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quinta-feira, 9 de maio de 2019

Sobre a Globalização

Temos 193 Estados Membros da Organização das Nações Unidas - ONU. 

Mas o planeta é um só, e se chama Terra. E está ameaçado de novamente explodir em um conflito nuclear. E está doente, com sua temperatura subindo como uma febre, de forma quase incontrolável. E está correndo sério risco da espécie que o controla, a nossa, cometer o desatino de criar entidades manipuladas a partir de si própria ou de seus próprios atributos, que podem acabar por substituí-la.

Os três desafios que teremos que enfrentar têm nome, e se chamam, segundo Yuval Harari em seu terceiro livro, "21 Lições para o Século 21":
  1. O Desafio Nuclear
  2. O Desafio Ecológico
  3. O Desafio Tecnológico
e o grande obstáculo a ser vencido para sermos bem sucedidos nesses três desafios também tem nome, e o nome é Nacionalismo.

As tentativas de se criar um organismo supranacional para tratar de problemas comuns às nações apresentaram até agora resultados muito aquém do esperado. Se não vejamos:

A Liga das Nações

A Liga / Sociedade das Nações, criada em 1919 e auto dissolvida em 1946, tinha exatamente o objetivo de reunir todas as nações da Terra, para manter a paz e a ordem em todo o mundo. Seu Conselho Executivo era composto das potências vitoriosas da Primeira Guerra Mundial: Grã Bretanha, França, Itália e Japão, sendo que mais tarde foram aceitas a Alemanha e a União Soviética. O Congresso norte-americano vetou a entrada dos Estados Unidos por entender que aderir à Liga das Nações não estava de acordo com a sua política externa. 

Se o objetivo da Liga era impedir uma nova Grande guerra o fracasso foi total. A Liga foi dissolvida após o término da Segunda Grande Guerra e recriada no que hoje é a Organização das Nações Unidas - ONU. O Brasil, membro fundador, se retirou da Liga ao ver recusado o seu pleito de fazer parte do Conselho Executivo.

A Organização das Nações Unidas - ONU

Em 24 de outubro de 1945, após o término da Segunda Grande Guerra, 51 Estados criaram a ONU, com a mesma intenção de impedir um novo conflito. Hoje temos 193 estados membros, com sede localizada em Nova York e escritórios em Genebra. A iniciativa de criação de uma nova organização partiu de Franklin D. Roosevelt, e o número de membros cresceu com o processo de descolonização iniciado na década de 1960. Sua função foi comprometida pelo perigo da guerra nuclear, em função da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, mas sua participação foi importante na Guerra da Coreia e na criação do Estado de Israel em 1947. 

A ONU é composta de seis órgãos principais:
  • A Assembleia Geral, deliberativa
  • O Conselho de Segurança, que decide resoluções de paz e segurança
  • O Conselho Econômico e Social, que promove a cooperação econômica e o desenvolvimento
  • O Conselho de Direitos Humanos, que fiscaliza a proteção dos direitos humanos
  • O Secretariado, que fornece os estudos informações e facilidades para o funcionamento da ONU
  • O Tribunal Internacional de Justiça, principal órgão judicial. 
A coisa não andou a contento a partir da ideia de se dar poder de veto a alguns membros do Conselho de Segurança, que é composto de 15 membros, sendo 5 permanentes com poder de veto e 10 eleitos pela Assembleia Geral com mandato de 2 anos. Os membros permanentes são Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China. 

Uma resolução do Conselho só é aprovada se tiver no mínimo o voto de 9 dos 15 membros, porém com a aprovação unânime dos 5 membros permanentes. Um voto negativo de um membro permanente resulta em veto à resolução. Isso é um convite à inação, e na verdade é uma artimanha nacionalista de se evitar ser derrotado no Conselho. A coisa não anda e a ONU se desmoraliza toda vez que um membro permanente usa seu poder de veto.

