Uma ferramenta eficaz que o governo está utilizando com frequência é a maquiagem de dados, ou melhor, a criação de uma fórmula que vai de encontro àquelas universalmente aceitas. Isso se aplica à avaliação oficial dos dados que são divulgados sobre a nossa Classe Média.
De acordo com a propaganda oficial o Brasil se tornou, nesses últimos anos, o país da Classe Média. Só que uma medição que não leva em conta qualquer critério de comparação com os outros países, a meu ver, não se sustenta, e para isso existem organizações independentes que periodicamente emitem relatórios. O mais conhecido e respeitado é o Pew Research Center, do qual já falamos nesse Blog ( http://www.pewresearch.org/ ).
Na sua edição de 08/07 ele emitiu o relatório "A Global Middle Class is more a Promise than Reality", que traz um Raio X perfeito de como se comportou a população global na primeira década desse século. As notícias em geral são boas. De 2001 a 2011 tivemos uma redução importante da pobreza global, com os seguintes dados:
E quais os critérios que o Pew Center utiliza para chegar a esses dados? As quatro fronteiras que separam esses cinco grupos foram definidas da seguinte forma:
Pois bem, vejamos o que diz o IBGE. Para ele as classes estão divididas em A. B, C, D e E, onde a classe C é tido como a Classe Média. Para ele a nossa população é dividida da seguinte forma:
Com base nesse critério a sociedade foi dividida nas seguintes classes econômicas:
Ou seja, se uma família tem sua pontuação situada entre 17 e 28 pontos, ela pertence à Classe Média. Para fazer 17 pontos basta que você tenha:
Voltando ao Pew Center, no dia 20/07 saiu um novo relatório, desta vez referente à América Latina: "Latin America's Middle Class grows, but in some regions more than others". Os dados são um pouco conflitantes dos dados do Datafolha, mas de qualquer forma estão bem abaixo dos do Critério Brasil:
A se julgar por esse relatório o Brasil tem um Classe Média correspondente a apenas 27% de sua população. Esse percentual é menor que o da Argentina, da Venezuela, do Chile, da Costa Rica e do Uruguai.
Conclusão: Um país que tem sua Classe média medida por critérios internacionais situada por volta de 27%, e que cria um critério próprio que alavanca esse percentual para 47%, não pode ser chamado de sério.
De acordo com a propaganda oficial o Brasil se tornou, nesses últimos anos, o país da Classe Média. Só que uma medição que não leva em conta qualquer critério de comparação com os outros países, a meu ver, não se sustenta, e para isso existem organizações independentes que periodicamente emitem relatórios. O mais conhecido e respeitado é o Pew Research Center, do qual já falamos nesse Blog ( http://www.pewresearch.org/ ).
Na sua edição de 08/07 ele emitiu o relatório "A Global Middle Class is more a Promise than Reality", que traz um Raio X perfeito de como se comportou a população global na primeira década desse século. As notícias em geral são boas. De 2001 a 2011 tivemos uma redução importante da pobreza global, com os seguintes dados:
- Pobres: 29% para 15%
- Baixa Renda: 50% para 56%
- Renda Média: 7% para 13%
- Renda Média - Alta: 7% para 9%
- Alta Renda: 6% para 7%.
E quais os critérios que o Pew Center utiliza para chegar a esses dados? As quatro fronteiras que separam esses cinco grupos foram definidas da seguinte forma:
- Pobreza: renda per capita abaixo de 2 dólares diários
- Baixa Renda: renda per capita entre 2 e 10 dólares.
- Renda Média: renda per capita entre 10 e 20 dólares.
- Renda Média - Alta: renda per capita entre 20 e 50 dólares.
- Alta Renda: renda per capita acima de 50 dólares.
O dólar americano valia em 30/06 R$ 3,11. Vamos considerar esse o valor médio para o ano em vigor. Nesse caso um brasileiro se situaria da seguinte forma:
- Pobres: renda mensal abaixo de R$ 187
- Baixa Renda: renda mensal entre R$ 187 e R$ 933
- Classe Média: renda entre R$ 933 e R$ 1,866
- Classe Média Alta; renda entre R$ 1,866 e R$ 4,665
- Classe Alta: renda acima de R$ 4,665
O que eu estou dizendo, com base no dólar a R$ 3,11, é que uma família brasileira de 4 membros, para se considerar pertencente à Classe Média, deve ter uma renda mensal maior entre R$ 3.732 e R$ 7.464. Acho que nenhum brasileiro, nesses dias tenebrosos que estamos vivendo há de discordar do meu argumento.
Pois bem, vejamos o que diz o IBGE. Para ele as classes estão divididas em A. B, C, D e E, onde a classe C é tido como a Classe Média. Para ele a nossa população é dividida da seguinte forma:
- Classe E (Pobres): renda familiar até 2 salários mínimos
- Classe D (Baixa Renda): renda familiar entre 2 e 4 salários mínimos
- Classe C (Média): renda familiar entre 4 e 10 salários mínimos
- Classe B (Média Alta): renda familiar entre 10 e 20 salários mínimos
- Classe A (Alta): renda familiar acima de 20 salários mínimos
Simplificando, para pertencer à Classe Média é suficiente que você tenha uma renda familiar entre R$ 2.900 e R$ 7.250. Esse limite inferior é hoje 22% menor que o preconizado pelo Pew Center. para uma família de 4 membros, Mas como a família média brasileira, de acordo com o mesmo IBGE, tem hoje um pouco menos de 2 filhos, podemos dizer que esses números não diferem significativamente dos do Pew Center.
Agora vamos nos transportar para uma pesquisa Datafolha de Novembro de 2013. Segundo ela a pirâmide de renda do Brasil é a seguinte:
Agora vamos nos transportar para uma pesquisa Datafolha de Novembro de 2013. Segundo ela a pirâmide de renda do Brasil é a seguinte:
- Renda familiar até 2 salários mínimos - 46%
- Renda familiar entre 2 e 3 salários mínimos - 20%
- Renda familiar entre 3 e 5 salários mínimos - 16%
- Renda familiar entre 5 e 10 salários mínimos - 9%
- Renda familiar entre 10 e 20 salários mínimos - 4%
- Renda familiar acima de 20 salários mínimos - 5%
Fazendo uma interpolação na faixa entre 3 e 5 salários mínimos, podemos dizer que a nossa Classe Média, se acordo com o IBGE, corresponde a (16/3 + 9) = 14,3% da nossa população. Logo, é "óbvio" que o Brasil, de acordo com o Pew Center e com o IBGE, não é definitivamente o país da Classe Média.
Esse tipo de informação não serve como propaganda desse governo. Seria necessário criar critérios "jabuticaba", aqueles que só existem aqui. Para isso se recorreu à ABEP - Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa, que inventou um tal Critério Brasil (nome bem adequado por sinal). Ele se baseia na posse de itens que uma família possui, os serviços públicos de que usufrui e o grau de
instrução do seu chefe:
instrução do seu chefe:


