No dia 11 de Setembro de 2001, uma terça feira, eu acordei de madrugada com "jet lag". Estava em San Diego desde domingo para fazer o treinamento em um sistema de transmissão ótica espacial na empresa Optical Access. Liguei a TV na CNN e vi um avião explodindo uma das Torres Gêmeas em Nova York. Tinha certeza de que tinha ligado na CNN e estranhei a propaganda de filme de grandes tragédias, tão a gosto dos americanos.
Logo em seguida vi a outra torre ser atingida e percebi que se tratava e um grande atentado terrorista. Imediatamente liguei pra minha esposa em Campinas, já prevendo que a minha viagem de volta no voo Varig de São Francisco para Cumbica no Sábado estava comprometida. Acordei um amigo meu, o Lineu, que morava em La Jolla, um lindo lugar perto de San Diego, e ele me convidou pra me mudar do hotel em que estava para a sua casa até que as coisas se esclarecessem e os aeroportos reabrissem.
A Varig me comunicou que eu estava no fim da fila de prioridades: estava só e hospedado com amigos. Ela ficou com o meu telefone e só me ligou 11 dias depois. Saí de La Jolla com 5 horas de antecedência e só cheguei ao balcão da Varig uma hora depois o horário de partida do meu voo. Mas tudo bem, o caos era tal que acabei embarcando. Já tinha cogitado cruzar a fronteira em Tijuana e voar para a Cidade do México, mas o Lineu me convenceu a continuar em sua casa cozinhando pra ele e sua esposa. Fazia anos que ele não comia arroz "from scratch".
O resto é história, mas tenho que dizer que este episódio marcou a minha vida de forma mais intensa, porque San Diego tinha sido o local onde os terroristas haviam planejado o sequestro dos 4 voos, e inclusive tiveram cursos de pilotagem. Também porque um dos Vice Presidentes da Optical Access, empresa onde eu estava tendo treinamento, estava num dos aviões sequestrados.
A versão oficial deste grande atentado todos conhecem, mas eu vou me ater a uma versão diferente, a do romancista e dramaturgo Gore Vidal, já falecido. O volume de livros e peças de teatro que Vidal escreveu sobre a história americana é imenso, a ponto dele ser considerado por muitos "a consciência crítica dos Estados Unidos" . O crítico Harold Bloom disse que "a imaginação de Vidal sobre a política americana é tão poderosa que induz à reverência". Tive a sorte de conhecer sua obra e recomendo fortemente a leitura de seus livros. "Império", "Criação", "Juliano", são os meus favoritos.
Em 2002 Gore Vidal publicou "Sonhando a Guerra, Sangue por Petróleo e a Junta Cheney-Bush", uma coletânea de panfletos onde Vidal "propõe uma contra história que mapeia a ambição imperial do governo americano". No que trata o 11 de setembro, Vidal na página 25 do livro inicia as perguntas:
1 - "Por que não fomos avisados do 11 de setembro com antecedência?"
Segundo Vidal diversas vezes, durante boa parte do ano, houve avisos de que haveria atentados nos céus americanos em algum momento do mês de setembro, mas a dupla que ele chama de "Junta Cheney-Bush" nada fez. Houve avisos dados por Putin, Mubarak, o Mossad, e até mesmo o FBI:
"Acreditamos Osama Bin Laden irá desferir um ataque terrorista .... nas próximas semanas. Será um ataque espetacular contra instalações ou patrimônio dos Estados Unidos para causar vítimas em massa. Já foram feitos preparativos para o ataque (informe do FBI, julho de 2001)".
Bem antes, em 1996, o terrorista paquistanês Abdul Hakim Murad confessou a agentes federais que estava aprendendo a pilotar um avião para jogá-lo contra o quartel general da CIA.
Vidal também recorre a Nafeez Mosaddeq Ahmed, diretor do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento de Políticas, em Brighton, Inglaterra. Ahmed cita agentes do FBI que alertaram seus superiores a respeito de planos de ataque camicase da Al Qaeda contra Nova York e Washington, mas foram avisados que se levassem aquilo a público seriam enquadrados na Lei de Segurança Nacional.
