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A Vitamina D

Esta semana encontrei no armário do banheiro de hóspedes uma seringa usada da droga Avonex Betainterferona 1a. Ela foi deixada lá por uma pessoa querida que sofre de Esclerose Múltipla. Logo em seguida a minha esposa encontrou, entre o colchão e a lateral da cama, uma seringa usada da droga Rebif. Analisei ambas as seringas e percebi que a primeira tinha validade até 2012 e a segunda até 2014. Conclusão: houve uma mudança no procedimento. A injeção que era ministrada semanalmente passou a ser ministrada 3 vezes por semana.

Entrei no Google para saber o preço desses produtos. Já sabia que eles não são baratos, mas me surpreendi com os valores com os quais me deparei:

1 - O site http://www.saredrogarias.com.br/medicamentos-especiais vende o Avonex por R$ 5.590,00 em 6 prestações de R$ 931,67. Ele deve ser ministrado uma vez por semana.

2 - O mesmo site vende o Rebif 44 mcg com 12 seringas ao preço de R$ 11.588,51 em 6 prestações de R$ 1.931,42. Ele deve ser ministrado 3 vezes por semana. 

Houve assim uma clara queda nos custos: aquilo que custava R$ 5.590 por semana passou a custar R$ 2.897,13. Mesmo assim estamos falando de um tratamento que não pode ser suportado por uma família classe média brasileira. A solução então é recorrer ao SUS, o qual através das entidades de excelência que acompanham essa doença proporcionam o tratamento de forma gratuita. 

É de se supor que o Ministério da Saúde, comprando em grandes quantidades, deve conseguir preços muito melhores. Assim se espera. Mesmo assim pode-se concluir que a despesa para o tratamento dessa doença impacta de forma muito forte o seu orçamento. Em reportagem de 31/08 o jornal Tribuna da Bahia estima que há 30 mil pessoas com esclerose múltipla no Brasil, e cerca de 2,5 milhões no mundo.

O neurologista entrevistado na reportagem diz que “a doença ainda é pouco conhecida e muita gente acha que a esclerose é degenerativa, como o Alzheimer ou o Parkinson, mas, na verdade, é uma doença inflamatória. Na esclerose múltipla ocorrem surtos de inflamação de tempos em tempos, e esse tempo é variável de paciente para paciente, no cérebro, medula ou nervo óptico”. Ela é uma doença crônica, autoimune, na qual a agressão ocorre e cede, podendo deixar sequelas. O seu tratamento regular é reduzir o tempo e o grau de inflamação durante o surto e, fora do surto, trabalhar o sistema imunológico para que se evite uma ação equivocada contra o sistema nervoso. 

No nosso país o tratamento acaba saindo a custo zero, dado que o SUS assume as despesas com a compra dos remédios. Acho que é o único país que assume 100% desses custos. Pelo que sei o Canadá cobre metade deles. O mesmo se dá na Europa. A Globo recentemente mostrou o caso de uma modelo brasileira que morava no Canadá e resolveu voltar pro Brasil para poder se tratar de forma adequada. 

Seria de se esperar então que um tratamento alternativo, sério, merecesse da parte do poder público um foco especial. Estou falando do tratamento proposto pelo Doutor Cícero Coimbra, da Unifesp, que foi motivo de uma reportagem especial no Globo Repórter: superdoses de Vitamina D. 

A Vitamina D já era tratada como um coadjuvante no tratamento da esclerose múltipla. O Doutor Cícero a transformou em protagonista. Ao ver a reportagem imediatamente tentamos uma consulta com ele, o que se mostrou impossível no médio prazo, dado o efeito que a reportagem causou; mas a moça que nos atendeu, ao saber que éramos de Campinas, sugeriu um médico local que seguia o protocolo do Doutor Cícero. 

Fomos recebidos por ele às 10 da manhã. Eu o reconheci imediatamente, e ele a mim. O conhecia desde 1978. Ele logo nos disse que a consulta duraria 3 horas (??). Mais que uma consulta, foi uma aula. Ficamos sabendo que:
  • A Esclerose Múltipla prevalece nos países frios, dada a pouca incidência do sol;
  • A vida nas grandes cidades priva as pessoas do contato com o sol, o que leva ao crescimento da EM mesmo em países tropicais; 
  • As pessoas com EM têm uma falha na sua estrutura do DNA que facilita a invasão da EM;
  • Quanto mais baixo for o nível de Vitamina D mais virulenta é a doença;
  • Aumentando os níveis de Vitamina D se consegue chegar a um ponto em que a doença entra em remissão permanente. 
Para o tratamento da EM as doses variam de 20 a 150 mil unidades para a maioria dos pacientes. O efeito colateral é a absorção excessiva de cálcio dos alimentos, podendo chegar à calcificação dos rins, com a falência dos mesmos. Logo, torna-se necessária uma dieta rigorosa e um cuidadoso controle médico para que se evite que isso venha a acorrer. 

Com todas as pessoas com quem discuti esse assunto, sempre surgiu essa restrição. É claro que todo tratamento deve ter uma rigorosa rotina que acompanhe os efeitos do mesmo sobre o paciente. Nisso o protocolo do Dr. Cícero é exemplar. O tratamento com Interferon também agride o paciente de forma violenta, o que às vezes leva ao seu abandono. Talvez por desconhecer os detalhes do protocolo, existem muitos médicos que são contra o mesmo. Na reportagem da Globo uma médica ao ser entrevistada, sugeriu que esse tratamento siga os padrões científicos para ser devidamente aceito. Nossa família já participou de um teste desses, em que uma nova droga estava sendo testada contra o Interferon. No caso da Vitamina D isso iria significar 50% dos participantes tomando Vitamina D em altas doses e 50% tomando um placebo, ou o Interferon. Dado o alto custo do Interferon, só com a intervenção dos laboratórios que o produzem isso seria possível, e eu não acredito que eles tenham interesse nisso. No caso de se usar um placebo seria uma maldade com o paciente, que quando procura esse protocolo em geral está em estado avançado da doença.  

A verdade é que o Doutor Cícero já conta com mais de 2.000 pacientes, que somados àqueles médicos que seguem o seu protocolo chegamos a mais de 4.000; seu protocolo já ultrapassou as nossas fronteiras. Ele não exige o afastamento do tratamento tradicional com o Interferon; essa decisão cabe ao paciente, que ao ver o efeito que a Vitamina D causa em seu organismo abandona o sofrimento de ter que gerenciar os efeitos colaterais do Interferon. 

O tratamento com Vitamina D custa em torno de 1 Real por dia. Só isso já seria suficiente para o SUS olhar essa alternativa com outros olhos. O que se espera nesses casos é que haja um interesse em acompanhar de perto essa alternativa, dando ao paciente os mecanismos para que ele possa ser constantemente avaliado. 

Meu conhecimento a respeito da Esclerose Múltipla vem apenas da experiência de estar lidando com ela há mais de 10 anos. Não vou me atrever a pensar que existe uma pressão por parte dos grandes laboratórios para manter a conta com o SUS desses produtos caríssimos. Só acho que a Vitamina D merece por parte de nossas autoridades um crédito de confiança.

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