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Ateu vai pro Céu?

“O grande mal indecente que está ao cerne de nossa cultura é o monoteísmo. Três religiões anti-humanas se desenvolveram a partir de um texto bárbaro da idade do bronze conhecido como o Velho Testamento: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islã. São religiões de um deus celeste. São, literalmente, patriarcais – Deus é o Pai Onipotente –, e é essa a razão do ódio às mulheres ao longo de 2.000 anos nos países que sofrem a influência do deus celeste e seus representantes terrenos do sexo masculino. O deus celeste é um deus ciumento, é claro. Ele exige obediência total de todos na terra, já que ele manda não apenas numa tribo, mas em toda a criação. Aqueles que quiserem rejeitá-lo devem ser convertidos ou mortos, para seu próprio bem. Em última análise, o totalitarismo é o único tipo de política que pode realmente atender aos objetivos do deus celeste” (Gore Vidal).

Bem radical o meu escritor preferido. Ele defendeu esse raciocínio em um livro memorável, "Juliano", que eu li décadas atrás, e em muitos outros. Vidal era em inconformado com o mundo ocidental, contaminado pelo moralismo cristão, e nesse livro ele faz a defesa do último imperador romano pagão, Juliano, que tentou trazer a antiga religião de volta e foi assassinado pelos sacerdotes da nova religião. Não chego a ser tão radical quanto ele, mas entendo que o Deus irado dos Judeus é em grande parte responsável por muito de ruim que acometeu a nossa civilização ocidental.

A verdade é que somos todos Judeus, de uma forma ou de outra. O quadro abaixo tenta demonstrar esse fato, mostrando como o fracionamento do Judaísmo resultou em mais da metade das crenças religiosas do mundo. Ele é uma amostra das facções do judaísmo existentes e extintas. As estrelas e o realce indicam a chegada de um novo profeta com um novo Livro Sagrado:
O Cristianismo no seu início não foi mais que uma ramificação do Judaísmo da época, que entendia que Jesus foi o Messias, e sua mensagem era totalmente baseada na crença de que ele ressuscitou: "e se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados" (1 Coríntios 17). Ele acabou por se dividir entre o Cristianismo Judaico de Tiago, que queria permanecer estritamente no Judaísmo, e o de Paulo, que visava uma abrangência maior, levando-o aos "gentios". Séculos mais tarde houve outra cisão, que o dividiu entre os Católicos Romanos e os Ortodoxos. Isso porque Constantino, que assumiu o Cristianismo como a religião oficial do Império, queria permanecer no comando da nova religião por ele adotada, o que não agradava aos bispos de Roma. Mais tarde tivemos o cisma Protestante, como mostra o quadro

O Islamismo deriva do Nestorianismo, que enfatiza a desunião entre as naturezas humana e divina de Jesus. Ele também teve um cisma importante que o dividiu entre Sunitas e Xiitas. É claro que o quadro acima, por ser criado nos EUA, desce até a religião Mórmon, mas em termos ele é bem elucidativo.

Muito bem. Já que somos todos Judeus, por que tanto ódio? Vidal entende que a natureza monopolista do Deus Judeu não permite qualquer tipo de concessão em matéria religiosa. Esse conceito de certa forma se alastrou no mundo ocidental, com a criação de reinados absolutistas baseados nas religiões monoteístas.

Mas vamos ao que interessa: Ateu vai pro céu? A questão foi levantada por esse Papa nem um pouco paulino, que prometeu o céu a todos os engajados em boas ações, independente do seu credo, e incluiu os Ateus. Essa foi talvez a afirmação mais tolerante já feita com vistas a uma congregação religiosa universal, e assim sendo ela tinha que sofrer forte resistência da parte dos burocratas católicos, que não suportam esse Papa. 

O Reverendo Thomas Rosica, porta voz do Vaticano, disse que as pessoas que conhecem a Igreja Católica "não podem ser salvas se recusarem-se a entrar nela". Ou seja, quem não aceitar a lei Católica vai pro inferno, inclusive os Ateus do Papa. É difícil, nos dias de hoje, um ser habitante da Terra desconhecer a Igreja Católica, logo, podemos concluir que o céu é apenas para os Católicos e uns poucos alienados.

Dias atrás me deparei na GloboNews com um Rabino que deu uma interpretação bem diferente desse porta voz de araque. Disse ele que seus seguidores deviam reparar no Ateu caridoso: é a única caridade totalmente desprovida de hipocrisia. Como para ele não existe vida futura, a sua caridade não pode ser um negócio, ela é totalmente espontânea. Também ele não tem a justificativa para não praticar a caridade: como para ele não existe Deus, sua obrigação de praticá-la é muito maior; Deus não vai ajudar aquele coitado.

Como a Caridade, no entender de Jesus, é a maior das três virtudes, o fato de um Ateu não possuir as outras duas não pode alijá-lo do reino dos Céus. Acho que o rabino está certo, assim como o Papa.

Tenho chances...

P.S. - Antecipei alguns Posts porque vou tirar umas férias de 25 dias. Até meados de maio. 

Comentários

  1. O Deus dos monoteístas como você nos ensinou acima, é tido como infinitamente bom e misericordioso, mas se você não seguir rigorosamente suas ordens e ensinamentos, Ele lhe manda para o sofrimento eterno do inferno, mas com todo o amor e bondade naturalmente. Como disse o diabo de Saramago em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", "só se sendo Deus para gostar tanto de sangue".

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    Respostas
    1. Exatamente. Por isso o Deus Bíblico é uma contradição sem fim. Mas existe uma saída disso. Se chama Um Curso Em Milagres, que é um curso da Mente. Se trata de um ensinamento puramente não-dualista.
      Onde você aprende que a verdadeira lição que dever ser aprendida no mundo é separar a realidade das ilusões ou escolher entre o sistema de pensamento da mente certa e o sistema de pensamento do ego. Os dois são mutualmente excludentes. Se escolher um imediatamente rejeita o outro. Esse ensinamento pode ser resumido da seguinte maneira:

      O amor perfeito exclui o medo.
      Se o medo existe, então não há amor perfeito.
      Mas:
      Só o amor perfeito existe.
      Se há medo, ele produz um estado que não existe.

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