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Minha noção de desigualdade

A mundo é desigual. Ainda bem. Todas as religiões ou ideologias que promovem a igualdade estão erradas, e isso é simples de provar. Basta compararmos duas pessoas que vamos chegar à conclusão que é absolutamente impossível que elas sejam totalmente iguais em tudo, mesmo se forem gêmeas univitelinas. 

O elemento que promove uma sociedade a posições elevadas tem um nome: mérito. Sem as ferramentas que reconhecem o esforço pessoal é impossível que um grupo evolua, e é aí que todas as tentativas de se criar uma sociedade igual resultam em fracasso. Tem aquela história, que circula na Internet, da experiência de um professor que convenceu seus alunos de que o socialismo não funcionava, definindo que as notas da sua matéria seriam a média das notas individuais de todos. O resultado foi um decréscimo constante nas notas médias até a reprovação de todos os alunos. 

Não sei se essa história é verdadeira, mas ela é emblemática. Ninguém vai se sujeitar a participar de um grupo que não está interessado em reconhecer o mérito dos mais capazes, mas sim se aproveitar desse mérito para proveito próprio. Mas aí surge a pergunta: qual o papel do Poder Público nessa questão, com certeza a mais importante num país tão desigual como o nosso?

A resposta está escancarada no resultado do PISA (Programme for International Student Assesssment), onde o Brasil ficou em 57º lugar entre 79 países e regiões avaliados em matemática, ciências e leitura. Só que ao mesmo tempo se constata que a escolas privadas de elite brasileiras colocariam o Brasil na quinta posição, e que as escolas públicas isoladamente seriam classificadas na 65ª posição. 

É aí que mora o problema: existe uma desigualdade intrínseca às pessoas, e outra externa, imposta pela sociedade. Vamos ver um exemplo ilustrativo disso: 

Vamos fazer uma triagem para selecionar jovens atletas, e a prova consiste em uma corrida de 1.000.metros. Só que uma maioria de 73,5% desses jovens deve portar um cinto de 10 quilos na cintura e correr descalço, e uma minoria de 26,5% pode correr sem esse cinto e usar tênis de corrida. É evidente que essa seleção é viciada e aqueles que forem aprovados nunca vão refletir as capacidades de cada grupo. 

É essa injustiça que permeia a nossa sociedade. Disse Guzzo no Estadão de 09/12:

"Só há uma chance na vida de adquirir os conhecimentos básicos para melhorar a condição social de quem nasceu pobre, e essa chance é a escola básica". Se for perdida, ela não volta nunca mais; é perfeitamente inútil ficar falando em "resgate da pobreza", "ascensão social", "mais igualdade" depois que o garoto saiu da escola e não aprendeu o que deveria ser aprendido". 

Ou seja, enquanto esse problema não for encaminhado, enquanto essa desigualdade externa não for resolvida, tudo o que vem em seguida no nosso objetivo que mudar esse País é pura perda de tempo. Mas o que faz os nossos governantes tão incapazes de resolver esse problema? 

Aqui temos duas respostas:

1 - Do lado esquerdo temos uma convicção de que o papel da escola é "socializar". É uma ilusão achar que saber converter valores de moedas, interpretar um texto ou acreditar que a Terra é esférica, tem algum valor enquanto as "elites" não forem liquidadas. O resultado do PISA não é mais que a prova de que a desigualdade é "social". Os mestres são preparados para difundir a mensagem que a Escola existe para formar aqueles que vão levantar a bandeira da "igualdade" social. 

2 - Do lado direito temos outro tipo de convicção, a de que é necessário colocar no comando da educação uma pessoa que incentive o conflito contra aqueles que estão no controle dessa estrutura, montada durante décadas de governo de esquerda. Um ministro predador é indispensável nesses tempos de mudança, sem o que não teremos resultados.

Fernão Lara Mesquita, na sua coluna de 10/12 dá uma sugestão para sairmos dessa sinuca: tornar a educação "representativa". Cada escola seria gerida pelo distrito a que pertence, ideia essa tirada dos chamados "school boards" existentes nos países de colonização inglesa. Mas aí surge a dúvida: como pode um favelado saber qual a solução para a escola de seu filho, se ele mesmo não teve uma educação melhor que a que está sendo dada?

Eu tive essa sensação quando morei na Califórnia em 1982. Os valores dos alugueis nos locais situados ao sul da Bahia de São Francisco eram fortemente influenciados pela qualidade das escolas públicas. Junte-se a isso o fato de o brasileiro ser avesso em participar de conselhos comunitários. Ele espera que aqueles que elegeu cumpram o seu papel sem a necessidade de cobrança, o que é uma porta aberta para a corrupção e ideologias espúrias. 

Minha convicção a respeito disso tudo é a de que nós como sociedade não damos a devida importância à educação, e os 26,5% que se sacrificam enviando seus filhos para escolas privadas "votam em branco" nesse assunto. Para eles a escola pública boa é coisa do passado e é inútil avaliar a possibilidade de recorrer a ela, salvo em casos extremos. 

Outra coisa a ser considerara é avaliar o papel da Escola nos dias de hoje, em que a toda a informação está disponível em um smartphone. É evidente que sua importância persiste como elemento socializante, mas não é mais aceitável creditar à escola pública toda a responsabilidade pelo nosso despreparo. Estou fazendo uma tentativa junto a uma menina de 13 anos, de convencê-la a se educar através do smartphone que lhe dei. Isso me levou a procurar na Internet locais de ensino à distância. Conheço uma moça que passou na Unicamp estudando nos cursos da Fundação Lemann, da qual sou voluntário..



