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A Teoria do Espelho e o Envelhecimento

"Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar de meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu

João Nogueira é um grande poeta da Música Popular Brasileira. Entre as várias obras primas que ele compôs estão duas que me chamam a atenção pela importância de suas mensagens: "Espelho" e "Além do Espelho". Na primeira ele fala da sua infância sem a presença do Pai. Na segunda, transcrita aos pedaços em negrito nesse Post, ele transporta para o seu filho os sentimentos externados na primeira. 

Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor de meu pai não se perdeu
Só de olhar seu olhar sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora no cortejo
E eu no espelho chorei porque doeu
Só que vendo meu filho agora eu vejo
Ele é o espelho do espelho que sou eu

O uso do espelho como ferramenta de transporte de características genéticas foi para mim uma revelação que me fez decorar as duas músicas e as incluir no meu repertório restrito das grandes obras da MPB. João era Filho de músico e Pai do também cantor e compositor Diogo Nogueira, que por sinal, para provar a Teoria do Espelho, tem uma voz que lembra muito a do Pai, assim como a voz de Maria Rita lembra a da Mãe Elis Regina

Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão de meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se meu pai foi o espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu


Espelho - João Nogueira - 1992

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Além do Espelho - João Nogueira - 1992


Já dizia o grande Candeia que "o sambista não precisa ser membro da Academia, ao ser natural em sua poesia, o povo lhe faz imortal". 

Então segundo João Nogueira o espelho é uma boa ferramenta para explicar o legado genético que passamos aos nossos descendentes. Mas isso é tudo?

Pois bem. Há 47 anos acompanho minha esposa no seu ofício de professora de piano. No presente momento ela tem 15 alunos, o que nos dá um retorno equivalente à pensão que recebo do INSS, além da enorme satisfação de vermos um pedaço da sua eternidade se espalhando pela vizinhança dos lugares por onde passamos. Como bem disse o poeta João, "o rio vai pro mar, se transforma em chuva, depois vai pro mar...". Hoje ela tem ex alunos morando em Dublin, Melbourne, pessoas que seguiram a vida artística e se tornado elas mesmas professoras de música, cantoras. Isso sem falar das 5 coreaninhas que lhe dão o prazer de estudar com ela atualmente e lhe mostram a imensa disciplina que possui a sua raça.

Eu mesmo nos meus 12 anos de magistério, e quase 30 de trabalho em várias empresas, devo de alguma forma ter espalhado por aí o meu lado bom e também o ruim entre os mais de 1.000 alunos que tive, os quase 300 funcionários que trabalharam comigo, e as milhares de pessoas com quem interagi. Me impressiona a forma como nós buscamos a eternidade como algo que só ocorre após a morte, e não percebemos que ela é um fenômeno idêntico ao ciclo das águas que tão bem explicou João Nogueira. Está diante de nós e não a vemos. 

Essa história do espelho já me persegue há tempos, e tenho feito algumas considerações a respeito dela. A ponto de criar o que resolvi chamar de Teoria do Espelho, que eleva essa relação com o espelho ao relacionamento pessoal com o qual todos nós convivemos. 

Vejamos o que diz essa Teoria, que ainda se encontra em período de gestação, do qual provavelmente não sairá em função da minha incompetência em torná-la mais clara:
  1. Os humanos têm a capacidade de, em um relacionamento de qualquer espécie, assumir idades anteriores à que possuem,
  2. No entanto eles têm grande dificuldade em assumir idades que ainda não tiveram.
  3. Os homens têm maior facilidade em praticar essa mutação etária, embora esse problema, a meu ver cultural, esteja em processo de extinção.
  4. As pessoas mais jovens têm dificuldade em entender esse fenômeno. 
Vamos tentar explicar como a coisa funciona:

Aquilo que a sociedade chama de assanhamento quando presencia um homem maduro tentando entabular um papo animado com uma mulher bem mais jovem não é mais que uma regressão involuntária decorrente dessa Teoria. Para ele é difícil perceber se a moça está ou não gostando da iniciativa. Ele naquele momento já assumiu a idade da interlocutora, mas ela, por nunca ter tido a idade dele, não possui a capacidade de evoluir na direção da idade dele, para que ambos se encontrem no meio do caminho. 

Tempos atrás, eu acho, essa atitude era mais bem aceita. Havia uma palavra para ela: galanteio. Hoje em dia é lugar comum chamá-la de cantada, que pode até chegar ao ponto de dar algum resultado, para surpresa do envolvido. 

Por outro lado a dificuldade desse relacionamento vingar no sentido contrário, entre um jovem e uma mulher madura, decorre do fato que a figura feminina é excessivamente exposta apenas pelo seu lado, vamos dizer, mercadológico, em que a beleza está automaticamente ligada à juventude. É mais fácil uma mulher jovem se relacionar com um homem maduro que um homem jovem de relacionar com uma mulher madura, pelo simples fato de que o homem jovem está com o seu ideal feminino fixado na Verão, aquela garota da cerveja. Ele não teve a oportunidade de ver no telão uma Anouk Aimée, uma Melina Mercouri.

Me lembrei dessas duas atrizes porque elas aparecem em uma crônica de Affonso Romano de Santana que li anos atrás, quando a minha chama começou a dar sinais de que estava perdendo intensidade. Eu estava envelhecendo e para o minha surpresa minha companheira estava envelhecendo comigo. Aquele espelho que eu idealizei estava seguindo uma trajetória igual à minha, e eu queria que ela ficasse parada no tempo para me ajudar a permanecer jovem ao olhar para ela. 

Minha Teoria inacabada para por aqui. Precisa de mais trabalho e competência para se tornar algo crível, que melhore o relacionamento entre as pessoas a partir do seu entendimento. Espero com certa ansiedade que apareçam comentários que me ajudem a aprimorar essa linha de raciocínio. 

No mais, quero dizer que uma das leituras que mais influenciaram a minha vida foi a crônica do Affonso Romano de Santana. Ela me foi revelada por uma amiga, a Mônica, em um e-mail que chegou no momento exato em que eu estava precisando lê-la. Foi ela que me ensinou que envelhecer é uma dádiva só vai ser entendida como tal se seu companheiro ou sua companheira partilhar com você desse caminho em direção ao inevitável com grande alegria, olhando sempre para trás para não se esquecer da vida maravilhosa que tiveram, e para frente sem medo. O tempo na realidade não existe, muito embora sejamos finitos. 

Deixo então um link para os interessados a acessarem. Sua leitura é recomendada:

  • Para os homens jovens entenderem o que estão perdendo.
  • Para as mulheres jovens perderem o medo de amadurecer.
  • Para os casais maduros melhorarem sua autoestima.
E não se esqueçam de dizer ao(à) seu(sua) parceiro(a) que a ama ao terminar a leitura.




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