O domingo de 13/04 trouxe boas notícias para a democracia. Após um governo que durou 16 anos, e fez a Hungria se tornar um modelo do que seu quase ditador Viktor Orbán chamou de Democracia Iliberal, a oposição, comandada pelo novo partido Tisza, conquistou mais de dois terços das cadeiras da Assembleia Nacional. Surpreendentemente, Orbán reconheceu sua derrota e parabenizou o vitorioso Péter Magyar por sua vitória
A facilidade com que esta mudança ocorreu não correspondeu à pressão por que passou a oposição para chegar a esse resultado. O controle que Orbán tinha sobre a máquina pública era muito grande, e ele era o representante tenaz do conservadorismo que é defendido por boa parte da sociedade húngara, com o argumento de ser o único político capaz de defender a Hungria dos seus inimigos.
Viktor Orbán conhece bem a política da Europa Ocidental. Ele foi estudante da Universidade de Oxford com bolsa concedida por George Soros, o bilionário húngaro que mais tarde se tornou seu principal inimigo. Entre os outros inimigos ele escolheu a União Europeia da qual a Hungria faz parte, e a Ucrânia que segundo ele estava planejando invadir a Hungria.
O que impressiona nessa mudança foi a velocidade com que ocorreu a hora da verdade, em que Orbán teve que se vergar ao julgamento da sua história. Como em todas as sociedades que passam por uma fase longa de autoritarismo, a corrupção na Hungria é enorme, o que fez sua economia decrescer a nível inferior ao de países anteriormente mais pobres da Europa Oriental. Isso afetou a vida dos cidadãos, e levou a um isolamento de Orbán. A nível internacional o país por décadas foi dominado pela União Soviética, e sob Orban passou a ser mais alinhado com Moscou do que com Bruxelas.
A acumulação de todas essas falhas levou um até então fiel aliado a romper com Orbán, e tudo começou com o indulto que Orbán concedeu a um correligionário, em um escândalo de abuso sexual infantil que revoltou todo o pais. Em poucas semanas Magyar trouxe para si o apoio popular e fundou um novo partido, o Tisza, o qual se aliou à CDU democrata cristã de Friedrich Merz.
Estranhamente, os dois principais defensores da permanência de Orbán eram Trump e Putin, a ponto do vice presidente J.D. Vance resolver visitar Orbán em meio às suas negociações com o Irã. Apoiando Magyar estava toda a União Europeia, que com o novo governo deve passar a ter uma posição mais unificada com referência à guerra da Ucrânia. Os maiores derrotados são os conservadores americanos que tinham elegido a Hungria como uma espécie de laboratório das visões ditatoriais de Trump, e certamente os russos que perderam um infiltrado na União Europeia, e na OTAN.
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A Hungria é um país de apenas 9,5 milhões de habitantes, sem saída para o mar, e a importância que foi dada a esta eleição pode parecer desproporcional. O motivo foi que, para os cientistas políticos, foi uma surpresa este país, após de livrar do jugo soviético e ser exemplo de retorno ás suas tradições democráticas, ter de repente retornado ao populismo. Orbán conseguiu minar as instituições democráticas a ponto de sugerir que era fácil se promover um retrocesso em países tradicionalmente liberais. Foi assim surpreendente que uma simples eleição tenha destituído Orbán, que ele tenha admitido rapidamente a derrota, e que não tenha tentado artimanhas tais como denunciar fraude na eleição.
A democracia mostrou assim a resiliência que deve se refletir naqueles países onde ela está sujeita a ataques, que constantemente testam os limites constitucionais ao seu poder, como por exemplo o nosso Brasil e mesmo os Estados Unidos, supostamente o maior defensor do regime democrático.
É bom lembrar no entanto que a história recente nos mostra que uma derrota apenas não afasta o perigo representado pelo populismo. Temos dois exemplos recentes nos Estados Unidos, onde um populista conseguiu retornar ao poder após uma derrota que ele nunca aceitou, e no Brasil onde outro populista, que foi derrotado e preso por tentar um golpe, está ajudando seu filho a se eleger presidente nas próximas eleições. Isso mostra que a luta pela democracia é uma maratona, não um tiro de 100 metros.
Outra coisa a ser considerada é se o compromisso de Magyar com a democracia, com o respeito para com o Estado de Direito, é real. Existe hoje na sociedade húngara o chamado Dilema Pós Populista que permeia em praticamente todos os regimes que passam pelo que a Hungria está passando. Orbán viu sua bancada reduzida no parlamento, mas tem muitos aliados nos cargos de poder, e assim ainda tem como sabotar o novo governo. Se Magyar seguir pelas regras normais vai deixar muitos indicados de Orbán na administração, dificultando as mudanças que pretende fazer. Se optar por demitir toda pessoa que lhe pareça fiel a Orbán vai seguir pelo mesmo caminho que Orbán seguiu. Este é o Dilema Pós Populista, que permite uma sobrevivência do populismo mesmo após uma derrota deste tamanho.
Outra coisa a ser considerada é o rastro que Orbán deixou nas alterações que fez no sistema eleitoral. Elas aumentam significativamente a representação do grupo vencedor. Agora que ele perdeu, é vítima das mudanças que fez. Conquistou 40% dos votos mas vai ter menos que um terço das cadeiras no parlamento. Isso dá à vitória de Magyar um certo alento àquelas democracias que se encontram na situação der ver alterado pelo demagogo de ocasião as regra eleitorais. Sempre existe uma hora em que essas mudanças não são suficientes. Por outro lado elas são uma arma poderosa nas mãos de Magyar para dificultar as futuras alternâncias tão necessárias ao processo democrático.
A quase totalidade dos democracias estão longe se ser perfeitas, bem como a maioria das ditaduras não são 100% declaradas. Elas se situam em uma zona obscura entre os dois extremos. Assim sendo, a ameaça mais comum não é a iminência de uma ditadura, mas a possibilidade do novo governante criar regras que desequilibrem o sistema eleitoral a seu favor. No caso húngaro esse desequilíbrio já foi criado por Orbán, e cabe a Magyar resistir à tentação de manter estas regra e tornar o sistema húngaro mais democrático, com urgência.
Resta ver qual o interesse que Trump tinha em manter Orbán no poder. A Hungria era um caso típico de sistema que deveria permanecer assim, iliberal, se juntando assim ao rol de democracias sujas como a que ele pretende e está implantando no seu país. Seu objetivo é e sempre foi reescrever as regras a seu favor, como se já não bastasse o sistema totalmente antidemocrático atual, que permite que presidentes sejam eleitos sem a maioria dos votos populares.
A lição que devemos tirar da vitória de Magyar, é que a democracia não tem vitórias completas nem derrotas totais das suas liberdades. Ela é na verdade um processo de grande complexidade que é cultivado ao longo de décadas, e deve estar sempre na mente de todos os cidadãos, mesmo nas ocasiões mais difíceis, como a solução menos ruim para todas as agruras do momento.
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