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Os Efeitos da Crise na vida dos Brasileiros

Minha vida de aposentado é muito boa. Não poderia ser melhor. Tenho amigos, que encontro várias vezes por semana, encontros esses nos quais bebemos cerveja, a comida é farta (ontem foi paella para comemorar 3 aniversários, inclusive o meu). Ocasionalmente, acontecem papos interessantes, principalmente aqueles que, se levados a cabo, transformariam nosso sofrido país em uma nação desenvolvida. Pena que não haja registro das soluções aventadas nesses papos, mas suspeito que se houvesse, iríamos achar estranhas as conclusões a que chegamos; o leque de soluções é grande e variado. Como diria o Mestre Adoniran:

           Vamos armoçá
           Sentados na calçada
           Conversar sobre isso e aquilo
           Coisas que nóis não entende nada...

Porém nesse domingo, 28/08, surgiu um argumento que considerei importante: um amigo levantou o fato de que, com a vida que levamos, é difícil ter um diagnóstico preciso da real situação em que se encontra o Brasileiro. O que enxergamos não vai muito além da comodidade que nos cerca.

Voltando pra casa corri ao Estadão do dia anterior, cujo editorial citava uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a qual analisava o efeito dos dois anos da crise que nos persegue. Corri ao site da CNI e encontrei o tal relatório, que pode ser consultado no endereço:

http://arquivos.portaldaindustria.com.br/app/cni_estatistica_2/2016/08/25/231/RetratosDaSociedadeBrasileira_34_Dois_anos_de_crise_economica_v2.pdf

Li com atenção e resolvi fazer este Post sobre o seu conteúdo, por acreditar que dificilmente vamos encontrar documento mais fidedigno sobre os efeitos da política petista que nos castiga, que levou a população a tomar as medidas necessárias ao enfrentamento da situação. Vamos passar então aos resultados importantes da pesquisa:
  • Seis em cada dez brasileiros consideram que a situação econômica está pior que no mesmo período de 2015, e sete em cada dez acham que a situação econômica do país é ruim ou péssima.
  • O percentual de pessoas que responderam que alguém da residência perdeu o emprego, em um ano, pulou de 44% para 57%, e o percentual de famílias onde membros que não trabalhavam tiveram que entrar no mercado de trabalho para ajudar nas contas passou de 40% para 48%.
  • O poder de compra da população continua se reduzindo: 40% verificam grande redução nos últimos 12 meses; 67% encontram dificuldades para pagar suas contas e compras a crédito; 30% não conseguem pagar seu aluguel ou prestação da casa própria.
  • 80% dos brasileiros trocaram seu lugar de consumo para locais mais baratos, ou passaram a comprar produtos mais baratos; 78% reduziram sua impulsividade nas compras; 93% pesquisam mais os preços antes de comprar.
  • As medidas mais duras foram: 24% venderam bens para pagar dívidas; 19% mudaram de residência para reduzir custos; 14% passaram os filhos da escola particular para a pública; 43% passaram a usar mais transporte público; 34% deixaram de ter plano de saúde.   
Apesar de tudo isso, os Brasileiros começam a acreditar que a economia vai melhorar: 73% acham que a economia já chegou ao fundo do poço e 43% acreditam que a economia estará melhor daqui a 12 meses. Existe no entanto a preocupação com a perda do padrão de vida nessa trajetória:
  • Quatro em cada dez afirmam que sua renda diminuiu nos últimos 12 meses.
  • 77% entendem que a inflação aumentou em 1 ano
  • A queda da renda, junto com o aumento da inflação, reduziu o poder de compra; 40% aformam que o seu poder de compra diminuiu em 1 ano.
  • Nesse contexto, 67% estão preocupados com a possibilidade de perder o padrão de vida. Esse número era 40% em 2012, 64% em 2015. Aqui se destaca que as famílias de renda mais baixa são as que mais temem perder seu padrão de vida (56% para famílias com renda acima de 5 salários mínimos x 73% para famílias com até um salário mínimo).
Isso explica a nossa dificuldade em enxergar, numa mesa de bar numa tarde de domingo, essas dificuldades pelas quais passa o Brasileiro médio. Esses dados são de fato assustadores, e a prova de que a situação econômica afeta de forma muito mais cruel os menos favorecidos está mostrada abaixo:

Medidas que afetaram o padrão de vida:

Vender bens para pagar dívidas (média de 24%)

    • $          34%
    • $$        26%
    • $$$      21%
    • $$$$    13%
    Se mudar para reduzir o custo da habitação (média de 19%)
      • $          24%
      • $$        22%
      • $$$      17%
      • $$$$    10%
    Mudar o filho da escola particular para a pública (média de 14%)
      • $          20%
      • $$        15%
      • $$$      12%
      • $$$$    09%
    Passar a usar mais transporte público (média de 43%)
      • $          50%
      • $$        50%
      • $$$      52%
      • $$$$    33%
    Deixar de ter plano de saúde (média de 34%)
      • $          42%
      • $$        34%
      • $$$      34%
      • $$$$    22%
    Como bem disse o editorial do Estadão:
    "A pesquisa da CNI revela que os brasileiros não tiveram medo de tomar medidas duras no âmbito familiar para enfrentar a crise. É de se esperar semelhante reação corajosa do Estado para recolocar o País nos trilhos do desenvolvimento. Não é possível assistir a tantos sacrifícios da população e achar que o poder público pode se manter alheio, como se a crise não lhe dissesse respeito. Não é hora de reajustes salariais de funcionalismo nem para transigências com o déficit público. É hora de aprender com a população e reagir com responsabilidade". 

    Comentários

    1. Estou fazendo um teste porque uma leitora de Portugal não consegue publicar comentários

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