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Sobre o Consumo: o por Utilidade e o por Ostentação

Na medida em que envelhecemos, vamos começando a nos preocupar com a probabilidade de chegarmos à situação de termos que recorrer a um padrão de vida mais simples. Como já estou há três anos na década dos 80, esta preocupação fica mais intensa, e inclui verificar se as providências tomadas foram eficazes, porque certamente não há mais como repará-las.

Vou dar um exemplo simples: tudo aquilo que ainda tenho poupado desde o meu primeiro salário, no início de 1968, sempre seguiu uma regra de bolo, a qual consistia em só aplicar em renda variável um valor que me permitisse uma recuperação caso a aplicação desse problema. Li em algum lugar que aplicações de risco não deviam ultrapassar uma percentagem que levasse em conta a sua idade. A regra era:


                 Aplicação de Risco = (100 - idade) %


Então aos 30 anos de idade eu aplicava (100-30%) = 70% em renda variável. Já agora com 82 anos essas aplicações não passam de 18%, porque não tenho mais tempo de me recuperar de uma aplicação errada, ou em qualquer outra aplicação de risco. Os gerentes de conta deviam pensar nisso ao ligarem para idosos como eu e sugerir aplicações tipo AMBIPAR, por exemplo.


Outra coisa importante de se levar em conta é o nosso comportamento referente ao consumo, e é por esse motivo que decidi expor meu ponto de vista neste Post. Existem livros dedicados a tratar exclusivamente deste assunto. Não vou aqui defender a ideia de que o comportamento humano é digital nesse assunto, mas posso garantir que nas duas extremidades dele existe o consumo 100% utilitário e o consumo 100% ostentativo.


Vou dar um exemplo do que aconteceu comigo recentemente: Meu carro ano 2019 modelo 2020 completou em dezembro passado 6 anos na minha mão, e eu sempre tive o costume de não deixar esse tempo comigo ultrapassar 6 anos. Só que eu estou numa fase da vida em que não tenho mais disposição de sair de Campinas pra visitar parentes em Goiânia de carro. Já existe inclusive uma pressão da família para que isso não ocorra mais, já que já ultrapassei os 80 anos de idade.


A ideia de trocar o carro por um mais novo da mesma marca e modelo não fazia muito sentido, já que ele tinha rodado não mais que 50 mil quilômetros, mais ou menos o que eu costumava rodar em 1 ano quando trabalhava em São Paulo morando em Campinas. 


Desde que me aposentei definitivamente em 2006, já tinha tomado a decisão de abrir mão de ter 2 carros. A chegada dos aplicativos de transporte reforçou o sentido desta decisão, só que aconteceu algo que a colocou em cheque. Em outubro de 2024 estava com passagem comprada para Fortaleza para visitar meu amigo Francisco, e não estava me sentido bem. Minha esposa disse que só concordaria em viajar se eu fosse visitar nossa cardiologista. Conseguimos um encaixe com ela na véspera da viagem e, chegando lá a informação que recebi foi que, com o coração batendo a 21 ppm, eu não chegaria vivo a Fortaleza, e tinha que ir imediatamente para uma UTI receber um marca passo.


Tinha ido me consultar dirigindo e fui proibido de dirigir para o hospital. Moramos na periferia de Campinas e não é fácil conseguir um Uber em certos horários. Então o que aconteceu foi eu ver minha esposa chegando ao consultório de carona na Saveiro do nosso jardineiro, que por sorte estava trabalhando na nossa casa naquele dia. Desde então eu tive que conviver com uma bolacha encravada no meu peito que responde por 83% das batidas do meu coração (segundo a terceira revisão que fiz em março passado, que me garantiu mais 9 anos de vida da bateria). 