Conclusão: A Junta Cheney-Bush foi avisada com antecedência do atentado.
2 - "Como e por que os Estados Unidos foram atacados em 11 de setembro de 2001?"
Em seguida Nafeez Mosaddeq Ahmed cita o jornal Guardian inglês de 26 de setembro de 2001, que relata que em junho, antes do atentado, um grupo de pessoas se reuniu num hotel em Berlim para ouvir o ex funcionário do Departamento de Estado Lee Coldren , que passou um recado de Bush:
"Os Estados Unidos estão considerando uma ação militar contra o Talibã". Segundo o diplomata paquistanês Niaz Naik este comunicado veio acompanhado de detalhes sobre a maneira como o ataque seria feito.
Em 22 de setembro, o Guardian relatou que:
"Osama Bin Laden e o Talibã receberam ameaças de possíveis ataques militares americanos contra eles dois meses antes das investidas terroristas contra Nova York e Washington, o que levanta a possibilidade de que Bin Laden estivesse lançando um ataque preventivo em resposta ao que via como ameaças americanas".
No dia 09 de setembro, dois dias antes do atentado, Bush recebeu uma minuta relativa à Segurança Nacional, a qual delineava uma campanha global de ação militar, diplomática e de inteligência, visando a Al Qaeda, com ameaças de guerra.
Segundo a NBC News, Bush não teve tempo de assinar o projeto, e a rapidez com que o governo respondeu rapidamente ao ataque se deveu ao fato do projeto já estar pronto. Já a BBC News, em 18 de setembro, declarou que "Niaz Naik, ex secretário de Relações Exteriores do Paquistão, foi avisado, em meados de junho, por autoridades do alto escalão dos Estados Unidos, que a ação militar contra o Afeganistão iria prosseguir em meados de Outubro".
Ou seja, o ataque ao Talibã já estava definido antes do atentado terrorista. A ideia de que os americanos destroçaram o Afeganistão para vingar os americanos assassinados por Osama é conveniente mas não é totalmente verdadeira. Foi aqui criado um novo "dia da infâmia", um novo Pearl Harbour.
Em 20 de dezembro de 2000, a equipe de Clinton, já de saída, elaborou um plano para atacar Osama e a Al Qaeda, em represália ao ataque deles ao encouraçado USS Cole. Esse plano foi entregue por Sandy Berger, assessor de Clinton para Segurança Nacional, a Condoleezza Rice, sua sucessora.
Conclusão: Segundo Vidal, os americanos sabiam dos planos de Bin Laden, e vice versa. Já havia um plano de ataque ao Afeganistão e o que fugiu do controle foi a antecipação da Al Qaeda no seu ataque a Nova York e Washington. A intensidade do ataque também foi bem maior do que a esperada.
3 - Obama não fez mais do que patrocinar o choque necessário ao início de uma guerra de conquista. Mas o que tem o Afeganistão de importante que justifique uma guerra?
Trata-se de um país miserável e árido, que a princípio não justifica o interesse russo e americano no domínio do seu território. Vidal vai buscar resposta para essa questão no militarista Zbigniew Brzezinski, assessor de Segurança Nacional do Presidente Carter. Segundo Vidal, Brzezinski sabia do desconhecimento de historia e geografia das lideranças americanas, que sempre que podem abusam do que elas chamam de "destino manifesto", a crença de que os americanos têm o direito de expandir o território das suas 13 Colônias na direção Oeste, rumo ao Pacífico.
Vejamos o que disse Brzezinski: "Desde que os continentes começaram a interagir politicamente, cerca de 500 anos atrás, a Eurásia tem sido o centro do poder mundial". Eurásia é o que os ocidentais chamam o território a leste da Alemanha: Rússia, Oriente Médio, China, Índia, etc. 75% da população mundial é eurasiana, bem como 60% do PIB mundial e três quartos das fontes de energia do planeta.
