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O Fim do Poder

No último Post falei sobre um livro que quero comprar. Hoje vamos falar de um que já comprei e estou lendo. Com avidez. Com base em uma reportagem de Fernando Schuler na Época de 17/03 comprei "O Fim do Poder" (LeYa), do economista venezuelano Moisés Naim.

Recomendado por personalidades como Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso, bem como pelo Wall Street Journal, o Foreigh Affairs, o Washington Post e o Financial Times, esse livro é pretensioso no seu objetivo e muito feliz nas suas conclusões, e elas são descritas com uma clareza impressionante. Ele consegue chegar com precisão àquilo que ele define como uma grande distância existente atualmente entre o poder imaginário e o poder real.

Para ele, podemos definir o poder como "a capacidade de dirigir ou evitar ações atuais ou futuras de outros grupos ou indivíduos". Dito de outra forma o poder é aquilo que exercemos sobre os outros para que tenham condutas que de outro modo não adotariam. Visto dessa forma temos que o poder requer uma relação entre dois ou mais protagonistas, e que ele varia conforme a situação: senhor e escravo, governante e cidadão, pai e filho, professor e aluno, combinações de indivíduos, de partidos, de exércitos, de empresas, instituições e nações.

Para Moisés Naim o poder se encontra em plena degradação, e isso se deve a uma grande mutação que o leva a perder sua eficácia. Ele se tornou mais fácil de se obter, mais difícil de se usar e mais fácil de se perder. Começando pela geopolítica, os estados soberanos hoje são em número quatro vezes maior que em 1940. Isso aumentou a competição entre as nações, a ponto de o poderio militar não ter mais a mesma importância. As guerras se tornaram operações assimétricas, onde grandes forças militares enfrentam forças menores (grupos rebeldes, movimentos separatistas, milícias), e é comum que elas sejam vencidas pelo lado mais fraco. Segundo estudo da Universidade de Harvard, o lado mais fraco ganhou 12% das guerras entre 1800 e 1849, e 55% delas entre 1950 e 1998. A razão disso é que hoje em dia o lado mais fraco inflige baixas ao outro lado a um custo muito menor.

Mesmo os ditadores estão vendo seu poder enfraquecer. Em 1977 havia 89 países governados por autocratas, e em 2011 esse número caiu para 22. Mais da metade da população mundial hoje em dia vive sob o regime democrático, mas mesmo nas democracias os grupos minoritários cresceram de forma notável, e hoje eles têm 3 vezes mais representação que na década de 1980.

O mundo dos negócios está também passando por grandes transformações. Os chamados 1% mais ricos dos Estados Unidos, na última crise econômica, tiveram sua renda diminuída em 36,3%. e os 99% restantes sofreram queda de apenas 11,6%. Em 2007 os 1% mais ricos constituíam 23,5% da renta total, e em 2009 esse número caiu para 17,6%. Isso tem grande influência no jogo do poder, embora hoje em dia os líderes das grandes corporações sejam mais poderosos que os simplesmente ricos. Mas aí a coisa também mudou: A probabilidade de um CEO de grande empresa manter seu emprego por 5 anos caiu de 36% em 1992 para 25% em 1998.

Nas empresas, o risco de uma corporação cair dos 5% superiores em 5 anos era de 10% em 1980. Em 2000 esse número subiu para 25%. No setor financeiro os bancos perdem espaço para os fundos de investimento de alto risco, que operam com um efetivo muito pequeno, gerando lucros enormes. O chamado "desastre de marca" cresceu de forma assustadora, e empresas como a BP, a News Corporation, tiveram imensas perdas devidas a acontecimentos que arruinaram sua reputação. Junto com isso vieram as "multinacionais dos países pobres": ArcelorMittal e Anheuser-Bush são exemplos claros dessa mutação, em que americanos passaram de repente a beber cerveja brasileira.

Mesmo no campo da filantropia, celebridades como Oprah Winfrey, Bill Clintom, Angelina Jolie e Bono competem com o Banco Mundial, e as novas megafundações  patrocinadas por Bill e Melinda Gates, Warren Buffet e George Soros ofuscam com quantias bem maiores as doações oficiais. A China é hoje muito mais atuante na América Latina e na África que os Estados Unidos e a Europa.

