Em Janeiro de
2013 tive acesso ao livro “As Seis Lições” do austríaco Ludwig von Mises. Esse
grande homem, uma espécie de Marx da direita, foi convidado pela Universidade de Buenos Aires para dar um curso
de economia em 1958, após a queda de Perón. A finalidade era insuflar na
juventude argentina ideias novas após o período de sombras por que passou a
nação vizinha. Sua esposa compilou esse curso nas seis lições que vieram a
compor o livro.
- O
termo CAPITALISMO, pasmem, foi cunhado por ninguém menos que Karl Marx. Ele não
existia antes do seu maior inimigo criá-lo, e nenhum simpatizante teria dado
uma designação mais apropriada: Capitalismo é a acumulação de capital feita por pessoas que não consomem tudo o que produzem, o que
resulta no motor que aciona uma máquina poderosa que torna possível a existência de uma sociedade altamente desenvolvida e saudável.
- Antes do
advento do capitalismo, o destino do homem praticamente não se alterava
desde o seu nascimento até a sua morte. Se nascido pobre, pobre permaneceria
até morrer; se rico, rico seria para sempre. Não havia brecha nesse estado de
coisas. A Inglaterra, por exemplo, tinha 6 milhões de habitantes, dos quais 2
milhões não passavam de indigentes. A literatura está aí para comprovar essa verdade.
- A população
mundial é hoje dez vezes maior que nos períodos precedentes ao Capitalismo. Se ele não tivesse sido criado, a população de hoje permaneceria a mesma, já que o
proletariado não teria sobrevivido. Como você tem a probabilidade de 90% de ser
um descendente de proletários, você hoje não existiria. Logo, sua existência é
a maior prova do sucesso do Capitalismo".
e assim por
diante. Acho que vale a pena ler o Post de 2013. Mas a finalidade deste Post é
discutir a situação em que se encontra hoje o Capitalismo.
Minha posição é
que tudo nesse planeta está fortemente influenciado pelo enorme crescimento do
poder das corporações, naqueles países que adotam a democracia como forma de
governo. Nesses países os cidadãos foram paulatinamente perdendo sua
influência junto aos Poderes instituídos. Já para os que não rezam pela cartilha
democrática foi dada a oportunidade de se aproveitar da fraqueza das democracias para, através de uma governança rígida mas altamente eficaz no combate à
desigualdade, crescer a ponto de ameaçar o ideal democrático.
A Netflix está explorando com competência essa situação. Recentemente assisti a dois documentários que dão uma boa visão do que está acontecendo:
O primeiro é "Saving Capitalism" ou "Salvando o Capitalismo", do economista Robert Reich, ex secretário do trabalho de Bill Clinton. Nele Reich "expõe suas ideias sobre o capitalismo e a desigualdade de renda". Esse filme de 2017 foi indicado ao Emmy de melhor documentário na categoria Negócios e Economia. Se você for assinante Netflix recomento fortemente que assista a esse belo filme, onde Reich defende que o poder das corporação nas últimas décadas prevaleceu em quase todas as decisões de governo.
O segundo é "The China Hustle", que descreve as manobras financeiras fraudulentas nas quais banqueiros usam empresas da China para enganar investidores americanos. Uma falha na regulamentação do mercado financeiro patrocinada pelas grandes corporações contra o interesse do pequeno investidor.
Na verdade o Capitalismo sempre teve uma melhora na seu desempenho toda vez que foi colocado à prova. Nesse ponto ele deve agradecer a Marx e Lenin por ter criado um contraponto que proporcionou uma profunda revisão dos seus procedimentos, revisão essa que pegou de surpresa aqueles que embarcaram na utopia do Comunismo.
Só que agora as coisas mudaram. Não é mais a extrema esquerda o principal agressor do Capitalismo, mas sim a extrema direita, e é isso que é difícil de entender. Arautos desse problema têm aparecido por aí, sendo o mais badalado o francês Thomas Piketty, que em seu livro "O Capital do século XXI" mostra que, nos países desenvolvidos, a taxa de acumulação de renda é maior que a taxa de crescimento econômico. Traduzindo: a desigualdade cresce.