Fora isso existe uma crítica feroz contra a burocracia dos órgãos, que promovem nomeações totalmente inadequadas. Por exemplo o Conselho de Direitos Humanos, criado em 2006 com o voto contra dos Estados Unidos e Israel (mais Ilhas Marshal e Palau (?)). possui 47 cadeiras distribuídas regionalmente: 13 para a África, 13 para a Ásia, 6 para a Europa Oriental, 8 para a América Latina e Caribe e 7 para a Europa Ocidental, América do Norte, Oceania e Turquia. Que tal então eleger a China, o Sudão, Argélia, Arábia Saudita, Azerbaidjão, Barein, Bangladesa, Cuba, Nigéria, Paquistão, Rússia, Camarões, Tunísia Eritreia e Filipinas, todas nações acusadas de abusos de direitos humanos, para esse Conselho? Foi o que aconteceu e gerou revolta em várias organizações europeias, americanas e canadenses. 

Resumindo, a intenção inicial de se criar uma ONU eficaz esbarrou no expediente que 5 países lideres na época (mas não tão líderes agora) de vetar o que não lhes agradasse. Isso levou o "baixo clero" a criar entidades ineficientes e corruptas, o que transformou a ONU numa organismo desacreditado para lidar com os três desafios atuais. 

A União Europeia

A União Europeia obviamente não é global, mas é composta de 26 Estados Membros independentes, com sede em Bruxelas, Bélgica. Foi fundada em 1993 em Maastricht, na Holanda, pela Alemanha, França, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. 

Tratava-se de um proposta ousada de criar uma potência econômica e política unificada em uma região que já havia sofrido duas grandes guerras mundiais. Ela possui instituições supranacionais independentes, sendo as mais importantes a Comissão Européia, o Conselho da União Europeia, o Conselho Europeu, o Tribunal de Justiça da União Européia e o Banco Central Europeu. O Parlamento Europeu é eleito a cada cinco anos por todos os cidadãos dos Estados que a compõem. 

É provável que nenhuma região do planeta necessitasse mais de um organismo assim que a Europa. Isso tudo fora as vantagens econômicas e políticas resultantes dessa união:
  • União Europeia: 500 milhões de habitantes e 21 trilhões de dólares de PIB
  • Estados Unidos: 325 milhões de habitantes e 19 trilhões de dólares de PIB
Só que a vontade política de se criar um organismo que evite que o nacionalismo gere conflitos tende a possuir uma vida curta. Junte-se a isso o fato de que as pessoas de forma generalizada tendem a colocar os sentimentos à frente da razão. Segundo Harari, se 
as pessoas tomassem sempre decisões racionais não haveria sequer a necessidade de instituições democráticas. Plebiscitos e eleições normais intrigam pessoas racionais pelo fato delas saberem que esses processos de racional não têm nada. Foi de Dawkins o comentário de que não se deveria pedir ao público britânico que votasse o referendo do Brexit, pelo simples fato de que ele não tinha a formação necessária de economia e de ciência política para tomar a decisão correta. 

Isso me faz lembrar o processo pelo qual a nossa sociedade está passando, dividida entre ideologias que estão ultrapassadas e que apenas nos desviam daquilo que realmente deve ser debatido. Estamos numa situação em que aquilo com o que deveríamos nos preocupar perde para os nossos sentimentos. Mas isso é outra história.

Enfim, o resultado do Brexit foi uma semente de dissolução plantada no coração da União Europeia. É quase certo que muito poucos ao votar a favor do Brexit se preocuparam com um eventual conflito nuclear, com o aquecimento global ou com os desafios da inteligência artificial. Eles estavam pensando nos novos vizinhos indesejáveis, que são em grande parte resultado de suas políticas coloniais do passado. 

Por que só a Globalização é capaz de resolver esse Imbróglio

O Desafio Nuclear

A possibilidade de uma guerra nuclear nos persegue há mais de 50 anos, e mostrou suas garras pela primeira vez na crise dos mísseis de Cuba. Foi ali que o gênero humano se deparou com a possibilidade de se auto destruir, e decidiu pôr fim á Guerra Fria e dar início a uma era de paz, da qual ele estava carente em função do acontecido na primeira metade do século XX. 

