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Donald Trump ganha?


Meus leitores hão de comentar que nossas agruras já dão pano suficiente para várias mangas, e que é desnecessário recorrer à política dos nossos irmãos gringos para encontrar assunto para os Posts. Acho que eles estarão enganados se pensarem assim, porque eu entendo que uma eventual vitória de Donald Trump vai fazer nossas questões políticas parecer secundárias, em função da turbulência global que irá ocorrer.

Mas há um outro motivo, este "pessoal". É que, depois de semanas sendo intensamente visitado pelos russos, chegou a vez dos americanos. Agora mesmo (20/09) consultei as estatísticas do meu Blog e obtive o seguinte gráfico:
Ou seja, nos últimos 7 dias, para cada brasileiro que acessou o CéticoCampinas, 8 americanos (humanos ou robôs) o acessaram. Como após comentar no Blog os acessos russos eles pararam, fiquei curioso em saber como vão se comportar os acessos "gringos", e para isso resolvi escolher o assunto do dia: Trump. 

Vou começar com um conselho, que sendo dado de graça, certamente não tem grande valor nesses dias em que a graça está em queda no mercado: tentem evitar que a sociedade de vocês saia dessas eleições mais dividida do que já está. J. R. Guzzo, em sua página da Veja dessa semana, diz que "junto com os bilhões saqueados da Petrobrás, dos fundos de pensão ... e de quase tudo que tem alguma coisa a ver com o governo, levaram também a graça do nosso cotidiano". Os brasileiros estão se odiando por causa da política. Toda aquela característica alegre que nos faz realizar o maior espetáculo do planeta, o carnaval brasileiro, que nos fazia praticar o "belo esporte" com uma graça e uma leveza que transformava os nossos adversários em fãs, cedeu lugar ao rancor, e ao ódio àquele que pensa politicamente diferente de nós.  

E vejam bem que a sociedade americana é mais propensa a esse comportamento. Basta ver a revolta latente na comunidade negra contra as agressões a bala que vem sofrendo nos guetos onde mora, a força do movimento conservador "tea party", os jogadores ouvindo o hino nacional sentados, e tantos outros sintomas que contribuem para uma ruptura social. 

Aí surge a figura altamente desagregadora de Donald Trump: 
  • A agência independente Politicfact (http://www.politifact.com/), ganhadora do Prêmio Pulitzer, constatou que 70% das afirmações de Trump constituem no mínimo desvios da verdade, contra 28% das de Hillary.
  • "Eu vi quando o World Trade Center desmoronou, e eu observei Jersey City, onde milhares e milhares de pessoas estavam comemorando a queda daqueles prédios. Milhares de pessoas estavam aplaudindo". Dito em um comício em Birmingham, Alabama, em 21/11/15. Nada existe documentado (vídeo, reportagem) que confirme essa declaração.
  • "O Governo Mexicano ... eles enviam os maus para cá". Não existe evidência de que o Governo Mexicano encoraje criminosos a atravessar a fronteira.
  • "Brancos assassinados por brancos: 16%. Brancos assassinados por pretos: 81%". Compartilhado no Twitter. O número correto é o contrario: em 2014 os brancos mortos por brancos eram 82% e brancos mortos por pretos eram 15%. 
Podemos ir adiante recorrendo à repórter Megyn Kelly, da Fox News (canal conservador e pró Trump), que o questionou no debate de 06/08, dizendo que ele chamou as mulheres que não o apoiam de "porcas gordas, cadelas, patetas, animais repugnantes",



