Pular para o conteúdo principal

O Custo de Vida no Brasil

Recebi do meu amigo Carlos o e-mail abaixo:


Um bom assunto pra vc abordar no seu blog.
http://www.businessinsider.com/prices-for-apple-products-in-so-paulo-brazil-2014-4 

Este assunto já foi tratado neste Blog no Post de 01/09/13, "O Índice Big Mac", onde eu levantei o fato de que o nosso Big Mac é o mais caro do mundo, o que traz sérias consequências; mas eu acho que, dado o momento que estamos vivendo, vale a pena repisar um pouco o fato de estamos vivendo uma bolha total em todos aspectos da nossa economia. 

Vejamos o que dizem as 3 reportagens do Business Insider:

No artigo "The Completely Outrageous Cost of Living in Brazil (O Custo de Vida Completamente Ultrajante do Brasil)" o autor dá 12 exemplos que eu reproduzo aqui:

1 - O aluguel de um apartamento de luxo de dois quartos em São Paulo custa US$ 2.397 por mês. Um apartamento comparável em Miami custa US$ 2.000.
2 -Nos EUA, você gastaria em torno de US$ 21.000 para comprar um Volkswagen Golf novo. Um carro equivalente no Brasil custaria US$ 27.000.
3 - Se você comprar um jornal internacional em Manhattan, ele irá custar $ 2,50. O mesmo jornal no Rio custa US$ 9,59.
4 - Nos EUA um vestido de verão em uma cadeia de lojas como H & M custa em torno de US $ 38. Um vestido similar de uma cadeia brasileira equivalente vai custar US $ 76.
5 - Um hambúrguer fast food nos EUA custa cerca de US$ 5,50; no Brasil é um valor absurdo de US$ 8,99.
6 - Um galão de leite em Pittsburgh custa US$ 1,00. Em Brasília custa US$ 1,57.
7 - Em Miami, uma caixa de macarrão custa US$ 3,51. A mesma caixa em Brasília vai custar-lhe US$ 8,65.
8 - O aluguel de um escritório no Rio custa US$ 120 por metro quadrado por ano. Isso é mais do que em Nova York, onde as empresas pagam US$ 115 por metro quadrado
9 - Um galão de gasolina "mid-grade" nos EUA custa cerca de US $ 3,30. No Brasil custa 6,65 dólares
10 - Nos Estados Unidos, um par básico de jeans Levi custa em torno de US $ 40. No Brasil, o mesmo par custa quase três vezes mais.
11 - Os Nikes também são caros. Um par que custa US $ 72 nos EUA custa 187 dólares no Brasil.
12 - Pelo menos a cerveja ainda é barata. Uma fermentação doméstica no Brasil custa cerca de US $ 1,61 por garrafa, enquanto que em os EUA uma cerveja nacional custa R $ 2.38.

Como podemos ver, perdemos por 11 a 1, e o nosso único gol foi feito em condição de impedimento. Segundo o artigo o Real é considerado a moeda mais sobrevalorizada do mundo (o índice Big Mac mostra isso), o que significa que o dia a dia no país se tornou incrivelmente caro. 

Isso leva os brasileiros abonados a viajar para Miami até para comprar enxoval de bebê. No meu artigo de setembro de 2012 eu provei que, dada a diferença salarial entre os americanos e os brasileiros, o Real devia custar naquela época R$ 3,89! Com essa taxa de conversão deixaria de valer a pena bagulhar em Miami. 

Outro artigo fala dos "Preços Impensáveis dos Produtos Apple no Brasil". O articulista, Mechael Kelley, faz questão de iniciar seu artigo com a frase "it's no joke (não é piada)":

Um iPhone 5S de 64 gigabytes custa R$ 3.559, ou US$ 1.637. Esse preço o torna o iPhone mais caro do mundo. O mesmo produto custa US$ 849 nos Estados Unidos, quase a metade do preço no Brasil. 



