 anos. Nessas condições, para a espécie poder sobreviver, a taxa de natalidade teria que ser da ordem de 80 crianças por cada mil humanos por ano.(hoje uma taxa de natalidade elevada está em torno de 50 por mil pessoas por ano em países da África e do Oriente Médio).

É sabido que em função da alta taxa de mortalidade a população inicialmente cresceu de forma lenta. Houve casos em que ela decresceu rapidamente, como por exemplo por ocasião da Peste Negra. A partir de 1.800 a população mundial atingiu a marca de 1 bilhão, e desde então continuou a crescer de forma acelerada.

A pergunta que surge está na mente de muitas pessoas preocupadas com a herança que vamos deixar para os nossos filhos e netos: quantos seres humanos a Terra é capaz de suportar? Os especialistas falam em algo em torno de 1,5 a 3 bilhões de pessoas. Isso significa que estamos com mais do dobro de pessoas que a Terra conseguiria abrigar de forma sustentável. A entidade das Nações Unidas que trata desse assunto, o Fundo de População das Nações Unidas, elenca três fatores para chegarmos a esse cálculo:

  1. disponibilidade de comida, de água e de terra,
  2. o padrão do consumo e a capacidade do planeta de lidar com a poluição,
  3. o número de pessoas.
As conquistas tecnológicas focam principalmente na disponibilidade de comida para viabilizar esta equação; pouco fazem no que tange à água (com exceção de uma iniciativa isolada da Fundação Bill e Melinda Gates), e deixa para os políticos os itens mais importantes: consumo, poluição e população. 

De pouco adianta aumentarmos nossa capacidade alimentar se continuarmos a crescer, aumentarmos nossa capacidade de consumo e jogarmos o nosso lixo pela janela. Essa situação começou a se tornar crítica no início do século XX. Me lembro bem de ter ouvido falar, na década de 1940, que a preocupação de humanidade era a lenta diminuição da capacidade do Sol de nos aquecer, e hoje o que está ocorrendo é o acelerado aumento da temperatura do planeta.

Toda a nossa capacidade tecnológica na medicina está voltada para o aumento do tempo de vida das pessoas, o que de certa forma anula uma diminuição da taxa de natalidade. O resultado disso é que a pirâmide etária se transforma num cilindro no qual a população de todas as idade parece tender a ser a mesma, quando não virmos a ter menos pessoas nascendo do que morrendo. Na utopia de nos tornarmos imortais será impossível diminuirmos a população da Terra.

Quanto ao consumo a nossa utopia muda de rumo e o objetivo é nos tornarmos todos americanos. Isso implicaria em triplicar o consumo médio atual, sendo que já estamos consumindo duas vezes mais o que a Terra já é capaz de nos oferecer.

Tradução
Superfície da Terra
Oceanos
Florestas de algas
Vargens de ervas marinhas
Peixes grandes, predadores
Vegetação terrestre
Áreas de mangue
Rios de curso livre
Biodiversidade terrestre
Tamanho da população de vertebrados
Mamíferos grandes
Plantas ameaçadas
Espécies comprometidas
Vermelho - ameaçado, perdido, afetado
Azul - intato, remanescente, não afetado 
Fonte - Universidade Flinders, Austrália

A revista Frontiers in Conservation Science publicou um estudo do qual tirei o gráfico acima, que dá uma ideia do estado atual em que se encontra o nosso planeta. Segundo o estudo elaborado pela Universidade Flinders da Austrália a humanidade se encontra à beira de sua extinção, em função de suas próprias atitudes. O futuro do planeta pode envolver a extinção em massa da nossa espécie, chegando talvez ao seu fim. Para os cientistas torna-se necessária da parte dos nossos líderes mundiais uma atitude vigorosa a respeito do estado clínico da Terra. 

Desde o início da agricultura por volta de 11 mil anos atrás a biomassa da vegetação terrestre foi reduzida pela metade, com a correspondente perda de 20% da sua biodiversidade original, o que denuncia que mais de 70% da superfície da Terra foi alterada pelo homem.

Os ambientes de água doce e marítimos também foram seriamente danificados. Hoje temos globalmente menos de 15% da área de pântanos que tínhamos 300 anos atrás, e mais de 75% dos rios com mais de 1.000 km de extensão não possuem mais seu curso livre.