ou ao entrevero que teve com o Papa (falaremos disso mais tarde), mas vamos às notícias mais quentes:
  • Na inauguração do Trump International em Washinton DC, Trump finalmente admitiu que Barak Obama nasceu nos Estados Unidos, mas falsamente acusou Hillary Clinton de ter questionado a nacionalidade de Obama em 2008. Esse movimento racista foi alimentado pelo próprio Trump para tentar tornar ilegítimo o primeiro presidente negro americano. 
  • A Editora Melville House acaba de lançar um novo best seller, The Making of Donald Trump (A Criação de Donald Trump), o qual foi resenhado por Lúcia Guimarães no Estadão de 18/09, o qual deve se tornar a maior dor de cabeça para o candidato republicano. O autor, David Jay Johnston, é ganhador do prêmio Pulitzer, e investiga Trump desde os anos 1980. Nele Johnston cita o jornalista Wayne Barret, que foi o primeiro a apontar a ligação de Trump com a Máfia e outros criminosos. 
  • No dia 10 de outubro vai fechar o último dos 3 cassinos operados pelo candidato, o Tal Mahal, com a perda de 3 mil empregos. A empresa de Trump que operava cassinos sofreu sob sua gestão 4 falências que vieram a lhe render milhões de dólares, forçando os fornecedores a arcar com as perdas.
  • O Washington Post acaba de revelar que a Fundação Trump não é uma universidade, mas uma vigarice que usava salas alugadas de hotéis e levou ao endividamento milhares de estudantes. Para se safar de um processo Trump doou dinheiro para a campanha da promotora da Flórida responsável, que desistiu de processá-lo. 
  • Ainda segundo Johnston, Trump tem um grande talento em começar negócios sem investir seu dinheiro, e quando os problemas aparecem cair fora deixando o prejuízo com os fornecedores.
  • Ele entende que Trump decidiu concorrer porque seu programa "Celebrity Apprentice" iria ser cancelado, e decidiu apostar em ser o representante da extrema direita que quer a volta do País Branco. 
  • Em Atlantic City, a Las Vegas do Leste, Trump tinha negócios com um tal Joey Weichselbaum, traficante de drogas, indiciado em 1985 por tráfico de cocaína e maconha. O processo aterrissou na mesa da juíza federal Maryanne Trump Barry (irmã do candidato), a qual levou 3 semanas para pedir para ser removida do caso. De qualquer forma Weichselbaum pegou 3 anos de cadeia, cumpriu 1 ano e meio, e seus empregados pegaram 20 anos. 
  • Um golpe baixo citado no livro é mais ou menos assim: se você compra uma mercadoria num free shop e a recebe dentro do avião, você evita de pagar imposto. Se você compra um colar na Bulgari e o manda entregar num endereço fora do estado de Nova York, também não paga o imposto estadual. Em 1983 Trump comprou um colar de US$ 50 mil e outra joia de US$ 15 mil e mandou entregar as caixas vazias na casa de campo de seu advogado em Connecticut, As caixas estavam vazias. O gerente da joalheria e um dos donos foram indiciados.
  • Os Trump (pai e filho) eram donos de 14.000 apartamentos no Brooklyn. Em 1973 eles foram acusados de se recusar a alugar apartamentos para negros. Seu advogado Roy Cohn comprou briga e moveu uma ação contra o governo pedindo uma US$ 100 milhões por tentar obrigar seus clientes a alugar para inquilinos que vivem de assistência pública (?). Os Trump tiveram que pagar uma das maiores multas em casos do gênero, mas Trump alega que venceu a questão porque não foi condenado.
A conclusão a que chegou o autor é a de que um governo Trump vai ser uma rotina de crises. Ele supõe que os militares já estão estudando os limites da lei para o caso de virem a ter que desobedecer as suas ordens. Seu medo é que Trump, que é movido por instintos, se utilize da receita federal para punir quem cruze o seu caminho, e do aparato de inteligência para espionar os inimigos. Ele considera muito improvável que Trump complete o mandato sem sofrer um processo de impeachment.

Existe um estatístico americano, Nate Silver, que ganhou fama prevendo corretamente os resultados das eleições americanas. Em seu site FiveThirtyEight ( http://fivethirtyeight.com/  ), às 17 horas de 21/09 ele dá a Hillary a probabilidade de 56,8% de vencer as eleições, contra 43,2% para Trump. Motivo para comemorar? Nem tanto: Vejamos como evoluiu a preferência desde junho:
  • 08/06: Hillary 66,4%, Trump 33,6%
  • 01/07: Hillary 78,0%, Trump 22,0%
  • 29/07: Hillary 50,1%, Trump 49,9% (fim da convenção republicana)
  • 14/08: Hillary 89,2%, Trump 10,8% (fim da convenção democrata)
  • 21/09: Hillary 56,8%, Trump 43,2%
Nate Silver observa um constante crescimento de Trump desde 14/08. Vocês podem ver isso no site. Esse crescimento deve ser creditado muito mais a Hillary que a ele. Tivemos o episódio da sua pneumonia que foi ocultada e trouxe de volta a suspeita de pouca transparência na sua candidatura. 

