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Um bom CEO daria um bom Presidente?

Essa pergunta é recorrente atualmente nos Estados Unidos, em função da iminente sagração de Donald Trump como candidato do Partido Republicano. Trump é um homem de negócios extremamente bem sucedido, dono de uma fortuna 100 vezes maior que a de sua provável concorrente Hillary Clinton. É presidente do conglomerado "The Trump Organization" e fundador da "Trump Entertainment Resorts". Seu patrimônio pessoal é estimado em 4,5 bilhões de dólares, o que nos leva a supor que em matéria de negócios ele deve ser um bom CEO, em que pesem os problemas financeiros que o envolveram na década de 1990.

O respeitado jornalista Fareed Zakaria, no Estadão de 10/05, tece considerações sobre a possível vitória de Trump nas eleições deste ano. Segundo ele boa parte daqueles que o apoiam levam em conta o fato de que um executivo bem sucedido com certeza será um bom presidente, e ninguém acredita mais nisso que o próprio candidato: esse é o seu cartão de visita com o qual ele maquia seu comportamento inadequado com referência às mulheres e as minorias (negros, hispânicos homossexuais, etc.). Para ele, levar a termo um bom projeto deve ser bem mais difícil que governar a maior nação do mundo.

Trump não nasceu pobre. Ele herdou uma considerável fortuna, toda ela baseada em empreendimentos imobiliários, e conseguiu alavancar seus negócios de forma inquestionável, principalmente ao ingressar na mídia com seu programa de TV "O Aprendiz". Além disso ele sabe como poucos fazer do seu nome uma marca, e levou esse talento ao extremo na campanha por sua indicação.

Aqui no Brasil, por exemplo, tivemos Antônio Ermírio de Moraes, presidente do Grupo Votorantim, que assim como o pai José Ermírio se aventurou na política, lançando-se candidato a governador de São Paulo em 1986, perdendo para Orestes Quércia. Chocado com as manobras políticas que teve que enfrentar, abandonou a política e passou a escrever peças teatrais onde a ironizava, dizendo que "a política é o maior de todos os teatros". Antônio Ermírio era educado demais para enfrentar essas feras, seu carisma se limitava ao círculo dos grandes empresários que o admiravam, e bastou uma derrota para ele se retirar da política.

Trump é diferente. Ele não tem limites e aproveitou a fase ruim do partido que escolheu para se lançar como um contrapeso à política de Washington. que desagrada boa parte dos americanos brancos da classe média, que veem seus empregos nas indústrias migrarem para o exterior e não estão preparados para a nova fase americana de ênfase nos serviços.

Mas voltemos à pergunta desse Post: um bom CEO daria um bom Presidente? Não é bem isso que nos diz a experiência adquirida com os presidentes americanos da era moderna. Os que mais se distinguiram por suas realizações, Franklin Roosevelt, Lyndon Johnson e Ronald Reagan, não tinham qualquer experiência de negócios, enquanto George W. Bush e Herbert Hoover, que a tinham, não foram bons presidentes (Bush foi executivo da indústria de petróleo e Hoover era engenheiro de minas e trabalhou como chefe da Administração de Alimentos durante a Primeira Guerra Mundial).

Segundo Zakaria. um dos poucos CEOs que se destacaram em Washington foi Robert Rubin. Ex presidente do banco Goldman Sachs, foi o principal assessor econômico do governo Clinton e em seguida Secretário do Tesouro. Em suas memórias Rubin afirma que adquiriu "um profundo respeito pelas diferenças entre os setores público e privado". Segundo ele, "no ramo dos negócios o único e principal objetivo é o lucro; o governo, por outro lado, estabelece uma quantidade enorme de objetivos legítimos e até mesmo concorrentes - por exemplo a produção de energia versus proteção ambiental, regulamentações sobre segurança versus produtividade. Essa complexidade de objetivos traz consigo uma correspondente complexidade no processo".

A grande diferença entre essas áreas consiste em que nenhum líder político, num regime democrático, tem a autoridade do presidente de uma companhia. Um CEO pode contratar e demitir de acordo com o desempenho, pagar bônus, promover agressivamente pessoas capazes. Segundo Rubin, quando comandava a Secretaria do Tesouro, ele tinha sob seu comando 160 mil subordinados, mas sua autoridade para contratar e demitir não ultrapassava 100 pessoas.

A autoridade do presidente é limitada, o que nos leva a concluir que a capacidade de convencimento é a qualidade principal para que ele seja um bom governante: convencer vale mais do que mandar, e essa característica da democracia, longe de ser um defeito, é a sua força maior. É ela quem estabelece os controles, os contrapesos, que dão a garantia de que nenhum ramo detenha o poder de forma excessiva,

Isso não ocorre com os regimes totalitários, e não por acaso Trump já se declarou admirador de Vladimir Putim. Como ele não tem sobre ele os chamados contrapesos democráticos, sua atuação acaba por ser comparável à do CEO Trump: ele simplesmente ordena, e as coisas são feitas.

Exemplo de que a mentalidade "CEO" de Trump que vai dar bolo caso ele chegue à presidência pode ser tirado de uma afirmação espantosa que ele deu sobre a pessoa que ele vai indicar para embaixador americano na ONU: "quero nesses cargos pessoas com a finalidade expressa de vencer; a ONU não está fazendo nada para acabar com os conflitos no mundo, então precisamos de um embaixador que seja capaz de vencer e abalar a ONU".

Se eu levantar essa questão no bar que frequento duas vezes por semana, certamente vão aparecer opiniões como essa, típicas de gerentes de empresas que entendem que o problema da ONU é a ausência de autoridade. Só que tem um detalhe: a ONU não tem poder de nada, ela não é mais que um fórum onde os poderosos se comprometem a se reunir exatamente para resolver esses conflitos. Cabe aos embaixadores, devidamente orientados por seus governos, tomar as decisões necessárias, e certamente não vai ser um gerentão que vai ser bem sucedido. A Claire Underwood que o diga.

Nenhum mandatário jamais iria delegar ao Secretário Geral da ONU Ban Ki-moon qualquer autoridade além do comando da Assembleia Geral (principal assembleia deliberativa), do Conselho de Segurança (para resoluções sobre segurança), do Conselho Econômico e Social (para a promoção da cooperação econômica e do desenvolvimento), do Conselho de Direitos Humanos (para fiscalizar a proteção dos direitos humanos), do Secretariado e do Tribunal Internacional de Justiça. A ONU tem como órgãos complementares a Organização Mundial de Saude (OMS), o Programa Alimentar Mundial (PAM), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Essa é a ONU, a não ser que Donald Trump resolva delegar ao Secretário Geral a autoridade de falar pelos Estados Unidos, ou impor ele próprio e Secretário Geral.

Em resumo, na opinião de Fareed Zakaria, "o sucesso nos negócios é importante, honroso e profundamente admirável, mas exige um conjunto de competências que muitas vezes diferem das que permitem que um governo tenha sucesso".




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