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Sobre a Intervenção Estrangeira do Brasil: 1 - Controle Reprodutivo e Eugenia

Dias atrás recebi de um grande amigo um Zap no qual ele se mostrava impressionado com a presença de uma igreja evangélica, a qual se iniciou com a chegada de um casal a uma cidade do Pará em 1976, e que hoje está presente em todos os 26 estados do Brasil, se estendendo a outros países.

Este Zap despertou em mim lembranças das quais eu tinha tentado me afastar, e a resposta que dei a ele foi a mais ou menos a seguinte:

Tenho especial desconfiança desse tipo de atividade, principalmente vinda de onde veio. 

A década de 1960 foi para mim de imensa agitação. Eu tinha sido admitido no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1963, após ver frustrado o meu desejo de ser piloto da Força Aérea Brasileira, em função de um problema que tinha sido detectado no meu coração durante o exame de saúde para o voo solo. Fui então morar São José dos Campos, mas havia uma questão que eu precisada resolver no sul do Maranhão, na cidade de Carolina. 

Eu estava envolvido em um namoro sério com uma moça de Carolina, e toda oportunidade que tinha me levava a me deslocar para lá. E essa não era uma tarefa fácil. A ligação Dutra - Anhanguera ainda não existia, muito menos o lado de fora da Marginal Pinheiros. Na Via Anhanguera a pista dupla terminava em Campinas e o asfalto um pouco depois de Ribeirão Preto. Daí até Carolina era estrada de terra, com exceção de algum trecho perto de cidades maiores. Fiz esse trajeto de todas as formas possíveis: levando carro novo do ABC paulista para Carolina, em carona de caminhão, em voo da Cruzeiro do Sul no Douglas DC3 (meu tio era gerente da Cruzeiro do Sul em Carolina), viajando de barco em trechos do rio Tocantins. Eu me virava.

Foi numa dessas ocasiões que tomei conhecimento de um fato inusitado. No então povoado de Estreito, que virou notícia recentemente com a queda em 2024 da ponte que tinha sido inaugurada com a rodovia Belém - Brasília, havia sido construída uma enorme residência do outro lado do rio, no então estado de Goiás, na qual havia se estabelecido uma família de estadunidenses, cujo casal fiquei sabendo se chamarem John e Emma Davis. Em frente à casa foi montado um ambulatório que atuava de forma clandestina, e que introduzia nas pacientes Dispositivos Intrauterinos (DIUs) sem o conhecimento ou consentimento delas.


A residência dos Davis pode ser vista na imagem acima tirada do Google Maps. À direita das pontes rodoviária e ferroviária está a cidade do Estreito (MA), e à esquerda está Aguiarnópois (TO). No lado de Aguiarnópolis, abaixo das pontes, temos uma grande área verde margeando o Rio Tocantins. A residência é a que vemos à direita da área verde, margeando o rio, perto de onde está escrito "Google Maps". O ambulatório é  construção em frente. 

Estreito era pequena e ainda não tinha se emancipado de Carolina, e meu tio Genésio Gonçalves Maranhão era o prefeito da cidade. Ao saber disso, ele convocou seu amigo Dr. Murilo Brandão Vilela, conhecido médico da cidade, e o Cabo da Polícia Omar de Sousa Matos, fretou uma avião e foi tratar desse desse assunto no Estreito (ainda não existia ligação terrestre entre Carolina e Estreito). Ameaçou denunciar os americanos que, segundo uma prima minha que morava lá me informou, sumiram de lá mas apareciam de vez em quando.

Quem era esse americano? No dia 3 e junho de 1976 um grupo de posseiros emboscou os proprietários da Fazenda Capaz, em Paragominas, Pa (a 430 km de Estreito  na rodovia Belém - Brasília) . Morreram no local os irmãos Mallory e Bruce Davis, e o pai deles, John Weaver Davis, foi transportado ferido para Belém e  morreu depois de sete dias.