A conclusão a que chegamos foi a de que trocar um carro de 6 anos, com 50 mil km rodados, seria uma decisão pior que a de pegar o valor que seria investido nesta troca e comprar um carro mais antigo ainda, o qual estaria disponível em emergências como esta e, sem agredir nosso orçamento de forma significante, nos desse inclusive mais conforto. Seria um gasto por utilidade em vez de um gasto por ostentação.


O gasto por utilidade melhora a nossa vida, nos dá mais conforto, segurança, bem estar, e acontece de forma quase que despercebida. No nosso caso houve até críticas negativas em se adquirir um carro velho. Já se eu tivesse comprado um carro novo a opinião teria sido diferente, a compra teria sido feita para eu ser visto, para impressionar e ser reconhecido pelo que eu tenho, não pelo que eu sou.


O modelo 6 anos mais novo do meu carro atual viria com bancos aquecidos, teto solar, central multimídia, nada do que eu tenho no meu modelo 2020. Já o carro que comprei, modelo 2012, é menos equipado que o que tenho: não tem chave presencial por exemplo, o que me obriga a tirar a chave do bolso toda vez que o uso. Mas é menor, mais fácil de se usar no trânsito de Campinas, e eu estou na situação parecida com a do Roberto Carlos quando foi pegar seu Cadillac e devolver o calhambeque emprestado: Meu coração ficou com o Kia Soul 2012, e o Tiggo 7 2020 só está sendo usado de forma eventual, por exemplo para viagens curtas.


Tenho que reconhecer que este exemplo até certo ponto ingênuo é muito pessoal. Não estou em condição de julgar as prioridades de ninguém. A felicidade é um acervo precioso e cada indivíduo o define da forma que melhor lhe convém. Aqui não estamos definindo o certo, nem o errado, mas apenas tentando chamar a atenção para o fato de que o consumo utilitário também é capaz de trazer satisfação real.


Já o gasto ostentativo pode resultar no oposto e gerar ansiedade, porque o status é um objetivo dinâmico, ele está sempre se distanciando daquilo que você pode alcançar. E não é barato, o que agride o seu bolso e a sua tranquilidade, e é essa a intenção deste Post: alertar para este fato.


O movimento de perseguição ao status é uma pressão constante no sentido de se permanecer em evidência. Ele não possui um limite, e a cada conquista que você alcança você sobe numa pirâmide que aumenta o seu padrão de comparação. Sempre resta alguém à sua frente para ser alcançado, e a preocupação de no mínimo permanecer onde você já chegou, de não perder o lugar que você já tem na imaginação dos seus conhecidos.


Você se vê envolvido num ambiente no qual a ideia de limite não existe, já que a pressão por manter as aparências é constante. O objetivo que você quer alcançar é fluido. Seu olhar é sempre para frente, sem levar em conta o que você já conquistou. O resultado dessa imersão é que o patrimônio acaba por ser envolvido pouco a pouco, a cada mudança feita no sentido da ascensão, e você ignora o fato de que financeiramente você vai definhando.


Se por acaso ocorrer de você chegar a ter conseguido obter tudo aquilo que desejou, a sua satisfação se esgota e você terá a decepção de perder a capacidade de apreciar o eventual, aquelas coisas que acontecem de vez em quando, que o ajudam a sair da rotina. Olhar para trás, para aquilo que você já obteve, é tão ou mais importante quanto olhar par a frente, e está muito mais ao seu dispor.


Tudo isso eu aprendi só agora que amadureci de vez, como aquela fruta que está por cair, mas eu tive a sorte de ter ao meu lado uma companheira que me entende a de forma geral participa da ideia de que a sua posição na pirâmide social não é fator importante para se alcançar a felicidade. 


A vida nos permite essas conclusões que eu chamo de tardias. Uns chamam isso de sabedoria, eu prefiro chamar de experiência. Vou traçar um paralelo, agora que me tornei bisavô: se nos fosse possível ser avós antes de ser pais eu posso garantir que estaríamos vivendo em um mundo muito melhor. 


