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As Sociedades Bárbaras

Não é "As Invasões Bárbaras" o título desse Post. Mas também podia ser. E não se trataria do belo filme de Denys Arcand, nem das migrações bárbaras que ocorreram na Europa entre os anos 300 e 800, partindo da Europa Central e se estendendo por todo o continente. Bárbaro em grego significa apenas estrangeiro, e os romanos usaram esse termo para designar os povos que não partilhavam de seus costumes e sua cultura.

Acontece que os romanos também eram tidos como bárbaros pelos gregos. Ou seja, a Europa sempre foi, e sempre será, um grande aglomerado de sociedades bárbaras, e é difícil encontrar nas outas regiões da Terra exemplos de barbaridades maiores que aquelas que foram perpetradas por esse pequeno continente.

Inicialmente vamos nos ater às "barbaridades internas", as quais podem ser classificadas em recentes e antigas. Entre as recentes podemos destacar:
  • A Primeira Guerra Mundial: Envolveu mais de 70 países, sendo que a maioria deles não era independente, já que havia 6 potências coloniais: Grã Bretanha, França, Rússia, Alemanha, Império Austro Húngaro e Império Otomano. A população de todos os países participantes somou 800 milhões de pessoas, e foram mobilizados um total de 70 milhões de soldados. Morreram 10 milhões de pessoas e 20 milhões ficaram feridas. A guerra produziu 6 milhões de prisioneiros, 10 milhões de refugiados, 3 milhões de viúvas e 6 milhões de órfãos. Foram disparados 1,3 bilhões de projéteis. O custo total dessa aventura chegou a 180 bilhões de dólares.
  • A Segunda Guerra Mundial: Embora tivesse se desenvolvido também na Ásia e na África, é inegável que o foco das atuações, bem como o gatilho da guerra, se deu na Europa. Envolveu 54 países com uma população total em 1939 de 2 bilhões e 300 milhões de habitantes. Teve 25,5 milhões de soldados e 58,5 milhões de civis mortos. Total de de 84 milhões de mortos, sendo 51,4 milhões de europeus.
As incursões desses bárbaros nos continentes por eles conquistados foi uma tragédia em todo solo onde pisaram. As civilizações pré colombianas foram dizimadas. A África foi mão de obra escrava tanto para os impérios antigos como para as colônias plantadas na América. As nações asiáticas sofreram todo tipo de opressão, sendo que na China os ingleses chegaram a introduzir o ópio como forma de minar a sociedade.

Durante a Copa do Mundo da Alemanha de 2006, os ingleses inventaram uma forma muito "educada" de provocar os anfitriões. Eles cantavam "my grandpa killed your grandpa, doodaa". Nessa Copa da Europa de 2016 o alvo são os muçulmanos:


Não há forma melhor de provocar os muçulmanos que essa: vestir roupas de cruzado para mostrar a superioridade da "civilização" europeia sobre o Islã. Não que eu seja defensor da intolerância religiosa islamita, muito pelo contrário. Só entendo que não é vestindo essas roupas que vamos facilitar as coisas. As cruzadas foram de tal forma violentas que vai levar tempo para essa situação que estamos vivento chegue perto das atrocidades cometidas pelos cruzados.

A Europa vive uma situação sui generis, em que há um enorme esforço de manter vivo o movimento supranacionalista que criou a União Européia, ao mesmo tempo em que uma onda nacionalista grassa em quase todas as nações que participam dessa união. Esse bloco econômico, político e social de 28 países é composto de Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Romênia e Suécia. Macedônia, e Turquia estão em fase de negociação.

Acontece que amanhã será realizada uma consulta que pode mostrar o que na verdade é esse bloco. A Grã Bretanha vai decidir pelo voto popular se permanece ou sai do bloco. É claro que os efeitos desse plebiscito terão enorme impacto, Ele pode acarretar no triunfo do nacionalismo e desencadear em vários membros não satisfeitos com as diretrizes de Bruxelas uma corrida para fora dele.

De um lado os defensores do "Brexit" (Britain Exit) apelam para o sentimento nacionalista , e do outro lado os defensores da permanência advertem para as graves consequências dessa decisão. A coisa chegou a ponto de a deputada Jo Cox, do Partido Trabalhista, que defendia a permanência na UE, ter sido assassinada no último dia 16 por um fanático com antecedentes neonazistas.

O discurso nacionalista, que ataca a UE e prega o isolacionismo, não contava com essa, e tudo indica que, tragicamente, Jo Cox pode pode vir a se tornar a heroína dessa disputa. A mãe de duas meninas de 3 e 5 anos defendia a imigração e a diversidade, propondo o acolhimento de 3 mil crianças sírias órfãs. Os bárbaros não aceitam isso.

O separatismo é uma constante em quase toda a Europa:
  • Na Itália, o Partido Liga Norte e outros movimentos na região do Vêneto se declaram cansados de sustentar o "lixo" de Nápoles e se submeter à "Roma Ladra". Eles são contra "essa Europa comandada pelos bancos, que não combate a imigração clandestina e empobrece os italianos com sua moeda criminosa"
  • Na Bélgica, 60% da população de Flandres anseia por autonomia, e é iminente o desmembramento do país cuja capital, Bruxelas, é também a capital da UE.
  • Na França, temos o nacionalismo corso e bretão, que deve voltar com força em função da proposta do governo socialista de redução do número de regiões. 
  • No Reino Unido temos os independentistas escoceses e os unionistas da Irlanda do Norte, que querem se unir à Irlanda do Sul
  • Na Espanha, os catalães e os bascos não querem mais pertencer ao governo central, sendo que os catalães inclusive já convocaram referendo. que foi rejeitado pelo Parlamento.
  • O Leste ucraniano já se separou de fato, sendo que a Crimeia já está incorporada à Rússia (aqui se trata de um movimento expansionista do Império de Putin.
Com o fim da URSS surgiram 15 novos países: Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Moldávia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, Casaquistão, Turcomenistão, Tajiquistão, Uzbequistão, Quirguistão, Estônia, Letônia e Lituânia. Já a desintegração da Iugoslávia gerou a Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Montenegro e Sérvia (que incorporou Kosovo e Vojvodina).

Li em algum lugar que no tempo das Cidades Estado havia mais de 300 nacionalidades na Europa. Chegaremos lá, é só ter paciência. 

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