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O Conceito de Preço Justo

A cultura ocidental foi por muitos séculos baseada nos conceitos emitidos pela Bíblia, e uma rápida passagem por ela nos garante que eles são profundamente intolerantes com as ideias modernas que norteiam a economia. O site Bíblia Online traz uma descrição dos Versículos de Dinheiro (http://www.bibliaon.com/dinheiro/), de onde eu retirei algumas pérolas:
  • Vale mais o pouco que tem o justo, do que as riquezas de muitos ímpios (Salmos 37,16)
  • De nada aproveitam as riquezas no dia a dia, mas a justiça livra da morte (Provérbios 11,4)
  • E vendo Jesus que ele ficara muito triste, disse: Quão dificilmente estrarão no reino de Deus os que têm riquezas! (Lucas 18,24)
  • A riqueza de procedência vã diminuirá, mas quem a junta com o próprio trabalho a aumentará (Provérbios 13,11)
  • De que serviria o preço na mão do tolo para comprar sabedoria, visto que não tem entendimento? (Provérbios 17,16)
  • Quem amar o dinheiro jamais dele se fartará; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda; também isso é vaidade (Eclesiastes 6,10)
Resumindo, o dinheiro está sempre ligado à devassidão. Esses conceitos bíblicos receberam de São Tomás de Aquino o que podemos chamar de uma formalização, a qual pode ser condensada da seguinte maneira:
  • A sociedade necessita de mercadorias
  • Os mercadores só as fornecem mediante uma recompensa, que chamaremos de lucro
  • É necessário que exista uma MORAL que não leve os preços a serem injustos
  • O lucro não pode ser excessivo porque isso é pecado
  • O valor das mercadorias deve ser fixado sem que haja má fé
  • O comprador deve aceitar livremente o preço dessa forma fixado, sem que haja pressão. 
Na verdade esse conceito de ligar o negócio, o motor da sociedade, a algo menor, existia também na sociedade grega. O ócio grego era um conceito maior, onde o tempo era dedicado ao estudo das questões filosóficas, sendo que o trabalho de tocar a vida dos cidadãos cabia àqueles a quem era negado o Ócio, ao Negócio. 

Assim sendo, podemos concluir que o conceito de que o mercado deve fixar o preço é medieval, fortemente baseado da religião cristã, a qual considera o dinheiro e as coisas a ele relacionadas como algo a serem evitados para que a salvação possa ser alcançada. Dentro do cristianismo a coisa começou a mudar com a Reforma. Como as práticas decorrentes do uso do dinheiro eram condenadas pela igreja católica, a nova classe burguesa apoiou o movimento que pregava uma nova ética religiosa, na qual havia a aceitação implícita do novo espírito capitalista, no qual o conceito de lucro estava inserido. O resultado desse movimento foi que os países que aderiram de forma majoritária à Reforma foram exatamente aqueles que progrediram de forma mais evidente. Podemos afirmar que o Protestantismo, mais que o clima, foi fator fundamental do progresso das nações do norte da Europa. 

Ano passado eu escrevi 6 posts sobre o livro "As Seis Lições" do economista Ludwig von Mises. Isso me levou a estudar com mais um pouco de detalhe a trajetória deste grande homem. O que se pode concluir é que ele iniciou, no início do século passado, a ofensiva mortal contra os conceitos de preço ainda vigentes na época. Para Mises, sem uma economia de mercado não existe um sistema de preços que funcione, e a falha do socialismo é considerar que a demanda pode ser conhecida sem que o mercado estabeleça os preços das mercadorias.

A luta está longe de ser vencida. As recaídas, principalmente em nosso continente católico, são evidentes. O Brasil controla hoje de forma escancarada o preço do petróleo e da energia elétrica, e o resultado disso é que a escassez está chegando. A Petrobrás se encontra totalmente descapitalizada após anos de restrições ao aumento do preço do combustível. Sua fixação em levar adiante o pré-sal é puramente ideológica, decorrente de uma aposta de Lula em uma solução altamente arriscada. O início da produção não se dará antes de 2018, e nenhuma iniciativa vem sendo tomada no sentido de explorar as nossas reservas de xisto, técnica que irá tornar os Estados Unidos rapidamente auto suficientes em petróleo.

Tudo isso é mais que confirmado em quase todo o nosso pobre continente, e para nossa surpresa aqueles governantes que não seguem a cartilha católica não conseguem dar sequência aos seus planos de governo. Acabamos de ver isso no Chile, e devemos ver o mesmo repetido na Colômbia e no Peru. Paciência. Acho que Caetano estava certo:

Será que nunca faremos

Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos



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