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O Medo do Vazio

Para evitar a progressão da demência, ou talvez prevenir sua antecipação, me atribuí algumas tarefas que exercitam a mente. Diariamente faço as cinco Paciências que constam do cardápio inicial do Microsoft Solitaire Collection: a Klondike, a Spider (minha favorita), a Free Cell, a Pyramid e a TriPeaks. Não contente com isso, vou ao Caderno 2 do Estadão e, após ler a tira do Calvin, resolvo as Cruzadas e o Sudoku (o nível Difícil do Sudoku me deixa preocupado). 

Logo abaixo do Sudoku leio a frase do dia, o "Bem Pensado". A frase de 15/02 me levou a refletir que, pouco a pouco, estamos nos afastando do motivo que nos convenceu a criar esse Blog em maio de 2012, o Ceticismo. Dizia o pensamento:

"O que o homem busca em seus deuses, na sua arte e ciência é o significado. Ele não consegue suportar o vazio." Francis Jacob

Imediatamente procurei saber na Wikipedia quem era Francis Jacob. Encontrei dois: um músico e um biólogo/autor, ambos franceses. Concluí que devia se tratar do biólogo e fui investigar sua vida. Acho que acertei porque se tratava e um Nobel de Medicina (1965) e membro da Academia Francesa de Letras. Herói da Segunda Guerra, terminou em seguida seus estudos de medicina e trabalhou no famoso Instituto Pasteur.

A frase acima me impressionou a ponto de decidir fazer este Post em torno do que se entende como "significado". Minha opinião é que o homem é um inconformado com o que Milan Kundera chamou de "A Insustentável Leveza do Ser", livro que li na década de 70 e que foi adaptado para o cinema com algum sucesso. O autor conduz seus personagens em uma vida de liberdade, mesmo na situação política que pairava em Praga durante a repressão à sua Primavera. Havia um não comprometimento com o entorno por parte de Tomás, o personagem principal.

Só que a "leveza" acaba por tirar sentido à vida. O comprometimento é como que uma âncora que dá à vida uma razão de ser, qualquer que seja ela. As inúmeras correntes filosóficas tendem a dar razão à "leveza" ou ao "peso", e o indivíduo ao nascer acho que já recebe o carimbo que irá denunciar a sua tendência "leve" ou "pesada". Daí os artistas em geral darem pouca importância às necessidades do dia a dia e os "workaholics" normalmente acharem a arte uma perda de tempo. Seus "significados" são diferentes, mas cumprem o mesmo objetivo de dar substância às suas existências (arte x ciência). 

Mas no que se baseou Francis Jacob para incluir os deuses nessa frase que considerei tão importante? Minha opinião é que os deuses existem principalmente para dar significado à "pós vida". É difícil para nós aceitar a ideia de que a vida tem um começo e um fim, e então as religiões, principalmente a monoteístas, dão "significado" à nossa existência após a morte. Existe até uma versão que defende que não existe fim nem começo, que somos herdeiros de existências anteriores e antecessores de existências que estão por vir. Entendo que Francis Jacob considerou, ao colocar os deuses no início da frase, que eles no fim das contas são prioritários.

Ser "leve" nesse campo é entender que a "pós vida" não está na nossa lista de prioridades, ou sendo um pouco radical, que não acreditamos nela. A "leveza" resultante dessa conclusão é imensa, mas aqueles que não pensam como nós tendem a desclassificar essa atitude, a concluir que se não nos preocupamos com a "pós vida" não temos a obrigação de nos comprometer com a sociedade, em sermos bons cidadãos, em praticarmos o bem, uma vez que não temos a necessidade de solicitar os bônus resultantes das boas ações. 

Diz o senso comum que as boas ações são aquelas que fazem bem a quem pratica, sem que se espere retorno por elas. Ou seja, seria hipocrisia ter um bom comportamento em função de um talvez incerto retorno futuro. O próprio Papa Francisco chega quase a afirmar que a boa caridade é aquela praticada pelo ateu:


- O Senhor redimiu a nós todos, a todos, pelo sangue de Cristo: todos nós, não apenas católicos. Todos!
- Padre… os ateus também? Mesmo os ateus? 
- Todos! Fomos criados filhos à semelhança de Deus e o sangue de Cristo redimiu a nós todos! E todos temos o dever de fazer o bem. E esse mandamento para todos fazermos bem, penso ser um belo caminho para a paz. Se nós, cada um fazendo a sua parte, fizermos o bem uns aos outros, se nos encontrarmos lá, fazendo o bem, então iremos gradualmente criando uma cultura de encontro. Devemos nos encontrar na prática do bem. 
- Mas eu sou ateu, padre. Eu não creio…”
- Faça o bem e nos encontraremos lá.

Estamos vivendo uma fase de nossas existências em que o medo do vazio nos leva a atitudes radicais. Até mesmo o conceito de laicidade está sendo contestado, e essa atitude é de um perigo extremo. Até para o Supremo Tribunal Federal existe pressão para se colocarem elementos comprometidos com os conceitos cristãos, como se um ateu, pelo simples fato de não crer em Deus, estivesse desqualificado para a função. 
O poder público tem como obrigação principal garantir liberdade de expressão, de crença, de gênero. Qualquer desvio desse princípio nos fará retornar aos dias negros da Inquisição, em que milhões de mulheres foram queimadas sob a acusação de bruxaria.


O meu significado, ao chegar ao ocaso da vida, para mim está claro. Nossa eternidade está mais que garantida pelo prolongamento dos nossos genes no corpo de nossos filhos e netos, sem que a eles tenha sido imposta qualquer restrição quanto às suas opções de ideologia, crença ou gênero. Ela também está garantida em função dos quase 60 mil acessos que este blog já teve, para mim um atestado de que de alguma forma quem o acessou compartilha dos nossos argumentos, ou pelo menos os aceita.
Em tempo: Uma prova de que vale a pena ler as frases do Bem Pensado do Estadão.

"A necessidade e a provação geram a dor; em contrapartida, a segurança e a abundância geram o tédio." Shopenhauer, Bem Pensado  de 17/02.

Apresentei este Post para a minha esposa aprovar, como muita vezes faço, principalmente quanto trato de temas tão sensíveis. Para minha surpresa ela me disse: "Gostei do Post, menos da frase final. Ela remete à ideia de que a abundância não é cristã, é um pecado".

Minha esposa está sempre certa. Lembrei então que Jesus disse ser mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus (Lucas 18:24-25). Lembrei também que os juros eram proibidos, exceto para os estranhos (?) (Deuteronômio 23:20), restando aos judeus desenvolver essa atividade essencial para a economia, a ponto de montarem uma grande rede bancária que facilitava o comércio "global" (e também por isso foram tão perseguidos).

Em consideração à crítica de minha esposa resolvi manter a frase.

P.S.: Vou tirar umas férias deste Blog. Devo retornar dia 22/03.

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