Mais de dois terços dos oceanos estão comprometidos de alguma forma; as coberturas de corais nos recifes caiu pela metade em menos de 200 anos, as ervas marinhas decresceram 10% por década no último século, as florestas de algas decresceram cerca de 40%, e a biomassa de peixes grandes predadores é hoje menos de 33% do que era 100 anos atrás. 

Essa perda rápida da biodiversidade acarretou o declínio do ecossistema, o que inclui a redução do sequestro de carbono (processo de retirada do gás carbônico da atmosfera), a redução da polinização, a degradação do solo, a queda da qualidade da água e do ar, as inundações mais frequentes e intensas, e os incêndios. 

Das estimadas 170 bilhões de toneladas de biomassa de vertebrados terrestres existentes hoje na Terra, 59% são representadas por animais domésticos, 36% por seres humanos e apenas 5% por animais selvagens, pássaros, répteis e anfíbios. 

A população humana praticamente dobrou nos últimos 50 anos, e chegamos hoje a ~7,9 milhões de pessoas. Embora os países mais desenvolvidos tenham estacionado e mesmo diminuído sua população, a fertilidade humana continua a crescer e chegamos a 2,3 filhos por mulher, com picos de 4,8 filhos por mulher na África Sub Saariana. Com isso se avalia que temos entre 700 e 800 milhões de famintos e entre 1 e 2 bilhões de subnutridos, incapazes de ter um desempenho normal na sociedade moderna.

Com o crescimento populacional, o consumo humano como fração da capacidade da Terra de se regenerar cresceu de 73% em 1.960 para 170% em 2.016, e esse crescimento do consumo foi concentrado nos países de maior renda. A chegada da Covid-19 poderia até ser considerada uma bênção por ter diminuído esse consumo para 156% da capacidade da Terra se regenerar. Isso provou que uma diminuição no consumo global devido à Covid-19 foi benéfica para o planeta. 

Embora a desigualdade entre os povos permaneça imensa, está ocorrendo um grande aumento da classe média a nível global, principalmente devido ao sucesso das políticas públicas na China, o que implicou no aumento do consumo. Assim sendo mais de 70% das pessoas vivem em países com déficit de biocapacidade (a capacidade de produzir os recursos naturais que a população precisa - vide exemplo da China), o qual é compensado através de aquisições, as quais só se viabilizam pelo uso intensivo de combustíveis fósseis. 

Parar a perda da biodiversidade não constitui prioridade de nenhum país do mundo. Essa iniciativa corre atrás de outras preocupações como emprego, saúde, crescimento econômico, controle da moeda, etc. Chegamos assim a uma situação onde o crescimento do nível de vida se dá às custas da desestabilização do sistema que suporta a vida do homem no planeta. 

A maioria da população mundial no entanto está voltada a apoiar líderes que, ou são visceralmente contrários a iniciativas no sentido de  defender o planeta, como é o caso presente no nosso país, e até recentemente nos Estados Unidos, ou se julgam impotentes para tomar decisões importantes nesse sentido. Recentemente o novo Presidente Americano reuniu os principais líderes mundiais como intuito de retomar o processo de parar a degradação da Terra. 

Assisti a praticamente todos os pronunciamentos importantes da conferência, e me surpreendeu ninguém ter perguntado ao Presidente Americano qual a probabilidade de um novo presidente Republicano continuar a defender a iniciativa. Não foi o que se viu na última gestão Republicana, em que Trump demoliu todas as tímidas iniciativas de Obama nessa área. Essa é uma imensa deficiência que tem a Democracia quando a polarização cresce a ponto de não termos uma maioria que convive entre as duas extremidades ideológicas. 

A solução para problemas da gravidade do que estamos enfrentando não é alcançada sem sacrifícios, e isso vai exigir uma liderança global que não pode depender de uma eventual mudança acarretada pelo resultado de uma eleição. A preocupação com a biodiversidade tem que caminhar para se tornar uma política de Estado a nível global para termos a chance de reverter essa situação. 

Comentários

  1. Fontenelle, excelente apresentação; preocupante demais o seu conteúdo. Quando se estuda qualquer fonte séria sobre os (des)caminhos da humanidade, e aqui uso o exemplo fácil e disponível da obra do Yuval Harari," Sapiens", confirmam-se as suas colocações sobre a progressiva e constante dilapidação de nossos recursos naturais. "Fare qua"?

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