Segundo o articulista, "os preços absurdos do Brasil, que se estendem além de produtos da Apple, podem ser atribuídos a gargalos de transporte, políticas protecionistas, um histórico de alta inflação, um sistema fiscal disfuncional e uma moeda sobrevalorizada". Eu ficaria com a moeda sobrevalorizada como o fator principal, mas o articulista foi muito feliz em citar o comentário de um brasileiro, que eu reproduzo abaixo:

"Esqueça os gargalos de transporte, políticas protecionistas, uma história de alta inflação, um sistema fiscal disfuncional e moeda; tudo isso faria no pior cenário um preço 50% maior. Há algo mais além do 'Custo Brasil', há o "Lucro Brasil".

O brasileiro tem o grave defeito de comprar um produto só porque ele é caro. Sob a ótica do revendedor Apple, por que vender por um preço menor se você pode vender seu produto por um preço muito maior? Esse assunto já foi discutido em um Post anterior, "O Equívoco Brasileiro (04/-1/2013)", onde eu comentei que:

"Levantamento feito em cinco países (Brasil, EUA, Argentina, França e Japão) mostrou que o carro brasileiro é sempre o mais caro. O Honda Fit no Brasil é 106,03% mais caro que na França. O Nissan Frontier é 91,31% mais caro que nos EUA. O recordista, o Jeep Grand Cherokee bate 319,64% na relação São Paulo / Miami (US$ 89.500 x US$ 28.000).

Estima-se que a margem de lucro praticada pelas montadoras no Brasil seja pelo menos o dobro da média internacional (10% contra 5%), mas esse número é ilusório. No caso do Jeep Grand Cherokee, por exemplo, a margem praticada em Miami seria de US$ 1.400, e aqui seria de US$ 8.950, um escândalo de 639,29% na diferença do lucro."

O carro é considerado pela nossa sociedade como um degrau de importância suprema na ascensão social. Existem muitas condicionantes que o fazem galgar a esse status tão elevado, mas poderíamos mencionar como a principal a nossa lastimável infraestrutura urbana. Assim sendo, porque não levar os preços dos carros às alturas, já que ele é muito mais que um mero meio de transporte? Morei algum tempo nos Estados Unidos e percebi que a classe média americana, ao menos nos anos 1980, mantinha o carro por pelo menos 3 vezes mais tempo que a nossa. Em 1983 um vizinho meu, que se tornou meu amigo, tinha um carro japonês de 12 anos, e ele era um engenheiro da NASA. Segundo ele o normal era começar a pensar em trocar de carro quando o odômetro zera, e lá o odômetro mede a distância percorrida em milhas. 

Ano passado troquei a minha Subaru Outback 2002 com 183 mil km por uma Subaru Forester 2008 com 40 mil km. Fiquei sabendo que a pessoa que levou minha Outback possuía uma Subaru Tribeca que ele tinha acabado de comprar, e que em seguida tinha sido demitido do seu emprego. Me disse o meu amigo proprietário da revenda, que ele estava satisfeito com o que o velho carro lhe oferecia. Já eu tive que pagar por um carro de 5 anos de uso o mesmo preço que pagaria pelo modelo 0 km nos Estados Unidos. 

A justificativa maior para esse estado de coisas reside na política totalmente equivocada que está conduzindo o país a um beco sem saída. O nosso mercado é o mais fechado entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento. A exigência de conteúdo nacional eleva os preços de tudo, e impede que a nossa indústria se insira no mercado global, e o pior é que a indústria é pelega e não vê que esse caminho a leva ao sucateamento. A desindustrialização é evidente e a sobrevalorização do Real tem uma enorme contribuição no fato de que nossos produtos não têm a menor competitividade. 