Não li o livro mas pelo que vi nas resenhas Piketty defende que o Capitalismo tem a tendência inerente à concentração de renda, e a solução para esse problema é a taxação mais severa das pessoas mais ricas. Em palestra na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP ele reclamou da falta de transparência do governo brasileiro quanto ao acesso às declarações do Imposto de Renda. Ele também recusou a condecoração máxima do Governo Francês, a Legião de Honra, dizendo que ao invés de conceder prêmios o governo devia estar mais preocupado com o crescimento econômico da França.
Resumindo: Trata-se de um economista que acredita que a solução para a desigualdade atual se encontra na doutrina que defende a sua proibição pura e simples, a exemplo de várias lideranças tão conhecidas na nossa pobre América Católica. Ele acaba de declarar isso em um novo livro.
Uma professora de Economia da Inovação do University College de Londres tem se sobressaído nos últimos anos com ideias novas a respeito de uma reforma na doutrina capitalista, e os holofotes se voltaram para ela nesse mundo pós pandemia no qual estamos prestes a ingressar. Mariana Mazzucato é um ítalo americana que entre outras coisas conta com a admiração de lideranças de vão de Bill Gates ao Papa Francisco. Em resumo, o que ela prega é que a economia sirva às pessoas em vez de promover a sua servidão.
Seu grande objetivo é deixar de tratar o Estado como uma entidade burocrática que promove a lentidão. Para ela o Estado deve se tornar o grande investidor nos processos de inovação. A pós pandemia não pode ser simplesmente a volta à normalidade.
Foi a normalidade que nos levou não apenas a esse caos provocado pela pandemia, como também a uma crise financeira e uma crise climática. Como é possível que uma nação de 212 milhões de habitantes só agora perceba o volume enorme de desassistidos que nasceram "do nada" com a pandemia, os chamados 30 milhões de "invisíveis"? Onde estão as ferramentas do Estado para mostrar isso?
Para Mazzucato a crise só veio mostrar que o papel desempenhado pelo Estado nos últimos 50 anos foi completamente inadequado. "Os governos foram instruídos a se sentarem no banco de trás e deixar com as empresas a administração da economia e a criação de riqueza". Os governos então, por não estarem com as rédeas na mão, estavam totalmente despreparados para enfrentar a(s) crise(s). Palavras de Mazzucato:
Há uma "tripla crise do
capitalismo" acontecendo.
Uma crise de saúde,
Uma crise econômica,
A terceira crise é climática.
Essas crises e a recuperação de que precisamos
nos dão a oportunidade de entender e explorar como fazer o capitalismo de
maneira diferente. Isso justifica repensar para que servem os governos: em vez
de simplesmente corrigir as falhas de mercado quando elas surgirem, eles devem
avançar ativamente para moldar e criar mercados para enfrentar os desafios mais
prementes da sociedade.
Eles também devem garantir que as parcerias
estabelecidas com empresas, envolvendo fundos governamentais, sejam motivadas
pelo interesse público, e não pelo lucro. Quando empresas privadas pedem
resgates para os governos, devemos pensar no mundo que queremos construir para
o futuro e na direção da inovação que precisamos alcançá-lo e, com base nisso,
adicionar condições que beneficiem o interesse público, não apenas o privado.
Isso garantirá a direção da viagem que queremos: verde, sustentável e
equitativa.
Quando as condicionalidades são
bem-sucedidas, elas alinham o comportamento corporativo às necessidades da
sociedade. No curto prazo, isso se concentra na preservação das relações de
trabalho durante a crise e na manutenção da capacidade produtiva da economia,
evitando a extração de fundos para os mercados financeiros e a remuneração de
executivos. A longo prazo, trata-se de garantir que os modelos de negócios
levem a um crescimento mais inclusivo e sustentável".
De uma entrevista à BBC News Mundo
Então fica assim: Uns defendem que a desigualdade leva necessariamente á pobreza, outros defendem que o governo deve sair do bando de trás para definir políticas públicas que propiciem oportunidades de interesse público, dando oportunidade a todos.
São essas duas palavras grifadas sempre que aparecem neste Post, desigualdade e oportunidade, que têm causado o cisma que corrói as nações ocidentais. Promover a oportunidade, entre outras coisas, é prestar atenção às políticas públicas que dão aos desassistidos as ferramentas que os façam progredir. A forma como vão conseguir isso então vai depender de uma terceira palavra: o mérito de cada um. Essas ferramentas se traduzem em uma escola pública e uma saúde de qualidade, um sistema de transporte eficiente, uma segurança que dê tranquilidade e uma justiça que funcione para todos.
