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Sobre o Islã - Parte 2

Estamos no século VII. Um caixeiro viajante de nome Maomé, um homem de 40 anos, recebeu a aparição do anjo Gabriel, o qual ordenou que ele passasse a pregar a palavra de Deus. Diz a história que Maomé entrou em pânico, mas foi convencido por sua mulher e seus próximos a seguir a ordem angelical.

Pano para analisarmos em que circunstâncias ocorreu esse fato. A sociedade em que vivia Maomé era tribal; ele vivia em Meca e pertencia à tribo Coraishita, e a Península Arábica era uma espécie de caldeirão religioso. As tribos da Arábia adoravam deuses da Mesopotâmia, cujas estátuas se encontravam em Meca em um templo chamado Kaaba. Mas por lá também havia uma comunidade cristã, uma judaica, e até um pouco de zoroastrismo. A mensagem monoteista de Maomé não soava tão estranha. Além disso a Arábia estava espremida entre dois grandes impérios: o Bizantino e o Sassânida Persa, os quais viviam brigando. Assim, para os muçulmanos, Maomé deve ter tido o mesmo papel de Jesus para os Judeus: um reformista radical, que além de líder religioso trazia um conteúdo político na sua mensagem.

A mensagem de Maomé está compilada no Corão. Ao contrário das bíblias judaica e cristã, ele é pouco narrativo; é o registro das revelações que Maomé recebeu. Ele não é escrito do ponto de vista das pessoas, mais parece ser mais a palavra de Deus transmitida por Maomé.

Os dois temas principais do Corão são o Monoteísmo explícito e a ajuda aos menos favorecidos. O Corão fala da pessoa boa, que "distribui seus bens, por mais que ela os aprecie, entre os parentes, e os órfãos, e os necessitados, e os mendigos, e para a libertação dos humanos da escravidão". Ele também defende de forma radical os direitos das mulheres e dos órfãos, paradoxalmente ao que vemos nos dias de hoje.

Os cinco pilares, ou atos obrigatórios do Islã são:
  1. O Chahada, ou a Profissão de Fé: "Não há outro deus a não ser Deus, e Maomé é o Profeta de Deus". Para os que acharam estranho Alá não ser mencionado, chamo a atenção que Alá em árabe é Deus, qualquer que seja a religião (cristã, judaica, etc). Chamar Deus de Alá em um idioma diferente do árabe é pura discriminação, não sei se partindo deles ou de nós. 
  2. O Salá, a oração ritual feita cinco vezes por dia, a qual é obrigatória a não ser que você ainda não tenha chegado à puberdade, esteja muito doente, ou menstruado (?).
  3. O Saum, o jejum de um mês durante o Ramadã, no qual os muçulmanos não comem, não bebem nem fumam durante as horas do dia, podendo fazê-lo à noite. O Ramadã segue o calendário lunar, e isso torna o jejum mais difícil quando ele cai no verão. 
  4. O Zakat, ou a esmola, onde os muçulmanos não pobres dão uma percentagem da sua renda para os pobres.
  5. O Haji, a peregrinação a Meca, que os muçulmanos tentam fazer ao menos uma vez na vida, desde que sejam saudáveis e tenham dinheiro suficiente.
O Islã possui textos sagrados suplementares, sendo o principal o Hadiz, que é uma coleção de provérbios, histórias do Profeta. Existem Hadizes de fonte comprovada e outros nem tanto assim. Por exemplo, o da história das 72 virgens não é considerado como sério pelos muçulmanos mais evoluídos.

Da mesma forma que o Cristianismo e o Judaísmo, o Islã tem uma lei, a chamada Shaira, e é aí que as coisas começam a tomar um rumo diferente, com ideias conflitantes a respeito da Shaira. As pessoas precisam se submeter à Shaira para se tornar muçulmanas, se submetendo assim à vontade de Deus, se tornando parte da Hummah, a comunidade dos crentes. Ser parte da Hummah prevalece sobre todos os outros laços, incluindo os laços tribais.

