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Sobre a Produtividade

Na década de 1990 eu viajei muitas vezes para Miami, com o objetivo de fechar propostas de infraestrutura ótica para as operadoras de telecomunicação nacionais. Minha empresa tinha uma parceria com a Northern Telecom, canadense, que hoje não existe mais, mas que tinha o sua divisão CaLA (Caribe and Latin America (vejam a importância que a América Latinha tem para os gringos: em seguida ao Caribe)). O escritório da NorTel era ao norte de Miami, e eu costumava me hospedar em Miami Lakes, um bairro muito bonito à direita da Palmetto Expressway. Numa dessas viagens eu peguei um enorme engarrafamento na entrada da Miami Lakes Drive, o acesso ao bairro, devido ao fato de que estava sendo inciada a duplicação da rua. Era uma segunda feira e eu ia ficar em Miami Lakes por toda a semana. Fui dormir preocupado com isso, mas ao acordar no dia seguinte percebi que a duplicação estava completa, com tudo funcionando, inclusive a sinalização. O serviço, com extensão de 2 km, foi feito em menos de 10 horas.

Minha filha mais velha mora na Austrália, em Melbourne, e eu fiquei impressionado com a rapidez com que uma casa é negociada por lá. A imobiliária anuncia um leilão e a casa é vendida na data do leilão. Simples assim. Já os chineses constroem prédios de 30 andares em 15 dias.

Por outro lado, toda vez que eu vejo na TV o anúncio de que vai ser aberto um inquérito para averiguar um acidente, como por exemplo uma viga que caiu em um shopping center, matando dois operários, fico sabendo que serão dados 60 dias de prazo para que se cheguem às devidas conclusões. Pra que tanto tempo?

Quando um jogador de futebol não dá mostras de genialidade, o comum é se dizer que ele é "esforçado". Um aluno que tira primeiro lugar em um vestibular difícil tem o cuidado de deixar claro que ele não se esforçou mais que o necessário e que nunca deixou de frequentar as baladas com a sua turma, sem o que ele teria enlouquecido.

Foi com esse espírito que eu me impressionei com a entrevista com o economista Paulo Feldman, na Época de 19/05, em que ele conclui de forma avassaladora que a nossa cultura social, junto com a falta de rigor no trabalho e a precariedade da nossa formação escolar tornam as nossas empresas pouco competitivas, menos profissionais. Ela me remeteu ao ano de 1973, quando eu fui visitar o meu sogro que morava em Washington, onde ele estava montando a estrutura de importação para a Embraer. Um dos seus fornecedores lhe perguntou a respeito das aptidões do trabalhador brasileiro, ao que o meu sogro respondeu que eles são extremamente flexíveis e adaptáveis às diferentes condições de trabalho. O Gringo ouviu quieto os loas à flexibilidade brasileira e encerrou o papo com o seguinte comentário: Senhor Marques, Deus me livre desse tipo de trabalhador.

Paulo Feldman está lançando um livro nos Estados Unidos, "Management in Latin America", no qual ele pretende dar orientação sobre como trabalhar com latino-americanos. Segundo ele, a administração é fortemente influenciada por aspectos culturais, e no caso brasileiro existem muito poucos aspectos da nossa cultura que a influenciam de forma positiva. O nosso administrador dá mais valor às amizades e à família, deixando de lado o aspecto profissional. Sua garimpagem na contratação é "cordial", dentro do que ´Sergio Buarque de Holanda definiu o caráter do brasileiro. Outro aspecto negativo é o fato de que as empresas brasileiras têm grande dificuldade de pular o fosso que separa as empresas familiares das de capital aberto. Por serem muito possessivos, os brasileiros se recusam a ter o seu poder diminuído nas empresas por eles criadas, o que constitui um grande empecilho para o crescimento das mesmas.

Outro aspecto salientado é o fato de que as nossas escolas entregam o aluno pronto para o trabalho, em todos os níveis, sem lhes dar qualquer noção de administração. Por exemplo na Itália, nos ciclos básicos, são ministradas as matérias que ensinam ao jovem noções de contabilidade, estudo de mercado e fluxo de caixa. No Brasil ninguém se preocupa com isso, e o jovem passa anos estudando uma matéria chamada matemática, que ele aprende a odiar por não saber pra que ela serve.

Para se dar um exemplo de como as coisas são erradas, basta ver a quantidade de cursos de administração de empresas que pululam por aqui. A Alemanha e o Japão não reconhecem esses cursos, eles não existem por lá, pelo simples fato de que só se cursa administração de empresas como especialização de economia. Não faz sentido algum sair de uma faculdade de administração sem a mínima noção de gestão econômica.

Todas essas deficiências estavam restritas ao nosso mercado, mas o governo petista achou por bem escancará-los a nível global, trazendo para cá uma copa do mundo de futebol e uma olimpíada no intervalo de dois anos, e o que se vê por enquanto é muito pouco comparado com o que vamos ver em 2016. O nosso complexo de vira-lata foi transformado em um ufanismo que só tem como objetivo promover o populista de plantão. O tiro pode muito bem sair pela culatra.

Como se não bastasse a nossa reconhecida incompetência, o nosso ufanismo impôs à FIFA 12 sedes para a copa, e o resultado foi que, a 30 dias do início dela, temos cumpridos não mais que 41% das 167 obras comprometidas. Campinas tem registrados mais de 30.000 casos de dengue, ou seja, 3 em cada 100 moradores de Campinas já tiveram dengue esse ano, e estamos recebendo duas delegações para a copa: Portugal e Nigéria. Só nos resta torcer para que nenhum jogador, jornalista ou torcedor pegue dengue e exporte a nossa incompetência. Como cidadão residente em Campinas, fico revoltado em ouvir das nossas autoridades, todos os dias, a mesma cantilena que tudo foi feito da melhor forma possível para amenizar a epidemia. Essas epidemias são sazonais, o frio vem chegando e ela vai arrefecer, e as autoridades vão dizer que ela foi vencida. O tempo vai passar e no verão que vem tudo vai voltar ao mesmo. Esse é um exemplo claro da nossa produtividade a nível da administração pública.

O trabalhador brasileiro vive numa faixa relativamente estreita em que, ao mesmo tempo em que ele não é premiado, ele também dificilmente é punido. Com isso a seu conceito de pontualidade é de uma flexibilidade que irrita qualquer não brasileiro que tenha que lidar com ele. O mesmo se dá com o cumprimento de cronogramas. É difícil premiar ou punir um funcionário, porque a nossa legislação complica as coisas. Podemos dizer que todas as empresas brasileiras têm pelo menos uma ação na justiça. Um funcionário ganha um prêmio e entra na justiça para incorporar esse prêmio ao seu salário logo após pedir demissão. Na administração pública, se você tenta implantar qualquer critério de meritocracia os sindicatos imediatamente reagem.

E assim vamos vivendo e presenciando as nossas estruturas profissionais se deteriorando. Só nos resta torcer para que conceitos como os relatados nesse livro sejam avaliados com critério pelas nossas autoridades e alguma coisa seja feita para melhorar essa situação.



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