O apelo nacionalista no entanto resolveu pôr fim a essa conquista, tida como um etapa vencida, e o mundo embarcou em uma nova corrida nuclear, desenvolvendo novas armas. O debate do Brexit na Inglaterra, como já dissemos, ficou restrito a uma conversa de barbearia a respeito da economia e do problema imigratório, ignorando por completo a importância da existência da União Europeia. Os ingleses não perceberam que estavam sabotando um importante mecanismo que garantia a segurança do continente Europeu.

O grande esforço dispendido para se criar um mecanismo internacional que evitou a guerra nuclear décadas atrás está encontrando dificuldade em se adaptar ao panorama atual, onde devem ser atribuídos papéis maiores a potências não ocidentais. A estratégia nacionalista que resultou em duas guerras mundiais, se hoje aplicada, pode destruir o planeta. A prioridade maior é prevenir a guerra nuclear e sair defendendo que "nosso País em primeiro lugar" não ajuda nesse sentido. 

Na verdade os que acreditam que vale a pena defender os interesses nacionais maquiam seus objetivos com palavras tais como "democracia, liberdade, direitos humanos", mas praticam uma espécie de racismo disfarçado em "superioridade cultural". Para dar um exemplo o desafio Americano atual é aprender como lidar com um país "não caucasiano" que objetiva ser o novo líder mundial, em retribuição aos séculos em que foi dominado pelas potências "cristãs".

A ascensão da China é na verdade uma mistura que funciona de duas ideias ocidentais, que um cronista americano batizou de "leninismo de mercado", mas que está deixando os pensadores ocidentais perplexos. A realidade é que tínhamos mais a ver com a ideologia nazista que com a chinesa, pelo simples fato dos nazistas serem caucasianos. Prova disso foi a adesão de boa parte da elite europeia, a começar pela inglesa, a essa aberração. 

Se eu tivesse que apostar, e sou um mau apostador, diria que a ameaça nuclear é mais provável de acontecer com os foguetes virados para o Oriente. Afinal, os Russos são caucasianos e comungam como os Americanos da ideia de que podem usar da força unilateral em qualquer parte de sua área de influência. Invadir um país ocidental para os americanos seria o equivalente à invasão da Crimeia, invasão essa que o Ocidente não teve como combater porque seu líder maior comunga do mesmo ideário. 

É sempre bom lembrar que o Nacionalismo só funciona se for praticado. America First.

O Desafio Ecológico

Se comparado com o Desafio Nuclear estamos falando de uma novidade que não era motivo de preocupação durante a Guerra Fria. Estamos ao mesmo tempo agredindo de forma quase irrecuperável a nossa biosfera, além de esgotando os recursos do planeta. Como se isso não bastasse estamos despejando lixo e veneno que mudam completamente a composição de três dos quatro elementos da Grécia antiga: terra, água e ar. 

De todas as ameaças resultantes a que mais causa impacto é a climática. A impressão que fica ao vermos como estamos tratando desse problema é algo como um teste de resistência com 7 bilhões que humanos e uma infinidade de todos os outros seres da Terra a uma mudança que não ocorre desde quando resolvemos criar cidades e nações. 

Entendo que esse desafio é mais difícil de ser vencido porque nesse caso o perigo de extermínio da vida na Terra se faz de forma "lenta e gradual". Não há o perigo de amanhecermos com um processo de extermínio semelhante a uma Guerra Nuclear. 

O Nacionalismo é um empecilho forte ao enfrentamento desse desafio porque nenhuma nação é capaz de por si só fazer parar esse processo. As mudanças têm que ser feitas a nível global, com pleno comprometimento de todas as lideranças. É preciso que se entenda que quando o assunto for clima ninguém pode se declarar soberano nas suas decisões, muito embora seja possível que alguns países ou regiões possam vir a se beneficiar com isso. 

Por exemplo, a China está mais exposta que a Rússia, tanto em função da elevação do nível do mar quando ao fato dela correr o risco de se transformar num deserto enquanto a Sibéria se tornará o novo celeiro mundial. Fora o fato de o Oceano Ártico vir a se tornar a nova rota marítima mundial. Temos então países como China, Japão, que pressionam para uma política de redução e emissão de carbono, enquanto Rússia e Arábia Saudita fazem corpo mole. Mas o maior poluidor, embora seja suscetível em alto grau à mudança climática, está dominado por um nacionalismo míope que se aproveita da situação para tirar vantagem competitiva. Parta ele a mudança climática é uma invenção Chinesa para travar o desenvolvimento do Ocidente. 

