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Um Dia do Trabalho Triste

Estou escrevendo este Post no Dia do Trabalho. Não há nada a comemorar. Ainda mais que ele cai num domingo. Mas segundo a responsável por esse estado de coisas "nós não temos uma perda de 10 milhões de empregos; nós temos, infelizmente, uma perda de emprego que não monta a mais que 2,6 milhões de cargos, o que é uma lástima".

Dois dias depois dessa afirmação feita em entrevista à imprensa estrangeira o IBGE informou que o desemprego havia chegado a 10,2% da força de trabalho, ou 10,37 milhões de brasileiros. Vamos tentar entender o que leva Dilma a fazer essa afirmação estúpida: para ela como foram fechadas 7 milhões de vagas, isso não pode ser considerado como um aumento do desemprego. Seria bom então que, ao fechar uma vaga, as empresas automaticamente matassem o empregado dispensado. Só assim o raciocínio dessa pessoa abúlica teria sentido (tenho tentado usar essa palavra há tempos e a oportunidade surgiu: abúlico).

O Estadão de 27/04 trouxe uma notícia ainda mais triste: o desemprego na região metropolitana de São Paulo em março chegou a 15,9%, o nível mais alto deste 2.007, e o total de desempregados chegou a 1,75 milhão de pessoas.


Vejamos então o que apurou a PNAD Contínua em reação ao país como um todo:
O gráfico acima nos dá informações preciosas sobre a nossa força de trabalho. Entre outras coisas ele nos diz que:
  • Em fevereiro de 2016 a nossa população em idade de trabalhar era de 165,334 milhões de pessoas
  • No entanto, na força de trabalho tínhamos apenas 101,505 milhões, o que nos leva a termos 63,829 milhões fora da força de trabalho. Ou seja, 39% da nossa população em idade de trabalhar, nossa população ativa, não quer por algum motivo trabalhar, ou não tem acesso ao trabalho. Acho esse número absurdamente grande; são as donas de casa que não trabalham, é a nossa chamada geração nem - nem, e assim por diante.
  • Dos 101,505 milhões, 91,134 milhões, em fevereiro, se encontrava ocupada, e 10,371 estavam desocupados, ou seja, o desemprego era de 10,22%. Esse valor em fevereiro de 2015 era de 7,42%.. Esse aumento nos diz que o desemprego cresceu 10,22 / 7,42 = 37,73% em um ano. Pulou de 7,42 para 10,22.
  • Houve um aumento de 1,625 milhões de pessoas em idade de trabalhar, mas a força de trabalho cresceu mais: 1,799 milhões. Isso se explica porque em tempo de crise os que estão fora da força de trabalho vão á procura de emprego, até para compensar as demissões na família. 
A parte inferior do gráfico nos diz que:
  • O setor privado formal, com carteira assinada, demitiu 1,368 milhões de pessoas, e o informal demitiu 493 mil.
  • O retorno ao emprego doméstico cresceu. Tivemos 165 mil empregados (as) domésticos a mais. Isso foi decorrência da forte demissão no setor privado.
  • Houve uma ligeira queda no setor público, certamente decorrente da crise, mas dá pra ver que o setor público é muito mais resiliente que o privado. 
  • O número de pessoas que abandonaram seus negócios como empregadores foi grande (215 mil), mas os que passaram a trabalhar por conta própria cresceram em 1,522 milhões, um valor impressionante. 
  • Não entendi muito bem a queda nos trabalhadores familiares. Era de se esperar que eles crescessem em função daqueles que passaram a trabalhar por conta própria. Se alguém tem uma explicação por favor comente. 
Mas esses são números de fevereiro. Em menos de 10 dias o IBGE voltou ao assunto. Os números que vimos foram divulgados em 20/04, mas a coisa é tão grave que em 29/04 foi divulgada a PNAD de março. A taxa de desemprego em um mês pulou de 10,2% para 10,9%, e o número de desempregados de 10.371 milhões para 11.089. Foram 718 mil brasileiros que perderam emprego em março.

Resumindo: como o título do Post indica, não há o que comemorar hoje. E o pior de tudo é que aqueles que teriam a responsabilidade de encontrar outros caminhos pela melhorar as relações do trabalho não conseguem se desapegar das velhas vantagens que nos levaram a esse estado de coisas. 

Não há como progredirmos enquanto o empresário for tratado como um inimigo a ser combatido. A interferência do governo, em todos os níveis, é uma tragédia. Há um total desequilíbrio entre o tratamento dado ao empregado e o dado ao empregador, que é sempre o bandido do filme. 

Estou fora do mercado desde 2006, quando parei definitivamente de trabalhar, mas me preocupo com o País que estamos dando aos nossos filhos e netos. A vida deles, infelizmente, vai ser mais dura que a nossa, e não era isso que queríamos. Da minha parte, metade da minha descendência já foi procurar uma vida melhor na Austrália, o que me deixa ao mesmo tempo penalizado e feliz.

Comentários

  1. Fonte,
    Parabéns! Belo artigo.
    Interessante que também tive a mesma dúvida sua quanto à queda nos trabalhadores familiares e, sem o devido estudo e precisão que você apresenta ao desenvolver o assunto, me veio um palpite que fez sentido:
    Quem já fazia alguma atividades para ajudar a família, em período de dificuldade, foi procurar emprego!
    Explica? Talvez. Se encontrou ocupação, deixou de atuar no nível familiar e ocupou uma vaga no mercado, contribuindo para maior dificuldade de recolocação dos demais desocupados.
    Abraço,
    Nagle.

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