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Sobre o Islã - Parte 1

O Ocidente sabe muito pouco sobre o Islã. Eu não sei quase nada, mas como sou um tradutor da Academia Khan de vídeos de História para a Fundação Lemann, além de me motivar em fazer um trabalho voluntário que julgo importante, tenho aprendido muito sobre muitas coisas, inclusive o Islã.

O motivo de tamanha alienação é simples: toda a nossa cultura ocidental foi gerada na Europa, de onde saiu o conceito de que apenas duas religiões são importantes para a nossa cultura: o Cristianismo e o Judaísmo. Vou dar um exemplo:

Vocês com certeza conhecem esses símbolos:

Cruz Cristã
Estrela de Daví
mas terão mais dificuldade em identificar este:

Estrela e Crescente

Tenho estudado as religiões e há tempos escrevi nesse Blog que o grande responsável pela intolerância religiosa tem um nome: ele se chama Monoteísmo. O monoteísta tende a assumir para si o patrimônio da verdade em termos divinos, e quem se atreve a ser politeísta numa sociedade predominantemente monoteísta sofre. Exemplo bem próximo é a perseguição que estão sofrendo da parte dos evangélicos os seguidores dos cultos afros no Brasil. 

Quando juntamos então duas comunidades monoteístas, a nível global, o que é o caso do embate atual entre os cristãos e os muçulmanos, a coisa tende à ruptura, com consequências imprevisíveis. E esse embate é histórico, e podemos até assumir que ele teve seu início na parte cristã, ao inventar que o local onde Cristo viveu não podia estar nas mãos dos infiéis do Islã.

As Cruzadas foram movimentos militares insuflados pela cristandade com a finalidade de fazer a Terra Santa voltar ao domínio cristão. Nessa época a Palestina estava sob o domínio dos turcos muçulmanos. É bom lembrar que os turcos não faziam objeção ao livre acesso dos cristãos aos lugares chamados santos, até porque Jerusalém também era um lugar santo para eles.

Quem já teve a oportunidade de visitar a cidade de Granada, sede do califado árabe na Espanha, deve ter tido a oportunidade de fazer uma comparação entre essas duas civilizações: ao lado do Alhambra, o magnífico conjunto arquitetônico que marca a presença árabe nessa região, podemos ver o palácio de Carlos V, a rude e feia obra construída para celebrar a retomada da cidade.

 Alhambra
Palácio de Carlos V

Os árabes eram muito mais civilizados. Todas as dependências do Alhambra tinham água corrente, ao passo e o Palácio de Versailles em Paris, constuído séculos depois, só foi ter rede de esgoto quando se tornou atração turística. Foram eles que trouxeram para o Ocidente as ferramentas tecnológicas que possibilitaram as conquistas oceânicas: a bússola (oriunda da China), o astrolábio (que permite a navegação pelas estrelas), o leme na popa (que facilitou a dirigibilidade) e a vela triangular (que permitiu aos navios navegar contra o vento).

Ironicamente foram essas ferramentas que possibilitaram à Europa se libertar do domínio muçulmano sobre o comércio do oceano índico. Em sociedade com os venezianos eles abasteceram o ocidente durante séculos com as especiarias tão necessárias à subsistência dos europeus.

O Islã, devido a esse comércio que pegava os bens do leste da Ásia o os entregava aos venezianos no Mediterrâneo, se espalhou por toda a região, a ponto de termos hoje como a maior população islamita a Indonésia. Fala-se muito da Rota da Seda, que trazia esses bens no lombo de camelos, mas os navios muçulmanos eram quem de fato dominavam esse comércio, e a interação dos muçulmanos com os venezianos era tamanha que estes chegaram ao cúmulo de roubar do Cairo os ossos de São Marcos e colocá-los em uma rica igreja construída em homenagem ao santo. Com a descoberta da rota oceânica para as Índias esse comércio entrou em decadência, e Veneza perdeu o domínio do mercado europeu para cidades oceânicas, como a holandesa Delft. 

Voltando às Cruzadas, tivemos a primeira em 1.096, que durou 3 anos. O então Papa Urbano prometia a salvação a todos os que morressem em combate contra os "pagãos". Ela era composta de 30 mil homens. Jerusalém foi conquistada numa batalha que resultou numa carnificina de tal ordem que nunca mais foi esquecida. Surgiram quatro estados cruzados conhecidos como Edessa, Antioquia, Trípoli e Jerusalém, os quais foram paulatinamente sendo retomados pelos turcos.

