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Evolução e Criacionismo II


Segundo Shermer a relação da ciência com a religião pode ser definida em três níveis:
  • A Ciência e a Religião convivem em mundos iguais e discutem os mesmos assuntos. Existe portanto uma  conciliação e a Ciência, caso esteja certa, irá suplantar a Religião, ou vice-versa. Fala-se inclusive em se utilizar a realidade virtual para tornar viável a ressurreição de todos os humanos, cumprindo assim uma profecia da Bíblia. A Ciência nesse caso poderia vir a substituir a Religião com uma moralidade secular, viável e mais facilmente adaptável à evolução social.
  • A Ciência e a Religião vivem em mundos separados e lidam com assuntos diferentes, não entram em conflito e não se sobrepõem, e coexistem pacificamente. Charles Darwin defendeu esse modelo ao se recusar a discutir esse assunto sempre que pressionado. 
  • A Ciência e a Religião vivem em mundos conflitantes, logo, uma deve estar certa e a outra errada, sem possibilidade de conciliação. Geralmente este é o modelo sustentado pelos que não possuem argumentos sérios para levar adiante uma discussão. Estamos presentemente passando por isso com a visita da blogueira cubana Yoani Sánchez ao Brasil, para dar um exemplo de intolerância. 
A agressão faz parte da estratégia criacionista, a ponto de as bibliotecas serem alvo de incursões no sentido de eliminar páginas que tratam da Teoria da Evolução: 
  • "Quanto à evolução, cortar fora as seções é viável se as partes removidas não forem grossas a ponto de causar danos à lombada do livro quando ele for aberto e fechado em seu manuseio normal. Se as seções que precisam de correção forem muito grandes, cole as páginas, tendo o cuidado de não estragar partes do livro que não precisam de correção (Christian School Builder)".
A Wikipedia é uma fonte interessante para que tenhamos uma ideia geral sobre a Teoria da Evolução, já que o livro A Origem das Espécies é de leitura difícil. A grosso modo podemos concluir que:
  • Os organismos mudam com o tempo. Isso se torna óbvio ao analisarmos os fósseis e a natureza no presente. 
  • A evolução decorre da descendência, onde a prole não é exatamente uma réplica dos pais, mas sim uma conjunção de suas características, o que permite a adaptação ao meio ambiente que muda de forma constante. 
  • Essa mudança é permanente e lenta, e com o tempo se promove a mudança das espécies. 
  • Ela acaba por produzir um número crescente de novas espécies, num processo multiplicativo.
  • Isso leva necessariamente a um processo de seleção natural:
    • As populações tenderiam a crescer de forma permanente em progressão geométrica: 2, 4, 8, 16, ....., porém
    • por limitações ditadas pelo meio ambiente, elas tendem a se estabilizar, 
    • o que leva a uma luta pela sobrevivência, porque o meio ambiente não permite que todos os organismos sobrevivam; 
    • como cada espécie passa por mudanças ao longo do tempo, 
    • as espécies com mudanças mais adaptadas ao meio ambiente são mais prolíficas que as espécies menos adaptadas.
Percebe-se então que a evolução pode se resumir a um jogo no qual sobrevive quem conseguir gerar a maior prole. Um exemplo simples que me vem à mente se refere aos casamentos consanguíneos. As sociedades primitivas devem ter aprendido com a experiência que casamentos consanguíneos eram um obstáculo à evolução, e por meio de leis ou normas religiosas acabaram por proibi-los. A conjunção de características resultante de casamentos consanguíneos é limitada.

Já o que chamamos de ciência da criação, ou criacionismo, é na verdade uma posição religiosa. Não se trata de uma teoria a ser testada com métodos científicos, logo, não pode ser ministrada nas escolas públicas. O mesmo Institute for Creation Research, já citado em post anterior, é claro ao dizer que "as escrituras, tanto o Antigo como o Novo Testamento, são inequívocas sobre qualquer assunto com o qual  lidem e devem ser aceitas no seu sentido natural".

O confronto entre um dogma de fé e uma teoria científica é desigual. Enquanto a Ciência é passível de refutação e muda constantemente na medida em que novos fatos reformulam as suas visões (Shermer), o criacionismo segue o caminho da fé na autoridade da Bíblia, desdenhando as evidências que venham a contradizê-la.

Eu também já tive a minha fase dogmática. Na minha juventude li um livro que por certo tempo marcou os meus conceitos: "Eram os Deuses Astronautas?", 1968, de Erich von Daniken, foi um choque para mim. Ele teorizava sobre as antigas civilizações terem sido forjadas por alienígenas. Para tanto ele apresentou as semelhanças entre as pirâmides egípcias e as incas, as linhas de Nazca, os moais da ilha de Páscoa, enfim os mistérios arquitetônicos que não conseguimos desvendar. Segundo Daniken, esses extraterrestres eram tidos como divindades pelos povos antigos, e não há como explicar o aparecimento de objetos voadores nas desenhos antigos senão com hipóteses como essa.

Quarenta e quatro anos mais tarde assisti ao filme Prometheus, de Ridley Scott, em que na segunda metade deste século uma nave estelar segue um mapa descoberto entre as ruínas de uma antiga civilização. O que mais me impressionou no filme foi a cena inicial, em que um alienígena é deixado na terra por uma nave, e em seguida ele se desintegra e suas partes caem em um rio, onde seu DNA vai participar da evolução das espécies do planeta. Vim a saber depois de ter visto o filme que Scott se inspirou em Daniken para fazer o roteiro do filme, daí eu ter gostado tanto de ambos.

Também já fui coroinha. Sabia a missa de cor, em latim. A parte que mais demorei a decorar foi o Suscipiat:

P. Orate fratres.
Wait till the priest has turned back to the altar; then say without bowing:
S. SUSCIPIAT DOMINUS SACRIFICIUM DE MANIBUS TUIS, AD LAUDEM ET GLORIAM NOMINIS SUI, AD UTILITATEM QUOQUE NOSTRAM, TOTIUSQUE ECCLESIAE SUAE SANCTAE.


que faz parte do Ofertório e que o coroinha tinha que responder ao Orate Fratres. Isso em um internato de  franciscanos americanos em Anápolis, o colégio São Francisco, em 1959. Tenho para mim que a Igreja Católica perdeu muito ao abolir a missa em latim. Havia mais mistério, a liturgia era maior. O padre voltado para a mesma direção dos fiéis me parecia mais lógico, já que agora o foco se voltou para a figura do celebrador da missa, não para o mistério escondido no altar.

 O fato de eu ter saído de casa aos 15 aos e de ter percorrido desde internatos católicos a quartéis e pensões de estudantes, felizmente me permitiu matutar sobre as diversas versões de como levar a vida. Fui como que conduzido a me aprofundar nos assuntos que me intrigavam e me intrigam até hoje. Com isso eu vim a me tornar um cético, o que me libertou do perigo de vir a participar de congregações como a descrita no vídeo abaixo:

http://youtu.be/mKJyZ7UloJw




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