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Ainda Sobre a COVID

Uma característica importante da pandemia da COVID consiste na forma como a sua evolução é avaliada. Aqui no nosso Brasil polarizado o que aconteceu foi que o poder instituído tentou maquiar esses números, o que levou os órgãos da imprensa a tomar as rédeas do processo.


Em 09/06/20 o Consórcio da Imprensa Brasileira informou que o Brasil tinha registrado no dia anterior 849 mortes e 19.641 infectados por COVID, números esses bem superiores aos 679 mortos e 15.654 infectados divulgados pelo governo. Como o desvio entre essas duas medidas era grande (25% entre os mortos e também entre os infectados), tivemos aí mais um ingrediente para acirrar ainda mais a triste situação em que se encontra a nossa sociedade dividida.

Tem mais: esse desvio de 25% nos resultados do dia 08/06/20 não era observado nos números totais das vítimas até essa data. O Consórcio registrava 37.312 mortes e 710.887 casos, enquanto o Governo registrava 37.134 mortes e 707.412 casos (um desvio de 0,49% entre os mortos e também entre os infectados). Aí o Consórcio formado pelos jornais O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Extra, empresas do Grupo Globo, e o portal UOL tomou para si o recolhimento das informações necessárias à tomada desses números nos 26 estados e no Distrito Federal.

O Governo já tinha anunciado que a divulgação desses números passaria ser feita no final da noite seguinte, numa tentativa de impedir que eles constassem nos noticiários noturnos e nos jornais do dia seguinte. O próprio Presidente chegou a afirmar que, "com essa mudança, a rede Globo deixaria de ser a TV Funerária". O Senado então informou que a sua comissão que acompanha as medidas de combate à COVID deixaria de usar os dados do Governo, e a Organização Mundial de Saúde apelou para que o Brasil continuasse a divulgar de forma transparente os dados da COVID no país. A essas alturas o Brasil já era o segundo país do mundo em casos e o terceiro com mais mortes.

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Minha cabeça de engenheiro aposentado entendia que a COVID era o "fato novo" nas estatísticas das fatalidades que levavam à morte membros da nossa sociedade, e que bastaria termos a curva das fatalidades registradas nos anos anteriores para chegarmos a uma ideia precisa do efeito da COVID nos anos seguintes. 

As 5 principais causas de morte no Brasil em 2018 de acordo com a Datasus foram as seguintes:

  1. doenças do aparelho circulatório                          356.178
  2. tumores                                                                 227.150
  3. doenças do aparelho respiratório                         155.921
  4. causas externas de morbidade e mortalidade      150.165
  5. doenças endócrinas nutricionais e metabólicas     80.293

A soma das causas acima diz que em 2018 elas foram responsáveis por 969.707 mortes. Já o gráfico abaixo com fonte no IBGE nos diz que em 2018 ocorreram 1.283.496 mortes no país. Ou seja, as 5 principais causas de morte foram responsáveis por 76% delas, e nenhuma causa além delas teve mais de 80.293 mortes (a quinta colocada).

O gráfico abaixo também nos mostra um crescimento quase linear das mortes desde 2010 até 2019, o que é certamente atribuído ao crescimento da população, e nos envia a mensagem que não houve perturbação grave neste intervalo de tempo.

Mas 2020 fica evidente uma grave perturbação. Houve um salto de 14,9% nas mortes. Esse foi o efeito COVID, que resultou num acréscimo de 196.283 mortes entre 2019 e 2020, contra apenas 33.796 entre 2018 e 2019.. Uma explosão de 580% no acréscimo.

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Aí eu resolvi procurar no Google uma fonte segura que tratasse com seriedade essa questão da sub (ou sobre) notificação das mortes por COVID. Na minha cabeça havia a ideia de que quanto maior a diferença entre as notificações oficiais de morte por COVID e as estatísticas de óbitos, menos transparente seria o tratamento da pandemia. 

Pra minha sorte encontrei um relatório que me deu esta resposta para mais de cem países. Foi uma publicação da revista The Economist:


Nela estão listados 105 países. Os dados são atualizados e mostram para cada país o número de mortes por COVID declarado e o excesso de mortes em relação às estatísticas dos anos anteriores. Quem quiser ver um determinado país deve acessar o site, mas vamos ver alguns casos emblemáticos:

Rússia
Período: 01/04/20 a 31/03/22
Mortes por COVID: 361.330
Mortes em excesso: 1.226.860
Aqui temos um desvio de 240% entre o excesso de mortes e as mortes declaradas por COVID

Cuba
Período: 01/04/20 a 31/12/21
Mortes por COVID: 8.320
Mortes em excesso: 53.250
O desvio aqui foi de 540%

Brasil
Período: 01/03/20 a 31/03/22
Mortes por COVID: 660.020
Mortes em excesso: 755.810
Desvio de 14,5%

Estados Unidos
Período: 09/03/20 a 01/05/22
Mortes por COVID: 995.940
Mortes em excesso: 1.156.130
Desvio de 16,0%

Chile
Período: 06/04/20 a 22/05/22
Mortes por COVID: 45.480
Mortes em excesso: 49.230
Desvio de 8,24%

Grã Bretanha
Período: 14/03/20 a 13/05/22
Mortes por COVID: 173.350
Mortes em excesso: 155.950
Aqui o que temos é que o número oficial foi superior ao que previu a estatística. O desvio foi de -10,0%. 