O Desafio Tecnológico

Aqui, mais que nos anteriores, esse desafio não será vencido sem a "desnacionalização" das decisões. Por exemplo, se um Estado definir limites à engenharia genética, como ele não possui o monopólio desse conhecimento, cientistas de outro Estado se verão livres para avançar sobre o assunto. Num mundo dominado pelo nacionalismo, ninguém vai se permitir ficar para trás em um processo disruptivo como esse. 

Os dois Desafios anteriores colocam em risco a sobrevivência física dos humanos, enquanto esse ameaça a nossa própria natureza, além de colocar em cheque conceitos éticos há milênios estabelecidos. A combinação das ferramentas disponíveis pode criar seres com traços corporais  e mentais que irão isolar os agraciados por elas de uma massa de inúteis, nos levando a uma nova versão da ideologia nazista em que a eugenia contaria com a contribuição dessas ferramentas. 

Conclusão

O mundo se encontra hoje em uma encruzilhada em que temos de um lado:
  • Uma ameaça nuclear,
  • Um problema ecológico de dimensões globais,
  • Uma economia globalizada,
  • Uma ciência com diversos sítios de excelência espalhados pelo globo.
No entanto ainda temos quase duzentas nações "independentes" politicamente, povoadas por seres que não possuem o entendimento necessário para enfrentar uma alternativa ao Nacionalismo. Isso as torna incompetentes para definir uma estratégia para tratar de seus problemas. A única solução, já que não é possível "desglobalizar" a ecologia, a economia e a ciência, seria globalizar a política. 

Uma Política Global não é necessariamente um governo global, uma utopia distante e acho que inalcançável. Eu cheguei a conviver com uma experiência que deu certo, que resultou em uma solução Global para uma atividade que hoje domina o nosso dia a dia: a Telefonia Celular. 

O Brasil migrou para a Telefonia Celular Digital de uma forma absurda, em que Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro utilizavam uma tecnologia, a CDMA, e o Estados restantes optaram pela TDMA. Essas duas tecnologias disputavam o mercado americano e as operadoras nacionais estavam à mercê dos "inflluenciadores" da época. Com isso você tinha que ter um aparelho TDMA para falar em Recife e um CDMA para falar em Goiânia, por exemplo. 

Na Europa a confusão era maior. Cada país desenvolveu seu sistema analógico independentemente, o que resultou em uma incompatibilidade de serviços. Houve então um esforço para que um padrão único permitisse que toda a Europa falasse a mesma língua em se tratando de tecnologia celular. O ETSI (European Telecomunications Standards Institute) especificou então um sistema de arquitetura aberta, o GSM (Global System for Mobiles). O imenso mercado europeu garantiu o sucesso da iniciativa, e o GSM resistiu às investidas dos padrões americanos TDMA e CDMA. Mais que isso, a rede GSM Global hoje domina totalmente a telefonia celular, com uma participação no mercado superior a 90% (dados de 2014). 

Os fabricantes americanos de infraestrutura celular aderiram à tecnologia GSM, mas mantinham o foco a nível global nos seus sistemas inferiores TDMA e CDMA, tanto que houve um enorme esforço para que fossem preservadas as redes existentes no Brasil. Numa atitude sensata a Anatel decidiu adotar a tecnologia GSM para as novas bandas de telefonia digital e o mercado migrou rapidamente para o sistema GSM. 

A isso eu chamaria de uma estratégia Global de implantação de um serviço que hoje é considerado uma das maiores invenções do homem no sentido facilitar as comunicações e os serviços. A decisão da Anatel foi na direção correta da Globalização do serviço de telefonia celular. Coisa que não foi feita quando da definição do padrão de TV em cores. O padrão PAL-M, uma mistura dos sistemas americano e europeu, é adotado apenas pelo Brasil, numa tentativa absurda de promover a reserva de mercado para os aparelhos de TV em cores.

A isso eu chamo de Nacionalismo sem o menor sentido. 

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