Qualquer jovem pode perfeitamente tirar notas excelentes no PISA em matemática, bastando para isso ver as provas e as soluções a OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas:


Meus dois netos brasileiros moraram por anos em uma pequena cidade mineira na represa de Furnas. Havia apenas uma escola, pública. Lá estudavam todos, do filho do prefeito ao sorveteiro. É claro que nesse caso existe a cobrança da comunidade e a coisa funciona. Ao mudar para cá os dois conseguiram ser aprovados na prova para bolsa do Colégio Anglo. Isso impressionou os encarregados pela prova. Ou seja, no dia em que uma escola privada se instalar nessa cidade ela vai ter dificuldade, dada a qualidade do ensino público por lá. O difícil é repetir isso em Paraisópolis com o Morumbi ao lado. 

Para terminar essa arenga, resta uma consideração a respeito do efeito do progresso tecnológico sobre a sociedade, no que tange as oportunidades de emprego. Elas estão cada vez mais diminutas. O Estadão de 15 de dezembro traz uma reportagem importante sobre esse assunto, "Como os bilhões do SotfBank estão afetando o mundo, de Nova Délhi a Medelin, startups apoiadas pelo grupo japonês prometem maravilhas, mas depois deixam pessoas à míngua".

No distrito onde moro em Campinas estão duas das maiores universidades da cidade. A população jovem é imensa, em sua maioria de gente de fora da cidade. Há uma esquina no centro geográfico dos serviços de alimentação que está constantemente repleta de motocicletas com seus proprietários descansando deitados na grama da pracinha. Dali eles partem como bólidos para entregar suas encomendas, infernizando o trânsito, desobedecendo semáforos. A rapidez é essencial para que o resultado do dia viabilize a sobrevivência de suas famílias. 

Mal sabem esses servos da era moderna que em breve os drones vão tomar o seu lugar. Mas o que espanta é que essas empresas estão sendo criadas com a injeção maciça de dinheiro de grandes conglomerados financeiros mundiais, que aproveitam a descrença atual no Estado Social para arrebanhar essas hordas em todo o planeta oferecendo-lhe o sub emprego. 

Esse caminho a meu ver é uma ladeira abaixo. Não tem retorno. A única saída para isso é a criação do Salário Básico Universal tão defendido pela esquerda mas que causa arrepios na direita. Numa época em que trabalhadores e soldados passam a competir com robôs o interesse em proporcionar boa saúde e boa educação arrefece. 

Existe uma conexão forte aí, e é bom a gente se preparar para resolver essa situação. 


Comentários

  1. Muitos assuntos merecedores de atenção são tocados neste artigo. Diria que aqui há matéria para no mínimo cinco outros artigos. Mas vou me restringir a comentar um ponto mencionado logo no início: a existência de uma desigualdade imposta pelo sociedade. Acredito que todos entendem que esta desigualdade é injusta mas poucos estão conscientes de sua existência.
    Eu confesso a esta consciência só me veio recentemente, estando eu além dos 70 anos de idade. Foi quando fui ajudar a uma filho de um jardineiro no concurso para a Escola de Marinheiros. Ele acabara de terminar o fundamental em uma escola pública em Petrópolis e precisava se preparar para testes em Matemática, Português e Ciências. Busquei testes de anos anteriores para exercitar com ele mas antes lhe fiz algumas perguntas para sentir o seu nível. Fiquei abalado. O rapaz não sabia que uma multiplicação tem prioridade sobre uma soma na expressão 1+2x3, não sabia a que temperatura em que a água ferve, não sabia me dizer onde estava o Norte em um dia lindo com o sol nascente brilhando no céu. Fiquei pensando que seria o caso de se entrar na Justiça pedindo uma indenização do Poder Público por lhe dar uma Diploma de conclusão de um Curso Fundamental sem ter domínio de conceitos tão básicos.
    A verdade é que este rapaz foi educado para se tornar uma cortador de grama e aparador de árvores. Ele jamais terá "mérito" para entrar sequer em uma Escola de Marinheiros.
    Fica então uma pergunta: o que poderia ser feito para tornar esta desigualdade "injusta" mais consciente à elite que coloca seus filhos em escolas particulares dando cheque em branco ao que acontece nas públicas?
    Roberto Gadelha Pinheiro

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    Respostas
    1. Amigo Gadelha
      Esse é um exemplo típico de competidor que é lançado na competição descalço e com um lastro de 10 quilos. Como bem disse o Guzzo, não há mais nada a fazer. A ele a sociedade não proporcionou as ferramentas que lhe permitiriam competir de igual para igual. O caso que mencionei no Post é parecido.
      Quanto ao que pode ser feito para orientar a elite que foi a última do mundo ocidental a abolir a escravidão, não sei se tenho a resposta. Quando voltei da minha temporada de 1 ano fora, na qual minhas filhas aprenderam a arrumar a cama, ajudar na limpeza da casa e na lavagem da roupa, concluímos que esse comportamento poderia ser replicado aqui.
      Não durou uma semana. A nossa empregada, quando soube da nossa volta, implorou para voltar a trabalhar conosco, e tudo voltou a ser como era antes. Para nossa comodidade, e ela se considerou uma pessoa de muita sorte em voltar a trabalhar conosco.
      Ou seja, não conseguimos num caso simples como esse mudar nosso comportamento em relação ao nosso papel como elite.

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