Isso aconteceu também na Hungria, na Eslovênia, na Bélgica, na Suécia, na Alemanha, na França, na Irlanda, na Dinamarca, no Canadá, na Austrália, etc. A Malásia foi um caso muito estranho em que foram oficialmente declaradas 26.290 mortes por COVID contra um excesso de mortes estatístico de apenas 2,510. 

Com os dados acima. poderíamos até concluir que a sugestão de apenas recorrer à estatística não funciona, mas na verdade o que não funcionou na maioria dos casos foram as ferramentas utilizadas pelos países para fazer essa avaliação. Essa falha grave deixou a Organização Mundial de Saúde (OMS) com um grande problema de acompanhar o disseminação da pandemia.

Para os países que registraram número menor que o que a estatística sugere podemos apresentar dois motivos: incompetência e omissão. Observa-se que Índia e China, os países mais populosos do planeta, não constam do relatório da The Economist. A Índia porque o controle dos óbitos, por motivos culturais, é extremamente falho, e a China porque fechou totalmente o acesso às informações referentes à pandemia.

Países com governos totalitários foram os que mostraram as maiores diferenças entre o oficial e o estatístico. Parece óbvio que houve aí o expediente que tratar a pandemia como algo que poderia ser varrido pra debaixo do tapete, para que se evitassem danos maiores à economia, como se isso fosse possível. Essa estratégia foi tentada aqui, e só não progrediu porque uma imprensa livre tomou as rédeas do processo de avaliação da pandemia, o que levou o governo a ter que mudar de posição. Se a partir de meados de 2020 o Consórcio não tivesse batido de frente com os números oficiais com certeza estaríamos hoje em situação muito pior, tanto nos números da The Economist quanto nos índices de vacinação, que são ambos aceitáveis. O Brasil está em situação melhor por exemplo que os Estados Unidos, graças ao Consórcio de Imprensa e também à tradição implantada pelo SUS de tratar com seriedade os programas de vacinação. 

Resta uma explicação do porque aqueles países que admiramos como exemplos de sociedade avançada: Grã Bretanha, Austrália, Canadá, etc. erraram ao contrário apresentando índices de morbidade superiores ao que sugeria a estatística (vamos esquecer a Malásia porque por ser muito suspeito). Em primeiro lugar os desvios nunca foram grandes, e esse valor pode ter explicação talvez no fato de que estes países tiveram um controle muito mais rígido no confinamento, e isso pode ter resultado numa incidência menor de morte sem a contribuição da COVID. Outro fato a ser considerado é que países desenvolvidos possuem um tempo de vida dos seus habitantes elevado, e sabemos que a COVID é mais grave entre os idosos.

Parte da minha família mora na Austrália e eu pude ver com admiração o quanto o confinamento por lá foi rigoroso, com minha filha no confinamento impedida de visitar meu neto que mora na mesma cidade. Aqui mesmo, com um confinamento menos rigoroso, com o mosquito aedes aegypti fazendo home office, os índices de dengue por exemplo diminuíram, mas agora que ele voltou ao trabalho presencial a dengue readquiriu sua força. 

Mas voltemos ao caso brasileiro. O que a The Economist diz é que entre 01/0/20 e 31/03/22, portanto em 370 dias, houve uma diferença de 14,5% entre as mortes oficiais, agora tratadas pelo Consórcio de Imprensa, e o que sugeriam as estatísticas (660.020 x 755.810).  Se a intenção do governo de apresentar desvios enormes da realidade (realidade essa que a Imprensa divulgava e era atacada por fazê-lo) fosse bem sucedida, o Brasil com toda certeza iria passar pelo imenso vexame de mais uma vez encabeçar mais uma das estatísticas que nos levam ao triste papel de párias do planeta: a de sonegador de informações sobre Pandemias.

Esta é portanto a minha homenagem à nossa corajosa Imprensa Brasileira na semana em que se comemora o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. 

Comentários

  1. Vergonhosa essa politizacao da saúde pública!

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  2. Como sempre, nosso blogueiro, engenheiro e professor, com sua competência à toda prova.
    Mérito aos órgãos de imprensa pela decisão politicamente correta, oportuna e necessária. Na divulgação de dados sobre desmatamento , o Brasil é também um pária do planeta?

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  3. Excelente. Matou a cobra e mostrou o pau. E muito oportuna a homenagem à imprensa livre e digna nesses tempos de manipulação de notícias e redes sociais por interesses escusos.

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  4. Para outros leitores que tenham a dificuldade que eu tive para me identificar nos comentários que venha a postar: é necessário dar permissão na configuração/ settings que se apresenta no site Blogger ( associado ao Blogspot.com).

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