O preço do Big Mac nos outros 4 países que compõem o grupo dos BRICS, Rússia, Índia, China e África do Sul, é muito menor que a média mundial. Só o Brasil está certo:
  • Rússia: US$ 2,62
  • Índia: US$ 1,54
  • China: US$ 2,74
  • África do Sul: US$ 2,16
  • Brasil: US$ 5,25




Comentários

  1. Excelente a análise. Volto a mencionar o exemplo do novo modelo do Hyundai i30 lançado no Brasil no final do ano passado por R$ 75.000,00. No primeiro semestre deste ano, seguramente por ofertas mais palatáveis da concorrência, o preço "caiu" para R$ 64.000,00; o lucro embutido era escandaloso, e ainda deve ser.

    ResponderExcluir
  2. Caro De Assis
    Logo logo você vai defender o Índice Big Mac. Dê uma olhada nele:
    http://www.economist.com/content/big-mac-index

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Sobre a Democracia

Dificilmente iremos encontrar uma palavra mais sujeita às mais variadas interpretações como a do título deste Post. O exemplo maior entre tantos outros talvez seja a República Popular Democrática da Coréia , vulgo Coréia do Norte, que recentemente executou 30 funcionários da sua agência do clima por não terem previsto as fortes chuvas que assolaram o país. Para dirimir esta questão a Economist Intelligence Unit (EIU) , da revista inglesa The Economist - a mesma que criou o já famoso Big Mac Index, que avalia a paridade do poder de compra das moedas - criou em 2.006 o Democracy Index,  para examinar o estado da democracia em 167 países. O resultado está mostrado no mapa abaixo: https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndice_de_democracia#:~:text=Na%20avalia%C3%A7%C3%A3o%20mais%20recente%2C%20divulgada,a%20pior%20nota%2C%20com%200.26. Em fevereiro passado saiu a sua nova versão, o Democracy Index 2023, que sem muita surpresa classificou as 167 nações avaliadas e deu a relação das dez melh...

Sobre o MERCADO

Em uma reunião recente onde grandes representantes do Mercado estavam presentes, surgiu aquela frase que, quando chegou a mim, me levou a considerar apresentar aos meus poucos seguidores a minha visão do que entendo como Mercado. A frase foi a seguinte: "O Brasil só tem um problema, é o Problema Fiscal" Simples assim. O que leva um observador externo a concluir que uma vez resolvido este problema a desigualdade imensa com a qual convivemos irá aos pouc os ser amenizada. Para demonstrar quão limitada é a visão do que chamamos de Mercado vamos colher alguma noção do que ele tenta nos ensinar a seu respeito. Academicamente, o Mercado é definido como o processo de interação humana de troca voluntária de bens e serviços. Assim sendo ele envolve praticamente tudo o que conhecemos, nós somos parte dele e contribuímos de alguma forma para o seu funcionamento.. Por exemplo eu gosto imensamente de ir ao Mercado Municipal de Campinas. Sempre entro nele pela área das peixarias com seu ch...

O Gás Carbônico

Meu penúltimo Post, aquele sobre as COPs, não teve até agora a quantidade de acessos que eu entendo que merece, dada a sua importância (só 146 ). Como a média de acessos deste Blog gira em torno de 600 por Post, só posso concluir que este assunto ainda não desperta muita atenção. Mas pelo menos ele teve comentários. Para mim o comentário é importante, já que ele desperta em quem leu o Post a vontade de participar do assunto.  O comentário do Roberto me deixou feliz, porque segundo ele o Post trouxe de volta uma questão que ele já tinha enterrado. Valeu então a pena o tempo que perdi em escrever o Post se convenci um amigo a voltar a pensar na mudança climática. Mas u m comentário em particular me leva a voltar a falar dela. Meu amigo Alex escreveu: Pelo que me lembro, na atmosfera há (números redondos, já que minha memória fraqueja) 71% de Nitrogênio, 21% de Oxigênio, e algo como menos de 1% de Gás Carbônico. Como esse desgraçado CO2 pode ter tal influência? Este comentário faz tod...