A ideia de Brzezinski era fazer com que os Estados Unidos passassem a exercer controle sobre as ex repúblicas soviéticas da Ásia Central, as chamadas repúblicas do Stão: Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão. Esses 4 países são importantes tanto para a Rússia como para a Turquia, o Irã e a China do ponto de vista da segurança, mas existe também o interesse no imenso volume de petróleo e gás da região. Disse ainda Brzezinski:
"O primordial interesse americano é evitar que uma única potência venha controlar esse espaço geopolítico, e que se mantenha desimpedido o acesso financeiro e econômico da comunidade global a ele". Brzezinski previu que a presença militar americana sobre a Eurásia através da Ásia Central iria exigir um convencimento da sociedade nessa campanha de militarização, sociedade esta já cansada de tantas excursões na região com tantas perdas humanas.
O portão de entrada para esta região se chama Afeganistão, e o povo americano não quis lutar em nenhuma das duas guerras mundiais. Vidal ironicamente sugere que o o presidente Wilson manobrou os americanos até a Primeira Guerra Mundial e o presidente Roosevelt manobrou os Japoneses até Pearl Harbor. Sabedor desta resistência Brzezinski argumenta que:
"Na medida em que a sociedade americana vai se tornando cada vez mais multicultural, talvez ache mais difícil chegar a um consenso sobre as questões de política externa, exceto na circunstância de uma ameaça exterior direta de proporções verdadeiramente maciças e escancaradas".
Conclusão: "E assim foi criada a arma que jogou fumaça negra sobre Manhattan e o Pentágono" (Gore Vidal).
O vídeo acima mostra o presidente dos Estados Unidos, mais que isso, o comandante em chefe das Forças Armadas, escutando histórias contadas por alunos de uma escola enquanto aviões explodiam nas Torres Gêmeas e no Pentágono. Aqui o certo seria numa situação como essa o comandante seguir direto para o quartel general para dirigir as operações e receber as informações a respeito do ocorrido.
Desde o começo os radares da Federal Aviation Administration (FAA) seguiram os quatro aviões sequestrados, e existia uma "ordem padrão de procedimentos" acionada pelo governo em caso de sequestro: envio imediato de caças. Essa ordem não requer aprovação presidencial, a qual só é necessária em caso de se ter que abater o avião.
Excelente retrospectiva e sábia conclusão.
ResponderExcluirUma verdade pode ter muitas interpretações e, no mundo de hoje, prevalece a interpretação apoiada pelo dólar.
Isso fica muito claro na atual campanha eleitoral americana: a boa chance da Kamaka ganhar do Trump aumenta à medida que milhões de dólares vão sendo doados à sua campanha.
Tudo é muito complicado no mundo de hoje. Como diria Fagner: Hoje eu só acredito no pulsar das minhas veias. A história segue com seus episódios e tramas; Ukrania, Russia, Israel , Iran e agora Venezuela. Sempre se pode extrair versões diferentes e críveis dos fatos. A manipulação da verdade especialmente na Geopolítica é a tônica destes tempos. Não nos é dado a nós mortais comuns saber o que realmente está ocorrendo. Quis licet Iovis non licet bovis. Nós.
ResponderExcluirComo de costume, pela competência do Mestre, li uma completa retrospectiva dessa ocorrência cruel; eu estava no Shopping Villa Lobos no intervalo de almoço na empresa Vesper. Não acreditei quando assisti pela TV de uma loja. Comecei a ligar para todos os conhecidos; meu filho ligou a TV e ficou assustado.
ResponderExcluirConclusão: Sempre deixo de dar opinião sobre Política, pois realmente acredito que não temos informações necessárias e suficientes para embasá-las...
Uma verdadeira sacudida no cérebro de qualquer um! Acho que as conclusões desse artigo são muito verdadeiras. Sinto uma certa inveja do meu avô, cujo mundo era do tamanho de uma parte de Goiânia. Ele era muito feliz.
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