Com base nesse critério a sociedade foi dividida nas seguintes classes econômicas:

- Um banheiro - 3 pontos
- Uma microcomputador - 3 pontos
- Uma geladeira - 2 pontos
- Um automóvel - 3 pontos
- Uma lava roupa - 2 pontos
- Água encanada - 4 pontos
e .... eureka! Você pertence à Classe Média. Com base nessa tabela e com os dados do IBGE chegamos ao que quer o governo:
A Classe Média brasileira responde por 24,6 + 22,9 = 47,5% da população. É muito deboche. Por um passe de mágica pulamos de 14,3% para 47,5%, e o governo pode alardear o progresso que a Classe Média brasileira sofreu durante a administração Lula / Dilma.
Só que a mentira tem pernas curtas. O que está acontecendo com a nossa Classe Média é evidente: ela está diminuindo, e as benesses que foram dadas de forma irresponsável nesse período estão sendo todas retiradas, por falta fundos (there is no free beef).

Só que a mentira tem pernas curtas. O que está acontecendo com a nossa Classe Média é evidente: ela está diminuindo, e as benesses que foram dadas de forma irresponsável nesse período estão sendo todas retiradas, por falta fundos (there is no free beef).
Voltando ao Pew Center, no dia 20/07 saiu um novo relatório, desta vez referente à América Latina: "Latin America's Middle Class grows, but in some regions more than others". Os dados são um pouco conflitantes dos dados do Datafolha, mas de qualquer forma estão bem abaixo dos do Critério Brasil:

Conclusão: Um país que tem sua Classe média medida por critérios internacionais situada por volta de 27%, e que cria um critério próprio que alavanca esse percentual para 47%, não pode ser chamado de sério.
Interessante a comparação entre países. A porcentagem de classe média de 30% mínima separa os países onde mais me encanta estar: Argentina, Uruguay e Chile Os 3 em pauta produzem bons vinhos, mas existem outras razões (menos importantes). O modelo Argentino é intrigante, só falamos mal dos Hermanos há décadas, que estão a beira do desastre e da calamidade econômica, no entanto estive lá semana passada, os restaurantes cheios e o Governo aumentou o salario mínimo em 28,5%, para recuperar as perdas inflacionárias, o país cresce e se vive bem em geral. O Scioli da Cristina provavelmente vai ganhar e o modelo Kirshner segue funcionando. Convido a amigo a dar uma analisada no caso de forma mais ampla que da perpectiva da parrilla. Um abraço.
ResponderExcluirCaro Amaro.
ExcluirO John Kenneth Galbraith já deu uma resposta para a tua intrigante questão. Segundo ele, só existem duas sociedades viáveis no planeta: a dos esquimós e a dos argentinos. Os esquimós porque comem couro de baleia como chiclete, Os argentinos porque são (ou quem sabe já foram) auto suficientes em tudo: combustível, proteína animal, cereais, e o mais importante: água em abundância, dos Andes, da bacia do Prata e dos seus inúmeros pântanos. Os hermanos, por mais que se esforcem, ainda não conseguiram anular todas essas dádivas. Aquela piada que uma forma de ganhar dinheiro é comprar um argentino pelo dobro do que ele vale e vendê-lo pela metade do que ele pensa que vale não faz muito sentido. Eles de fato são muito ricos, graças à Mãe Natureza.
Totalmente de acordo. Com população pequena e problemas sempre inflados pela paixão ítalo-espanhola sempre protagonista do imaginário nacional portenho drama acirrado pela violência das ditaduras militares de políticos malandros de Buenos Aires. Mas desde o século 19 uma preocupação com a educação nacional que eleva as exigências de suas classes médias e o nível de civilidade em geral . Drama, malandragem, fartura e educação, é o tango. Por outro lado uma obra cultural de alto nível na música, no cinema e na literatura. Mas ainda prefiro a Argentina da beira dos Andes, dos vinhos e cantos solenes das alturas.
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