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Uma Agenda para o Conclave

Que fique claro que um cético não tem nada a ver com o que vão discutir os cardeais trancados a sete "claves" na Capela Sistina. Gostaria apenas de colocar para o meu minúsculo publico alguns dados que considero importantes e que com certeza não vão constar da agenda do Conclave.

Entendo que a finalidade do Conclave é eleger o novo Papa. Entendo também que haverá duas correntes principais que irão nortear a escolha, que podemos rotular de fundamentalista e progressista. E é claro também que os fundamentalistas têm se saído melhor pelo menos nos dois últimos Conclaves, e a meu ver esse é o principal motivo do sangramento pelo qual a Igreja Católica está passando.

Inicialmente vamos analisar a representatividade desse Conclave:
  • A América Latina tem 483 milhões de católicos que estarão representados por 21 cardeias votantes. Cada cardeal latino americano representará 23 milhões de fiéis
  • A Europa tem 277 milhões de católicos que estarão representados por 58 cardeais votantes. Cada cardeal europeu representará 4,8 milhões de fiéis. 
  • A África tem 177 milhões de católicos representados por 11 cardeais votantes.  Cada cardeal africano representará 16,1 milhões de fiéis. 
  • A Ásia tem 137 milhões de católicos representados por 10 cardeais.  Cada cardeal asiático representará 13,7 milhões de fiéis. 
  • A América do Norte (Canadá e EUA) tem 86 milhões de católicos representados por 14 cardeais votantes.  Cada cardeal norte americano representará 6,1 milhões de fiéis. 
  • A Oceania tem 9 milhões de católicos representados por 1 cardeal cotante.  Este cardeal da Oceania representará 9 milhões de fiéis. 
Não poderíamos encontrar melhor radiografia do poder dos países desenvolvidos do que a mostrada acima. Os países "brancos" da Europa, América do Norte e Oceania, e os países "não brancos" da América Latina e África, com a Ásia mais heterogênea espremida no meio. O Brasil em particular está em posição extremamente desconfortável: com 5 cardeais votantes e 123 milhões de fiéis, terá um representação de 1 para cada 24,6 milhões de fiéis. 

A conclusão é clara: Esse Conclave não tem nada de representativo, de democrático. A voz de um europeu vale 5,1 vezes mais que a voz de um brasileiro. Seria então necessário que o novo Papa assumisse o compromisso formal de tornar essa desigualdade menos escandalosa. Isso não deve ocorrer, da mesma forma que não se discute no Brasil a representatividade de um paulista na Câmara Federal ser uma fração da de um acreano. 

Vamos agora analisar os motivos que levam a Igreja Católica brasileira, tão pobremente representada no Conclave, a essa situação de perda acentuada de fiéis. Os dados que consegui angariar foram os seguintes:

 1872      1980       1991       2001       2003      2009   
99,72%   88,96%   83,34%   73,89%   73,79%   68,43%

ou seja, em seis anos a Igreja Católica perdeu 5,36% de participação na população brasileira, ou cerca de 10 milhões de fiéis, e essa queda como vemos tende a se acentuar ainda mais. Um marqueteiro, desses que trabalham nas eleições, apontaria imediatamente as receitas a serem aplicadas a este doente terminal:
  • A população brasileira é de aproximadamente 197 milhões de habitantes. Destes, estima-se que 18 milhões são homossexuais, ou 9,1% da população. Essas pessoas carregam consigo a chaga imposta pela sua religião de que o seu comportamento é uma falta gravíssima descrita na Bíblia, o livro que norteia o comportamento de todos os cristãos. Isso tem que mudar. Não se pode mais aceitar que 10% da sociedade é composta de pecadores mortais. Isso não faz mais sentido, principalmente se levarmos em conta que muito provavelmente os ministros dessa cruzada têm a sua fração de homossexuais igual ou maior que a da sociedade da qual são pastores. Os novos evangélicos são ainda mais intolerantes nesse quesito, e a Igreja Católica tem à sua disposição um rebanho de 18 milhões de ovelhas perdidas à espera de um sinal de aceitação. 
  • Se um Papa, por motivos que não cabe aqui discutir, pode abdicar de sua missão de Grande Pastor da Igreja, o que me impediria de abdicar do compromisso com um matrimônio no qual eu não vejo futuro? Dados do Censo 2010 indicam que a proporção de pessoas divorciadas no Brasil quase dobrou na última década, passando de 1,7% para 3,1%. Isso representa uma população de 6,1 milhões de divorciados, aos quais devem se somar 3,3 milhões de desquitados ou separados judicialmente. Nem vamos considerar os que se casaram novamente, que respondem ao Censo como casados. Essas pessoas não são aceitas na comunidade católica, e aqueles mais fracos de espírito não têm outra opção que não seja procurar abrigo onde sua falta "grave" seja ao menos entendida. 
  • O controle da natalidade, junto com a prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, são uma imposição dos tempos modernos. A natureza não suporta mais o aumento populacional; a AIDS é uma praga que por enquanto só pode ser controlada pela prevenção. A inflexibilidade da Igreja Católica nesses assuntos não faz o menor sentido. 
  • O celibato foi inicialmente defendido por Paulo: "É bom para um homem não ter relações sexuais com uma mulher. Mas, devido à tentação de imoralidade sexual, cada homem deve ter a sua própria mulher a cada mulher o seu próprio marido (Coríntios 7, 1-2)". Ou seja, para que a religião não seja responsabilizada pela extinção da espécie, vamos tolerar a monogamia. A imposição do celibato se deu em 1123, pelo novo Código de Direito Canônico, no Primeiro Concílio de Latrão, mas segundo fontes históricas, no Consílio de Constança, em 1414, 700 prostitutas atenderam sexualmente os participantes. Discuti esse assunto com um grande amigo meu católico praticante. Meu ponto de vista era que o fim da imposição do celibato com certeza iria amenizar a grave incidência da pedofilia dentro da Igreja. Não fui suficientemente convincente. Pra mim é claro que um homem sem companheira sexual está mais propenso à pedofilia. Eu disse "mais propenso". 
A famosa estátua de «Impéria» criada por Peter Lenk como homenagem às centenas de prostitutas que, por ocasião do Concílio de Constança (1414-1418), estiveram naquela localidade alemã
Enfim essa seria a minha agenda a ser discutida no Conclave. Hoje vi na TV uma cena que me constrangeu. Um cardeal, italiano, se dizia impedido de fazer o que ele mais gostava, que era participar de reuniões com crianças, traze-las ao seu colo, beliscar suas bochechas. Segundo ele ultimamente as mães dessas crianças procuravam evitar essas situações.

Não consigo imaginar um crime mais hediondo que o de um ministro da igreja que pratica a pedofilia. Para mim ele chega a suplantar os crimes praticados nos campos de concentração nazistas. Lá a vítima não era iludida: estava posta de forma muito clara a destinação de sua existência. Um padre que molesta uma criança a levou a essa situação com um argumento vil, que ele mantém na sequencia do domínio da alma dessa criança. A Igreja, ao acobertar essa vilania, se torna partícipe dessa chaga que a destrói. 

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