Isso colocou Maomé em perigo. Com o crescimento dos seus seguidores a Hummah começou a despertar suspeitas. A existência de apenas um Deus era um péssimo negócio para os Coraishitas, tribo a quem Maomé pertencia, porque eram eles quem controlavam o comércio da peregrinação a Meca, e considerar todos aqueles deuses falsos era um desastre econômico (convenhamos que no fim das contas Maomé acabou fazendo esse negócio crescer, e muito). 

Maomé acabou sendo expulso de Meca e se estabeleceu em Medina, numa caminhada que marca o ano 0 do calendário Islâmico, caminhada essa conhecida como a Hégira. Foi em Medina que a comunidade de Maomé começou a adquirir os contornos de um Império, mais que de uma Igreja. Nisso o Islã passou a se parecer mais com o Judaísmo, já que Jesus nunca teve um país para governar, e Maomé perseguiu esse objetivo desde o começo. Além de um bom Profeta ele era um excelente General, e no ano 630 Meca foi retomada. Todos os ídolos foram destruídos e o Islã se tornou uma poderosa força política na região. Isso explica porque o político e o religioso coexistem de forma total no Islã, muito ao contrário do Cristianismo, e nem tanto do Judaísmo. 

Com a morte de Maomé em 632 veio a necessidade de se encontrar alguém que desse continuidade ao seu legado, mais sob o aspecto político que o religioso, já que esse tinha o Corão para guiar a Hummah para sempre. Era necessário um Califa para manter vivo o Império. O primeiro califa foi Abu Bakr, um dos muitos sogros de Maomé. Aí começaram as divergências porque muitos queriam Ali, um de seus genros, para o posto. Foi daí que surgiu a divisão entre Sunitas e Xiitas, que perdura até hoje (os Sunitas eram pró Abu Bakr e os Xiitas eram pró Ali).

Abu Bakr (guardem esse nome) consolidou a comunidade e iniciou o processo de registro o Corão na forma escrita. No campo militar ele iniciou as campanhas contra os Impérios Bizantino e Sassânida. Seu sucessor, Umar, um bom administrador e um excelente general, acabou assassinado por disputas internas, o que levou Uthman a ser o terceiro califa, o qual também acabou assassinado. Finalmente o favorito dos Xiitas, Ali, assumiu o califado, e esse fato acabou por detonar uma guerra civil, vencida pela tribo de Uthman, os Omíadas, cuja dinastia iria governar o Islã por mais de 100 anos. 

As conquistas desse povo levaram seus domínios até a península Ibérica e às fronteiras da Índia. As guerras nesse tempo, nessa parte do mundo, não colocavam apenas povos contra povos. Elas colocavam deuses contra deuses, e as vitórias dos muçulmanos convenciam os povos vencidos da legitimidade do Monoteísmo. Isso prevaleceu até eles se depararem com outro Monoteísmo, o qual na verdade tinha o mesmo Deus que eles. Abraão, Elias, Jesus, eram todos profetas do Islã.

Daí a minha convicção de que foram as Cruzadas o estopim de toda essa animosidade. Os muçulmanos eram até que bem tolerantes com as religiões dos povos conquistados. Eles usavam o estratagema de cobrar impostos menores àqueles que se convertessem ao Islã. Eles também permitiam o livre acesso dos cristãos e judeus aos seus lugares sagrados na Palestina.

O que a meu ver levou os muçulmanos a se distanciarem tanto do Ocidente foi a grande ligação entre a Política e a Religião. Não que ela não fosse exatamente a mesma no Ocidente, mas aí veio o Iluminismo que no Ocidente acabou por prevalecer e gerar diferenças entre as duas sociedades, a ponto de chegarmos à situação atual.

A História no entanto gera grandes surpresas, e o vimos foi que uma região pobre em recursos naturais de repente se tornou a depositária de uma riqueza imensa, detentora que é das maiores jazidas de petróleo. Esse fato acabou por despertar nos muçulmanos radicais o desejo de devolver ao Islã a sua pujança original. Os que deixaram seus lares para lutar na Síria e no Iraque acreditam estar seguindo os mesmos passos de Maomé ao ter que abandonar Meca e seguir para Medina.