A segunda Cruzada ocorreu em 1.147, e foi provocada pela perda de Edessa. Ela foi, ao contrário da primeira que foi organizada por Cavaleiros, comandada pelos reis da época. Eles reconquistaram inclusive Lisboa, que à época era uma possessão árabe. Chegando a Jerusalém eles decidiram atacar Damasco, e foram derrotados. O califa da época, Saladino, acabou por retomar Jerusalém em 1.187

A terceira Cruzada, em 1.189, incentivada por Gregório VIII devido à tomada de Jerusalém, também foi comandada por reis, sendo o mais famoso Ricardo Coração de Leão. Os Cristãos conseguiram o direito à peregrinação, desde que desarmados, e Jerusalém permaneceu em mãos muçulmanas. 

Já a quarta Cruzada em 1.202 deixou cair a máscara e revelou seu aspecto comercial, ao ser financiada pelo Doge de Veneza. O que se viu foi o interesse puramente comercial de Veneza em fixar posição nessa importante região com a finalidade de impulsionar o comércio. 

Tivemos mais cinco Cruzadas, sendo que a última se deu em 1.271. Elas deixaram para trás um histórico de atrocidades que ainda hoje é lembrado, e mais que isso, cobrado com juros e correção monetária. Para dar uma ideia do absurdo que foram essas incursões, em 1.212 tivemos uma Cruzada das Crianças, ocorrida entre a terceira e a quarta, que foi criada baseada na crença de que somente as almas puras das crianças poderiam libertar Jerusalém. Cinquenta mil crianças foram embarcadas em Marselha, e a maioria morreu no caminho, de fome ou de frio, e as sobreviventes foram vendidas como escravas pelos turcos no norte da África. 

Para não falar que as atrocidades só ocorreram disparadas do lado Cristão, vamos falar um pouco da Devshirme, palavra turca que significa Coleta. 

A Coleta

Os Otomanos conseguiram a proeza de dominar uma porção equivalente a 50% do que tinha sido o Império Romano, mas não fizeram uso da estratégia romana que enviava generais com títulos de reis para governar os territórios conquistados. Eles também não de basearam nos persas, que exigiam lealdade dos reis vassalos, nem nos chineses que criaram uma burocracia que os fazia manter o controle total de todo o Império. 

Eles resolveram inovar, criando o que ficou conhecido como a "Aristocracia Escrava". Se você é um rei, seu maior problema é a nobreza que quer também assumir a realeza. Existem maneiras de contornar isso, e a mais radical foi assumida pelos otomanos: matá-los todos. Porém isso criava um vácuo tanto no exército quanto na burocracia, que tinha que ser coberto. 

A Coleta foi um programa que raptava jovens cristãos e os convertia ao Islamismo. Os mais fortes iriam fazer parte da elite militar e os mais fracos iriam ser burocratas. Para evitar que ao fim e ao cabo disso resultasse uma nova nobreza esses jovens eram castrados. A Coleta era feita regularmente nas vilas dos Balcãs (Albânia, Sérvia, norte da Grécia, etc.), e a idade ideal para o recrutamento variava entre 7 e 10 anos. As comunidades cristãs chegavam a desfigurar seus filhos de modo a evitar que eles fossem raptados e levados para Istambul. Lá eles eram convertidos para o Islã e selecionados para serem militares ou burocratas. Além de castrados. 

Em números, podemos dizer que em 1.650, quando a Coleta já tinha sido extinta, havia mais de 50.000 Janissários (os militares castrados), que praticavam o homossexualismo e seguiam uma disciplina estritamente militar. Seu prestígio era tamanho que o acesso a essa casta passou a ser voluntário, e os parentes passaram a incentivar as crianças a se alistar para ter acesso seguro ao sucesso. 

A seleção das crianças era feita nas aldeias apenas, sendo evitadas as grandes cidades do Império. Os cristãos eram recrutados de forma indiscriminada, sendo preferidos os dos Balcãs. Os Judeus estavam isentos do recrutamento (?), e os muçulmanos em geral eram recrutados apenas em algumas regiões como a Bósnia, mas em geral para servir no palácio, não no exército. 

Essa prática só veio a ser abolida em 1.638, sob a alegação que ela contrariava os princípios do Islã. Acho que esse episódio absurdo de certa forma explica o saco de gatos religioso em que se transformou a Europa Sul Oriental, em que Cristãos e Muçulmanos se engalfinham há séculos, com relatos de genocídio frequentes.

No próximo Post vamos tentar analisar a religião Islâmica, mostrando suas origens e os seus cinco pilares. 


Comentários

  1. Ótimo. Lembrei de um dos massacres descrito no livro "Os Templários" em que Ricardo Coração de Leão, após uma vitória numa determinada batalha, mandou amarrar 2.700 prisioneiros, homens, mulheres e crianças, e mandou executar todos; em nome de Deus, logicamente.

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