Uma nação que não dá aos seus cidadãos a oportunidade de sonhar em ser um capitalista, que no fundo é um mero acumulador de capital, não tem a licença de defender os ideais do capitalismo. Vejamos um exemplo claro do que estou tentando mostrar:
Quem se deu ao trabalho de ver o vídeo acima vai perceber que ele trata de um caso real do exagero que é a defesa das opiniões nas câmaras altas de todos os países ditos democráticos. No fundo o que os nossos representantes estão discutindo é pouco mais do que a defesa de suas visões a respeito de desigualdade, oportunidade e mérito. Só que essas brigas sempre tem resultado em soluções "meia boca" que tentam conciliar o que o protagonista do vídeo chama de "diferença de opinião", que para ele é a essência da política.
Enquanto o Ocidente afunda nessa divisão que muitos chamam de ideológica, que divide as nações em metades irreconciliáveis, uma nova versão de governança está tomando corpo. Wilma Gryzinski, em sua excelente coluna na Veja de 14/10, compara essa nova proposta de governo, que ela chama de "estabilidade de partido único", com o modelo atual que ela chama de "democracia imperfeita". A conclusão a que ela chega é que "é melhor fritar hambúrgeres na América do que desfrutar da estabilidade pseudoconfuciana".
É verdade. As sociedades ocidentais preferem viver em um ambiente onde as ferramentas que recebem do poder público são inadequadas, mas em compensação dispõem das oportunidades de progredir em que pesem as desigualdades queenfrentam. A cena do vídeo acima está na cabeça de todos nós os ocidentais, e vamos defender esse direito de ter opiniões diferentes do vizinho.
Mas isso não acontece mais. Os Estados Unidos estão divididos, o Brasil está dividido, e não existe em lugar algum um Estadista capaz de mudar esse estado de coisas. É muito provável que os milhões de invisíveis do Paulo Guedes venham a pensar diferente da conclusão de Wilma. O que ela chama de "estabilidade de partido único" os chineses chamam de "democracia consultiva socialista".
Se você acha o teatro inglês é exagerado demais para expressar a energia que é perdida nas infindáveis defesas de posições, assista ao vídeo abaixo para ver onde podemos chegar sem as linhas divisórias que segregam os congressistas ingleses.
Detalhe: um dos congressistas envolvidos nessa cena foi citado no Post anterior ao defender projeto que libera a posse de armas para parlamentares.
Existem indícios fortes de que o chamado Capitalismo de Estado pode muito bem acabar prevalecendo. "O Futuro é Asiático" é o título de um livro que defende essa tese, citando entre outras coisas que:
Ele já é demograficamente; mais de 50% da população mundial é asiática,
A Ásia responde por cerca de 40% da economia mundial.
e segundo Wilma Gryzinski a China é o principal agente das transformações pelas quais estamos passando e quer oferecer aos interessados um modelo de desenvolvimento e de sistema político diferente daquele imposto pelo Ocidente.
Os resultados que a China tem a apresentar da implantação desse sistema nela própria são impressionantes. Em 70 anos mais de 850 milhões de chineses saíram da linha de pobreza, e isso acelerou o processo de redução da pobreza no mundo. Além disso ela oferece ajuda sem pré-condições politicas na Ásia, na África e na América Latina, enviando mais de 600 mil pessoas a mais de 170 países e organizações internacionais, desenvolvendo mais de 5.000 projetos e formando mais de 12 milhões de profissionais.
Tudo isso foi possível através do trabalho duro que as nações ocidentais declinaram de fazer e o delegaram às nações em desenvolvimento, em particular à China, o que resultou na acumulação de um superávit que a colocou como a nova protagonista da economia mundial.
Como diz meu colega Francisco, é hora de aprender mandarim. Em meu próximo Post vamos tentar uma investigação do arcabouço político chinês, com vistas a concluir se é possível considerar democrática uma sociedade de partido único (ou menos desigual).