A Embaixada dos Estados Unidos acionou o Ministério da Justiça, que mobilizou a Policia Federal, o Exército e a Polícia Militar do Pará. John Weaver Davis foi um combatente da guerra da Coréia como Coronel Aviador, tendo sido condecorado por desempenho em combate. Terminada a guerra tornou-se instrutor de aviões de caça e em seguida se ligou à Igreja Presbiteriana como missionário evangélico. Veio para o Brasil, aprendeu português em Campinas - SP, e se instalou no estado de Goiás na região que hoje pertence ao Estado do Tocantins. Adquiriu 100 mil hectares no município de Paragominas, que estavam ocupados por cerca de 200 posseiros. Davis se recusou a negociar com eles e foi emboscado com seus filhos.

Existe um intervalo de tempo muito grande entre os dois episódios, o da Clínica de Esterilização no Estreito e a emboscada em Paragominas, mas meus parentes no Estreito e em Carolina confirmam que os John Davis envolvidos nos dois episódios eram a mesma pessoa. 

Com  ajuda de um neto fui mais adiante nessa investigação e para minha surpresa descobrimos um Artigo importante na Internet:

https://www.redalyc.org/journal/3844/384485101015/html/?shem=aimgspe, 

A esterilização de Mulheres no Maranhão. Controle reprodutivo e eugenia nas páginas do Jornal do Maranhão no final de década de 1960.

The sterilization of women in Maranhao. Reproductive control and eugenics in the pages of the Jornal do Maranhao in the late 1960s

LEONARDO DALLACQUA DE CARVALHO
Universidade Estadual do Maranhão, Brasil
MONICA PICCOLO
Universidade Estadual do Maranhão, Brasil

O Artigo se inicia descrevendo as novidades que surgiram referentes à eugenia e ao controle reprodutivo no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, com o advento dos anticoncepcionais, das esterilizações e do planejamento familiar, que na década de 1960 chegaram ao Brasil. Para surpresa dos autores, os traumas da Guerra recente não impediram que o discurso eugenista surgisse com força nas nossas regiões mais desprotegidas. As fontes principais que eles encontraram estavam no Jornal do Maranhão, um semanário de orientação católica. 

O conceito de eugenia foi elaborado pelo cientista inglês Francis Galton no século XIX. Ele propunha critérios de aperfeiçoamento do ser humano que envolviam procedência familiar, tipo racial, local de nascimento, que deveriam ser usados para tornar a eugenia uma ciência . 

A eugenia, que surgiu com a proposta de controle qualitativo da hereditariedade, tinha sido ampliada no início do século XX para se tornar um movimento social e político de controle populacional, e tinha sido exportada para as diferentes regiões do mundo, e utilizada de forma indiscriminada em projetos de esterilizações involuntárias e racismo genético. 

No Brasil havia se iniciado o chamado Movimento Sanitarista e a Medicina Social, a partir do conceito de que o nosso atraso era o resultado das doenças, e não em função do determinismo biológico. Para sanar isso o Brasil deveria vencer essa luta com sanitarismo e fortalecimento da nacionalidade, e assim foi proposta uma eugenia à brasileira ligada ao saneamento e à ressignificação da raça brasileira, que se afastava da eugenia racial desenvolvida nos Estados Unidos e na Alemanha.

Essa política sofreu no entanto um forte ataque promovido pelo médico Renato Kehl, que fundou a Sociedade Eugênica de São Paulo, a qual contava com mais de 100 associados, entre os quais Monteiro Lobato, seu grande amigo. O passo seguinte foi a fundação da Comissão Central Brasileira de Eugenia, com a função de auxiliar o governo brasileiro em assuntos relacionados ao melhoramento eugênico do país. A partir daí os controles matrimoniais, a restrição às imigrações internas e as esterilizações passaram a prevalecer, articuladas ao movimento internacional de controle da natalidade como estratégia  de seleção humana e de exclusão dos indesejáveis. 

Após a Segunda Guerra Mundial chegaram as novas tecnologias de controle reprodutivo, que vieram ajudar o discurso eugênico na segunda metade do século XX. No entanto a vitória dos aliados forçou uma reavaliação desses conceitos, porque o discurso eugênico era mais defendido pelos perdedores, mas a eugenia não deixou de existir e se adaptou aos novos procedimentos.

A disseminação da eugenia no Brasil ocorreu de forma discreta mas localizada, e estudos do PNAD (Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios) relatam que nas décadas de 1970 e 1980 o Nordeste foi responsável por 75% das esterilizações gratuitas nesse período.

