Pular para o conteúdo principal

FGTS, a Bolsa Família ao Contrário.

Imagine-se entrando num banco para contratar um investimento mensal em um fundo qualquer, com o objetivo de dar garantias a você ou sua família no caso de algum tipo de contratempo, como perda de emprego, aposentadoria, morte ou invalidez. O gerente muito solícito lhe oferece um produto que vai render metade da  inflação, e que só pode ser resgatado mediante os contratempos listados acima, e também para a compra de um imóvel (ou para comprar ações da Petrobrás!).

Vem então a pergunta: você entraria nessa? Claro que não. Só que você "está" nela, e o responsável por esse presente de grego se chama Governo Brasileiro. Se você tem carteira assinada, você é obrigado a depositar todo mês 8% do seu ganho em uma aplicação da Caixa Econômica Federal vinculada ao Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS). O reajuste dessas aplicações compulsórias é de 3% mais uma tal Taxa Referencial (TR), índice esse que ninguém sabe de onde o Governo tira, mas que em 2013 foi de 0,19%, em 2014 de 0,86% e em 2015 de 1,80%.

Como o IPCA, o índice oficial da inflação, foi de 5,91%, 6,41% e 10,67% em 2013, 2014 e 2015 respectivamente, e a correção do FGTS foi de 3,19%. 3,86% e 4,80% para esses mesmos anos, dá para perceber a mão do Governo tirando do trabalhador aquilo que ele alardeia que dá para os sem carteira assinada, na forma de programas sociais populistas e caçadores de votos.

Só em 2014, a diferença entre o que o Governo corrigiu e o que seria corrigido pela inflação oficial foi de R$ 35 bilhões, segundo o Instituto Fundo Devido ao Trabalhador. Isso é bem mais que o Bolsa Família daquele ano, o qual teve um repasse de R$ 25 bilhões. Segundo o mesmo Instituto, desde 1999 a diferença acumulada é de R$ 254 bilhões, o que significa que o trabalhador brasileiro deu para o governo, em 15 anos, mais que uma Petrobrás. Daí o motivo de podermos considerar o FGTS um Bolsa família com sentido contrário de volume muito maior. Mais que uma Petrobrás, em 15 anos, foi dada ao Governo e seus acionistas minoritários, e ainda sobraram cerca de R$ 50 bilhões.

Segundo O Globo de 13/10/2013 ( http://oglobo.globo.com/economia/perdas-bilionarias-no-fgts-10351150 ) o FGTS cresceu 938% em 11 anos (de 2002 a 2012), mas o retorno do trabalhador foi de apenas 69%. Aí vem a pergunta: o que faz o governo com um dinheiro que ele recolhe e não devolve ao trabalhador? A resposta é simples: investimentos suspeitos e programas populistas.

Em fevereiro de 2013 o Fundo de Investimento do FGTS (FI-FGTS) fez um aporte financeiro de R$ 2,5 bilhões na Sete Brasil, aquela empresa criada para fornecer à Petrobrás as sondas do pré sal, cujas falcatruas já discuti em Post de 07/12/2014. O jornal O Globo de 09/12/2015 ( http://oglobo.globo.com/economia/fgts-pagara-obras-do-minha-casa-minha-vida-ate-2016-18250429 ) trouxe reportagem em que o curador do FGTS decidiu estender para o ano que vem (2016) a regra que permite que o fundo pague unidades do programa Minha Casa Minha Vida que não foram concluídas (!!!). São beneficiadas obras com 70% de índice de conclusão. Estamos falando de um repasse de R$ 2,3 bilhões apenas em 2015, e só para aquelas casas que não foram concluídas, e talvez nem sejam, e que talvez nunca serão pagas.

É muito fácil torrar um dinheiro que não vai ser devolvido ao aplicador, e a Caixa é o agente desse absurdo. Não contente com isso o Governo, da forma mais hipócrita, nos obrigou recentemente a contribuir um pouco mais para esse assalto. No fim de 2015 fomos obrigados a contribuir para o FGTS sobre o salário das nossas empregada domésticas. A mídia ingenuamente defendeu essa medida, as representantes da classe a festejaram, mas quem festejou mais deve ter sido o Governo com a sua mão pesada.

O argumento do Governo é de que quem paga esses 8% é o patrão. Isso não tem cabimento porque o ônus dos impostos e taxas é compartilhado pelo vendedor de um bem e o comprador, nesse caso o vendedor do trabalho o o seu comprador, o empregador. O FGTS encarece a mão de obra e o empregador é obrigado a contratar menos. Resumindo, o trabalhador ganha menos, o patrão paga mais, e os dois perdem.

