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Petrobrás: O tempo pode apagar tanta lambança?

Parece que sim, e é isso que esperam os envolvidos. É sempre assim e eu vou dar um exemplo: este é o terceiro Post seguido no qual eu discuto o Petrolão, e no segundo Post teve menos da metade dos acessos do primeiro, o que não é boa noticia para este terceiro Post.

A mídia também já está se cansando de tanta notícia ruim, seguindo, é claro, a disposição dos seus leitores e ouvintes, mas eu acho que ainda temos muito pra falar, e vamos em frente!

Enquanto escrevo, fico sabendo que a Moody's fez o esperado, reduzindo a nota de crédito da Petrobrás de BAA3 para BA2. Esses números são mesmo pra confundir, não se acanhem; mas trocando em miúdos o investimento na Petrobrás deixou de ser seguro para se tornar especulativo, e se a Petrobrás quiser dinheiro emprestado vai ter que pagar um juro maior. A Dilma, é claro, chamou essa decisão de "falta de conhecimento" da Moody's, como se ela conhecesse plenamente, ministra das Minas e Energia e Presidente do Conselho de Administração da Petrobrás que foi, a empresa que ela ajudou a jogar no fundo do poço.

A situação da Petrobrás ficou tão crítica que, entre as grandes petroleiras do mundo, ela tem a sua nota de crédito superior apenas à da PDVSA venezuelana e da YPF argentina. É tido como provável o rebaixamento da nota do Brasil na onda gerada pelo escândalo do Petrolão, já que a crise da Petrobrás deve provocar uma onda de inadimplência entre as empresas brasileiras, o que vai agravar ainda mais o estado da nossa economia já estagnada. O Governo está dando a sua contribuição a esse estado de coisas usando o Petrolão para deixar de pagar suas obrigações junto às empresas envolvidas, praticamente levando-as à falência.

Diz a sabedoria popular que não se deve pôr todos os ovos em uma só cesta. Por sinal, tem uma piada circulando por aí que um figurão da quadrilha desembarcou em Genebra com 10 milhões de dólares e foi advertido pela fiscalização que ele não devia viajar com tanto dinheiro, que ele fizesse várias viagens por segurança, ao que ele respondeu: "Mas é exatamente o que eu estou fazendo!".

A Petrobrás, que Getúlio fundou e transformou em um símbolo, e os símbolos são intocáveis, e o Lula sabe disso, é um exemplo claro de que os ovos foram temerariamente colocados em uma só cesta. Ela produz mais de 90% do petróleo que consumimos, é dona de todas as refinarias nacionais importantes, opera mais de 34 mil km de oleodutos, domina a distribuição de gasolina e diesel no atacado e é dona da maior rede de postos de gasolina.

A política do governo sempre foi a de tornar a Petrobrás tão importante que sequer pensar na sua privatização se tornou crime de lesa pátria. Ela estava fadada e responder por 10% da produção econômica do Brasil. Como resultado do escândalo do Petrolão a Petrobrás suspendeu os pagamentos da maioria dos seus projetos, e proibiu novos contratos com as maiores empresas de engenharia e petroquímica. Essa queda nos gastos da Petrobrás vai resultar na diminuição de 0,75% do crescimento esperado para a economia em 2015, e o resultado será certamente uma recessão.

É claro que os problemas da Petrobrás não vão ficar restritos à sua área de atuação e às suas prestadoras de serviço. Eles vão se espalhar por toda a economia, e vão atingir em cheio o mercado de capitais. A consultoria Pricewaterhouse Coopers se recusou a assinar o balanço trimestral, em virtude das incertezas referentes à revisão dos valores dos seus ativos. Sem esse relatório assinado pela PwC a Petrobrás vais ficar impedida de recorrer ao mercado global de obrigações, isso com uma dívida líquida que gira em torno de 110 bilhões de dólares. Essas obrigações da Petrobrás servem como referência a todas as empresas brasileiras, e na falta delas essas empresas também não irão recorrer a esse mercado.

Para dar um exemplo, em janeiro de 2014 as empresas brasileiras venderam US$ 6,5 bilhões de obrigações. Esse valor não vai se repetir este ano porque mesmo as empresas sólidas vão evitar pagar mais caro pela dívida que iriam assumir. A OAS já está renegociando suas obrigações para evitar a falência. Sua dívida chega a US$ 2,8 bilhões. A Sete Brasil, nossa velha conhecida, já deve US$ 4,3 bilhões aos bancos. Vai ser difícil para ela fugir da concordata, e ela vai levar consigo as empresas que contratou para construir suas plataformas.

A solução encontrada pelos bancos credores para sair dessa encrenca já está sendo adotada. Ela inclui a venda de ativos e bens para sobreviver, Entre os bens serão incluídos as estradas e os aeroportos. Os bancos de investimento estão fortemente empenhados na promoção de fusões e aquisições. mas será inevitável que eles também sejam atingidos por esse tsunami.

E qual é o dever de casa da Petrobrás? Sua primeira tarefa é a declaração do desconto a ser aplicado ao valor dos seus ativos em decorrência da corrupção, para poder ter o seu balanço aprovado pela PwC. Se isso não for feito até junho os credores dos seus US$ 54,5 bilhões em obrigações vão exigir o imediato pagamento. Não restará ao governo outra saída a não ser exercer forte pressão sobre os bancos locais para o fornecimento do financiamento necessário a sanar toda essa lambança. Isso iria colocar os bancos na mira das agências de classificação de risco.

Em resumo, o nosso querido Brasil se encontra talvez mergulhado no maior atoleiro da sua história, e devemos agradecer essa dádiva ao nosso querido PT, que é a mais perfeita conjunção do que o Ives Granda Martins muito apropriadamente chamou de "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse": o Político, o Incompetente, o Corrupto e o Burocrata. Por falar em atoleiro, o The Economist de 28/02, pra variar, nos brinda com essa obra de arte que ele muito apropriadamente dá o título de "Brazil in a Quagmire":



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