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Mutações Musicais

"Narciso acha feio o que não é espelho, e à mente apavora o que anida não é mesmo velho, nada do que não era antes quando não somos mudantes.... Afasto o que não conheço".

Este hino a São Paulo chegou a chocar os paulistanos pela insinuação de que a cidade era o túmulo do samba: "Como assim, e o Adoniran?". Tanto que eles deram preferência ao Tom Zé com seu "São, São Paulo" mais carregado nos elogios. 

Embora o personagem de Caetano que chega a São Paulo certamente não seja idoso, eu entendo que a frase acima é completamente adequada a essa faixa etária. Pelo menos no meu caso, na medida em que ia envelhecendo, comecei a perceber o meu comportamento refratário ao novo. Como tenho afinidade com a atividade musical, comecei a perceber que estava totalmente contaminado por aquilo que decidi chamar e "definições definitivas" referentes à música. Por exemplo:
  • Tinha a convicção de que música é pra ser ouvida. Não se deve "ver" música, a não ser numa sala de shows ou num teatro, "ao vivo". Tanto que nunca pus a mão no bolso pra comprar um DVD de música. Os que tenho ganhei de presente. Meu acesso ao You Tube se resumia a ver os lances mágicos do Roger Federer e alguns outros vídeos esportivos. 
  • Nunca dei crédito às releituras de clássicos da música popular, muito menos da musica clássica. Minha tentação de gostar dos Swingle Singers tinha morrido junto com a minha adolescência:



  • Minhas restrições em relação à MPB moderna eram grandes. Pagode para mim era música menor. Sertanejo nem pensar. Dos grandes compositores da minha juventude dava crédito ao Chico, ao Caetano e ao Milton. Cantora era a Elis, herdeira da Elizete. 
  • Para mim era impensável dar valor a quem se atrevesse a replicar uma Elis, um Milton, um Yves Montand, uma Edith Piaf, um Bing Crosby, uma Ella, uma Mahalia. Tinha que ser respeitado o fato de que não era possível se chegar perto da interpretação desses ícones.
Comecei a rever minhas posições quando tomei conhecimento de compositores maravilhosos que habitam ou habitaram os morros cariocas. A começar por Cartola, que hoje para mim está numa escala maior que os meus ídolos iniciais, e que foi redescoberto por Sérgio Porto (o Stalislaw Ponte Preta) lavando os carros dos moradores de um edifício em Ipanema.

Mais tarde conheci Luis Carlos da Vila, Um poeta que nos deixou cedo por conta de um câncer. Sua música me encantou a ponto de tê-la colocado entre minhas preferidas nas noitadas pelas quais eu passo tentando alegrar os clientes em mesas de bar. Nascido no bairro de Ramos, nos brindou com essa pérola homenageando os compositores que se reúnem numa praça protegidos pela sombra de uma tamarineira:


Em seguida veio e Zeca Pagodinho. Tenho a convicção de que existem duas pessoas que tornam a vida dos brasileiros menos triste, e já escrevi um Post sobre isso: Ana Maria Braga e Zeca Pagodinho:

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4921554468146560259#editor/target=post;postID=4078687713763799775;onPublishedMenu=template;onClosedMenu=template;postNum=39;src=postname

Quem tiver a curiosidade de ler o que escrevi anos atrás vai acabar concordando comigo. Mas tudo bem; meu preconceito estava aos poucos sendo minado. O golpe final ocorreu quando meu amigo Celso me enviou um vídeo da Zaz. Mas quem se atreve a se chamar de Zaz e querer viver de música?

Cada cidade tem sua música. O Rio acaba de ser "homenageado" pela paulistana Rita Lee numa interpretação da "Valsa da Cidade" que na verdade ocorreu em 2.007:

http://www.boatos.org/entretenimento/rita-lee-eu-sou-rio.html

Coisas da Internet, boatos. Paris tem várias músicas, todas cantadas pelos seus ídolos musicais, tendo Yves Montand como principal porta voz. Na minha opinião as melhores são "A Paris" e "Sous le Ciel de Paris". Elas deveriam permanecer intocáveis. Pois bem, a Zaz acaba de quebrar mais um elo que me mantinha preso ao velho. Sua homenagem a Paris é bela a ponto de, desde que a recebi, acho que não houve um único dia em que não a tenha ouvido/visto. Cheguei ao ponto de comprar uma JBL Filp4 para ouvi-la melhor no celular.

As tomadas da cidade, mescladas por uma linda arte digital que replica os personagens citados na música definitivamente me tiraram do século XX e me conduziram ao atual, ao novo, que também traz uma mensagem bela. Um "hum hum" pronunciado pela Zaz numa atitude de muxoxo, totalmente diferente do "HUMM, HUMM" do Yves Montand, não é só engraçado, é atual frente as mudanças pelas quais passou essa "vieille cité":


Sob o céu de Paris
Voa uma canção
Ela nasceu hoje
No coração de um rapaz
Sob o céu de Paris
Caminham os apaixonados
Sua felicidade se constrói
Num ambiente feito para eles



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