Se a educação que recebemos nos proporcionasse a oportunidade de chegarmos mais cedo às conclusões a que só chegamos no ocaso da vida, estaríamos vivendo num mundo muito mais igual. 




Comentários

  1. Sou utilitário por convicção; exceto quando se trata de equipamento de pesca. Mas estou melhorando kkk

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  2. Esse meu amigo é um fenômeno em termos de equipamento de pesca. Provavelmente sua descendência vai se beneficiar desse acervo até a quarta geração. Se ainda houver peixe pra se pescar.

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  3. Comentário via WhatsApp da minha amiga Miriam
    Li tudo com a maior atenção, mesclada de surpresa e alegria ao sentir expressos com exatidão os significados das vivências humanas durante etapas na trajetória de vida, até chegar às conclusões finais reconhecentes do que é de fato a almejada sabedoria, focando logo de início o consumo necessário para a sobrevivência, proporcionalmente fixado para despesas com ostentação e utilidade, referindo-as a variações de felicidades possíveis no calendário-relogio irretornável da vida. As considerações finais no texto pleno de razão são realmente importantes e impossíveis de se conseguir, a não ser na literatura criativa de Scott Fitzgerald, transposta em filme onde acontece o nascimento intrigante de um idoso que morrerá como nascituro em chocante contraste com o real entorno, realizando numa fração-ápice de coincidência temporal uma felicidade amorosa fugaz…

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  4. Comentário via WhatsApp do meu amigo Fábio
    Parabéns pelo texto, uma reflexão e tanto.

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  5. Comentário via WhatsApp daminha amiga Olívia
    Luiz, que ótima crônica! Temos a mesma idade e parece que foi escrita para mim... Esse "encolher geral" da vida foi uma escolha minha aos 80 anos, quase três anos atrás . Me senti como aqueles ouriços que se enrolam quando sentem o perigo. E o meu perigo atual é envelhecer. Envelhecer é trabalho tempo integral. Mas estamos "trabalhando" legal... Um abraço!

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  6. Comentário via WhatsApp da minha amiga Ericina
    Perfeito, lúcido, libertário, você é luz, amigo querido!!!!!!
    Obrigada!

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  7. Comentário vi WhatsApp do meu amigo José Paulo
    Luiz , esta foi uma das melhores e bem escritas crônicas que li nestes ótimos anos!
    A Vera também leu e disse a mesma coisa . Portanto a opinião é do casal.

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  8. Comentário via WhatsApp do meu primo Juarez
    Isso aí Luiz! Espectativa de vida é 70 anos? Então podemos errar e recomeçar até os 35? Daí pra frente planejamento 60 por cento mais ou menos e execução 40!
    Planejar muito pra não se arrepender pois o tempo pra recuperar diminui com o passar dos anos.

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  9. Caro Fontenelle, muito boa reflexão. Gostaria de lhe dizer que você é experiente e sábio. Sem sabedoria também, não teríamos uma reflexão tão profunda e prática. Parabéns e um abração. Paz

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  10. Uma grande amiga me mandou o Zap abaixo e pediu que eu publicasse sem divulgar seu nome:
    Luiz querido, adorei o seu texto que veio a calhar com minhas reflexões recentes sobre a passagem do tempo, as prioridades, as pessoas que amamos. Por acaso também tenho um carro de 2018 com apenas 37.000 kms , considerado Velho na garagem do condomínio . Os porteiros surtem em comprar o carro … mas ainda terei alguns verões com ele. Não sou tão imune ao consumo ostentação. Na verdade sou um pouco fútil . Minha futilidade é seletiva não é tão ansiosa como as que vemos nos padrões atuais . Parabéns pelo texto.

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  11. Adoro ler os textos do meu Tio, Luiz Fontenelle.
    Esse, particularmente, é de uma imensa sabedoria e aplicação prática, que creio ser útil a todos, mas particularmente às pessoas da minha geração e das que me sucedem. O futuro nunca foi tão imprevisível.

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