Tanto assim que o líder do Califado do ISIS se auto intitula Abu Bakr, o primeiro Califa. A campanha aérea americana contra o ISIS não seria mais que a Grande Batalha do Fim dos Tempos, que iria acontecer na Síria, de acordo com um Hadith. Um terço dos muçulmanos vai fugir, um terço vai morrer e o terço seguinte vai conquistar Constantinopla (diga-se os Estados Unidos).

A correspondência entre o começo do Islã e o que vemos agora é vendida pelo ISIS através de seus canais de comunicação: da mesma forma que os primeiros muçulmanos conquistaram a Pérsia e Bisâncio, o ISIS deverá conquistar a Síria e o Iraque. É claro que contribuiu para o rápido sucesso do ISIS o fato desses países terem péssimos governantes, mas não devemos desprezar a capacidade de combate dos jihadistas.

O Ocidente se encontra no dilema de ficar fora desses conflitos, que ele erradamente considera como internos, ou intervir e ver o ódio dos países muçulmanos se voltar contra ele. É notória a incompetência do Ocidente em influenciar minimamente a política nessa região; ele é bom para destruir ditaduras mas péssimo para reconstruir Estados. Do jeito que as coisas estão o mais provável é que o Ocidente seja vítima de sua excessiva cautela.

Uma frente que precisaria ser explorada pelo Ocidente, mas que de certa forma não está sendo levada em conta, é um trabalho sério junto às comunidades muçulmanas residentes no Ocidente. À exceção da Grã Bretanha, existe muito pouco investimento nesse enfoque, e a França, o país com a maior comunidade muçulmana, quase não fez nada até agora. O apelo jihadista junto aos jovens é forte, consistente e tem raízes históricas, e a forma de combater a propaganda do ISIS é procurar junto a essa mesma comunidade líderes moderados que assumam o papel de combater o ideário do ISIS, mas também desenvolver programas sociais sérios nos guetos onde residem os muçulmanos, visando dar aos jovens uma perspectiva melhor que a que lhes está destinada.

As rupturas no mundo árabe se ampliaram rapidamente, chegando até a Nigéria, o país mais populoso da África, o qual corre sério risco de se dividir. A falta de liderança no Xerife ocidental, os Estados Unidos, envolvidos em uma disputa política interna que impede que decisões urgentes sejam tomadas, certamente vai levar esse estado de coisas a um nível tal que irá influenciar o bem estar de todo o planeta. Tudo culpa das Cruzadas...

Comentários

  1. Eis um texto muito educativo preenche lacuna importante de minha total falta de conhecimento sobre o Islamismo.e suas origens. Ajuda quem sabe a superar algo pior que a ignorância que é o preconceito contra a cultura destes povos. No caso uma generalização do terrorismo e da barbárie do EI em relação a Sociedades do Oriente médio em geral. tão importante para a formação da civilização Ocidental Cristã a qual, queira ou não, pertenço. Como se a convivência não fosse possível. Luta-se contra isto. E a França parece levar a sério esta necessidade. Por outro lado me parece uma fundamental irrelevância a divisão entre sunitas e xiitas do ponto de vista de doutrinas, mas passiveis de manipulação para servir aos interesses do Imperialismo moderno. Como foram construídos estes conflitos, estas guerras, diariamente ao longo de mais de um século com o único objetivo de controlar o petróleo. E continua. O EI Sunita, parece que armado pela Arabia Saudita, desestabilizando a Siria para construir um gasoduto que leve gás até a Europa, e enfraqueça a Russia etc. etc. não tem fim as possibilidades de conspirações neste palco explosivo do Oriente médio disputando manchetes com o petrólão e o futebol.

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  2. E o anjo Gabriel ? Aprontou muito naqueles tempos. Por onde anda?

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    1. O Anjo Gabriel se encontra em Melbourne, Austrália, para onde estou partindo para a comemoração dos seus 21 anos.

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