Em particular no Maranhão, a percentagem das mulheres que utilizaram métodos anticoncepcionais chegou a 19%, sendo que a esterilização respondeu por 79,8% desses casos. Ou seja, foram esterilizadas 15% das mulheres maranhenses entre 15 e 54 anos. Esse índice não foi seguido de perto por nenhum outro estado, e os mais próximos também são nordestinos; Alagoas com 64,3% e Pernambuco com 64,2%.

Em 1993 foi criada a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito destinada a examinar a incidência da esterilização em massa no Brasil. Foram verificadas as denúncias de esterilização em massa nas mulheres brasileiras, e foi constatado que o Brasil não tinha uma política de saúde da mulher dirigida pelo Governo Federal, mas que existia uma intervenção internacional no controle demográfico na década de 1980, com o uso de métodos contraceptivos.

Os autores do artigo concluíram que no seio da ditadura militar havia um debate nesse sentido, onde militares apoiavam esses programas de planejamento familiar, alinhados com a politica internacional, mas havia também a corrente que recusava o controle demográfico, com uma ideologia nacionalista que preconizava uma população capaz de ocupar o imenso território nacional.
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O jornal carioca Correio da Manhã, em edição de 4 de maio de 1967, publicou matéria intitulada "Igreja debate a esterilização no país" na qual o bispo de Santo André, Dom José Marcos, denunciava o crime que estaria ocorrendo na região do Amazonas, onde mulheres estavam sendo submetidas à esterilização, e indicava que missionários estadunidenses estariam forçando mulheres brasileiras  tomar pílulas anticoncepcionais. 

A reportagem falava também sobre uma esterilização em massa que ocorria na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Sob a alegação de que se tratava de uma pesquisa científica e com o patrocínio da Fundação Ford, já tinham sido esterilizadas cerca de 3 mil mulheres em Belo Horizonte, e o alvo principal eram mulheres indigentes e pobres.

Em 30 de abril de 1967 o Jornal do Maranhão trouxe a manchete "Americanos esterilizam mulheres no interior do Maranhão", fato que ocorria no povoado do Estreito (fato já citado no início deste Post). Segundo o jornal o objetivo era evitar a ascensão das classes trabalhadoras, operárias e rurais, num esforço de aculturação para que se eliminassem comportamentos indesejáveis. Para o jornal existia uma abordagem eugênica com a finalidade de fabricar um tipo específico de brasileiro, orientado por desejos estadunidenses.

Uma semana mais tarde, em 7 de maio, o mesmo jornal veio com a manchete "Esterilização de mulheres é atentado contra o Brasil". Então o senador Clodomir MIllet (Arena - Ma) exigiu do governador José Sarney as devidas providências. O Ministro da Agricultura Ivo Arzua Pereira investigou a responsabilidade de um grupo de missionários envolvidos na disseminação do uso de DIUs, e acionou o Ministro da Saúde Leonel Tavares Miranda, o qual instaurou uma sindicância para investigar o caso. O jornal terminava a reportagem com uma posição oficial a respeito do assunto:

Com o destaque e a veemência necessários, fizemos destas colunas uma denúncia contra a ação verdadeiramente criminosa que, contra o Brasil, estaria sendo praticada em terras maranhenses. Alertamos a opinião pública e as autoridades responsáveis para um trabalho, com envergadura de verdadeira campanha, que estaria sendo promovido sob os auspícios de entidades alienígenas e que se destinaria a fomentar o emprego, em larga escala, de processos anticoncepcionais em mulheres do nosso meio rural.

A esta altura já devem os leitores ter associado as ideias e chegado às mesmas conclusões por nós alcançadas: a necessidade de que o Brasil deva ser imperialista dentro de suas próprias fronteiras, ou seja, de que os imensos claros demográficos que temos devam ser, futuramente, preenchidos por brasileiros.

Em 14 de maio novas denúncias vieram à tona no jornal, agora na cidade de Imperatriz, a 100 quilômetros do Estreito, onde mais de 1.000 mulheres tinham sido esterilizadas por uma missão presbiteriana que implantou DIUs, e o Arcebispo de Goiânia acusava a United State Agency for International Development (USAID) de tentar subornar os bispos brasileiros para obter uma concordância para um programa de esterilização de mulheres. Após a recusa da Igreja as esterilizações estarias ocorrendo de forma clandestina. 