Pra finalizar, a boa (?) notícia: Dia 18/08/2-15 a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que aumenta a correção do FGTS, o qual foi equiparado ao rendimento da poupança. A matéria seguiu para o Senado. O Governo já se declarou contra o projeto, alegando que ele irá comprometer os programas habitacionais custeados pelo Minha Casa Minha Vida. Pode?. Ele propôs um escalonamento de 8 anos para efetuar essa mudança. ao contrário dos 4 anos do projeto.

Tudo bem. Vamos esperar sentados a tramitação dessa matéria no Senado, e ver quais serão os vetos que o Governo vai impor. De qualquer forma vamos convir que o que já foi pago não tem retorno (a "Petrobrás" não vai ser devolvida ao trabalhador), e que correção pela Poupança é uma porcaria um pouco menor.

Comentários

  1. Em tempo:
    Duas reportagens do Estadão de 31/03 - Caderno de Economia:
    1 - FI - FGTS reconhece perda de R$ 1 bi com investimento na Sete Brasil
    2 - Mais de 30% do FI - FGTS estão em empresas da Lava Jato.
    Está aí mais um canal do propinoduto que ainda não foi investigado. O FGTS recolhe o dinheiro do trabalhador, devolve a ele uma fração mínima do recolhido, e investe nas empresas que dão propina ao PT. Simples, não?

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Sobre a Corrupção

Ando lendo um pouco a respeito desse assunto, e encontrei uma fonte interessante na revista digital LIBERTA.  Segundo ela a palavra CORRUPÇÂO foi criada por Santo Agostinho, uma grande figura do Cristianismo, no ano 416, em carta enviada a São Jerônimo, onde dizia que o ser humano vive em estado de corrupção. Segundo Santo Agostinho, ter corrupção  seria ter o coração ( cor ) rompido ( ruptus ). Ainda segundo a fonte o filósofo Kant voltou a esse tema ao declarar que " somos um lenho torto, do qual não se podem tirar tábuas retas ".  Trocando em miúdos, existe no animal homem uma incitação normal ao desvio, à corrupção, e tudo o que se tenta fazer, a partir do período em que passamos a viver em grandes agrupamentos sociais, em cidades, é criar freios a essa tendência natural que possuímos. Se não conseguimos controlar este instinto natural temos uma sociedade corrupta.  A s ferramentas de que dispomos para alcançar uma sociedade onde impera o senso comum são a Histór...

AS POTENCIALIDADES DA CHINA

Ultimamente tenho insistido em apresentar a China aos meus poucos leitores, numa tentativa de fornecer insumos para que tenhamos material que nos permita entendê-la melhor. Isso inclui uma descrição isenta de suas potencialidades. O que estamos vendo para um futuro próximo é que os Estados Unidos e a China vão permanecer como as duas maiores potências do mundo. A não ser que essas duas potências sejam capazes de chegar a algum tipo de convivência, todo o planeta irá polarizado ao enfrentamento dos seus principais desafios, que vão da inteligência artificial à preservação do meio ambiente, os quais iriam exigir cooperação internacional. Uma guerra total entre essas duas nações rapidamente se tornaria um evento que iria colocar em risco a nossa existência neste planeta. Um em cada seis humanos são cidadãos chineses, e o que vemos é que em grande parte o novo candidato a líder mundial, como sempre acontece, parece estar mais preparado que o seu oponente. Um erro comum que observamos é...

Revisitando o Capitalismo

Em Janeiro de 2013 tive acesso ao livro “As Seis Lições” do austríaco Ludwig von Mises. Esse grande homem, uma espécie de Marx da direita, foi convidado pela Universidade de Buenos Aires para dar um curso de economia em 1958, após a queda de Perón. A finalidade era insuflar na juventude argentina ideias novas após o período de sombras por que passou a nação vizinha. Sua esposa compilou esse curso nas seis lições que vieram a compor o livro. Nessa época fiz alguns Posts sobre as tais lições. A lição 1 era sobre o Capitalismo, a lição 2 sobre o Socialismo, e assim por diante. Seria interessante a leitura deste Post da época: https://ceticocampinas.blogspot.com/2013/01/licao-numero-um-o-capitalismo.html Nele você vai ficar sabendo que:      - O termo CAPITALISMO, pasmem, foi cunhado por ninguém menos que Karl Marx. Ele não existia antes do seu maior inimigo criá-lo, e nenhum simpatizante teria dado uma designação mais apropriada: Capitalismo  é a acumulação de capital ...