A verdade é que, para enfrentar o trator Trump, os democratas podiam ter escolhido alguém melhor. Eles chegaram à convenção tendo que escolher entre o péssimo (Sanders) e a ruim (Clinton). Segundo Mônica de Bolle, uma economista que eu sempre leio às quartas no Estadão, as propostas de ambos os candidatos no que tange a economia são duas tragédias, uma menos ruim que a outra:
  • Hillary se opõe à concessão do status de economia de mercado à China pela OMC, e condena a atitude de alguns países em desvalorizar suas moedas em excesso para ser mais competitivos, propondo a aplicação de tarifas punitivas. Ela se diz contrária a acordos negociados por Obama, como o Transpacífico, com 11 países, e a Parceria de Investimentos com a Europa. Ela também quer modificar as leis tributárias para desincentivar a exportação de empregos. O atraso na implantação da Parceria Transpacífico faria a economia americana perder US$ 120 bilhões por ano. Punir a China pela sua moeda desvalorizada traria perdas para empresas que estão envolvidas com esse comércio. O aumento de impostos para empresas que a realocaram  a produção elevaria os seus custos, o que acarretaria desemprego no comércio. 
  • Trump é mais certeiro. Ele quer impor imposto de importação de 35% ao México e 45% à China, e renegociar todos os acordos comerciais existentes. Ele se retira da OMC caso ela penalize os EU por essas medidas. Caso isso se concretize haverá uma guerra comercial global. Com isso a economia americana entrará em recessão em 2019, com a taxa de desemprego subindo de 4,9% para 8,6% em 2020. 
Esses dados estão no site do Peterson Institute for International Economics - PIIE ( https://piie.com/ )

Há no entanto um fator que a meu ver tem sido mal avaliado pelos analistas: o voto católico:


Existe nos Estados Unidos a "esquerda católica" e a "direita católica". Trump conseguiu a proeza de ser encurralado por ambas. Como os católicos constituem 20% do eleitorado americano e quase sempre estiveram do lado vencedor, brigar com eles não é bom negócio. 

Com a direita ele se complicou quando Ted Cruz o desafiou a processá-lo por veicular uma propaganda que mostrava um vídeo de 1999 em que Trump se declarava a favor do aborto. Os advogados de Trump pediram a retirada do vídeo, ao que Cruz respondeu que nenhuma corte iria processá-lo por fazer nada mais que citar as palavras de Trump. A resposta de Trump não podia ser pior: a exemplo do que fez com Obama, acusou Cruz de ter nascido no Canadá. O detalhe aqui é que Cruz era o preferido dos católicos de direita por suas posições contra o aborto.

Ao mesmo tempo, Trump se envolveu numa desnecessária troca de insultos com nada menos que o Papa, que é adorado pelos católicos de esquerda. Em visita ao México o Papa abençoou um multidão que incluía imigrantes localizados do outro lado da fronteira. Trump sugeriu que o Papa estava mal informado e sendo explorado pelas autoridades mexicanas. Um jornalista então perguntou ao Papa sua opinião a respeito dessa declaração de Trump, e sua resposta foi que "uma pessoa que pensa somente em levantar muros, seja onde seja, e não em fazer pontes, não é cristã. Esse homem não é cristão se pensa assim". Trump, que não deixa nada barato, respondeu que "se um dia o Estado Islâmico atacar o Vaticano ... eu tenho certeza que o Papa rezaria para que Donald Trump tivesse se tornado presidente, porque isso não iria acontecer", e completou com "ele tem um muro enorme no Vaticano".

Vai ser difícil dessa maneira um católico votar em Trump, seja ele de direita ou de esquerda.

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