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Estamos começando a nos conhecer

Tenho uma posição um pouco diferente na análise da situação pela qual estamos passando: Estamos, finalmente, começando a travar conhecimento de nós mesmos. 

E o resultado não é bom. Vamos começar pelo que o brasileiro entende como o papel do Estado. Para ele, o Estado é aquela entidade que está à sua disposição para socorrê-lo sempre que necessário. Ele mesmo não se considera responsável por contribuir com a mudança de como as coisas ocorrem. Reclama mas não age e fica aguardando que o Super Protetor venha em seu socorro.

Esse é o adubo do populismo, do aparecimento dos Messias que tanto grassam em nossa pobre América Católica. Junte-se a isso o clientelismo: nós brasileiros estamos sempre à espreita de uma oportunidade de levar vantagem na nossa relação com o Caudilho de ocasião. O aproveitador desse estado de coisas sabe exatamente o que fazer para alcançar o poder e conquistar a nossa confiança.

Por sinal, a palavra confiança é a chave da questão. Nós confiamos na pessoa que será o síndico do nosso condomínio, e existem nesse condomínio diversas pessoas qualificadas para assumir esse cargo. Em geral não pairam dúvidas sobre a honestidade com que o escolhido vai desempenhar essa função. Mas na medida em que o cargo sobe em importância, a honestidade passa para segundo plano e a coisa vira uma questão de crença. Quando a coisa dá errado, não há um interesse forte em apurar por que deu errado, mas sim em acreditar no que diz o Messias do dia.

Segundo Bernardo Toro, pensador colombiano que recentemente apareceu nas Página Amarelas da Veja, existe motivação histórica nesse comportamento. Os espanhóis e os portugueses vieram colonizar esse continente com uma visão totalmente extrativista; vieram para explorar, e trouxeram consigo instituições prontas. Já os Estados Unidos foram fundados por imigrantes perseguidos por motivos religiosos, e eles mesmos tiveram que criar suas instituições a partir do zero. Sua organização levou em conta o fato de que não havia um ente protetor por trás de suas dificuldades. Com isso ela se tornou forte e atuante. Para o americano não existe a sorte nem a benesse cai do céu; seu sucesso é resultado de seu esforço próprio, a culpa do seu fracasso não pode ser atribuída a mais ninguém.

Vejamos agora a máquina pública. Pela sua própria definição ela pertence, ou devia pertencer, ao público, aos cidadãos. Por aqui é diferente; ela pertence às corporações e aos grupos que agem em seu próprio interesse. Não há nenhuma mobilização para que seja exigida qualidade nos serviços públicos, isso por pura falta de mobilização da sociedade. Só uma sociedade forte pode exigir, e isso nós não somos.

Como não existe cobrança, os incompetentes grassam, e isso se inicia no topo da pirâmide. São 31 (já foram 39) os ministros de Dilma. É um número espantoso, que nada tem a ver com qualquer motivação de eficiência, mas sim com a formação de uma coalizão que atenda a maioria dos partidos que a apoiam. Com isso e eficiência que se lixe. A Saúde e a Educação, dois dos nossos maiores problemas, há anos não têm um técnico com um mínimo de competência no seu comando, mas sim demagogos que sequer sabem se expressar quando surge um assunto grave em suas pastas.

Passemos agora aos programas assistenciais. O Estado dá assistência em troca de nada, e com isso torna-se mais prático entrar nesses programas que não exigem retorno que trabalhar. A situação não muda com essa abordagem, ou se muda é para pior. Com a falência das contas públicas que estamos presenciando, aqueles que foram galgados a uma Classe C maquiada por números que não são reconhecidos internacionalmente, estão vendo sua situação se deteriorar, e só vai restar aos nossos dirigentes plagiar o Maduro e culpar os americanos pelo que está ocorrendo.

O mais preocupante diz respeito ao nosso Messias Mór. Ele no presente momento se encontra cercado pelos mais obscuros episódios. Seu amigo do peito, aquele que tinha acesso a ele a qualquer momento e em qualquer circunstância, está preso. Como chefe "de fato" da nação, ele tem que conviver com o fato de seu líder na Câmara também estar preso. A maior empresa do País virou pó sob seu governo e o do poste e que ele resolveu por bem pôr em seu lugar. Seu filho faz copy/paste na Wikipedia e ganha milhões com isso. Ele mesmo também recebe por palestras dadas a empresas envolvidas no Petrolão outros milhões, em grandeza maior.

E o que acontece? Os fatos não têm importância quando você pode recorrer à crença de que ele, como Messias que é, tem a faculdade de, com um leve manuseio de palavras, dizer que nada tem a ver com isso. Em qualquer país sério a prisão de um Bumlai já o colocaria com um pé no xadrez, mas esse não é ainda um país sério.

Na medida em que nós brasileiros começarmos a perceber que toda essa situação é na verdade resultado da nossa leniência, duas coisas podem acontecer. Uma delas é finalmente uma guinada em nossa situação como nação importante nesse planeta tão carente das riquezas que possuímos. Vai ser difícil na medida em que esses ideólogos de meia tigela se prepararam para não largar o osso que conquistaram.

Outra opção é a resignação, e aí, como cético que sou, só posso pedir a Deus que nos acuda. O progresso das nações nesse começo de século é cada vez mais célere, e as décadas que já perdemos nos colocaram na situação de menos que coadjuvantes. Ninguém mais acredita nas nossas premissas, e só nos restará continuar a nossa viagem em direção ao desastre.

Praticamente todos os meus amigos têm filhos já longe desse quadro de horror. Eu mesmo tenho uma das duas filhas e dois dos quatro netos a salvo dessa catástrofe. Tenho amigo cujas 3 filhas decidiram emigrar. Não há futuro em uma sociedade que se conhece dessa forma.

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