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Sobre Remédios e Bactérias

Hoje vocês vão conhecer alguns parceiros meus, com os quais eu tenho um encontro matinal diário: os meus remédios de uso contínuo. São eles:
  • DIOVAN AMLOFIX (valsartalana + anlodipino) 320 mg + 5 mg - 1/dia
  • NEBILET (nebivolol cloridrato) 5 mg - 1/dia
  • CITALOR (atorvastatina cálcica) 10 mg - 1 a cada 2 dias
Os dois primeiros mantém a minha pressão abaixo de 13:8; o terceiro controla o meu colesterol ruim. Afinal, chegar aos 70 com um câncer de próstata aos 58, problema esse resolvido pelo meu guru, o Dr. Miguel Srougi, requer que certos cuidados sejam tomados. Para amenizar o efeito desse coquetel acompanham Omeprazol 20 mg e Benefiber, um pó solúvel de fibras alimentares. 

Minha família tem um histórico de longevidade que impressiona. Meu Pai veio a falecer dois anos atrás com 100 anos e seis meses. Sua irmã Eunice acaba de completar 101 anos. Sua tia Elisa faleceu aos 104 e sua mãe Ana aos 97. Me lembro bem do aniversário de 90 anos de Donana, como era chamada a minha avó. Teve uma valsa da qual participaram 12 casais, ela inclusive, em que a idade dos 24 participantes da valsa ultrapassou 2.000 anos! Tudo isso ocorreu em Carolina, Ma, à beira do rio Tocantins, cidade que eu cumpro a obrigação de visitar todos os anos, coisa que acabo de fazer semana passada. 

Chegando a Carolina me espera sempre uma buchada de bode feita pela minha amiga Assunção, a secretária da minha tia Diana. No dia seguinte o tio Nelson espera eu terminar de tomar café e me carrega pro mercado, onde eu mais uma vez passo pela experiência de ter que escolher entre um rabada e uma panelada, isso às 9 da manhã! O almoço no restaurante Mocotozinho é de uma variedade que vai desde a galinha caipira ao molho pardo até a carne de sol. Nunca volto de Carolina com menos de 4 quilos adicionais que eu tenho que gerenciar aqui em Campinas.

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A rabada matutina desta vez foi feita em casa pelo meu primo Nelsinho, acompanhado de perto pela tia Diana

Mas as coisas então mudando em Carolina. Das duas únicas farmácias que existiam na minha adolescência, a do Dr. Rui Carvalho e a do José Varão, hoje há uma profusão delas. Na avenida principal eu cheguei a contar 6. Isso significa que, com o progresso, vieram também os problemas de saúde. A banha de porco foi trocada pelo óleo de soja, a manteiga pela margarina, vieram os enlatados, os refrigerantes, os entubados, e assim Carolina se modernizou. Quer dizer, chegaram as doenças, o que não significa que chegaram junto as estruturas de combate às mesmas, exceção feita às farmácias. Fora elas, a solução para os casos mais graves é procurar socorro em Araguaína (To) ou Imperatriz (Ma), ou até em Goiânia ou Brasília. 

Analisando o caso de Carolina, chego à conclusão de que os remédios são muito mais rápidos que as estruturas de suporte à saúde. Não que a sua fabricação seja mais barata que a construção de hospitais e postos de saúde: elas são globalizadas, o que vem a diminuir o seu custo de produção. Isso no entanto leva a uma situação perigosa em que as decisões sobre onde focar as pesquisas adquirem uma conotação meramente mercadológica. 

O exemplo mais claro disso é que hoje em dia o foco está na produção dos chamados remédios de uso contínuo, aqueles que vão ser tomados por longos períodos, talvez pelo resto da vida, tais como os remédios para o diabetes, o colesterol, a hipertensão, até mesmo aqueles para a disfunção erétil. Com isso os remédios de uso eventual, em particular os antibióticos, são deixados em segundo plano. Eles são usados em até pouco mais de uma semana, não dando assim um retorno que justifique que sejam feitos grandes investimentos neles. 

Com isso estamos perdendo uma batalha importante, que é a luta contra as superbactérias. Tanto o meu Pai como a minha Mãe vieram a falecer em uma UTI, vitimados não pela doença que os levou para lá, mas sim por uma infecção pulmonar adquirida na própria UTI. Segundo a Veja de 19/06, pág. 103, de cada 100 pacientes internados em UTI, 10 serão contaminados por uma bactéria associada ao tratamento médico e não à causa da hospitalização. Dos 10 contaminados, dois não reagirão aos antibióticos e um morrerá. Como meus pais eram muito idosos, coube a eles o 1% da estatística atual. 

A batalha contra as superbactérias está em uma encruzilhada: se nada for feito e os laboratórios não encararem essa luta, os procedimentos de rotina podem se tornar mortais dentro de no máximo 20 anos. Os governos já estão assumindo o controle dessa batalha, quer através de medidas de estímulo à indústria farmacêutica, caso dos Estados Unidos, ou de parcerias público-privadas, caso europeu. 

Dias atrás um grande hospital de Campinas, minha cidade, isolou os leitos da UTI adulta após ser identificada a superbactéria Klebsiella Pneumoniae (KPC), causadora de pneumonia e infecção do trato urinário. A KPC é uma das bactérias que mais danos têm causado; natural do intestino, ela produz um enzima que impede a ação do antibiótico. Uma característica interessante das superbactérias é que elas nascem nos hospitais, justamente os locais onde vamos procurar a cura dos nossos males mais agressivos, e lá somos recepcionados por esses seres que não medem mais que um mícron, e que a teoria da evolução tem tornado cada vez mais resistentes.

Entendo que ao governo brasileiro, tão preocupado que está com a importação de médicos cubanos, portugueses, espanhóis, argentinos, venezuelanos, cabe a iniciativa de tomar medidas para que as nossas instalações deixem de se tornar criadouros desses inimigos que, principalmente por aqui, têm a batalha como vencida. Não conheço com detalhes o caso Sarney, mas pelo que li ele foi internado em São Luís com quadro de dengue aguda seguida de pneumonia bacteriana. Vamos esperar que uma infecção bacteriana em um figurão desses leve o governo a agir. 


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