Na semana seguinte o jornal publicou uma entrevista com o ginecologista Dr. Henrique Augusto Moreira Lima, que tinha feito estudos na Alemanha  respeito do assunto. Segundo ele a Serpentina (como o DIU era comumente chamado, tinha na sua aplicação uma estratégia para controlar a população do país. Segundo ele as "as classes mais baixas serão sempre uma espinha atravessada na garganta de um governo mais conscientizador, constituindo um proletariado de consciência sempre agitada e, por isso, perigoso para as grandes potências que dominam economicamente nosso imenso mundo subdesenvolvido".

E mais: "como ginecologista eu diria à mulher maranhense que não utilize a serpentina. O que vi na Alemanha não me convenceu da inocuidade do método. Somente o tempo e o maior número de observações poderão responder sobre este assunto ainda em fase experimental" (isso aconteceu 6 décadas atrás). Em palestra realizada no mesmo mês de maio no Colégio Estadual do Maranhão Lima defendeu que o processo de esterilização não iria resolver o problema das famílias pobres. Para ele a questão estava na má distribuição das riquezas do país.

Em 6 de junho o jornal apresentou o argumento do Dr. Rogério Rocco, professor da Universidade de Brasília, que afirmou que limitar a natalidade era uma absurdo, uma atitude que feria os interesses nacionais e atentava contra a soberania de país. Na mesma reportagem o Professor Francisco Vitor Rodrigues da UFRJ declarou que o Brasil não deveria aceitar uma política de natalidade imposta pelo exterior

Uma CPI criada pela Assembleia legislativa do Maranhão investigou 400 quilômetros às margens da Belém - Brasília e constatou que as esterilizações estavam ligadas a interesses internacionais. Tratava-se de uma tentativa de dominação total da área, privando o Brasil do aumento populacional, com o fim de impedir o seu desenvolvimento como nação.
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Conclusão: A taxa de fertilidade global se encontra atualmente em torno de 2,2 a 2,4 filhos por mulher, e caiu de forma acentuada nas últimas décadas, se aproximando do nível de ideal de reprodução populacional, que é de 2,1 filhos por mulher.

No Brasil a taxa de fertilidade caiu para 1,55 filhos por mulher, segundo dados do IBGE. Esse é o menor patamar já registrado no país, e está bem abaixo da taxa de reposição de 2,1 filhos por mulher. As principais causas alegadas são o adiamento da maternidade, o mercado de trabalho, a educação, a urbanização e as mudanças culturais. Os impactos demográficos esperados são o envelhecimento da população, o fim do bônus demográfico (onde a população em idade ativa é maior que a de dependentes), e a redução populacional (onde se estima que o nosso pico de habitantes será de cerca de 220 milhões em 2041).

Essa taxa de 1,55 é preocupante porque historicamente nenhuma cultura sobreviveu a uma taxa de fertilidade de 1,8, e uma taxa que se aproxime de 1,3 é impossível de ser revertida ( https://ceticocampinas.blogspot.com/2023/11/a-europa-islamica.html ).

Mas não estamos aqui discutindo a taxa de fertilidade. Eu mesmo tomei a decisão de me submeter a uma vasectomia após o nascimento da minha segunda filha. O que chamamos a atenção é para a ingerência indevida de uma nação nas áreas mais necessitadas de uma taxa de fertilidade maior, visando impedir a ocupação dessa área e assim torná-la mais vulnerável.

Essa ingerência não se limitou ao controle da fertilidade. Esta se estendeu com maior intensidade no espaço da fé, numa estratégia brutal de combater o catolicismo, que através da Teoria da Libertação incomoda a dominação da América latina pelo mesmo agente interessado.

Esse será o assunto do próximo Post 

Comentários

  1. A questão demográfica (causada por queda da fertilidade média e envelhecimento da população) é um dos principais desafios atuais em alguns países desenvolvidos, em um contexto de crescente xenofobia, estagnação econômica e ampliação das desigualdades sociais.

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    Respostas
    1. Marco Antonio Teixeira21 de outubro de 2026 às 10:45

      Tema complexo mas muito bem redigido e analisado . OK

      Excluir

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