As grandes religiões também estão sofrendo com esse processo. As igrejas evangélicas progridem a passos largos no Brasil. Por serem pequenas elas se adaptam melhor aos costumes locais, a ponto de termos um pastor nigeriano na Ucrânia (!). As igrejas centralizadas como o catolicismo tendem a diminuir rapidamente, enquanto o Islã, por ser descentralizado, tende a crescer.

Para Moisés Naim o poder se tornou mais disponível em todas as áreas, e com isso mais pessoas têm poder. Com isso os horizontes do poder se contraíram, e ele próprio se tornou mais difícil de ser exercido. A explicação que o autor dá para esse fenômeno é que dá a esse livro o toque da genialidade.

O poder se consolida através das barreiras que se erguem para protegê-lo. Elas evitam que novos competidores cresçam e consolidam o domínio dos poderosos que já se estabeleceram. Exemplos dessas barreiras nós vemos por todo lado: regras para as eleições, um capital muito grande disponível, uma arsenal bélico muito grande, o acesso exclusivo a recursos naturais, ter tecnologia disponível, contar com a autoridade moral de líderes religiosos, etc.

Acontece que nas últimas décadas essas barreiras foram se enfraquecendo, e ficou mais fácil vencê-las ou evitá-las. Os motivos desse enfraquecimento estão relacionados com as grandes transformações na economia, na disseminação das tecnologias da informação, que acarretaram alterações nas expectativas e nos valores de grande parte da humanidade.

Hoje usamos ferramentas muito melhores que as dos nossos antepassados. Somos muito mais numerosos, vivemos mais tempo, temos saúde melhor, somos mais instruídos. Com isso os nossos contatos se estenderam, o que veio a ampliar nossas aspirações e oportunidades. Pode-se argumentar que a saúde, a educação e a prosperidade estão longe de ser ideais hoje em dia, mas o número de pessoas que reclamam esse direito aumentou, e muito. Isso afetou diretamente os termos em que o poder é conquistado, mantido e perdido.

As mudanças que ocorreram para que chegássemos e essa situação são definidas pelo autor em 3 categorias:

  1. A revolução do MAIS, que se deu pelo aumento da abundância em tudo: número de países, aumento da população, do padrão de vida, do índice de alfabetização, da melhora na saúde, na quantidade de produtos, de partidos políticos e de religiões. 
  2. A revolução da MOBILIDADE, onde o MAIS se movimenta com uma intensidade nunca vista e a um custo muito menor, chegando a todos os cantos do planeta.
  3. A revolução da MENTALIDADE, que reflete as mudanças no modo de pensar, nas expectativas e nas aspirações. 
Essas três revoluções tornaram o poder mais fácil de ser alcançado e mais difícil de ser mantido. Prova disso é o entorpecimento das organizações centralizadas, em que os grandes recursos não mais garantem supremacia e até são tidos como desvantajosos. O que se observa então é que as mudanças políticas conseguidas pelos movimentos "Occupy" foram escassas, mas com grande repercussão. Em vez de construir um novo modelo de poder, a ausência de liderança conseguiu apenas erodir o monopólio que os partidos políticos tradicionais tinham, através do qual a sociedade manifestava sua insatisfação, suas esperanças e suas reivindicações. 

No mundo dos negócios companhias pequenas de países com mercados menores têm sido capazes de assumir o controle de empresas globais. Na geopolíticas os países menores enfrentam o FMI, impondo seus pontos de vista. O Brasil e a Turquia ousam sabotar as negociações dos grandes com o Irã. A diplomacia americana se desmoralizou com a ação do WikiLeaks e de Edward Snowden. Em resumo, as mudanças que estão ocorrendo no mundo têm menos a ver com os mega-atores, a mais a ver com a ascensão dos micro-poderes. 

Vou ficar por aqui com esse grande livro que recomendo fortemente. 

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