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Moisés e a Travessia do Mar Vermelho

Faz tempo que eu não trato do assunto que veio a dar nome a este blog: o Ceticismo. Parece que esse tempo hibernando fez com que eu acabasse por ser provocado por uma pessoa muito chegada, evangélica, que insiste em tentar me converter para a sua crença.

O e-mail que ela me enviou tinha como assunto o título deste post, seguido do adjetivo "fantástico" e do aviso "céticos, acordem!". Daí eu ter citado a "hibernação" do parágrafo acima. Havia um anexo PPoint de autoria de um site:
http://powerpointparadise.com/ppoint.html
um site evangélico americano. Do lado direito da página inicial há um lista imensa de músicas, das quais eu sugiro que ouçam a "Senhor - Família Brasil"; ela dará uma ideia da qualidade do conteúdo do site. Tentei encontrar o PPoint do Moisés mas ele não contava mais na lista atualizada. Fui encontra-lo no site:
http://iasddutra.wordpress.com/2009/10/05/a-travessia-do-mar-vermelho-powerpoint/.

Vejamos as inconsistências:
  • Estima-se que Moisés tenha nascido em 1.391 AC na Terra de Gózen, no Egito. A Terra de Gózen está mostrada no arquivo PPoint. Segundo está dito, entre 2 e 3 milhões de judeus cruzaram o Mar Vermelho. Pois bem, em 1.400 AC a população mundial era de cerca de 43 milhões de pessoas, o que significa que o número de escravos judeus no Egito representava algo entre 5 e 7 % da população mundial, o que não faz o menor sentido. A Wikipedia menciona 600.000 homens, mais mulheres e crianças, o que mesmo assim é um número enorme. 
  • A pretensa travessia na verdade se deu no golfo de Aqaba, que é um apêndice do mar Vermelho. Isso está claramente mostrado no PPoint.
  • Não haveria necessidade de se atravessar esse golfo para se chegar à Terra Santa. Estudos mais sérios sugerem que a caravana, ao bater no golfo de Aqaba, subiu na direção norte, o que seria normal, já que o atual estado de Israel termina nesse golfo, na cidade de Aqaba, que lhe dá o nome. 
Mas tudo bem. Vamos supor que a aceitação dessa lenda não traga nenhuma consequência grave e que possamos conviver com ela de forma pacífica. Ao lermos partes do capítulo 15 do Êxodo veremos que isso é impossível:

1 - Então cantou Moisés e os filhos de Israel este cântico ao SENHOR, e falaram, dizendo: Cantarei ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro.
3 - O Senhor é homem de guerra; o Senhor é o seu nome.
4 - Lançou no mar os carros de Faraó e o seu exército; e os seus escolhidos príncipes afogaram-se no Mar Vermelho.
5 - Os abismos os cobriram; desceram às profundezas como pedra.
6 - A tua destra, ó Senhor, se tem glorificado em poder, a tua destra, ó Senhor, tem despedaçado o inimigo;
7 - E com a grandeza da tua excelência derrubaste aos que se levantaram contra ti; enviaste o teu furor, que os consumiu como o restolho.
9 - O inimigo dizia: Perseguirei, alcançarei, repartirei os despojos; fartar-se-á a minha alma deles, arrancarei a minha espada, a minha mão os destruirá.
10 - Sopraste com o teu vento, o mar os cobriu; afundaram-se como chumbo em veementes águas.

Costumamos dizer que o Corão é um livro que leva os seus seguidores a uma intolerância feroz em relação àqueles que não o seguem, os "infiéis". É sinal de que não lemos na Bíblia com atenção passagens como a mostrada acima. Afinal, que Deus de todas as coisas é esse que toma partido? Se ele teve o poder de abrir o mar para deixar o seu povo preferido passar, por que ele tinha que matar os egípcios? Não seria suficiente apenas impedir a sua passagem? 

Os deuses egípcios eram muitos: Rá - Atum, o criador do mundo, Osíris, Ísis, Set, e por aí vai. Isso dava aos seus seguidores uma variedade de opções, talvez até uma certa concorrência entre as facções. Segundo Gore Vidal, o monoteísmo é muito mais pernicioso porque, sendo uma religião de um só Deus, não permite variações e aquilo que se escreve sobre Ele é de uma força tal que é permitido matar quem não o segue. Um ministro de Deus despreparado, como de resto é a maioria deles, de posse de uma mensagem como esta, é capaz de incitar as maiores atrocidades contra aqueles que não seguem a sua Bíblia. A história está repleta de exemplos. 

Para um crente contumaz é praticamente impossível entender que um cético, que ele prefere chamar logo de ateu, seja uma pessoa em quem ele pode confiar, um ser do bem. A pessoa que me enviou esse arquivo não consegue entender porque eu sou cético. Nem eu consigo entender o seu não entendimento. 

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