Que honra ser citado no seu texto, que adorei, pra variar. Dezenas de provocações inteligentes. Vou ater a uma. Qual a razão dessa preocupação com reduzir desigualdades sociais? Trata-se de uma preocupação ética, moral, religiosa...? Minha tese é de que a única intenção legítima, nessa matéria é econômica. Somos um país com 212 milhões de habitantes e 30 milhões de declarantes de IR, que, a grosso modo representam a população economicamente ativa. Se dobrássemos a população economicamente ativa, também podemos especular sobre dobrar, ou quase, o volume da atividade econômica e, consequentemente, da arrecadação tributária, permitindo resolver o crônico problema do equilíbrio fiscal e todas as mazelas decorrentes.
Incorporar uma parcela desses apartados no contingente economicamente ativo, pode ser a única saída do círculo vicioso para o virtuoso. Diminuir as desigualdades, pode ser a saída para o desenvolvimento do país. Desnecessário dizer que falar é fácil, fazer é difícil, mas a China já provou que é possível.
Dificilmente iremos encontrar uma palavra mais sujeita às mais variadas interpretações como a do título deste Post. O exemplo maior entre tantos outros talvez seja a República Popular Democrática da Coréia , vulgo Coréia do Norte, que recentemente executou 30 funcionários da sua agência do clima por não terem previsto as fortes chuvas que assolaram o país. Para dirimir esta questão a Economist Intelligence Unit (EIU) , da revista inglesa The Economist - a mesma que criou o já famoso Big Mac Index, que avalia a paridade do poder de compra das moedas - criou em 2.006 o Democracy Index, para examinar o estado da democracia em 167 países. O resultado está mostrado no mapa abaixo: https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndice_de_democracia#:~:text=Na%20avalia%C3%A7%C3%A3o%20mais%20recente%2C%20divulgada,a%20pior%20nota%2C%20com%200.26. Em fevereiro passado saiu a sua nova versão, o Democracy Index 2023, que sem muita surpresa classificou as 167 nações avaliadas e deu a relação das dez melh...
Em uma reunião recente onde grandes representantes do Mercado estavam presentes, surgiu aquela frase que, quando chegou a mim, me levou a considerar apresentar aos meus poucos seguidores a minha visão do que entendo como Mercado. A frase foi a seguinte: "O Brasil só tem um problema, é o Problema Fiscal" Simples assim. O que leva um observador externo a concluir que uma vez resolvido este problema a desigualdade imensa com a qual convivemos irá aos pouc os ser amenizada. Para demonstrar quão limitada é a visão do que chamamos de Mercado vamos colher alguma noção do que ele tenta nos ensinar a seu respeito. Academicamente, o Mercado é definido como o processo de interação humana de troca voluntária de bens e serviços. Assim sendo ele envolve praticamente tudo o que conhecemos, nós somos parte dele e contribuímos de alguma forma para o seu funcionamento.. Por exemplo eu gosto imensamente de ir ao Mercado Municipal de Campinas. Sempre entro nele pela área das peixarias com seu ch...
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Que honra ser citado no seu texto, que adorei, pra variar.
ResponderExcluirDezenas de provocações inteligentes.
Vou ater a uma.
Qual a razão dessa preocupação com reduzir desigualdades sociais?
Trata-se de uma preocupação ética,
moral, religiosa...?
Minha tese é de que a única intenção legítima, nessa matéria é econômica.
Somos um país com 212 milhões de habitantes e 30 milhões de declarantes de IR, que, a grosso modo representam a população economicamente ativa.
Se dobrássemos a população economicamente ativa, também podemos especular sobre dobrar, ou quase, o volume da atividade econômica e, consequentemente, da arrecadação tributária, permitindo resolver o crônico problema do equilíbrio fiscal e todas as mazelas decorrentes.
Incorporar uma parcela desses apartados no contingente economicamente ativo, pode ser a única saída do círculo vicioso para o virtuoso.
Diminuir as desigualdades, pode ser a saída para o desenvolvimento do país.
Desnecessário dizer que falar é fácil, fazer é difícil, mas a China já provou que é possível.
Difícil é fazer isso numa democracia com 40 “partidecos”!!!
ResponderExcluirObservei que os dois vídeos incluídos no texto só aparecem no Post nas leituras em Laptop. Peço desculpas pelo ocorrido.
ResponderExcluirEste comentário foi removido por um administrador do blog.
ResponderExcluirVou deletar o comentário acima por dois motivos:
ResponderExcluirEle é apócrifo
Ele contém palavras de baixo “escalão” que não são aceitas neste Post.